Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

28/11/08

Zerézima ou zerésima?

Davi Castiel Menda

Ao escrever pela primeira vez essa palavra no meu artigo sobre as urnas eletrônicas, confesso que fiquei em dúvida: letra esse ou letra zê? O Aurélio seria o lugar mais indicado mas, por ser uma palavra nova, não constava nem uma, nem outra: permaneci na dúvida.

Evidentemente que meu Dictionnaire des racines des langues européennes não foi de muito proveito, pois imagino que na idade da pedra as eleições eram decididas na base do grunhido e da clava; os trogloditas da época (pois hoje continuam existindo) desconheciam inclusive o zero, o que dirá zeréz(s)ima!

Procurei usar da analogia, e as duas primeiras palavras que me vieram à mente foram enésimo (afinal, a minha área de atuação é matemática) e enzima (que nada tem a ver com o assunto). Estava ganhando a letra esse mas, por mais que eu insistisse, o Word98 do meu computador recusava-se terminantemente a aceitar zerésima com essa letra. A consulta seguinte foi ao Google: ganhou zerésima com 589 citações e zerézima estava lá com 381 (inclusive com texto do TRE paulista e de outros TREs brasileiros). No momento atual, a zerézima do meu artigo encabeça a lista de citações, no Google, da grafia com zê.

Pensando bem, meu tempo de colégio já passou, não estou prestando exame de português, e zerézima com zê me pareceu ser mais forte e muito mais chamativo que zerésima com esse. Até prova em contrário, fico com zerézima!

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27/11/08

Thanksgiving

Nelson Menda

O Thanksgiving, ou Dia de Ação de Graças, é celebrado nos Estados Unidos na quarta quinta-feira de novembro, que este ano cai no dia 27. Rememora uma solenidade realizada, pela primeira vez, em 1621 na localidade de Plimouth, atual Estado de Massachusetts. Naquela ocasião, um grupo de colonos ingleses comemorou a primeira colheita um ano após ter chegado ao Novo Mundo. Tinha sido um período particularmente difícil para os pioneiros, pois metade do grupo original não conseguiu sobreviver aos rigores do inverno, às doenças e à fome, pela própria dificuldade em produzir alimentos no novo país.

Quem ajudou os chamados pilgrim-fathers, ou pais-peregrinos, foi uma tribo indígena local, que ensinou aos recém-chegados os segredos da pesca, o cultivo do milho e a maneira de abater e preparar uma espalhafatosa ave nativa, até então desconhecida dos europeus, o peru. Os colonos convidaram os índios para uma cerimônia conjunta de gratidão a Deus, dando origem, a partir dessa ocasião, ao Dia de Ação de Graças, que vem sendo comemorado, desde então, nos Estados Unidos. É a única ocasião em que todo o comércio, mas todo mesmo, fecha as portas, para reabrir no dia seguinte com uma tradicional e concorrida liquidação de queima de estoques.

No Thanksgiving as pessoas se reúnem ao redor de uma farta mesa e depois das orações de agradecimento saboreiam pratos especialmente preparados para a festividade, com destaque para o peru assado ou recheado acompanhado por um molho agridoce de cranberry, uma espécie de uva nativa, purê de batatas com caldo de carne que os americanos chamam de gravy e o tradicional pumpkin-pie, um pastelão de abóbora.

Pouca gente sabe, mas há exatos sessenta e um anos uma comemoração de Thanksgiving ajudou a mudar a face do mundo. Foi durante a Primeira Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque, sob a Presidência do brasileiro Oswaldo Aranha. Corria o ano de 1947 e as cinzas da Segunda Guerra ainda fumegavam no ar. A então Palestina, sob Mandato Britânico desde a derrocada do Império Otomano na guerra de 14 -18, havia servido de refúgio para milhares de judeus sobreviventes do Holocausto, que vieram se juntar aos seus irmãos que habitavam a Terra Santa desde os tempos bíblicos. Ao lado dos judeus, a Palestina abrigava também uma população árabe constituída por cristãos e muçulmanos. Era preciso, além de criar dois países, um para os judeus e outro para os árabes, delimitar suas fronteiras. Londres entregou a delicada questão, uma autêntica batata-quente inglesa, para o plenário da recém criada organização decidir.

Aranha era o homem certo para essa difícil missão. Enviou uma delegação da ONU para examinar in-loco a situação da região. A delegação retornou do Oriente Médio com uma proposta concreta de Partilha da Palestina, que deveria ser discutida, votada e aprovada por 2/3 do plenário. Como seria de se esperar, os debates foram acalorados e não fosse a enorme experiência parlamentar de Oswaldo Aranha teria sido muito difícil chegar a um consenso. O primeiro dia de discussões coincidiu com a véspera de Thanksgiving e ainda havia muito o que deliberar. Aranha tinha sido Embaixador do Brasil nos Estados Unidos e sabia da importância do Dia de Ação de Graças para os norte-americanos.

Em respeito aos funcionários americanos da ONU, suspendeu os trabalhos por um dia, para que todos pudessem comemorar o Thanksgiving em casa, com suas famílias. Para os diplomatas estrangeiros, porém, foi um dia de intensas negociações, que permitiram a formação de um consenso sobre a necessidade de aprovação do parecer do comitê que havia estado no Oriente Médio. No dia seguinte, um histórico 29 de novembro de 1947, a Assembléia Geral da ONU discutiu, votou e aprovou pela ampla maioria de 2/3 dos votos a Partilha da Palestina, criando condições, no ano seguinte, para a criação do Estado de Israel.

