17/11/08
Uma nova espécie de chatos
Nelson Menda
Muito se escreveu sobre os chatos e suas diferentes modalidades de atuação, mas creio ter identificado uma nova espécie, que exerce sua nefanda atividade em lojas, supermercados e outros estabelecimentos comerciais.
Julgando ser a única vítima dessa forma específica de chatice, nunca havia comentado sobre o fato até que, há poucos dias, tomei coragem e troquei emails sobre o assunto com uma pessoa a quem estimo muito e, para minha surpresa, constatei que ela também havia passado por situações semelhantes e, para minha surpresa, em mais de um país e por mais de uma vez. Portanto, é bastante provável que os leitores do Blog também tenham vivenciado o que irei relatar.
Há muitos anos meu amigo e colega Adolfo Wasserstein, ainda ao tempo em que ambos morávamos em Santa Maria, RS, revelou uma didática classificação dos chatos elaborada por um intelectual seu conhecido. Segundo ele, os chatos poderiam ser divididos em duas categorias. A primeira, formada pelos discursadores, aqueles chatos que falam sem parar, não permitindo ao interlocutor a menor possibilidade de concordar ou discordar de seus pontos de vista. Nesse grupo poderíamos incluir a variante dos chatos que, para suprema infelicidade, costumam cuspir enquanto falam, o que torna seus intermináveis monólogos ainda mais perturbadores.
A segunda seria dos chatos perguntantes, bem mais desagradável do que a primeira, pois ficariam perturbando o interlocutor com indagações inteiramente fora de propósito. Alguns chatos desse segundo grupo teriam a agravante de associar, à cada pergunta, uma respectiva cutucada, agregando ao desconforto psíquico de suas incontáveis indagações uma perturbação física nada agradável. Ainda segundo o autor dessa sábia classificação, o menos chato dos chatos seria o pertencente ao grupo dos discursadores, pois permitiria à vítima, claro que depois de um certo treinamento, fingir estar interessada em sua interminável falação, deixando o pensamento voar livremente. Mas a variedade por mim descoberta - e faço questão de, como pioneiro na identificação e divulgação dessa nova espécie, dos merecidos louros - não pertence a nenhum dos grupos mencionados. Esses neo-chatos não falam, não cuspem, não perguntam e, sobretudo, não cutucam. Costumam agir em total silêncio, e essa é uma de suas principais características, mas sua ação consegue ser mais predatória e nociva do que a de seus colegas discursadore e perguntativos.
Tudo se passou no dia quatro deste mês de novembro, em que Barack Obama ganhou a eleição presidencial nos Estados Unidos. É preciso esclarecer que, ao contrário do Brasil, esse dia não é feriado nacional e, com exceção das escolas onde estão instaladas as secções eleitorais, tudo o mais funciona normalmente. Era a primeira vez que eu presenciava, in-loco, uma eleição nos Estados Unidos - e que eleição - com a agravante de não poder exercer o sagrado direito do voto. Não me dei por vencido e fiz questão de visitar, como prêmio consolação, um posto eleitoral e solicitar ao seu presidente uma explicação sobre o processo de votação. Ele, solícito, exibiu a cédula, física, de papel, enorme, do tamanho de uma página de um jornal tablóide. Naquela localidade cada eleitor teria de sufragar, entre candidatos à Presidência, Deputados e Senadores federais e locais, questões constitucionais estaduais e municipais, em um total de dez opções, a última das quais bastante prosaica, sobre a autorização à Prefeitura para alienar um determinado terreno.
Uma vez preenchida a imensa cédula, ela deveria ser introduzida em uma espécie de scanner e a votação concluída. Isso explicaria a demora do processo, comparada à simplicidade da nossa eficiente urna eletrônica verde-amarela. Saciada a curiosidade, decidi dedicar o restante do dia a uma das atividades, pelo menos para mim, bastante estressante, que é a aquisição de um par de calçados.
