Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

17/11/08

Uma nova espécie de chatos

Nelson Menda

Muito se escreveu sobre os chatos e suas diferentes modalidades de atuação, mas creio ter identificado uma nova espécie, que exerce sua nefanda atividade em lojas, supermercados e outros estabelecimentos comerciais.

Julgando ser a única vítima dessa forma específica de chatice, nunca havia comentado sobre o fato até que, há poucos dias, tomei coragem e troquei emails sobre o assunto com uma pessoa a quem estimo muito e, para minha surpresa, constatei que ela também havia passado por situações semelhantes e, para minha surpresa, em mais de um país e por mais de uma vez. Portanto, é bastante provável que os leitores do Blog também tenham vivenciado o que irei relatar.

Há muitos anos meu amigo e colega Adolfo Wasserstein, ainda ao tempo em que ambos morávamos em Santa Maria, RS, revelou uma didática classificação dos chatos elaborada por um intelectual seu conhecido. Segundo ele, os chatos poderiam ser divididos em duas categorias. A primeira, formada pelos discursadores, aqueles chatos que falam sem parar, não permitindo ao interlocutor a menor possibilidade de concordar ou discordar de seus pontos de vista. Nesse grupo poderíamos incluir a variante dos chatos que, para suprema infelicidade, costumam cuspir enquanto falam, o que torna seus intermináveis monólogos ainda mais perturbadores.

A segunda seria dos chatos perguntantes, bem mais desagradável do que a primeira, pois ficariam perturbando o interlocutor com indagações inteiramente fora de propósito. Alguns chatos desse segundo grupo teriam a agravante de associar, à cada pergunta, uma respectiva cutucada, agregando ao desconforto psíquico de suas incontáveis indagações uma perturbação física nada agradável. Ainda segundo o autor dessa sábia classificação, o menos chato dos chatos seria o pertencente ao grupo dos discursadores, pois permitiria à vítima, claro que depois de um certo treinamento, fingir estar interessada em sua interminável falação, deixando o pensamento voar livremente. Mas a variedade por mim descoberta - e faço questão de, como pioneiro na identificação e divulgação dessa nova espécie, dos merecidos louros - não pertence a nenhum dos grupos mencionados. Esses neo-chatos não falam, não cuspem, não perguntam e, sobretudo, não cutucam. Costumam agir em total silêncio, e essa é uma de suas principais características, mas sua ação consegue ser mais predatória e nociva do que a de seus colegas discursadore e perguntativos.

Tudo se passou no dia quatro deste mês de novembro, em que Barack Obama ganhou a eleição presidencial nos Estados Unidos. É preciso esclarecer que, ao contrário do Brasil, esse dia não é feriado nacional e, com exceção das escolas onde estão instaladas as secções eleitorais, tudo o mais funciona normalmente. Era a primeira vez que eu presenciava, in-loco, uma eleição nos Estados Unidos - e que eleição - com a agravante de não poder exercer o sagrado direito do voto. Não me dei por vencido e fiz questão de visitar, como prêmio consolação, um posto eleitoral e solicitar ao seu presidente uma explicação sobre o processo de votação. Ele, solícito, exibiu a cédula, física, de papel, enorme, do tamanho de uma página de um jornal tablóide. Naquela localidade cada eleitor teria de sufragar, entre candidatos à Presidência, Deputados e Senadores federais e locais, questões constitucionais estaduais e municipais, em um total de dez opções, a última das quais bastante prosaica, sobre a autorização à Prefeitura para alienar um determinado terreno.

Uma vez preenchida a imensa cédula, ela deveria ser introduzida em uma espécie de scanner e a votação concluída. Isso explicaria a demora do processo, comparada à simplicidade da nossa eficiente urna eletrônica verde-amarela. Saciada a curiosidade, decidi dedicar o restante do dia a uma das atividades, pelo menos para mim, bastante estressante, que é a aquisição de um par de calçados.

Adquirir sapatos, para mim, sempre foi um tormento. Primeiro, porque o tamanho dos meus pés corresponde a um meio-número, um quarenta e meio, inexistente no Brasil. Segundo, porque um dos meus pés é ligeiramente diferente do outro, o que me obriga a provar uma infinidade de modelos até encontrar, se tiver paciência e tempo, o que me agrade. Tenho de aproveitar, portanto, sempre que venho aos Estados Unidos, para adquirir sapatos. Neste país, além de oferecer os sonhados meios-números, as lojas especializadas apresentam uma outra vantagem, que é a de não possuir vendedores, categoria profissional especializada, desculpem a franqueza, em iludir os clientes. Se o sapato está folgado, eles afirmam que, com o tempo, irá encolher. Se, ao contrário, está apertado, asseguram exatamente o contrário, garantindo que, com o próprio uso, ele irá se expandir, como se isso fosse fisicamente possível.