Se a decisão da ONU após aquele memorável Dia de Ação de Graças tivesse sido acatada em sua plenitude, certamente o Oriente Médio estaria vivendo hoje uma fase bem mais tranquila. Quem sabe neste Thanksgiving de 2008, com um novo mandatário às vésperas de tomar posse no governo dos Estados Unidos e com eleições à vista também em Israel e na Autoridade Palestina, ao invés do peru, um animal ruidoso e desajeitado, uma outra ave, dessa feita uma elegante pomba, venha simbolizar o acatamento da sábia decisão da Assembléia Geral da ONU de novembro de 1947.

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26/11/08

A Polêmica das Cotas

Davi Castiel Menda

Reza o inciso IV do artigo 3º da Constituição Federal que:
"Art. 3º - Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
IV — promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação".

Em minha vida já sofri toda espécie de discriminação e empresto toda a minha solidariedade e apoio às minorias que sofrem este tipo de crime. Sei que dói, dói muito, é humilhante. Fui discriminado por motivos religiosos, por não ser alto, por não ser rico, por não ter curso superior. No momento atual brasileiro, a discriminação da vez é a da cultura. Quem acompanha a história universal deve lembrar da polêmica revolução cultural empreendida por Mao Tse-Tung com o apoio de sua esposa Jiang Qing, em que milhões de chineses foram ridicularizados, apedrejados, torturados, mortos, pelo simples motivo de serem professores, escritores, artistas, enfim: cultos.

Laurence Peter e Raymond Hull, escritores ingleses, lançaram no ano de 1969 um primor de obra que deveria ser o livro de cabeceira de qualquer pessoa que um dia pretenda trabalhar (ou seja, a humanidade em geral, exceto o príncipe Charles, herdeiro eterno do trono inglês): Todo Mundo é Incompetente – Inclusive Você (The Peter Principle). O livro é extremamente agradável e recomendo lê-lo inúmeras vezes pela forma satírica e irônica, sutileza, ambigüidade e criatividade com que os autores abordam a incompetência nas empresas privadas, nas obras públicas, na política, na arte, nos esportes, enfim, em todos e nos mais remotos campos da atividade humana.

Um dos capítulos mais interessantes e diretamente ligado ao nosso tema é o da Esfoliação Hierarquial, onde além de inventivas explicações, é apresentada uma curva representando os vários tipos de hierarquias, partindo daquela que é inferior a tudo o mais – o sujeito superincompetente – passando pelo incompetente, moderadamente competente, competente e finalmente, lá no topo, o supercompetente. Segundo os autores, a supercompetência, em muitos casos, é ainda “mais condenável” que a incompetência. A explicação do paradoxo é que estes sofrem as piores discriminações, seja por medo ou inveja de chefetes receosos de perder sua posição na escala hierárquica, seja por ter sua autoridade colocada em xeque por alguém com um intelecto superior.

Hoje, no Brasil, num contra caminho da igualdade e em nome de um protecionismo/paternalismo que beira as raias da idiotia, tenta-se implantar um sistema de cotas nas universidades que é totalmente contrário ao inciso IV do art. 3º da Lei Suprema, descrita bem no início do texto. Aliás, atitude muito semelhante aos recém falidos sistemas socialistas e seus hábitos nefastos, onde para tudo havia cotas, inclusive alimentação e educação. Russos e cubanos que o digam!

A criação de cotas, além de provocar um estremecimento racial fantasmagoricamente ressuscitado, na teoria e na prática atendem somente às conveniências individuais (filosoficamente falando, é o fim em si), sendo puramente demagógico, discriminando o ser culto, o discípulo competente, o jovem que estudou, enfim - o que sabe (não interessa se aprendeu em colégio pago ou público, se em casa, se é rico, pobre ou remediado ou até se nasceu sabendo).

Se esse estudante residir no Brasil e, apesar da sapiência, pertencer à raça branca, e um índio ou afrodescendente a ele se igualar em notas num vestibular, o branco será preterido e ficará marcando passo. Esse procedimento se encaixa claramente no conceito de racismo, ou seja, a tendência ou modo de pensar em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas.

Quem acompanha o atletismo mundial, sabe que nos dias de hoje, a proporção de atletas entre os 20 melhores do mundo está assim distribuída aproximadamente: 12% são europeus, 85% de africanos; os demais totalizam 3%. Dentre os 85% de africanos, 56% são de quenianos, que tomaram conta da mais comentada e célebre prova brasileira: a São Silvestre. O leitor já imaginou se, por um decreto, o governo implantasse cotas: os atletas brancos teriam direito a vencer em 50% das vezes? Na hipótese bastante provável de um queniano vencer em 2008, pela nova regulamentação, esse seria desclassificado, subindo ao pódio um atleta branco. Haveria um clamor mundial, o país sofreria sanções e seguramente seria pedida a eliminação pura e simples do Brasil do Comitê Olímpico Internacional, além de outras represálias presumíveis. Você que me lê: mas não é exatamente o que está acontecendo na implantação de cotas nas universidades?

