Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

6/10/06

Pesquisas, previsões e probabilidades

Davi Castiel Menda

“Predição é muito difícil, especialmente se for sobre o futuro”.
Niels Bohr, físico dinamarquês.

Os grandes perdedores das eleições de três de outubro último não foram os partidos políticos – em especial o PT – e sim os principais institutos de pesquisa do país. Mais uma vez, mesmo trabalhando com margens de erro de 4% a 6% (2% a 3% para cima e para baixo), erraram fragorosamente em nível nacional, rendendo-se às evidências da ocorrência de segundo turno somente na hora derradeira, quando naquela instância era inadiável a divulgação de dados o mais próximo possível da verdade. Ibope e Datafolha, na última pesquisa antes das eleições, reconheceram, de forma constrangedora, a possibilidade de segundo turno, porém, o Sensus – Pesquisa e Consultoria, insistiu em atribuir ao candidato Lula, 51% das intenções de voto, numa tentativa espúria de, nos estertores, influenciar o eleitorado - aqueles ainda listados no bloco dos indecisos – a votar naquele candidato. Num exercício de imaginação, admitindo-se a hipótese do Sensus ser estabelecida no Japão ao invés das Minas Gerais, tenho a mais absoluta certeza que seus responsáveis já teriam praticado haraquiri.

Erraram feio na Bahia e aqui no estado – RS – nem se fala, invertendo a posição dos candidatos que, segundo os institutos, ocupavam respectivamente a primeira e terceira posições nas pesquisas. O franco favorito, Rigotto, turfisticamente falando, não pagou nem placê. Registre-se como exceção o Instituto Methodus, que nos últimos dias conseguiu detectar o crescimento de Yeda Crusius.

Jorge Rolla, que tive o prazer de desfrutar da sua amizade por décadas, enquanto vivo, jamais errou um prognóstico eleitoral. Jamais! Não era matemático, não era economista, muito menos estatístico. Nunca sentou à frente de um micro. Usava da intuição e da sua equipe de campo, aliás, disponível a todos que a quiserem contratar em futuras eleições, sem despender um centavo sequer!

Sua equipe de pesquisadores – e ele não escondia o fato – era constituída de três categorias ligadas à prestação de serviços, que atingia toda a gama de eleitores: taxistas, engraxates e barbeiros. Avaliem, eles têm à mão o termômetro da popularidade e da rejeição de todos os candidatos. Eles dispõem de todo o tempo do mundo para conversar com uma infinidade de pessoas diariamente, ao contrário dos imutáveis 2.002 pesquisados. Eles pesam, avaliam, liquidificam todas as informações, sem auxílio de computador e sem planilhas Excel, somente usando do bom senso. Tabulam com perfeição esta coleta de dados imaginária, que provocaria arrepios e incredulidade aos senhores-ibope da vida. Todavia, acertam…

Este era o segredo de Jorge Rolla, que lá de cima onde se acha, deve estar se divertindo à beça com as desculpas dos estatísticos de plantão sobre as previsões e erros cometidos no primeiro turno.

É muito comum, nos experimentos relacionados à teoria matemática das probabilidades, usar-se freqüentemente como exemplo o mais simples dos exercícios, qual seja, o lançamento de moedas, contando quantas caras e coroas contabilizaremos ao final da série, que pode ser de 100, 200 ou 2.002 lançamentos, tentando demonstrar a realidade da lei dos grandes números, que ao final obteremos uma totalização muito parecida nas duas colunas. É de uma simplicidade tão gritante que qualquer um pode realizar a experiência.

Atravessando o limite (muito tênue) das probabilidades para pesquisas, imaginemos uma eleição entre dois candidatos, “cara” e “coroa”, e que esta eleição será decidida através do experimento acima relatado, num único lançamento da moeda, cara ou coroa. Projete uma pesquisa qualquer e atribua um percentual a cada candidato. Pronta a pesquisa?

Independente dos valores arbitrariamente escolhidos, tudo leva a crer que você errou! Ao ser uma moeda lançada para cima, ela não cairá necessariamente cara ou coroa; ela poderá rolar para um bueiro próximo (e não saberemos quem foi o eleito) ou até incrivelmente cair em pé. As duas últimas hipóteses figuradamente são os imprevistos enfrentados pelos institutos de pesquisa, as probabilidades não avaliadas, não detectadas (leia-se desculpas).

Hoje em dia, com os recursos tecnológicos que conquistamos, além daqueles que são adicionados diariamente, em progressão geométrica, é de uma temeridade empírica imaginar que qualquer ocorrência seja impossível. Até a tão conhecida afirmação de que “a única coisa certa é a morte”, pode matematicamente ser questionada.

A probabilidade de que um homem atinja mil anos de vida apresenta-se com uma chance para o número 10 na potência 27 bilhões de zeros – um número portentoso! Segundo William Feller “essa afirmação não faz sentido algum do ponto de vista biológico ou sociológico, mas considerada exclusivamente do ponto de vista estatístico, ele certamente não contradiz experiência alguma”.

Se estivéssemos seriamente dispostos a desprezar a possibilidade de viver mil anos, teríamos que aceitar a existência de uma idade máxima e a suposição de que seria possível viver x anos e impossível viver x anos mais dois segundos é tão inaceitável quanto a idéia de vida ilimitada.

Resumindo, para mim, o que falta nas possas pesquisas, é um acasalamento mais íntimo com o cálculo das probabilidades. Não é só sair por aí perguntando “em quem você vai votar?” e pronto. O local da pesquisa e o momento não estão sendo bem avaliados. Teoricamente, divagando, se fosse feita uma pesquisa para presidente da república num dos tantos presídios de São Paulo, apresentados como opção Alckmin, Lula e Marcola, você teria dúvida de quem seria, indubitavelmente, o preferido do “público”?

criado por projetosnumericos    15:30 — Arquivado em: Opinião, Política

Paradoxo matemático-eleitoral

Davi Castiel Menda

A intenção de voto e pesquisas, prática importada dos Estados Unidos, já se tornou um hábito aqui no estado e país. É meramente uma realidade estatística momentânea. Tentaremos abaixo analisar o 2o. turno em Porto Alegre sob a ótica matemática.