Nas grande lojas de calçados norte-americanas o cliente tem inteira liberdade para examinar e provar os diferentes modelos expostos, sem nenhum vendedor para dar palpites nem a obrigação de adquiri-los. Ainda goza do inalienável direito de, mesmo depois de tê-los comprado e utilizado, mudar de idéia, devolvê-los à loja e receber, integralmente, seu dinheiro de volta. Todavia, só depois de algumas horas de busca é que consigo, quando tenho sorte, encontrar um par de calçados que alie à satisfação visual o indispensável conforto para os pés. Daí a vantagem do quatro de novembro, quando imaginei que a imensa loja estaria repleta de sapatos e vazia de clientes. E estava mesmo.

Fui direto para as prateleiras do tipo de calçado que procurava, na verdade um simples par de chinelos, e comecei a selecionar e provar, com calma, os diferentes modelos. Aí aconteceu o inesperado. Vindas do outro lado da loja, como que atraídas por algum ferormônio, duas senhoras de meia-idade se dirigiram à mesma prateleira onde estavam expostos os chinelos e sandálias correspondentes ao meu número. Começaram a remexer nos mesmos produtos que eu já havia experimentado ou pretendia fazê-lo. Pensei comigo mesmo: ora, os tamanhos e modelos de calçados masculinos e femininos são inteiramente diferentes e ninguém adquire sapatos sem experimentar. Portanto, essas duas chatas vieram aqui só para me azucrinar. Fiz de conta que elas não existiam, mudei de secção para ocupar o tempo e esperei que elas tivessem ido embora para retornar ao local onde poderia encontrar o que buscava. Foi nesse momento que me dei conta de que já havia passado por situação semelhante em outros estabelecimentos comerciais. E também lembrei que, observando atentamente o comportamento desses chatos de loja, eles não tem a menor intenção de adquirir qualquer mercadoria, pois costumavam sair dos estabelecimentos de mãos abanando.

Eles frequentam as lojas, talvez até sem se dar conta disso, com o único objetivo de encher a paciência dos verdadeiros clientes. Com sua atuação, além de interferir no ciclo natural de venda das mercadorias, prejudicam não só o consumidor real como o próprio estabelecimento, afetando um dos pilares básicos do capitalismo, que é a liberdade de compra. Comecei a me questionar, a partir dali, sobre a atitude correta a tomar em tais situações. Se devemos fingir que não é conosco e nos afastarmos para retornar depois que o chato ou a chata resolver atuar em outra freguesia ou simplesmente ir embora sem adquirir nada. Ou se devemos reagir, olhando feio para o(a) importunador(a) ou até mesmo enfrentá-lo(a) verbalmente. Confesso que ainda não decidi o que fazer na próxima vez que, a partir dessa importante descoberta e da existência de outros casos, tenho a certeza voltará a acontecer e gostaria de compartilhar minha indecisão com os demais leitores do Blog. Se já passaram por isso e qual, a seu ver, a melhor atitude a tomar nesses casos.

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David Nelson Menda, o autor do texto, é colaborador permanente do blog acumulando as funções de correspondente nos Estados Unidos.

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15/11/08

Olhar dominical - 12

       

                   

Sharbat Gula (1972) é uma mulher afegã da etnia Pashtu. Seu rosto ficou famoso na capa da revista norte-americana National Geographic. Gula perdeu os seus pais durante o bombardeio soviético do Afeganistão. Enquanto ela estava no campo de refugiados Nasir Bagh, no Paquistão, em 1984, ela foi fotografada pelo fotógrafo Steve McCurry. Gula, então com 12 anos de idade (foto da esquerda), era uma das estudantes em uma escola dentro do campo de refugiados. McCurry tirou a foto quando a encontrou sem burca - dada a rara oportunidade de fotografar o rosto de mulheres afegãs (a lei afegã obrigava as mulheres a usarem a burca).

Embora seu nome não fosse conhecido, sua foto, nomeada Afghan Girl (Menina afegã), apareceu na capa da revista National Geographic, edição de junho de 1985. A imagem de seu rosto, com um tecido enrolando sua cabeça, e seus olhos verdes olhando diretamente para a câmera fotográfica, tornou-se um símbolo do conflito entre afegãos e da situação dos refugiados por todo o mundo. A foto de Gula foi nomeada como a fotografia mais reconhecida na história da revista.

A identidade da menina afegã ficou desconhecida por mais de 15 anos, à medida que o Afeganistão continuava fechado para a imprensa ocidental, até a queda do taliban, em 2001. McCurry fez várias tentativas em localizar Gula, na década de 1990, mas sem sucesso.

Em janeiro de 2002, uma expedição da National Geographic viajou ao Afeganistão, com a missão de localizar Gula, a pessoa da famosa fotografia. McCurry, ao saber que o campo de refugiados Nasir Bagh estava para fechar, perguntou aos outros refugiados que ainda moravam no campo. Um deles conhecia o irmão de Gula, e conseguiu fornecer pistas da localização de Sharbat Gula.