Segundo Ives Gandra da Silva (renomado professor emérito das universidades Mackenzie e UNIFMU e da Escola de Comando e Estado do Exército e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo), “em igualdade de condições, o branco está sendo considerado um cidadão inferior e discriminado, cada vez com menos espaço, nesta terra de castas e privilégios, apesar da Lei Maior.”

O governo, com raras exceções, é formado por políticos medíocres, sem líderes de projeção e com pouquíssima representatividade, preocupados exclusivamente com a eternização no poder, o apadrinhamento, a maracutaia, o mensalão, o empreguismo e o nepotismo. Com a implantação do sistema de cotas nas universidades, aparentemente tentam adotar como princípio constitucional a mediocridade como cavalo de batalha. É a isonomia da falta de inteligência, da falta de competência, da parvoíce, da asnice, da estupidez, da burriquice.

A mim não me importa se meu médico, meu advogado ou político em quem votei, seja afro, mulato, índio, branco, homossexual, peruano, mulher, chinês, verde ou o que quer que seja; mas exijo que sejam os mais competentes, os mais cultos, os mais sábios, os mais estudiosos, os mais inteligentes, enfim, os melhores, pois em suma, minha saúde, minha vida e meu futuro, da minha família e de toda a população brasileira, depende deles num futuro próximo.

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Posfácio:
“Escrever com ironia é um pouco como escrever em código: a comunicação só funciona se na outra ponta houver um decodificador. Quem se mete a escrever irônica ou satiricamente precisa saber que nem todos têm o decodificador. Não se trata de o leitor ser mais ou menos perspicaz. Ele às vezes simplesmente não tem a informação que o emissor pressupõe que ele tem, ou não tem tempo nem saco para ficar decifrando mensagens crípticas que querem dizer o contrário e só recebe ruído.” – Luiz Fernando Veríssimo

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25/11/08

Prêmios malditos - Final

A aleatoriedade  - representada pelas loterias - nenhum dos homens é capaz de domar. Ela bendiz os homens num momento; em outros amaldiçoa… - Davi Castiel Menda

Esta história, me contada como verdadeira, ocorreu na cidade de Cachoeira do Sul, interior do Rio Grande, onde morei por dois anos. Um viajante, vendedor de tecidos, miudezas e atavios femininos, dirigiu-se a um dos tantos hotéis da cidade, preencheu a ficha de hóspedes e, levando em conta que toda a rede hoteleira estava com sua lotação esgotada, devido à festa que anualmente lá se realizava, foi alojado junto a outro hóspede, que residia permanentemente no hotel. Duas pessoas distintas, idosas, honestas, camas separadas é claro.

O viajante, herói da nossa história, deixou dois de seus trajes (considerando-se que a história ocorreu por volta dos anos 50, juro que fiquei tentado a usar “duas de suas fatiotas”…) pendurados no único armário do quarto, e rumou para o interior do município, procedimento freqüentemente adotado pelos viajantes. Por três ou quatro dias enfrentou todo o tipo de estrada, mas o sacrifício foi compensado pelo bom índice de vendas junto aos bolicheiros locais.

De volta à sede do município, qual não foi sua surpresa, ao tomar conhecimento que seu companheiro de quarto falecera e, mais surpreso ainda, ao constatar que uma das suas fatio… roupas – a melhor, o terno azul-marinho – fora usada para vestir o defunto na sua derradeira viagem!

Refeito da invulgar situação, superou o fato rápida e cavalheirescamente, sem queixas. Jantou, saboreou seu cafezinho, e dirigiu-se à sala onde se reuniam os viajantes para conversar, trocar idéias, contar causos.

Nem bem sentara, surgiu conhecido vendedor de bilhetes que, sem muita conversa, dirigiu-se – todo sorridente - ao nosso viajante, cumprimentando-o: “Doutor, meus parabéns; avisei, quando lhe ofereci o bilhete, assim que o senhor chegou à cidade, que eu estava lhe vendendo a sorte grande. Estou lhe procurando desde ontem para dar a boa notícia!”

O viajante teve que se refazer de mais um susto, o terceiro do dia. Lembrava de ter comprado um bilhete, mais para ajudar o vendedor, pois sinceramente, não acreditava que a sorte lhe sorrisse algum dia. Nem imaginava o número do bilhete e, se o rapaz não lhe procurasse, provavelmente o jogaria fora sem ao menos se dar ao trabalho de conferi-lo.

Todos os outros viajantes, hóspedes, o proprietário do hotel, a camareira, e até o porteiro, se deslocaram em comitiva ao quarto do felizardo para conferir o bilhete. O viajante, com passos decididos e mais rápidos do que o normal, chave do quarto na mão, abria o séquito; logo a seguir, o bilheteiro, lista oficial da loteria a tiracolo, evidentemente excitado e nervoso com a perspectiva de uma boa gratificação e, fechando o cortejo, aquele povaréu ansioso para testemunhar algo de diferente, que espantasse a mesmice de todas as noites.

Procuraram o bilhete na mala, nas gavetas, no armário, e… de repente, a lembrança terrível: o bilhete fora guardado justamente num dos bolsos do paletó, da roupa azul-marinho, aquela mesma usada para vestir o hóspede falecido!!!

 

 

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24/11/08

Prêmios malditos - Parte III

Davi Castiel Menda

O artigo que estava pautado para publicação nesta segunda-feira, a respeito dos crimes e imbróglios envolvendo ganhadores da mega sena, foi amplamente divulgado na noite de ontem no programa Fantástico da Rede Globo. Por esse motivo o substituímos, acredito que com vantagem para os leitores do blog, pelo texto abaixo.