Suponhamos que numa eleição o candidato X tem a intenção de x votos e o candidato Y a intenção de y votos com x > y. A probabilidade de que X lidere a votação durante toda a contagem é dada pela fórmula
(x - y) / (x + y). Este é um problema estudado em análise combinatória sob o rótulo "Problemas de Votação".

Considerando que o nosso 2o. turno promete ser bastante parelho entre situação e oposição, poderíamos tentar calcular a chance dos dois candidatos adaptando a fórmula acima à nossa realidade.

Na hipótese de que o candidato X tenha 54% da intenção de votos e o candidato Y, em conseqüência, 46% nas pesquisas, e substituindo-se estes percentuais na nossa fórmula, teríamos (54 - 46) / (54 + 46). Realizadas as operações, obteríamos o seguinte resultado: o candidato que tem a preferência do eleitorado com o percentual de 54%, teria somente 8% de chances de liderar por todo o tempo a votação.

E chegamos ao paradoxo: o candidato X, aquele que lidera as pesquisas, teria somente 8% de chances - um percentual bastante inexpressivo - de liderar por todo o tempo, e o candidato Y, o provável derrotado, 92% de, em algum momento, ultrapassar o seu oponente, nada impedindo de manter esta primeira posição até o final.

E agora? Valem mais os 8% ou os 92%?

Publicado na coluna Começo de Conversa (Fernando Albrecht) - do Jornal do Comércio em 11/12.outubro.2004

criado por projetosnumericos    14:34 — Arquivado em: Política

4/10/06

A urna eletrônica é confiável?

Ilton Carlos Dellandréa  *

Um computador, por mais protegido que seja, é vulnerável a vírus e invasões cujos métodos se aperfeiçoam na proporção dos aplicativos protetores. A urna eletrônica usada nas eleições do Brasil é semelhante a um micro. É programada por seres humanos e seu software é alterável de acordo com as peculiaridades de cada pleito. Por ser programável pode sofrer a ação de maliciosos que queiram alterar resultados em seus interesses e modificar o endereço do voto com mais facilidade do que remeter um vírus via Internet. Além disto, pode desvendar nosso voto, pois o número do título é gravado na urna.

Há vários tipos de fraude. Por exemplo: é possível introduzir um comando que a cada cinco votos desvie um para determinado candidato mesmo que o eleitor tenha teclado o número de outro.

Talvez eventuais alterações maliciosas sejam detectáveis a posteriori. Mas descobrir a fraude depois de ocorrida não adianta. O importante é prevenir.

A preocupação com a vulnerabilidade da urna eletrônica é antiga. Pode ser acompanhada no site www.votoseguro.org, mantido por técnicos especializados, engenheiros, professores e advogados que defendem que a urna eletrônica virtual - que não registra em apartado o voto do eleitor e que será usada nas próximas eleições - admite uma vasta gama de possibilidades de invasões, sendo definitivamente insegura e vulnerável.

O engenheiro Amílcar Brunazo Filho (especialista em segurança de dados) e a advogada Maria Aparecida Cortiz (procuradora de partidos políticos) lançaram, há pouco, o livro Fraudes e Defesas no Voto Eletrônico, pela All Print Editora, que é no mínimo inquietante. Mesmo para os não familiarizados com o informatiquês ele leva a concluir que as urnas eleitorais brasileiras podem ser fraudadas.

São detalhados os vários modos de contaminação da urna e se pode depreender que, se na eleição tradicional, com cédulas de papel, as fraudes existiam, eram também mais fáceis de ser apuradas, pois o voto era registrado. Agora não. O voto é invisível e, como diz o lema do Voto Seguro: eu sei em quem votei, eles também, mas só eles sabem quem recebeu meu voto, de autoria de Walter Del Picchia, engenheiro e professor titular da Escola Politécnica da USP.

O livro detalha a adaptação criativa de fraudes anteriores, como o voto de cabresto e a compra de votos, e outros meios mais sofisticados, como clonagem e adulteração dos programas, o engravidamento da urna e outros. São possíveis fraudes tanto na eleição, como na apuração e na totalização dos votos.

Os autores mostram que a zerésima - neologismo criado para definir a listagem emitida pela urna antes da votação com os nomes dos candidatos e o número zero ao lado, indicando ausência de votos, na qual repousa a garantia de invulnerabilidade defendida pelo TSE -, ela própria pode ser uma burla, porque é possível imprimir o número zero ao lado do nome do candidato, e ainda assim haver votos guardados na memória do computador (página 27).

O livro não lança acusações levianas. Explica como as fraudes podem ocorrer e apresenta soluções, ao menos parciais, como o uso da Urna Eletrônica Real - que imprime e recolhe os votos dos eleitores em compartimento próprio - ao contrário da urna eminentemente virtual, que não deixa possibilidade de posterior conferência.

O mais instigante é que os autores e outros técnicos e professores protocolizaram no TSE pedidos para efetuar um teste de penetração para demonstrar sua tese e eles foram indeferidos, apesar da fundamentação usada (no site Voto Seguro pode se ter acesso ao teor do pedido).

Cita-se Relatório Hursti, da ONG Black Box Voting, dos EUA, em que testes de penetração nas urnas-e TXs da Diebold demonstraram que é perfeitamente possível se adulterar os programas daqueles modelos e desviar votos numa eleição (página 25). Pelo menos 375 mil das 426 mil urnas que serão usadas nas eleições de 2006 são fabricadas pela Diebold. Elas foram recusadas nos EUA e no Canadá.

É óbvio que a fraude não necessariamente ocorrerá. A grande maioria dos membros do TSE e dos TREs, desde o mais até o menos graduado, é honesta e, por isto, podemos dormir em paz pelo menos metade da noite.