A expedição finalmente encontrou Sharbat Gula, então, com 30 anos  de idade (foto da direita) , numa região remota do Afeganistão. Ela tinha voltado para o seu país de origem em 1992. A sua identidade foi confirmada, usando tecnologia biométrica. Os padrões da íris de Gula eram iguais aos da íris da mulher na fotografia. Ela lembrou-se vividamente de ter sido fotografada (por McCurry) - ela nunca havia sido fotografada, anterior ou posteriomente. No final da década de 90, Gula casou-se, e teve quatro filhas, uma delas morrendo quando bebé. Gula não tinha a menor idéia do impacto causado pela sua foto nas sociedades ocidentais.

A história de Sharbat Gula foi mostrada na edição de abril de 2002. Ela também foi o principal tema de um documentário de televisão, que foi ao ar em março de 2002. Em reconhecimento a Gula, a National Geographic criou um fundo de caridade, com o objetivo de beneficiar as mulheres afegãs.
Fonte: Wikipédia

Bom domingo!

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Proclamação da República

Davi Castiel Menda

 

A Proclamação da República Brasileira é o evento, na História do Brasil, que instaurou o regime republicano no país, derrubando a Monarquia. Ocorreu dia 15 de novembro de 1889 no Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, na praça da Aclamação (hoje Praça da República), quando um grupo de militares do Exército brasileiro, liderados pelo comandante marechal Deodoro da Fonseca, deu um golpe de estado e depôs o imperador D. Pedro II. Institui-se então a República, sendo nessa data que o jurista Rui Barbosa assinou o primeiro decreto do novo regime, instituindo um governo provisório. - Wikipédia

Eu imaginava que, pelo menos, todo e qualquer brasileiro alfabetizado soubesse que quem proclamou a República foi o Marechal Deodoro da Fonseca. Pois bem, hoje, logo após a meia noite, no programa “A NOITE AINDA É UMA CRIANÇA”, na TV Bandeirantes, o apresentador informou sobre o feriado e perguntou aos participantes se  sabiam o motivo – uns quarenta, entre pessoal das bandas, produtores, ajudantes, puxadores de fio, claque, etc.etc.etc. – e SOMENTE UM cameraman soube dar a resposta certa. Um, um entre mais de quarenta!!! Ao ser questionado como sabia aquela "dificílima" resposta, informou a todos que "lera num livro". Apesar da obviedade da resposta, ouviu-se um OHHHHH de admiração na platéia. E é esse o pessoal (por favor, exceto o cameraman) que vota pelos destinos da República…

 

                  

É por essa e por outras que os responsáveis pela Loteria da Paraíba,  numa das suas extrações, em 16.11.87, homenagaram o dia 15 de Novembro, como o Dia da Bandeira!!!

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14/11/08

I.N.R.I. - Notas de Rodapé

Davi Castiel Menda

Como era de se esperar, o interesse pelas colocações sobre Jesus (textos publicados em 12.11.08, logo aí abaixo) foi bem acima da média. Quase 300 acessos, tornando-se o segundo texto mais lido do blog (o primeiro, Livre Arbítrio, que com incríveis 6.800 acessos, acredito que jamais será ultrapassado). Além dos três comentários diretamente no blog, recebi vários e-mails, todos eles muito bem redigidos, com posições definidas, críticas fundamentadas, enfim, a recompensa que o autor de um blog deseja.

Gostaria de salientar que, respondendo à preocupação e crítica de alguns leitores - talvez pela rapidez e dinamismo na leitura do blog - o autor jamais duvidou da existência de Jesus, tendo apenas citado dois autores dos tantos que já escreveram sobre o tema. O objetivo real do texto foi procurar levar aos leitores o que nenhuma igreja põe em dúvida: o judaísmo de Jesus. Aliás, tema de um livro que estará sendo lançado neste mês de novembro, simultaneamente na Argentina e Espanha, de autoria do Dr. Mario Saban, de onde nos valemos para algumas citações no nosso blog.

Também interessantíssimas as opiniões expressas pelo José Francisco, Mário F. e do Sérgio Vasconcellos lá das Minas Gerais (que com esse completa o seu 74. comentário); por e-mail, do Paulo Castelani  e do grande moderador Nelson Menda, lá dos States, que foi a fonte de inspiração para este terceiro texto sobre o assunto.

O que pôde suscitar controvérsia nos dois artigos, isso sim, é o pensamento do autor com relação à suposta criação de Jesus do cristianismo. O judaísmo, a exemplo de tantas religiões, à época de Jesus tinha diversas ramificações: entre outras a dos fariseus, essênios, saduceus. Por volta do século II d.C., um grupo de Rabinos, tentando dar um pouco de esperança para a sofrida população judaica da época, criou e recriou alguns mitos, que poderiam ter proporcionado, aí sim, o nascimento do cristianismo, na verdade uma forma atenuada e popular do judaísmo da época.

Substituiram a circuncisão pelo batismo com água (bem menos doloroso para os pais e para a criança), o hebraico pelo latim e o ícone para representar essas mudanças foi a figura mítica de Jesus, lembrada insistentemente pela tradição oral. Rapidamente, o cristianismo, de um mero segmento do judaísmo, criou vida própria, mostrou sua força e os poderosos de Roma chegaram à conclusão que não adiantava lutar contra aquela onda avassaladora.