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Prepare-se para tomar conhecimento de uma notícia que irá realmente lhe surpreender: desde 2003, os apostadores das loterias da Caixa desprezaram R$ 236.000,00 em prêmios – diariamente!

Este o valor médio dos R$ 516 milhões (meio bilhão de reais) acumulados nas oito loterias da Caixa e que prescreveram nos últimos seis anos. São cartões (ou bilhetes da Federal) mal conferidos ou esquecidos nos bolsos que, se recebidos, poderiam fazer a alegria de milhares de pessoas. Após três meses da extração, esses bilhetes premiados prescreveram e, segundo a Caixa, seu destino foi o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior, programa do Governo Federal que colabora com cerca de meio milhão de alunos a cursar a faculdade. Menos mal…

A grande campeã em bilhetes prescritos, só neste ano de 2008, é a Mega Sena com R$ 25.320.000,00 não reclamados; em segundo lugar na relação, a Loto Fácil com R$ 24.210.000,00.

Os apostadores deveriam lembrar que, ao adquirir um cartão de qualquer loteria ou bilhete, na verdade estão realizando um negócio, um investimento. Se a aposta for de apenas um volante e não um bolão – a relação custo/benefício é excelente, mesmo considerando as chances mínimas de acerto. Esse volante é uma aplicação e tem juridicamente o valor de um contrato entre você e a Caixa, com a intermediação do agente lotérico, cujo valor deixa de ser o praticamente simbólico R$ 1,00, e assume a importância do prêmio que poderá atingir milhões de reais. Então, se você - que incluo no universo de apostadores em geral - tem na mão um contrato que eventualmente poderá valer milhões, deveria tomar mais cuidado ao guardá-lo e principalmente conferi-lo.

Deixar mais de R$ 200 mil em prêmios todos os dias prescrever – mesmo que o destino seja meritório – é um ato condenável! Pessoal - vamos prestar mais atenção: ou vocês se “profissionalizam”, ou deixem de apostar.

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23/11/08

Olhar dominical - 13

                  

Bom domingo!

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22/11/08

Prêmios malditos - Parte II

Davi Castiel Menda

Neste segundo artigo, por ser um sábado, fim de semana, vamos procurar tratar do tema de uma maneira mais light. Nos primórdios da Loteria Esportiva, lá pela década de 60, os volantes eram nominais, obrigando o apostador a preencher o nome em cada volante apostado. Ao longo do tempo, essa regulamentação caiu por terra; entretanto, pela inexperiência de uns, ou criatividade exagerada de outros, ficaram agregadas ao folclore da Loteca situações tragicômicas e surrealistas. Antes de iniciar a leitura lembre-se de que naquela época eram 13 jogos (hoje são 14). Os relatos abaixo são genuinamente verídicos.

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Certo apostador sonhou com sua mãe, falecida recentemente, indicando-lhe no sonho, com a mais absoluta precisão, quais seriam os treze ganhadores na Loteria Esportiva. Excitadíssimo com a possibilidade de equilibrar-se financeiramente, marcou um volantezinho e, em homenagem à falecida, subscreveu seu nome no volante. Aguardou com impaciência a chegada do final de semana e, sábado e domingo acompanhou com o maior interesse os jogos pelas emissoras de rádio. Coincidência ou não, acertou todos os jogos!

Teve que dividir o prêmio com seus quatro irmãos já que o cartão premiado, no nome da mãe (falecida), entrou em inventário, com inteira justiça.

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O padre de certa paróquia do interior, fanático por futebol e assíduo na Loteria, arriscava semanalmente um cartãozinho, sempre pensando em aumentar os recursos financeiros da sua igreja. Para não ficar mal com os fiéis e rotulado como jogador, sempre preenchia o volante em nome do sacristão, sem que esse soubesse.

Certo dia não deu outra: treze pontos! Feliz da vida, comunicou o fato ao sacristão que se mostrou surpreso pelo uso indevido do seu nome, exigindo como compensação, para receber o prêmio, uma comissão de dez por cento. O padre, indignado, alegando que o prêmio seria integralmente revertido para os pobres, ofendeu o sacristão, chamando-o de ladrão e outros epítetos censuráveis. Estava criado o impasse: um tinha o cartão - o padre - mas em nome de outrem – o sacristão.

A essas alturas, toda a população da cidadezinha já tomara conhecimento dos mínimos detalhes do imbróglio, tendo sido criada uma comissão, entre os paroquianos com o objetivo de convencer o sacristão a abrir mão da percentagem exigida. Esse, furioso por ter sido ofendido pelo padre, afirmou que, para receber o prêmio, o valor tinha sido reajustado para vinte por cento! O padre, mais indignado, possesso, chamou de ladrão por inúmeras vezes o sacristão. E esse cada vez mais furioso pelas ofensas.

Para encurtar a história, depois de idas e vindas, ultrajes, injúrias e afrontas, finalmente o prêmio foi cobrado, cabendo 50% para os pobres da paróquia e 50% para o “ofendido” sacristão, pelos irreversíveis danos morais sofridos, e uso indevido do seu nome.