Mas depois que se descobriu que o Poder Judiciário não é imune à corrupção - veja-se o caso de Rondônia - nada é impossível, principalmente no campo eleitoral. Por isto é incompreensível a negativa do TSE em admitir o teste requerido e, o que é pior, insistir em utilizar a Urna-E Virtual com apoio na Lei n. 10.740/03, aprovada de afogadilho e sem o merecido debate, ao invés da mais segura Urna Eletrônica Real.

Se não é certo, em Direito, dizer que quem cala consente é, todavia, correto dizer que quem obsta o exercício de um direito é porque tem algo a esconder. Ou, por outra, que algo aconselha a ocultação. Ou porque - e agora estou me referindo ao caso concreto - se intui que pode haver alguma coisa de podre no seio da urna eletrônica que poderia provocar severas desconfianças às vésperas do pleito.

* Desembargador aposentado do TJRS, foi Juiz Eleitoral em Iraí, Espumoso, Novo Hamburgo e Porto Alegre.

O site do autor deste texto é http://dellandrea.zip.net

criado por projetosnumericos    11:30 — Arquivado em: Destaques em 2006, Política

1/10/06

O último dos crentes

                                 

                                   H A B E M U S  2o. T U R N O

"Tente evitar a pobreza, ensinando a cada homem um ofício. Experimente todos os métodos antes de permitir que ele seja alvo da caridade, que pode degradá-lo, por mais ternos que sejam seus sentimentos para com ele".

             Trechos de artigos anteriores - vale a pena recordar

Pesquisa eleitoral para presidente - Números não fecham…
Publicado no blog Al-Karismi em 04.09.2006

Nas últimas eleições presidenciais, o atual Presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve exatos 46,44% de votos no primeiro turno. O que não consigo inferir, com todo o meu discernimento matemático cultivado ao longo de seis décadas - e gostaria (sinceramente) que alguém me explicasse - como um candidato que enfrentou uma turbulência jamais vista nos anais políticos do Brasil, batizada com o sugestivo título de mensalão, com funcionários, secretários, deputados e ministros de seu partido envolvidos direta ou indiretamente, em menos de um ano após o affaire conseguiu atingir o índice de 50% na intenção de votos nas pesquisas. Ou é um caso de indenidade excepcional ou os números não estão refletindo a realidade.
…..
O candidato-presidente pode até ganhar a eleição, já que a máquina administrativa-partidária-governamental tem trabalhado full time e usando de todos os meios possíveis e inimagináveis para atingir este objetivo. Mas ganhar no primeiro turno?! A quem querem enganar? Por favor, senhores…

Os velhinhos de Taubaté e Gravataí
Publicado no blog Al-Karismi em 23.09.2006

"Os governos mudam, as promessas se renovam, as autoridades nem tanto, mas se há uma coisa firme no país, é a crença da Velhinha de Taubaté no governo". Pois bem (ou talvez mal), as pesquisas para presidente nestas eleições de 2006 transformaram todo o povo brasileiro, do mais humilde ao mais esclarecido cientista político em "velhinhas de Taubaté" - todos acreditando piamente nas pesquisas eleitorais que indicam a vitória do candidato da situação já no 1o. Turno.
…..
E agora, para complicar a vida do PT, que usando do jargão turfístico, "levava de barbada" esta eleição, surge um novo - mais um - complicador, de amplo conhecimento de todos (o caso do Dossiê Cuiabá), que na verdade será a tábua de salvação de todos os institutos de pesquisa, jornais, rádios e TV, para justificar a realização do 2o. turno.
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Ontem (22.09.2006), o provedor Terra, na sua página principal, realizou uma enquete: você acredita que uma virada é possível na eleição presidencial? Desconheço o resultado final, mas às 17.25 horas, os internautas que haviam respondido sim, que acreditavam numa mudança, somavam 52.536 votos, num percentual de 64% sobre o total, um número considerável.
…..
Apesar de estarmos na reta final, e mesmo os institutos e datas da vida divulgando clamorosa e insistentemente a vitória de Lula no primeiro turno, continuo a duvidar. Será que somente às 17 horas do dia primeiro de outubro, encerradas as eleições, é que divulgarão a realização do segundo turno?

Se porventura eu estiver certo nas minhas previsões, tenho todo o direito de criar um novo personagem em contra-ponto à Velhinha de Taubaté: o Velhinho de Gravataí - aquele que não acredita em pesquisas! A bem da verdade, em pesquisas fundamentadas ele acredita - o que roda por aí é quiroscopia.

Caterva
Publicado no blog Al-Karismi em 27.09.2006

E mesmo com toda esta quizilenta situação, gerada pelo próprio Partido dos Trabalhadores, os três principais institutos de pesquisa e consultoria continuam apregoando a vitória do candidato-presidente ainda no primeiro turno. O censo da mineira Sensus - Pesquisa e Consultoria, divulgado hoje (27.09.2006) nos principais jornais do país - com o perdão do trocadilho - é um contra-senso, um disparate ofensivo à inteligência de brasileiros que - ainda - pensam e raciocinam.
…..
Basta que, de cada 10 eleitores que pretendessem votar no candidato da situação, um, apenas um em cada dez, troque de lado, insatisfeito com os escândalos presenciados e vividos com uma impressionante regularidade e definitivamente incorporados ao nosso cotidiano, e a vitória no primeiro turno tão apregoada com altivez, arrogância, presunção e sobrançaria, caia fragorosamente por terra.