Adquirir sapatos, para mim, sempre foi um tormento. Primeiro, porque o tamanho dos meus pés corresponde a um meio-número, um quarenta e meio, inexistente no Brasil. Segundo, porque um dos meus pés é ligeiramente diferente do outro, o que me obriga a provar uma infinidade de modelos até encontrar, se tiver paciência e tempo, o que me agrade. Tenho de aproveitar, portanto, sempre que venho aos Estados Unidos, para adquirir sapatos. Neste país, além de oferecer os sonhados meios-números, as lojas especializadas apresentam uma outra vantagem, que é a de não possuir vendedores, categoria profissional especializada, desculpem a franqueza, em iludir os clientes. Se o sapato está folgado, eles afirmam que, com o tempo, irá encolher. Se, ao contrário, está apertado, asseguram exatamente o contrário, garantindo que, com o próprio uso, ele irá se expandir, como se isso fosse fisicamente possível.
Nas grande lojas de calçados norte-americanas o cliente tem inteira liberdade para examinar e provar os diferentes modelos expostos, sem nenhum vendedor para dar palpites nem a obrigação de adquiri-los. Ainda goza do inalienável direito de, mesmo depois de tê-los comprado e utilizado, mudar de idéia, devolvê-los à loja e receber, integralmente, seu dinheiro de volta. Todavia, só depois de algumas horas de busca é que consigo, quando tenho sorte, encontrar um par de calçados que alie à satisfação visual o indispensável conforto para os pés. Daí a vantagem do quatro de novembro, quando imaginei que a imensa loja estaria repleta de sapatos e vazia de clientes. E estava mesmo.
Fui direto para as prateleiras do tipo de calçado que procurava, na verdade um simples par de chinelos, e comecei a selecionar e provar, com calma, os diferentes modelos. Aí aconteceu o inesperado. Vindas do outro lado da loja, como que atraídas por algum ferormônio, duas senhoras de meia-idade se dirigiram à mesma prateleira onde estavam expostos os chinelos e sandálias correspondentes ao meu número. Começaram a remexer nos mesmos produtos que eu já havia experimentado ou pretendia fazê-lo. Pensei comigo mesmo: ora, os tamanhos e modelos de calçados masculinos e femininos são inteiramente diferentes e ninguém adquire sapatos sem experimentar. Portanto, essas duas chatas vieram aqui só para me azucrinar. Fiz de conta que elas não existiam, mudei de secção para ocupar o tempo e esperei que elas tivessem ido embora para retornar ao local onde poderia encontrar o que buscava. Foi nesse momento que me dei conta de que já havia passado por situação semelhante em outros estabelecimentos comerciais. E também lembrei que, observando atentamente o comportamento desses chatos de loja, eles não tem a menor intenção de adquirir qualquer mercadoria, pois costumavam sair dos estabelecimentos de mãos abanando.
Eles frequentam as lojas, talvez até sem se dar conta disso, com o único objetivo de encher a paciência dos verdadeiros clientes. Com sua atuação, além de interferir no ciclo natural de venda das mercadorias, prejudicam não só o consumidor real como o próprio estabelecimento, afetando um dos pilares básicos do capitalismo, que é a liberdade de compra. Comecei a me questionar, a partir dali, sobre a atitude correta a tomar em tais situações. Se devemos fingir que não é conosco e nos afastarmos para retornar depois que o chato ou a chata resolver atuar em outra freguesia ou simplesmente ir embora sem adquirir nada. Ou se devemos reagir, olhando feio para o(a) importunador(a) ou até mesmo enfrentá-lo(a) verbalmente. Confesso que ainda não decidi o que fazer na próxima vez que, a partir dessa importante descoberta e da existência de outros casos, tenho a certeza voltará a acontecer e gostaria de compartilhar minha indecisão com os demais leitores do Blog. Se já passaram por isso e qual, a seu ver, a melhor atitude a tomar nesses casos.
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David Nelson Menda, o autor do texto, é colaborador permanente do blog acumulando as funções de correspondente nos Estados Unidos.
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