Ao invés de perseguir, torturar e jogar os cristãos às feras, Roma resolveu oficializar a nova religião, tendo a própria Roma como sede, o Imperador como sacerdote supremo e o latim, ao invés do hebraico ou grego, como idioma litúrgico. Nessa ocasião alguém se lembrou da crença judaica na vinda do Messias e da condição virginal de sua mãe. E foi exatamente por essa época que um Concílio (provavelmente o primeiro,) passou a considerar Jesus como o tão esperado Messias.

Tenha ou não existido, seja ou não o Messias, a partir do momento em que bilhões de pessoas em grande parte do mundo passam a acreditar em Jesus Cristo como o Filho de Deus, ele passa a ser um personagem real.

Um outro fato que pouca gente se dá conta é de que, com o advento do cristianismo, o Império Romano mostrou sua capacidade de adaptação e sobrevivência. Nós vivemos, queiramos ou não, sob a influência da Roma dos Césares. Em que idioma nos comunicamos, se não em um derivado do Latim? O que representam as milhões de igrejas cristãs pelo mundo se não as representações diplomáticas, algumas mais, outras menos, obedientes, ao poder central romano?

O grande erro da Igreja Católica, nesses vinte séculos de existência, foi a criação do mito de que os "Judeus mataram Jesus", que tanto sofrimento causou ao povo de Israel. Erro devidamente retificado por João XXIII, quando considerou os Judeus "nossos irmãos mais velhos". Hoje, felizmente, Judeus e Cristãos vivem em paz e harmonia, procurando respeitar tanto seus inúmeros pontos em comum quanto suas poucas, mas significativas, diferenças.

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12/11/08

I.N.R.I - Parte I

Davi Castiel Menda

“O homem primitivo, sentindo-se indefeso diante do mundo hostil que o rodeia e que desconhece, a tudo teme. Apavoram-no os fenômenos da natureza, tais como as tempestades, os trovões, os relâmpagos e tantos outros os quais julga serem a manifestação digna de um Ser Supremo, muito poderoso e desconhecido. Então, na sua impotência para controlar a natureza, e não encontrando explicações razoáveis para os acontecimentos, volta-se o nosso homem para aquele Ser Poderoso que imagina comandar o mundo. Submisso e suplicante implora-lhe perdão pelas faltas cometidas, simula preces e oferece-lhe sacrifícios. Com isso, supõe aplacar a ira dos deuses e ganhar-lhes sua benevolência para dias vindouros, Está, assim, lançada a semente da religião que no decorrer do tempo irá ganhando novas formas e sofrerá modificações, de acordo com o próprio homem, suas necessidades e aspirações.” - La Sagesse

Jesus - um dos personagens mais marcantes e polêmicos da história da humanidade; tão polêmico que alguns autores já escreveram incontáveis artigos e livros tentando provar que ele jamais teria existido. Um dos textos mais conhecidos sobre o tema é de autoria de La Sagesse que procura, através da citação de inúmeros documentos, das escrituras, dos evangelhos e suas incongruências, atestar que Jesus teria sido uma invenção da Igreja. Ele não usa de meias palavras e seu texto é um ataque a tudo e a todos: aos católicos, aos judeus, às Igrejas cristãs, enfim, a Deus. Ninguém escapa. Outro livro recente sobre o mesmo tema é do médico e escritor Emílio Bossi, ferrenho partidário da teoria da não existência de Jesus.

As principais fontes de informação sobre a vida de Jesus e seus ensinamentos são os evangelhos, especialmente os evangelhos sinóticos: Mateus, Marcos e Lucas. O papiro P52, escrito em grego e paleograficamente datado como tendo sido escrito por volta do ano 125 d.C., é atualmente reconhecido como o mais antigo documento sobre Jesus. Contém um fragmento de João 18:31-33 no recto (frente) e João 18:37-38 no verso. Essa distância de mais de um século entre o período em que Jesus viveu - teoricamente seu nascimento teria ocorrido entre os anos 3 a.C. a 1 d.C. – até o escrito do papiro, é que suscita duas grandes questões. Se Jesus era tão importante assim (a ponto de ter sido crucificado como “rei dos judeus”) e segundo as igrejas cristãs o fundador do cristianismo, por quê somente um século após a sua morte uma citação sobre ele? Teria Jesus realmente existido?

Particulamente, por tudo que li – e posso garantir que não foi pouco - e pelas intermináveis, polêmicas e agradabilíssimas conversas com teólogos, padres, pastores e rabinos sobre o assunto, acredito que Jesus realmente tenha existido. Acadêmicos bíblicos e historiadores aceitam a existência histórica de Jesus - portanto, ponto final sobre essa primeira dúvida. Descarto definitivamente a hipótese apresentada por La Sagesse, Emílio Bossi e tantos outros.