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Um colega meu de empresa, leigo de carteirinha em matéria de futebol e incapaz de apostar um centavo, era assediado semanalmente por vizinho de rua, tentando convencê-lo a apostar na Loteria Esportiva. Tanto insistiu que, o meu colega, certa semana, cedeu e milagre dos milagres: acertou (ou acertaram?) os treze pontos; e o melhor, por terem ocorrido algumas “zebras”, o teste (naquele tempo não era concurso, era teste mesmo) encontrou apenas três ganhadores, rateando um prêmio compensador, algo assim em torno de 300 mil dólares.

Encerrados os jogos, lá pelas seis ou sete da tarde, tudo era festa, comemoração, caipirinha, tapinha nas costas, e nada do vizinho-sócio (o dos palpites, já que quem “bancou” integralmente o valor da aposta foi o meu colega) ir embora. Pela meia-noite conseguiram despachá-lo.

E não é que na manhã seguinte, nem bem o dia tinha raiado, e o “dono dos palpites” bateu na casa do ganhador, acompanhado de um advogado, com um documento datilografado (sou do tempo da máquina de escrever) dividindo o prêmio, destinando 50% a cada um. O meu colega, previsivelmente, deu um “corridão” nos dois e o assunto foi o tema dominante por várias semanas na cidadezinha de São Leopoldo, Rio Grande do Sul.

Após a intervenção de amigos comuns – e até da imprensa – o meu colega (que jura que daria a metade ao palpiteiro, não fosse o episódio do advogado), após ter a capota do seu carro conversível totalmente danificada por quimbas de cigarro, concordou em ceder 20% do prêmio ao vizinho palpiteiro.

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Os três casos acima envolveram jogadores bissextos, sem a menor experiência lúdica. Tragédia maior aconteceu com um apostador que se considerava um verdadeiro profissional e mais, com fama de malandro. Seu casamento, estando por um fio, inclusive com data marcada para a separação definitiva, e com receio de acertar na Esportiva e ter que dividir o prêmio com a esposa preenchia invariavelmente os volantes apostados em nome da amante.

O final é previsível: acertou os treze pontos e, para gáudio das leitoras, ficou sem a mulher, sem a amante, e sem o dinheiro do prêmio.

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Posfácio:

Com relação ao comentário do Sérgio Vasconcellos sobre a escolha do título, é claro que ele é importante e o fiel da balança na decisão do leitor se irá lê-lo ou não.  A manchete mais célebre na imprensa sensacionalista brasileira ocorreu na década de 60: "Cachorro fez mal à moça". Não tire ilações precipitadas - estudante comprou um cachorro-quente na saída do colégio e por estar a salsicha  provavelmente estragada, provovou-lhe um problema estomacal. Mas o objetivo do jornal, que era a venda, foi atingido plenamente.

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21/11/08

Prêmios malditos - Parte I

Davi Castiel Menda

O jornalista Júlio Mariani, no artigo Prisioneiros dos Deuses, publicado em Zero Hora em 1998, relatou com muita propriedade: “sábios orientais já se perguntaram se o universo não seria apenas um sonho simultâneo de deuses e seres humanos. Um grande deus adormecido estaria sonhando com este mundo e esta vida, e nós, personagens do sonho divino, estaríamos por nossa vez sonhando outros pequenos sonhos inseridos dentro do sonho maior, e assim por diante.”

O sonho é uma sequência de fenômenos psíquicos que involuntariamente ocorrem durante o sono. Entretanto, podemos sonhar acordados e nossos sonhos passam a ser dirigidos através de pensamentos, de idéias vagas, normalmente agradáveis, muitas vezes incoerentes, às quais o espírito se entrega em estado de vigília, fantasiando, num processo de fuga da realidade.

Quem não imaginou algum dia ser o presumível herdeiro de uma herança multimilionária, originária de um parente, nobre, distante e desconhecido? Quem não gostaria de ganhar uma bolada numa loteria, que muitas vezes, acumulada por vários sorteios, atinge dezenas de milhões de reais, nem que fosse para ter o prazer de, no dia seguinte, mandar o chefe às favas.

Particularmente, por calcular antecipadamente as chances em tudo que aposto, me considero o jogador mais pessimista do mundo, pois jogo sabendo que as chances de acertar nas loterias são muito próximas de zero. Peço desculpas aos leitores por ser um desmancha-prazeres, mas não se trata de sonho, vencer o sistema é pura utopia: poucos em vida terão a oportunidade de concretizar este desejo incontido.

Um cálculo nada complicado, empregando uma simples regra de três, ajudaria os sonhadores a retornar ao mundo real, da verdade, onde os fundamentos da estatística substituem com vantagem os antigos oráculos: se você comprar duas vezes por semana um bilhete da Loteria Federal, que de longe, entre todas as loterias, é a menos difícil de acertar, terá seu bilhete sorteado no primeiro prêmio, probabilisticamente falando, uma vez a cada 700 anos. Não por acaso toda regra tem suas exceções: desde 15.09.1962, data da primeira extração sob a administração da Caixa, há bilhetes que se destacaram, incrivelmente sorteados no primeiro prêmio em três oportunidades (bilhetes 05.487 – 32.330 e 53.053). É muito provável que seus compradores, em todos os três sorteios, tenham sido as mesmas pessoas, ou quem sabe até seus herdeiros!