Se eu estiver enganado, dou mão a palmatória, e mesmo professando outra religião, vou pessoalmente encabeçar uma petição ao Papa Bento XVI (imaginem o que eles não aprontariam se fosse Bento XIII), exigindo do Vaticano que o "homem" seja alçado à condição de santo, pois depois de tudo o que aconteceu no país, eleger-se no primeiro turno, só um milagreiro!

criado por projetosnumericos    7:26 — Arquivado em: Opinião, Política

27/9/06

Caterva

Davi Castiel Menda

Quosque tandem abutere, caterva, patientia nostra? *
Quosque tandem abutere, CNT-Sensus, Datafolha, Globo-Ibope, patientia nostra? *

Nos bons tempos (para quem já desfruta de filas liberadas nos caixas de instituições financeiras e supermercados, bons tempos nos remete há pelo menos 50 anos), aprendia-se latim nos bancos escolares. A insistência generalizada, com a alegação de que era uma língua morta, extinguiu o latim do curriculum - aliás, palavra essencialmente latina - escolar, liquidando-o literalmente, pela segunda vez. Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? - a frase original - era o carro-chefe de qualquer professor de latim que se prezasse; intelectualmente construía a primeira aula, era a nossa apresentação àquela língua que para a maioria não tinha a menor serventia, a não ser aos futuros bacharéis, o que não era o meu caso. A frase é atribuída a Cícero, que a repetia insistentemente no senado romano, questionando o limite da paciência do povo romano das atitudes impróprias e incoerentes do general Lucius Sergius Catilina. As duas primeiras letras do nome do general inconscientemente me impelem a cismar numa coincidência atroz, mas, deixa pra lá… Substitua-se Catilina por nomes e/ou situações atuais, a exemplo do exercício de imaginação que desenvolvi no início deste artigo, e a frase parece ter sido pronunciada ontem, e não há dois mil anos.

Pois a caterva "aloprada" aprontou mais uma! Um milhão e setecentos mil reais seriam pagos por um dossiê de eficiência e origem duvidosas. Um milhão e setecentos mil reais, entre valores genuinamente tupiniquins, acrescidos das tão disputadas notinhas esverdinhadas. Você, votante do candidato-presidente, que recebe um salário mínimo por mês, seja trabalhando, seja do bolsa-família, ou até como aposentado, tem idéia de quanto representa esta quantia? É exatamente o que você ganharia no período de 405 anos, é claro, se o Criador permitisse que você vivesse por todo este tempo. Se você ainda não racionalizou e deglutiu perfeitamente o alcance da frase anterior, eu tenho a paciência que Cícero tanto implorava ao povo romano, e explico com mais detalhes: para entrar de posse desta dinheirama, você teria que trabalhar durante pouco mais de quatro séculos e, se durante todo esse tempo não se alimentasse, não precisasse adquirir roupas, não ficasse doente, não fosse a uma partida de futebol, não tomasse uma cervejinha, não festejasse o aniversário de um filho, você teria juntado o suficiente para comprar o dossiê Cuiabá. É tanto dinheiro, que o povo foi privado de vê-lo em fotos e, porque não, admirá-lo, pois é uma quantia que a maioria dos mortais jamais poderá apalpar, que dirá possuir (exceção ao ganhador da mega sena acumulada de hoje). Pelo menos, que nos dessem esse prazer…

E mesmo com toda esta quizilenta situação, gerada pelo próprio Partido dos Trabalhadores, os três principais institutos de pesquisa e consultoria continuam apregoando a vitória do candidato-presidente ainda no primeiro turno. O censo da mineira Sensus - Pesquisa e Consultoria, divulgado hoje (27.09.2006) nos principais jornais do país - com o perdão do trocadilho - é um contra-senso, um disparate ofensivo à inteligência de brasileiros que - ainda - pensam e raciocinam.

Apesar de tê-lo feito em artigo anterior, faço questão de novamente citar José Stelle, pensador brasileiro radicado no exterior: "Não vou por ibopes, e sim pela lei natural, pela sensibilidade, e pela razão. E leio as entrelinhas das conversas com parentes e outros no Brasil, por telefone ou quando visito. O tom de voz, as respostas descuidadas, as projeções da Síndrome de Estocolmo, o que Ayn Rand denominou a sanção da vítima - tudo isso mostra o efeito da desinformação petista. Isso não ocorre só com eles, mas no país todo".

Basta que, de cada 10 eleitores que pretendessem votar no candidato da situação, um, apenas um em cada dez, troque de lado, insatisfeito com os escândalos presenciados e vividos com uma impressionante regularidade e definitivamente incorporados ao nosso cotidiano, e a vitória no primeiro turno tão apregoada com altivez, arrogância, presunção e sobrançaria, caia fragorosamente por terra.

Se eu estiver enganado, dou mão a palmatória, e mesmo professando outra religião, vou pessoalmente encabeçar uma petição ao Papa Bento XVI (só faltava ser Bento XIII) exigindo do Vaticano que o "homem" seja alçado à condição de santo, pois depois de tudo o que aconteceu no país, eleger-se no primeiro turno, só um milagreiro! A propósito, tendo em vista que inesperadamente o artigo transmigrou de política para religião, gostaria de encerrá-lo com uma citação do Talmud: "Tente evitar a pobreza, ensinando a cada homem um ofício. Experimente todos os métodos antes de permitir que ele seja alvo da caridade, que pode degradá-lo, por mais ternos que sejam seus sentimentos para com ele". Amém.

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* Apesar de no site Google constar 19.000 a citação quosque tandem…,sistematicamente com esta mesma grafia, segundo correção do meu bom amigo José Stelle, a grafia correta seria quousque. Pelas gramáticas consultadas, tudo leva a crer que o Stelle tem razão. Aguardo comentários.

criado por projetosnumericos    12:57 — Arquivado em: Opinião, Política

23/9/06

Os velhinhos de Taubaté e Gravataí

Davi Castiel Menda

"Estamos disputando a eleição mais desigual da história da humanidade. Somos 120 milhões de eleitores contra apenas 500 corruptos, e provavelmente vamos perder". Solon Magrisso

A década de 50 é considerada o marco inicial da utilização de computadores no processo político - americano, evidentemente - programados para prever, ao final do dia das eleições, baseados nos primeiros resultados, o desfecho mais provável. Na experiência pioneira, as previsões indicaram a vitória de Eisenhower sobre Stevenson, com percentuais rigorosamente e assombrosamente corretos, incentivando os analistas e cientistas políticos a adotarem e aprimorarem o processo. O primeiro político a recorrer ao computador na preparação da sua campanha eleitoral foi Kennedy, com sua equipe projetando eleições simuladas.