A segunda grande questão: a deidade de Jesus. Ao contrário dos textos sobre a não existência de Jesus, de raríssima aceitação entre as comunidades teológicas e científicas, que mais os leva para o lado folclórico, a cristandade/deidade de Jesus, esta sim é posta em dúvida, principalmente entre os judeus. Afinal, Jesus era judeu de nascimento, era um rabi (rabi = rabino, sacerdote do culto judaico - um dos inúmeros epítetos por quais era conhecido), morreu como judeu (quem não conhece a inscrição INRI, afixada nas centenas de milhões de crucifixos espalhados pelo mundo, cujo significado é Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum - Jesus Nazareno Rei dos Judeus - mesmo que colocada no topo da cruz de forma sarcástica pelos romanos), além de ter sido enterrado dentro das tradições e no rito judaico. Portanto, cabe a dúvida, teria sido mesmo Jesus o fundador do cristianismo? E se Jesus realmente era o filho de Deus – o principal argumento do cristianismo - como justificar que um Pai (no presente caso, Deus), principalmente o Senhor de tudo e de todos, pudesse admitir que seu filho morresse de forma tão cruel? A idéia de um sacrifício pela humanidade tão difundida pela Igreja contraria todos os princípios da paternidade.

No judaismo, a idéia de Jesus ser um Deus, ou mesmo parte de uma trindade, é considerada heresia. A religião judaica igualmente sustenta que Jesus não poderia ser o tão esperado Messias, sob o argumento que ele não teria cumprido as profecias messiânicas, principalmente no tocante à eliminação das guerras entre os homens. O Mishneh Torá, escrito por Maimônides, uma das obras mais importantes da lei judaica, afirma que a deificação de Jesus faz com que "a maioria do mundo erre para servir a uma divindade além de Deus". Alguns movimentos modernos, messiânicos-reformistas, tentam conciliar o cristianismo atual às tradições judaicas, criando uma confusão sem limites entre seus seguidores. O judaísmo conservador jamais aceitará entre o seu seio esses reformistas sob a alegação de que alguém que afirma que Jesus é seu salvador já não é um judeu (ou nunca foi), e sim um apóstata.

É interessente também analisar o pensamento do islamismo com relação a Jesus. Ele é conhecido, em árabe, como Isa ibn Maryam - Jesus, filho de Maria - e é um dos principais Profetas do Islã. Ao contrário do cristianismo e seguindo idêntica orientação judaica, não é considerado um ser divino. O Alcorão rejeita a trindade e se refere a Jesus como “Verbo de Deus”, mas não o filho dele.

- continua  -

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I.N.R.I. - Parte II

Davi Castiel Menda

Na primeira parte deste ensaio afirmamos que Jesus era um rabino, fato histórico, inegável e reconhecido por todas as religiões. Considerando que o rabinato na época pertencia ao movimento fariseu, por asserção pode-se afirmar que Jesus era um fariseu. O leitor pode ficar assombrado com esta afirmação pois o cristianismo perpetrou através dos tempos uma visão estereotipada dos “perushim” (a origem do nome fariseu seria o latim – pharisaeus – que por sua vez deriva do grego antigo e assentado no hebraico como “prushim”, que basicamente significa separar, afastar; portanto, os perushim eram aqueles que se afastavam da população comum para o estudo da Torá e suas tradições - não eram ascetas, pois consideravam importante estar junto à população quando não estavam no seu retiro, para o ensino das escrituras e tradições), como adversários de Jesus, que atacou seu orgulho e sua avareza.

Um dos ensinamentos atribuídos a Jesus seria um dos marcos do socialismo e comunismo atuais: os bens dos ricos deveriam ser distribuídos ou repartidos entre os pobres da comunidade. Na verdade, a idéia não era nova – ela já era defendida pelo movimento essênio, uma das seitas judaicas que durou aproximadamente trezentos anos (século II a.C. até século I d.C.), um grupo fechadíssimo, coeso e de vida ascética. Portanto, o perfil de Jesus vai se desenhando: de nascimento judeu, rabino, fariseu, com idéias essênicas.

Jesus prega entre o povo que o Reino de Deus está próximo – interprete-se como a chegada da Era Messiânica. Deve-se ressaltar que a religião judaica sempre afirmou que essa Era só chegará (o verbo “chegar” está propositadamente conjugado no Futuro para que não pairem dúvidas sobre o pensamento do autor) no dia em que se cumpra a profecia de Isaias que “nenhuma nação levantará a espada contra outra nação”, a existência da justiça absoluta, o fim da pobreza, a não mais existência da morte física. Jamais, não só nos tempos de Jesus, mas nos últimos vinte e um séculos a humanidade conseguiu por em prática pelo menos um ítem da profecia material, já que a profecia do fim da morte física depende exclusivamente da vontade divina. Portanto, Jesus não seria o tão esperado Messias.

Abro um parêntese para citar uma afirmação pouco conhecida, mesmo entre os seguidores da fé judaica, do Rabino Ovadia de Bartenura, que viveu na era medieval: em cada geração existe um judeu que é potencialmente o Messias. Sendo assim, hoje, presentemente, temos um Messias vivendo entre nós, quem sabe até no nosso país, na nossa cidade, na nossa comunidade. Mas, como os requisitos vaticinados pelo profeta Isaias não são cumpridos, não se produz a Era Messiânica, e o Messias não se dá a conhecer (se é que ele sabe da sua condição).