Apostadores são otimistas por natureza. Após comprar um bilhete por dez reais, ofereça-lhe 20, 50 ou até 100 reais por esse bilhete e o apostador dificilmente lhe venderá. Na sua concepção, depois que o bilhete entrou em seu bolso, passa a ter o valor de face do primeiro prêmio: 100 mil reais. Um dos meus amigos de infância, Maurício Behar, foi durante largo tempo proprietário da Casa de Apostas, uma das lotéricas mais luxuosas do país; sua lotérica jamais vendeu um bilhete sequer apesar de receber da Caixa uma quantidade razoável para comercialização. E ele explica o motivo: “Se eu colocasse os bilhetes na vitrine, alguém por certo compraria. Se iria comprar, era porque tinha esperança de que seria premiado. Então, minha opção era eu mesmo concorrer aos prêmios oferecidos.” Isso sim é que era otimismo!

Normalmente o argumento usado pelos apostadores é invariavelmente o mesmo: é difícil, mas alguém tem que ganhar! Concordo! E é nesse exato momento que esse “feliz pobre coitado” passa efetivamente a conhecer seu inferno astral, pelos pedidos de empréstimos principalmente de parentes, solicitação de doações, propostas de negócios mirabolantes, o receio de voltar ao status quo anterior, o medo de ser sequestrado, assaltado, logrado, perder o dinheiro na bolsa, enfim, centenas de opções, quase todas elas, infelizmente, negativas.

O governo americano durante muito tempo empregou uma solução que considero a ideal no caso de prêmios milionários: esse era pago em parcelas anuais durante vinte anos. Por mais perdulário que fosse o ganhador, sempre teria um “ordenado” a receber ao final do ano. Sabendo que aqui no Brasil boa parte dos ganhadores de prêmios intermediários liquida literalmente com seu prêmio em menos de três anos, os vinte anos americanos é um belo prazo. O sistema funcionou a contento por muito tempo até que a máfia entrou na história, comprando os bilhetes premiados à vista, evidentemente com um polpudo deságio. O ganhador recebia seu prêmio à vista – provavelmente 40% do valor – e a máfia se contemplava com um investimento garantido durante vinte anos. Atualmente é o próprio governo que propõe esta antecipação ao apostador, com o devido deságio, é claro…

Situação mais trágica é quando o sonho de atingir o inatingível – um primeiro prêmio - se concretiza, mas por um motivo qualquer, a bolada tão sonhada não chega às mãos do ganhador. Conta-se às centenas as histórias de bilhetes perdidos, jogados no lixo inadvertidamente (promovendo verdadeiras caravanas aos lixões a sua procura), usados para fins escatológicos, tragados por cachorros, enfim, o que era para ser o pontapé inicial para uma vida de folgança, transforma-se no primeiro ato de uma tragédia. Não estou considerando nesta lamentável estatística aquelas pessoas que nem ficam sabendo que seu cartãozinho ou bilhete foi premiado - ou por perda ou mal conferidos. A Caixa informa anualmente esses dados e é de estarrecer a quantidade de prêmios não reclamados.

QUANDO O SONHO SE TRANSFORMA EM PESADELO

Danilo A., durante muito tempo foi apostador habitual de uma agência lotérica localizada na Avenida Protásio Alves, em Porto Alegre. Segundo notícia publicada pelo jornal Zero Hora de 16 de agosto de 1998, Danilo iria receber desta lotérica, a título de indenização, a importância de R$ 300 mil, valor do prêmio que coube ao bilhete no. 00.939 da Loteria Federal, mais correção monetária. A decisão foi tomada pelo 2o. Grupo Cível do Tribunal de Justiça do Estado, presidido pelo desembargador Alfredo Guilherme Englert.

Danilo alegou que, havia mais de dois anos, firmara um acordo tácito com a agência para que esta lhe reservasse permanentemente o bilhete 00.939. E durante todo esse tempo o pacto funcionou a contento. A agência mantinha a guarda dos bilhetes para as extrações das quarta-feiras, sábados e eventuais sweepstakes; às terças-feiras, invariavelmente, o apostador passava na lotérica e acertava a conta. Milhares e milhares de apostadores por esse Brasil afora são atendidos de semelhante forma. É negócio no fio-de-bigode.

No sorteio de sete de setembro de 1996, o bilhete 00.939 foi sorteado no primeiro prêmio no valor de R$ 300 mil. Assim que soube do resultado, Danilo entrou imediatamente em contato com a lotérica para tomar posse do bilhete, mas lá lhe informaram que o bilhete fora vendido em pedacinhos para várias pessoas. Inconformado com a situação, investigou e descobriu que a própria dona da agência recebera o prêmio. O sonho se transformara em pesadelo.

Danilo encaminhou ação judicial contra a lotérica alegando má-fé. A juíza Judith dos Santos Mottecy, da 6a. Vara Cível de Porto Alegre acolheu o pedido de indenização, condenando a agência a ressarcir o apostador. Houve apelação, um novo recurso, e finalmente o 2o. Grupo Cível, seguindo o voto do relator desembargador Luiz Ari Azambuja Ramos, manteve a sentença por sete votos a um, determinando o pagamento dos R$ 300 mil – corrigidos – ao apostador.