O cientista político Eugene Burdick se tornou célebre ao escrever um romance - The 480 - em 1964, prevendo como seria uma campanha presidencial em que as estratégias fossem todas comandadas pelo computador. O autor advertia "que o aperfeiçoamento da mercadologia, combinado com análise das reações dos eleitores computados, acabaria liquidando com o processo eleitoral democrático". Ninguém ligou para a advertência e hoje em dia todos os principais candidatos políticos usam computadores para depurar informações, além de eleições simuladas como teste para a avaliar a estratégia a ser empregada na campanha.

É uma pena, que decorrido meio século (uma eternidade) daquela primeira e bem sucedida experiência americana, sou obrigado a lamentar, como brasileiro, que continuamos na idade-da-pedra neste avanço tecnológico, seja através dos resultados divulgados pelos institutos de pesquisa , pela má utilização dos próprios candidatos, quando não pela descrença dos mesmos quando não-líderes nas pesquisas. Para ilustrar e defender minha tese, sou incitado a recorrer a uma figura da nossa literatura política-humorista: refiro-me à Velhinha de Taubaté, personagem de Luiz Fernando Veríssimo. Mesmo tendo seu falecimento anunciado pelo seu criador, em 19.08.2005, na crônica intitulada Velhinha de Taubaté (1915-2005), para quem conviveu tanto tempo com sua presença, ela continua bem viva e definitivamente incorporada ao nosso dia-a-dia (segundo Veríssimo, ela teria morrido em frente à TV, decepcionada com o quadro político brasileiro, em especial com o seu ídolo, Antonio Palocci).

"Os governos mudam, as promessas se renovam, as autoridades nem tanto, mas se há uma coisa firme no país, é a crença da Velhinha de Taubaté no governo". Pois bem (ou talvez mal), as pesquisas para presidente nestas eleições de 2006 transformaram todo o povo brasileiro, do mais humilde ao mais esclarecido cientista político em "velhinhas de Taubaté" - todos acreditando piamente nas pesquisas eleitorais que indicam a vitória do candidato da situação já no primeiro turno.

Inconformado com aquela insistente divulgação, exaustivamente trabalhada - de que as eleições presidenciais seriam decididas já no primeiro turno - e na verdade curioso de "como um candidato que enfrentou uma turbulência jamais vista nos anais políticos do Brasil, batizada com o sugestivo título de mensalão, com funcionários, secretários, deputados e ministros de seu partido envolvidos direta ou indiretamente, em menos de um ano após o affaire conseguiu atingir o índice de 50% na intenção de votos nas pesquisas? Ou é um caso de indenidade excepcional ou os números não estão refletindo a realidade". - escrevi o artigo Pesquisa eleitoral para presidente - números não fecham…

E agora, para apoquentar a vida do PT - e usando do jargão turfístico - que "levava de barbada" esta eleição, surge um novo - mais um - complicador, de amplo conhecimento de todos (o caso do Dossiê Cuiabá), que na verdade será a tábua de salvação de todos os institutos de pesquisa, jornais, rádios e TV, para justificar a realização do segundo turno.

No dia 21.09.2005, ao ser divulgada a última pesquisa do Ibope pelo Jornal Nacional, era de se notar o constrangimento estampado pela apresentadora, ao enunciar a queda de tão somente 1% na intenção de votos ao candidato-presidente, mesmo depois do último (será mesmo o último, ou ainda tem mais?) escândalo patrocinado pelos integrantes do PT.

Ontem (22.09.2006), o provedor Terra, na sua página principal, realizou uma enquete nacional: você acredita que uma virada é possível na eleição presidencial? Desconheço o resultado final, mas às 17.25 horas, os internautas que haviam respondido sim, que acreditavam numa mudança, somavam 52.536 votos, num percentual de 64% sobre o total, um número considerável, e  bem acima dos 50% de intenção de votos apregoados ao candidado-presidente. Aritmeticamente raciocinando, 64% mais 50%, por mais que se tente, não é um resultado muito acreditável, pois nos bancos escolares aprende-se que percentuais (teoricamente falando) devem somar sempre cem por cento.

Apesar de estarmos na reta final, e mesmo os institutos e datas da vida divulgando clamorosa e insistentemente a vitória de Lula no primeiro turno, continuo a duvidar. Será que somente às 17 horas do dia primeiro de outubro, encerradas as eleições, é que divulgarão a realização do segundo turno?

Se porventura eu estiver certo nas minhas previsões, tenho todo o direito de criar um novo personagem em contra-ponto à Velhinha de Taubaté: o Velhinho de Gravataí - aquele que não acredita em pesquisas! A bem da verdade, em pesquisas fundamentadas ele acredita - o que roda por aí é quiroscopia.

criado por projetosnumericos    19:21 — Arquivado em: Opinião, Política

21/9/06

2066: dia de eleição

Davi Castiel Menda

"O que acontece quando a presidência se torna uma tarefa tão descomunal e complexa que nenhum homem é capaz de resolver sozinho?" - Michael Shaara

Um dos ditos mais conhecidos e já incorporado ao anedotário popular, atribuído a operários, quando na procura de emprego, é a afirmação simplista de que "na situação que eu estou, até de engenheiro eu pego"!
Por ter trabalhado durante oito anos na construção civil, posso afirmar e testemunhar de que, se realmente esta situação utópica - o oferecimento do cargo de engenheiro a um operário sem qualificação profissional - ocorresse, existiria uma probabilidade muito próxima de 100% do operário aceitá-la, mais pensando na resolução dos seus problemas financeiros e pessoais do que propriamente nas atribuições e responsabilidades que o cargo requer. Na verdade, não é tão utópica assim, pois algumas empresas - uma minoria, é claro - ligadas ao setor, que trabalham por regime de administração, costumam promover alguns funcionários a cargos bem acima da sua capacitação profissional, proporcionando-lhes um salário mais elevado e, em conseqüência, aumentando seu faturamento (da empresa), pois seus ganhos são calculados sobre a folha de pagamento.