Na verdade, temos uma situação kafkiana, muito bem explorada e resolvida pelo filósofo judeu alemão Martin Buber (Franz Kafka e Buber foram contemporâneos, mas provavelmente nem se conheceram) que afirmou que a Era Messiânica pode ser produzida mesmo sem o Messias. A Era é mais importante que a figura do Messias e o seu anunciador poderia ser inclusive o próprio Deus, sem intermediários. Ou até, quem sabe, a nova vinda de Jesus, como prega o cristianismo.

Não tiro os méritos de Jesus como pregador, e provavelmente tinha todos os atributos para ser o Messias, o mesmo ocorrendo com os milhares de rabinos que viveram ao longo destes últimos vinte séculos e que nos legaram ensinamentos fantásticos. Lamentavelmente, a Era Messiânica não se produziu e a cada dia que passa fica essa predição mais difícil de acontecer. Um homem sozinho dificilmente poderá criar as condições profetizadas por Isaias, e não seria utópico imaginar que somente a natureza, quando exaurida de todas as suas reservas, possa ser “a tão esperada” Messias. Fecha parêntese.

Apesar do parêntese fechado, o assunto não fica esgotado e voltamos a questionar a hipotética volta de Jesus, tão apregoada pelo cristianismo. Admitindo a ocorrência desta hipótese, e lembrando o histórico de Jesus, judeu de nascimento, rabi, pregador na sinagoga, a morte como “rei dos judeus”, enterrado no rito judaico, onde podemos imaginar que ele surgiria? Na condição de judeu, Jesus procuraria por uma sinagoga e não uma Igreja! Que me perdoem os teólogos cristãos, mas devem lembrar que Jesus viveu no século I e os primeiros escritos sobre o cristianismo datam mais de 100 anos após, em pleno século II! E tentar lembrar a pérfida acusação de que os judeus mataram Jesus, é desconhecer a história e a crueldade atribuída a Pilatos, um governante egocêntrico e tirano que matava judeus quase que diariamente, na tentativa de manter a Palestina, sob o jugo romano, plenamente dominada.

Ao morrer na cruz, atribue-se a Jesus as palavras: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste”? Indubitavelmente, Jesus, na condição de judeu e rabino, jamais poderia se sentir o próprio Deus e portanto rezava e apelava a Deus realmente e não a ele próprio! (E mesmo que tivesse dito, segundo alguns historiadores, “Meu Pai, por que me abandonaste”? – lembro do Salmo 82:6 que reza que todos somos filhos de Deus, e Jesus tinha plena consciência disso). Jesus jamais pensou numa Trindade e ao encerrar esse ensaio, cito um importante descobrimento ocorrido em 1966 pelo professor Shelomo Pines, a respeito de um manuscrito do Novo Testamento atribuído a Mateus (capítulo 28). Nele Jesus teria dito que seus seguidores deveriam batizar a todos os povos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Na verdade, tal procedimento foi decidido somente no ano 325, quase 300 anos após a morte de Jesus, no Concílio de Nicea …

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11/11/08

Jogos de Sorte ou Azar?

Davi Castiel Menda

                                                                    

"Há duas ocasiões na vida em que uma pessoa não deve jogar: a primeira, quando não tiver posses para isso; a segunda, quando tiver". - MarkTwain

 

Poucos devem lembrar do fatídico 30 de abril de 1946, quando o Marechal Dutra, pressionado pela carolice de sua mulher e matreirice do seu ministro da Justiça, puseram o jogo na ilegalidade, fechando os cassinos existentes no país. Teriam sido estes realmente os motivos?

Voltemos no tempo: se não fossem os Cassinos da Urca, do Copacabana Palace e do Quitandinha, o Rio não se tornaria a praia mais cosmopolita do planeta à época, parte de um circuito milionário de entretenimento e badalação, formado pelo triângulo Rio – Buenos Aires - Havana. Inexplicavelmente, coincidentemente, lamentavelmente, este negócio milionário e ponta de lança do turismo internacional foi proibido quase que simultaneamente nestas três cidades (e em todo o Brasil). Não por acaso, neste mesmo ano de 1946, foi inaugurado o primeiro grande cassino em Las Vegas, cidade que, a partir deste marco, foi se expandindo cada vez mais e mais. Coincidência? Sempre me questiono se os governantes que sistematicamente sempre se posicionaram contra a abertura do jogo no país são sabedores desta ocorrência pouco conhecida historicamente e de flagrante subserviência latina aos interesses americanos.

Recentemente assistimos ao fechamento de todos os bingos do país e a proibição de máquinas caça-níqueis. Não entro no mérito dos motivos do governo, ou de possíveis fraudes, lavagens de dinheiro ou softwares adulterados - refiro-me a jogos honestos e empresários do jogo honestos. Normalmente, jogos envolvendo dinheiro são de azar, todos eles retirando um percentual - uns mais, outros menos - sobre o montante apostado, valor que a banca usa para pagar seus custos. E a Mega-sena e outros jogos similares, cujo desconto é superior a 70% são ou não são jogos de azar? A explicação de que são explorados pelo governo não os isenta deste rótulo! Há uma lei (pelo menos havia) que proibe a exploração de qualquer aposta em que esteja envolvido o esforço humano; e a loteria esportiva, como fica? São 22 jogadores, além de técnicos, juizes e bandeirinhas. É ou não é esforço humano?