Afim de que esse artigo não ficasse incompleto e os leitores no desconhecimento, fomos a campo e, através de duas fontes fidedignas, tomamos conhecimento de que, lamentavelmente, o senhor Danilo, pelo menos até 2006, decorridos dez anos do sorteio, não recebera um centavo sequer do valor do seu prêmio.

São situações incomuns como esta que nos levam a pensar sobre o texto de Júlio Mariani, lá no início do blog, se em determinadas ocasiões, ao invés de sonhar, os deuses, por estarem acordados, se divertem manipulando ao seu bel-prazer suas minúsculas cobaias, firmemente aprisionadas num imenso labirinto chamado Terra, que para eles não é mais do que uma pequena e redonda gaiola azul.

criado por projetosnumericos    4:06 — Arquivado em: Crônica

20/11/08

Prêmios malditos

Entre tantos crimes que acontecem diariamente no país, o que mais vem chamando a atenção é a morte do ganhador da Mega Sena de São Paulo. Imbróglios envolvendo ganhadores vão se tornando uma constante e o blog Al Karismi, um dos raros especializados em loterias, passa a divulgar a partir de 6ª. feira uma série sobre esses fatos que nos leva a pensar: será que vale a pena mesmo ganhar?
Saiba de antemão o que você vai ler:

Prêmios malditos – Parte I – 6ª. feira – dia 21
“No sorteio de sete de setembro de 1996, o bilhete 00.939 - assinatura permanente de Danilo A. - foi sorteado no primeiro prêmio, valor de R$ 300 mil. Logo que soube do resultado, Danilo A. entrou imediatamente em contato com a lotérica e lhe foi dito que o bilhete fora vendido em pedacinhos para várias pessoas. Inconformado com a situação, investigou e descobriu que a própria dona da agência recebera o prêmio. O sonho se transformara em pesadelo.” Acompanhe essa dramática história que foi aos tribunais, nos seus mínimos detalhes.

Prêmios malditos – Parte II – Sábado – dia 22
Três casos sobre confusões envolvendo ganhadores de loterias.

Prêmios malditos – Parte III – 2ª. feira – dia 24
- Comerciante que integrava grupo de apostadores que se desentendeu na divisão do prêmio de 16 milhões é assassinado em SP.
- O ex-lavrador Renné Sena, ganhador do concurso 679 da mega sena é assassinado quando bebia em um bar na região metropolitana do Rio.
- Já dura 15 meses a confusão sobre o prêmio do concurso 896 da mega sena entre Altemir José da Igreja e seu ex-funcionário Flávio Júnior Biass.

Prêmios malditos – Parte IV – 3ª. feira – dia 25
O ganhador de bilhete da Loteria Federal, na década de 60, que parou num bar para festejar e chegou em casa sem o bilhete. Caso que transitou na 3ª. Vara Criminal de Porto Alegre.

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E enquanto você aguarda por essa série que promete, viaje pelo mundo dos desejos e emoções no blog logo aí abaixo – Second Life.

criado por projetosnumericos    2:56 — Arquivado em: Jogos & Loterias

19/11/08

Second Life - Emoções e desejos

Davi Castiel Menda

 

"Pessoas mortas há pouco tempo podem mudar seu aspecto simplesmente pensando em uma dada forma, sendo sumamente fácil para seres brincalhões ou mesmo malévolos enganar os que não foram preparados para reconhecer tais ilusões."

Sou freqüentador de um clube que promove torneios de Poker semanalmente. A título de curiosidade, uma das regras afixadas em letras garrafais (aliás, regra provavelmente exclusiva deste clube e jamais imaginada pelos criadores do Poker) nos informa que é terminantemente proibido reagir com emoções a um lance inesperado durante as disputas dos torneios. Aparentemente, o criador desta aberração lúdico-jurídica desconhece que a emoção é congênita à natureza do homem: trata-se de uma perturbação ou variação do espírito advinda de situações inesperadas e que se manifesta na forma de alegria, tristeza, raiva. Exagerando, seria o mesmo que pendurar um cartaz num estádio de futebol comunicando aos torcedores que devem se portar com educação, cortesia e civilidade e que, durante os festejos de um gol, devem manter-se corretamente sentados em seus lugares; no máximo, aplaudir com palmas moderadas o autor da façanha. Pedir bis ou goleada, já seria contravenção.

 

O desejo é semelhante à emoção, é ter a vontade de possuir, de gozar, de ter anseios, cobiça, ambição, ou até apetite, seja ele na mesa ou na cama (apetite sexual). Os desejos e emoções variam de pessoa a pessoa. São tantas as variáveis que poderia afirmar que o somatório dessas geram um padrão de individualidade a cada pessoa, tal qual as impressões digitais.

Mesmo que você seja uma pessoa correta, honesta, cumpridora das leis, fiel ao seu cônjuge, é de se supor que já tenha tido um mau pensamento, lascivo e sensual ao ver um filme ou fotos de um(a) artista sexy de cinema ou TV. Ou quem sabe, imaginando-se com o prêmio milionário de uma mega sena no bolso, passeando numa Ferrari pelas ruas de Mônaco, convidado da princesa Caroline para um garden-party nos jardins do seu palácio… Que atire a primeira pedra quem, durante uma áspera discussão com seu chefe, não pensou em “eu ainda mato esse sujeito”. Meia hora depois, você, o pseudo-matador, e ele, o chefe, confraternizavam na sala do cafezinho, como se nada tivesse acontecido. Tal comportamento é normal: a natureza sabiamente a tudo isso previu. São desejos de efêmera duração – pelo menos, deveriam ser – e tendem a sumir rapidamente. Entretanto, se forem permanentes, a idéia deixa de ser desejo e transforma-se em obsessão e o comportamento humano passa a ser tratado como um desvio de conduta, com menor ou maior gravidade.