E o que tem a ver operários ocupando especulativamente o cargo de engenheiros com dia de eleição? A melhor resposta eu fui encontrar numa citação de Harry Larkin, personagem fictício do escritor Michael Shaara em conto publicado em 1956, lembrando-se da sua infância: "Naquele tempo havia exames para tudo - não se podia obter um emprego de gari sem fazer concurso para funcionário público - mas para os cargos mais importantes não se exigiam qualificações. E primeiro os psicólogos, depois a imprensa, começaram a dizer que isso era uma calamidade nacional. E, em vista do calibre de certos figurões que ocupavam plano destacado na vida pública do país, não havia dúvida que era mesmo. Mas aí os testes psicológicos passaram a ser indispensáveis, transformando-se realmente em ciência exata, de maneira que se tornou possível fazer a triagem completa de cada candidato - do nível de conhecimentos, potencial e personalidade".

2066: dia de eleição (o conto de Michael Shaara) foi publicado exatamente há 50 anos, mas pela sua previsibilidade e clarividência se identifica com uma leitura muito atual. Aproveitando o gancho, não está na hora de dar um basta a candidatos sem o menor preparo e condição, que se utilizam - valendo-se do horário eleitoral gratuito - dos meios mais esdrúxulos, burlescos, abstratos, grotescos e outros adjetivos que os limites da educação e da ética me impedem de expor, para atingir seus objetivos eleitoreiros, aliás, um prato cheio para o estudo da demopsicologia? Todos esses candidatos que se apresentam como salvadores da pátria, será que porventura tem um mínimo preparo para representar uma comunidade, seja em âmbito municipal, estadual ou federal, desde a vereança até a presidência da república?

Pensando no interesse nacional, no bem comum de 180 milhões de brasileiros, não está na hora de se eleger, abrir aspas, os candidatos que reunissem os melhores predicados, fechar aspas, independente de quaisquer circunstâncias, de partido, cor, religião ou raça? Eu, pessoalmente, descarto candidatos com conhecimentos genéricos, alguns semi-analfabetos, imbuídos de magnanimidade patusca, com uma vontade férrea e "desinteressada" de resolver os meus (e os seus) problemas de educação, saúde e segurança. Quero sumidades, quero candidatos submetidos a uma triagem completa que avalie seu potencial e personalidade, que sobressaiam às outras pessoas por seus talentos e saber em todas as áreas, que sejam preparados desde os bancos escolares mais primários para ocupar estes cargos. Os brasileiros estão fartos da política praticada de maneira amadora e da politicalha.

Harry Larkin, nosso herói imaginário, mas ao mesmo tempo tão convincente, se elege como primeiro mandatário dos Estados Unidos em 2066, e ao visitar o presidente ainda no cargo, recebe o seguinte conselho: "Se eu assino uma lei fiscal, preciso entender bastante de legislação tributária para ter certeza que a lei é conveniente. Se endosso uma ação policial, devo estar certo de que a estratégia correspondente é militarmente eficaz". "O cargo é responsável pelos atos que pratica. Tem que continuar responsável. Não se pode aceitar simplesmente a palavra de terceiros…".

Michael Shaara, você não escreveu este conto em 1956; ocorreu algum transtorno einsteiniano! Você estava de visita ao Brasil e escreveu isto ontem - ontem não - hoje!

criado por projetosnumericos    15:56 — Arquivado em: Opinião, Política

19/9/06

As urnas eletrônicas e a zerézima

Davi Castiel Menda

"Se você acredita que a tecnologia pode resolver seus problemas de segurança, então você não conhece os problemas e nem a tecnologia."
Bruce Schneier

O Titanic, em sua viagem inaugural, ao zarpar de seu porto de origem, ostentava o título de insubmergível, e era tanta a autoconfiança do engenho humano, que os jornais da época afirmaram que "Nem Deus poderia afundar esse navio". Bill Gates, o papa da informática, em 1981, nos brindou com a pérola "640 kb de memória é mais do que suficiente para qualquer um". Thomas Watson, presidente da IBM, em 1943: "Penso que há talvez no mundo um mercado para cinco computadores". Mas a campeã das afirmações estapafúrdias deva ser creditada a Charles Duell, Diretor do Departamento de Patentes dos Estados Unidos, em 1899: "Tudo que podia ser inventado, já o foi", propondo inclusive o fechamento dos escritórios que dirigia. Pelos exemplos, concluímos, já no início do artigo, de que afirmações exageradamente desmedidas tendem, com o passar do tempo, a mostrar-se equivocadas, quando não beirando ao ridículo.

Implantada no Brasil em 1996, a votação eletrônica, segundo o TSE, baniu de vez a possibilidade de fraude eleitoral, com a afirmação dogmática de que o sistema é seguro, indevassável. Entretanto, estas condições até hoje são questionadas por estudiosos, programadores, os próprios partidos, e porque não, por boa parcela da população brasileira.

Alguns defensores das urnas eletrônicas, na ânsia de afirmar que o sistema é infalível, declaram com ares de ufanismo simplório que o Brasil, ao comercializá-las para outros países, está exportando democracia(!), embaralhando comércio e tecnologia com patriotada. Paulo Gustavo Sampaio Andrade, editor do site Jus Navigandi, traduz de forma muito simples e direta a opinião de quem põe em dúvida a assertiva governamental: "Se o sistema eletrônico eleitoral é imune a fraudes, considerada uma suposta perfeição técnica e a natureza biológica das pessoas envolvidas" - compara ele - "o sistema financeiro já teria adotado o projeto e contratado as pessoas que criaram e utilizam o sistema eleitoral eletrônico para pôr fim aos inúmeros golpes existentes, por exemplo, nos caixas eletrônicos e nos bancos via internet".