 

Longe de mim desejar o fechamento das loterias - pelo contrário. O homem sempre foi e sempre será um jogador em potencial, a competição da vida assim o exige. Desde o dia em que soldados romanos rodaram seus escudos circulares apostando no ponto de parada, estava plantada a semente dos futuros cassinos. Na Idade Média surgiram as estampas de naipes (cartas) e o jogo com elas. Decretos nunca acabarão com o jogo, ele é inato no homem. Não posso concordar, que numa sociedade cada mais globalizada, em países altamente civilizados, o jogo é legal, permitido, e os governos lucram com este fato; e em outros (no caso específico do Brasil), o jogo só é tolerado se administrado de forma monopolizadora pelo próprio governo. Esta insistência demagógica em não liberá-lo tem nos custado caro, pois o governo abdicou de faturar no último meio século alguns bilhões de dólares em impostos.

Joga quem quer. Se mesmo avisados de que vão contrair câncer fumando, fumantes fumam, qual o motivo de alguém não poder dispor de seu dinheiro como bem lhe aprouver?

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10/11/08

Como ganhar nas corridas de cavalos

Davi Castiel Menda

Nos próximos dias será inaugurado mais um shopping center em Porto Alegre, na Avenida Diário de Notícias, junto ao Hipódromo do Cristal. O nome da avenida é uma homenagem da cidade a um dos maiores jornais do Rio Grande do Sul nas décadas de 40 a 60, pertencente aos Diários Associados de Assis Chateaubriand e que, durante muito tempo, competiu de igual para igual com o poderoso – na época - Correio do Povo de Breno Caldas.

Gostaria de contar uma história praticamente desconhecida a respeito do Diário: muito provavelmente fui eu a pessoa que mais comprou Diário de Notícias num único dia! Eu explico: em 1963 – quase meio século atrás – morava em Cachoeira do Sul. Guri ainda, 20 anos, com todo o gás do mundo, tinha tempo para ser funcionário do Banco do Brasil, escrevia a página de turfe do Jornal do Povo, transmitia eventualmente os páreos do Hipódromo do Amorim e ainda vinha aos fins de semana a Porto Alegre colaborar com o Vergara Marques na Rádio Itaí, nas transmissões diretamente do Hipódromo do Cristal.

Nesta época, o Diário de Notícias lançou um concurso de turfe em que o desafio era acertar os dois primeiros colocados nos quatro últimos páreos de domingo do Hipódromo do Cristal. Prêmio de CR$ 40.000,00 (que era uma bela quantia na época) acumulável em caso de não encontrar ganhador. Quando na primeira semana não houve acertador, procurei um grupo de amigos e fiz ver a eles que com 5.000 cupons nossa chance seria fora de série. Eles toparam a idéia. Esperamos acumular mais uma semana – quando o prêmio atingiu CR$ 120 mil – e telefonamos a Porto Alegre encomendando 5.000 jornais.

A pessoa do outro lado da linha (do Diário), apavorada com a encomenda incomum, informou que esta quantidade era praticamente toda a edição do jornal… Mesmo assim, ele foi muito gentil e prestativo e ficou acertado que seriam impressos 5.000 jornais extras, com entrega programada para o meio da semana. No dia aprazado, foram necessárias umas dez viagens de carrinho de mão para buscar todos aqueles jornais na Viação Férrea, sem contar a trabalheira para recortar e preencher todos aqueles cupons. Tudo em vão - erramos um dos páreos…

Não satisfeitos, voltamos à carga na semana seguinte e encomendamos mais 5.500 jornais. Desta vez acertamos! Prêmio de CR$ 160.000,00 - menos 40% de Imposto de Renda – e ainda dividido com mais dois acertadores - o que proporcionou um prêmio líquido de CR$ 32.000,00, pelo menos suficiente para cobrir a despesa de compra dos 10.500 jornais. O que sobrou foi consumido em chopes durante uma semana para festejar o acerto.

Só para complementar: acima do cupom do concurso turfístico, vinha publicado um outro, destinado ao concurso de miss alguma coisa. Escolhi a mais simpática - pelas fotos divulgadas - descobri seu endereço com a comissão organizadora e seria o óbvio afirmar que com os nossos 10.500 votos a candidata ganhou “disparada”.