Segundo a Wikipédia, teosoficamente falando, o Mundo de Desejo também é conhecido como plano astral. Concordando com outras correntes, a Teosofia diz que este é um plano de existência intermediária entre o mundo físico e o mundo mental ou celeste, uma região onde a vida é mais ativa e as formas mais plásticas que no plano físico, formas que estão sujeitas à influência do pensamento. As entidades que aqui vivem - elementais, devas inferiores (no hinduísmo e no budismo, devas = cada uma das diversas divindades que se situam entre os seres divinos superiores e os homens) e pessoas mortas há pouco tempo - podem mudar seu aspecto simplesmente pensando em uma dada forma, sendo sumamente fácil para seres brincalhões ou mesmo malévolos enganar os que não foram preparados para reconhecer tais ilusões. É o reino das emoções e desejos por excelência, onde eles são sentidos em toda sua intensidade sem o efeito amortecedor causado pelo corpo físico mais denso.

Pois alguém resolveu materializar este Mundo de Desejos e colocá-lo à disposição de todos através da Internet, sob o título de Second Life, um ambiente virtual e tridimensional onde são simulados aspectos da vida real e social do usuário. O internauta “morre” por algum tempo na vida real e muda seu aspecto terreno assumindo uma nova forma, identidade, profissão e até sexo nesse mundo virtual. O Second Life pode ser encarado como um jogo, quem sabe um simulador de vidas ou talvez um comércio virtual.

Na verdade, é a transposição de pessoas insatisfeitas com a sua vida real (Real Life ou primeira vida), gerando uma vida paralela em situações totalmente imaginárias, de acordo com os anseios de cada um. Essa perigosa brincadeira que joga com os sentimentos humanos, transforma seus participantes em escritores de folhetim ou talvez, exageradamente, em deuses - pela possibilidade de criação de personagens, mesmo que irreais. A comunidade do Second Life vem crescendo de forma exponencial e seus partícipes recriam uma nova rede social, uma nova ir-“realidade”, e passam a conviver com ela.


Conheço poucas pessoas que transitam diariamente pela Second Life e, pelo conjunto de conhecimentos acumulados ao longo de uma existência, chego a conclusão de que – num estudo preliminar desses raros criadores de avatares que me brindaram com sua entusiasmada opinião a respeito - não assumem uma segunda vida; que perdoem minha opinião, na verdade confundem a vida real com o mundo da fantasia, com o mundo dos desejos. A vida, que deveria ser a real, passa a ser a irrreal e vice-versa, gerando uma situação que se caracteriza pelo aparecimento de ambições e de suspeitas, evoluindo para delírios persecutórios e de grandeza.

Para fortalecer meu juízo a respeito da Second Life, cito o ocorrido recentemente na Inglaterra, onde traição cometida naquele mundo virtual, por homem que mantinha avatar como amante, terminou em divórcio na vida real. Aos leigos, para um melhor entendimento, em informática, avatar é a representação gráfica de um utilizador em realidade virtual (de acordo com a tecnologia, pode variar desde uma simples imagem até um sofisticado modelo 3D).

O caso inglês tem características surrealistas, com total desprezo pelas construções refletidas ou dos encadeamentos lógicos e pela ativação sistemática do inconsciente e do irracional. Amy Taylor e David Pollard, após quatro anos de vida em comum, separaram-se depois que Amy, com a ajuda de um detetive cibernético, descobriu que o alter ego de seu marido a traia com outra mulher. Só que “a outra” era um avatar, uma representação gráfica, um personagem irreal, enfim, em linguagem simples, um mero desenho, sem vida, sem consistência, sem alma, só existindo na tela de um computador, morrendo a cada vez que esse fosse desligado.

- Doeu muito. Não pude acreditar no que ele fez. Para mim foi infidelidade – comentou Amy. É uma situação inusitada e o homem (no presente caso, Amy, a esposa “traída”) toma atitudes inesperadas frente a uma situação nova e fico a pensar na essência de seus pensamentos e avaliação sobre o caso. A jovem esposa, imaginando a rival com que seu marido mantinha relações extraconjugais, eternamente jovem, sempre com as mesmas feições e características, a versão cibernética da fonte da juventude. Deve ter sido fantástico o conjunto dessas ilações!

A novela se torna mais dramática e assume ares de comédia e escárnio pelo grotesco, ao se tomar conhecimento de que o ex-marido David, após a separação, já tem uma nova noiva virtual (qual teria sido o motivo de ter abandonado a amante avatar causadora da destruição do seu lar?) e afirma que não vê a hora de com ela casar na vida real. Repetindo, para que não haja dúvidas: a notícia informa que David Pollard já tem uma nova noiva virtual e afirma que não vê a hora de com ela casar na vida real!

A que ponto chegamos! Loucura por loucura, prefiro ficar falando com meus cachorros e com os passarinhos que fazem ninho praticamente dentro de minha casa. Pelo menos eles são reais.

criado por projetosnumericos    2:07 — Arquivado em: Ensaio
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