A desconfiança baseia-se em dois pontos cruciais. O primeiro, é saber se realmente o voto digitado a um determinado candidato é efetivamente computado e creditado a ele. O segundo questionamento é a probabilidade de violação da identidade do eleitor, a exemplo do acontecido em recente episódio no Senado, quando determinado grupo teve acesso a quem votou em quem.

O Eng. Amílcar Bruzano Filho, um especialista na área, compara a urna eletrônica à "uma máquina de votar inauditável, uma verdadeira caixa preta da qual nenhum partido político, fiscal ou auditor externo ao TSE, jamais teve acesso para conferir sua integridade". E complementa Bruzano: "o que o TSE chama de auditoria é colocar alguém em frente à urna. Isso não é o processo de exame de um sistema, mas um artifício. Um show".

O povo em geral - onde eu me insiro - pouco acesso tem ao assunto, mas pesquisando, toma-se conhecimento de que existem dois Sistemas Operacionais vigentes: o VirtuOs (que pertence a uma empresa privada) e o Windows CE, com mais de seis mil programas e dois milhões de linhas de código, tornando muito difícil a sua análise, se é que estão disponíveis. Esta falta de transparência é que compromete o primeiro pilar de um legítimo processo eleitoral: a votação. Os outros dois são a apuração e a fiscalização. A fase de apuração nos remete às eleições de 1982 no Rio de Janeiro e a famigerada Operação Proconsult, nome da empresa encarregada de proceder à apuração e que teve como objetivo "virar" os resultados de uma eleição já ganha por Leonel Brizola sobre o candidato do Governo federal na época, Moreira Franco. A sistemática consistia em sonegar os resultados da capital (dois terços do eleitorado), onde Brizola alcançara 70% dos votos, e só divulgar uma média da apuração no interior do estado, onde Moreira era majoritário. Não fosse a pronta intervenção de Brizola, exigindo falar à nação pela Rede Globo - que insistia em divulgar a vitória de Franco - a história seria diferente. Quanto à fiscalização, é totalmente inócua - se é que existe - fautor que provoca a incredulidade no sistema.

Existem n maneiras possíveis de fraude na votação, o TSE tem a obrigação de conhecê-las e toda a comunidade digital espera que as coíba com sucesso, mas nada impede de enumerá-las: clonagem de urnas; engravidamento da urna, com mesários em conluio na ausência de fiscais; fraude na apuração, já que o boletim de urna impresso quando do encerramento da eleição nem sempre é entregue ao fiscal; possibilidade de fraude no programa implantado na urna; adulteração dos programas originais implantados nas urnas; e por último, o maldito vírus - e por trás dele os crackers - que tanto mal tem causado em todas as áreas de atuação onde o computador está presente.

Mas afinal, o que é zerézima, presente no título deste artigo? É o neologismo criado pelos técnicos do TSE para indicar que cada candidato, no início do processo eleitoral, tem na verdade zero votos. É a garantia de que todos partem realmente do zero. Lamentavelmente, não é garantia nenhuma, já que qualquer programador, mesmo principiante, sabe perfeitamente que é possível digitar algo, a impressora reproduzir este algo, mas armazenar "o que se quer" na memória do computador. É uma pena que toda a garantia que o TSE nos ofereça seja apenas a zerézima, ou seja, zerézima garantia.

criado por projetosnumericos    9:07 — Arquivado em: Destaques em 2006, Opinião, Política

14/9/06

Urnas Eletrônicas - confiáveis ou não?

“O que importa não é quem vence, e sim quem conta os votos” – Joseph Stalin

Davi Castiel Menda

Antes que você, prezado eleitor brasileiro, tente me desqualificar, gostaria de lhe lembrar de que, em 1982, quando você talvez nem conhecesse o vocábulo computador (ou quiçá tivesse nascido), eu já tivera três deles e, indignado por outros brasileiros não poderem desfrutar daquele aparelhinho que prometia ser um dos maiores avanços tecnológicos da humanidade, eu, com dois outros amigos, instalamos uma fábrica de computadores. Veja bem, Fábrica, e não uma montadorazinha de fundo de quintal. E um computador que deu o que falar na época. Portanto eleitor brasileiro – de computadores, eu entendo!

Antes que você, prezado eleitor brasileiro, tente me desqualificar, gostaria que acessasse o Google, digitando meu nome completo, e você vai verificar que meus conhecimentos matemáticos e estatísticos são reconhecidos nacionalmente. Portanto eleitor brasileiro – de matemática, eu entendo!

Antes que você, prezado eleitor brasileiro, tente me desqualificar, gostaria que lesse trechos de dois artigos abaixo, publicados em Zero Hora:

14.11.85 – Apuração paralela – Enquanto os computadores do TRE estiverem trabalhando no resultado das eleições, a 111a. Junta Eleitoral já terá o resultado das 270 mesas que a constituem. Isto porque a Junta contará com a ajuda de um computador e de uma programação feita por empresa especializada.

A bem da verdade, gostaria de lhe informar que a empresa especializada era de minha propriedade e a programação pessoalmente desenvolvida por mim (a cessão do micro e do software foi totalmente graciosa).

19.11.86 – Microcomputador é o sucesso da 111a. Zona – Uma economia de tempo de 40 minutos em cada urna apurada é o resultado da experiência que deu certo já no segundo ano consecutivo, na junta apuradora da 111a. Zona: a utilização de um microcomputador, cortesia do secretário da Junta, Davi Castiel Menda.
…..
No entanto, Davi Castiel, a convite do presidente da Junta Apuradora, Juiz Jorge Perrone, sofisticou o serviço da Secretaria, através do computador. Etc. etc. etc.

Portanto prezado eleitor brasileiro – de apuração de eleições, eu entendo!
——————————-

Mas o assunto é “Urnas Eletrônicas”. Afinal, pode-se confiar nelas ou não? Comece lendo um trecho de artigo publicado por Ipojuca Pontes em 29.08.2006:

“Por sua vez, o leitor Rodolfo Hazelman, advogado em São Paulo, capital, ficou estupefato quando viu numa reportagem do Jornal da Band, um empresário de Guarulhos comprovar, a partir de dados fornecidos pelo próprio TRE, a ocorrência de fraudes nas urnas eletrônicas, na última eleição municipal daquela cidade. Ele acha o fato da maior gravidade, visto que, no Brasil, as urnas eletrônicas são vendidas como à prova de fraude - quando, de fato, não são”!