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Posfácio:

Ao escrever esta crônica, em outubro, cheguei a pensar em me candidatar ao Guiness Book. Coincidentemente, li naquela mesma semana, que um grupo político comprara 37 mil exemplares num único dia de um jornal fluminense, com o claro objetivo da população não tomar conhecimento de determinada notícia (boa coisa eu garanto que não era). Que pena, eu era um sério candidato…

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8/11/08

Olhar dominical - 11

                                       

Bom domingo!    

criado por projetosnumericos    16:35 — Arquivado em: Olhar dominical

7/11/08

O Esporte dos Reis

Davi Castiel Menda

                                      

Muito, muito tempo atrás, o homem descobriu que um animal do gênero Equus era excelente para transportar cargas que ele mesmo – o homem - não suportaria. Não levou tanto tempo a produzir cavalos que primassem pela velocidade e resistência para competir os primeiros páreos da história.

Os historiadores admitem que as primeiras corridas de cavalos tivessem ocorrido entre tribos nômades por volta de 4500 a.C. Nas olimpíadas disputadas na Grécia, 640 a.C., as corridas de cavalos era uma das modalidades, passando daí para a Ásia central e posteriormente ao mediterrâneo.

Os cavaleiros do Império Britânico importaram cavalos árabes no seu retorno das cruzadas. Nos anos que se seguiram, centenas de garanhões árabes foram cruzados com éguas inglesas, proporcionando uma desejável combinação: velocidade e resistência. Estava criado o puro-sangue inglês, a nobreza e liderança, o ideal para competições e apostas milionárias ou até, em último caso, diversão.

É evidente que este novo tipo de entretenimento, para evoluir, necessitava de recursos, e quem senão a nobreza poderia ter os investimentos necessários para investir na criação de cavalos com esta finalidade? Portanto, daí a origem do slogan O Esporte dos Reis, que nos últimos tempos tem sito totalmente deturpado, usado não só para designar o jogo de pólo, mas inexplicavelmente até o surfe.

Maldosamente, aqui no Brasil, afirmam que é esporte dos reis, pois somente com a renda de um monarca para resistir aos violentos percentuais subtraídos páreo a páreo dos apostadores nas corridas de cavalos. Com a experiência acumulada de 53 anos sobre o assunto, posso afirmar com a mais absoluta segurança que após uma maratona turfística de oito a dez páreos, em números aproximados, de 75 a 85% dos freqüentadores do jockey perdem, uns 10 a 15% empatam e apenas uns 5 a 10% ganham.

Os Jockeys Clubes brasileiros tiveram sua fase áurea quando as opções de lazer eram mínimas e apostas oficiais se resumiam a apenas duas: as corridas de cavalos e a loteria federal (alguns poucos estados administravam loterias estaduais, caso do Rio Grande do Sul, a primeira loteria da América latina, criada em 1843 e no momento inativa), além é claro do clandestino jogo do bicho. Mais tarde, com o advento das loterias da Caixa, a morte dos jockeys foi decretada. Péssimas administrações, prêmios baixos aos proprietários de cavalos, percentuais escorchantes contra os apostadores, falta de apoio governamental à criação, não adaptação dos clubes à nova realidade brasileira; este o somatório de fatos negativos que estão liquidando aos poucos uma agradável opção de lazer do brasileiro de todas as classes sociais nos fins de semana. Para aqueles que pensam exclusivamente em jogo e não no esporte, é muito mais vantajoso gastar apenas R$ 1,00 na lotérica dali da esquina, arriscando a ganhar milhões numa das tantas loterias acumuladas, do que pegar uma condução e se deslocar até o Jockey Clube, muitas vezes em dias frios e chuvosos, sem acomodações decentes, arriscar R$ 1,00 num favorito, torcer desesperadamente e, em certos casos, mesmo ganhando, receber apenas o seu R$ 1,00 de volta! É claro que não há comparação e as ingênuas e incompetentes diretorias nunca se deram conta desse fato. Mesmo alertadas, jamais tomaram uma única providência para “combater” o inimigo. Até o Sweepstake, que movimentava apostadores de todo o país em função dos polpudos prêmios ofertados, e que proporcionava um belo lucro à parceria Loteria Federal e Jockeys, morreu.

Aqui no Rio Grande do Sul o Jockey Club agoniza de forma lamentável. Para mim, freqüentador desde os 12 anos de idade, cronista de turfe aos 15, proprietário aos 19, posteriormente Conselheiro, agora afastado de qualquer atividade ligada ao assunto por questões de foro íntimo, é muito triste ver o que acontece, já que o turfe foi parte integrante da minha vida por décadas.

Boa parte da área do Hipódromo do Cristal foi vendida a um grupo que este mês estará inaugurando mais um templo de consumo, mais um shopping. Muitos que passam em frente ao Hipódromo, talvez desconheçam que aquela avenida chama-se Diário de Notícias e provavelmente a quase totalidade nem imagina qual o motivo desta designação.

Você, que está incluído entre esses últimos, está convidado a ler o nosso próximo blog, na segunda-feira, com um tema bem mais ameno do que o “necrológio” de hoje, onde conto a aventura de um grupo de apostadores, que para tentar ganhar uma “bolada” no Jockey, comprou 10.000 jornais no espaço de duas semanas (e ganhou).

E não esqueça, entre hoje e segunda, no domingo tem o imperdível Olhar Dominical.

criado por projetosnumericos    4:59 — Arquivado em: Crônica
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