Já o leitor de nome Márcio, mais audacioso, identifica a irregularidade dos números das pesquisas em favor do candidato-presidente como uma espécie de preparação psicossocial para contestar o futuro resultado das urnas eletrônicas fraudadas. Para dar credibilidade a sua argumentação, Márcio informa, depois de transcrever substanciosa aula sobre urna eletrônica, que a única possibilidade de se garantir a integridade das urnas é o acoplamento de uma impressora dentro do aparelho, que por sinal já existe, mas que, "por proibição de Nelson Jobim (ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral), não deverá ser usada para imprimir os votos" comprobatórios.

Na aula técnica transcrita, feita pelo especialista Carlos Tebecherani, é assinalado que se o programa (software) da contabilidade dos votos for alterado para que desvie somente 1 voto em branco (ou nulo) por urna, para um determinado candidato ou legenda partidária, só em São Paulo, por exemplo, cerca de 85 mil votos poderiam ser "remanejados". Sobre a "inauditabilidade" das urnas eletrônicas, uma eterna preocupação do falecido engenheiro Leonel de Moura Brizola, o especialista Tebecherani - apoiado em análises de professores e cientistas dos mais diversos centros de ensinos nacionais e internacionais - considera que os seus programas "são facilmente passíveis de alteração", sendo a própria "urna passível de ataque externo sem que o lacre que a encerra seja rompido".

—————————————–

Continuando este despretensioso artigo, cito trechos do escritor, editor, pensador e intelectual José Stelle (que na sua modéstia se auto-intitula tão somente aspirante a political philosopher) em e-mails a mim dirigidos, e antecipadamente peço-lhe perdão por dar ciência aos que os lêem, sem saber da sua concordância ou não em editá-los. Se eu não os divulgasse, estaria pensando e agindo egoisticamente no meu bem próprio, sem considerar aos interesses alheios.

“Mas devemos levar em conta que a fraude eleitoral pode causar distúrbios. O PT não vai simplesmente aceitar ser alijado do poder. Eles pensam ter a deusa HISTÓRIA do seu lado, o que justificaria tudo. E como disse Stalin: “O que importa não é quem vence, e sim quem conta os votos”.

Esta última frase é genial, e não sei se o mérito deva ser dado ao autor, Stalin, ou ao Stelle (afinal, são quase homônimos) que a garimpou! Mas prossegue Stelle:

“Não vou por ibopes, e sim pela lei natural, pela sensibilidade, e pela razão. E leio as entrelinhas das conversas com parentes e outros no Brasil, por telefone ou quando visito. O tom de voz, as respostas descuidadas, as projeções da Síndrome de Estocolmo, o que Ayn Rand denominou “a sanção da vítima” - tudo isso mostra o efeito da desinformação petista. Isso não ocorre só com eles, mas no país todo. Além disso, o Lula não banca na classe média; a base dele está na classe baixa, que é a maior. Uma clínica de bairro que salva uma criança, ou dispensa um remédio grátis, vale mais que um quarteirão da burguesia, que já é socialista de certo modo, quando não de verdade. Classe média e alta é sobremesa; come se tiver”.

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Para concluir, resumo a minha opinião em simples constatações:

- os maiores conglomerados do mundo, os bancos que giram com fortunas imensuráveis, as empresas aéreas, a Nasa que lida com um orçamento bilionário, e até o Pentágono, que teoricamente deveriam operar com os softwares mais indevassáveis, ainda hoje sofrem ataques permanentes de crackers (termo usado para designar quem quebra um sistema de segurança, de forma ilegal ou sem ética – o termo foi criado em 1985 pelos hackers em defesa contra o uso jornalístico do termo hacker). Se a sua memória não é curta, prezado eleitor brasileiro, deve se lembrar de recente episódio no Senado – invasão do painel de votação - que inclusive originou a renúncia do todo poderoso Senador Antonio Carlos Magalhães.

- o questionamento, analisando a situação com a frieza e imparcialidade que o assunto requer, não é a urna propriamente dita - não conheço sua sistemática interna e nem vem ao caso conhecê-la. O problema é o depois: o day after. É a manipulação (termo que pode – e na verdade é o que pretendo - produzir interpretação ambivalente) que sofre o processo quando os dados são totalizados e passam a ser digitados manualmente. É o ponto fraco, o calcanhar de Aquiles. Morreu o controle. Foi-se a garantia. Acabou a confiança – o processo passa a ser humano e todos nós sabemos que nestas condições a falibilidade se diz presente.

- quais os motivos das grandes potências, com inegável superioridade sobre nós, tanto em hardware como em software, até hoje não utilizarem semelhante sistema?

Lamento. Como brasileiro e programador, gostaria de acreditar na lisura e na infalibilidade do sistema, mas quem afirma que as urnas eletrônicas são à prova de fraude, provoca risos na comunidade ligada à informática – e não são poucos.

criado por projetosnumericos    20:49 — Arquivado em: Opinião, Política

4/9/06

Pesquisas Presidenciais- Números não fecham…

Davi Castiel Menda (*)

"Numa cidade de n + 1 habitantes, uma pessoa conta um boato a uma segunda, a qual, por sua vez, o repete a uma terceira, etc. A cada passo a pessoa que recebe o boato é escolhida aleatoriamente dentre as pessoas disponíveis. Ache a probabilidade de que o boato seja transmitido r vezes sem voltar à primeira pessoa que o contou".
Este problema foi originado e apresentado por de Mèré, em 1654, a Pascal, e, respeitadas as proporções - mesmo decorridos 352 anos - e acrescido dos modernos meios de comunicação, nunca foi tão atual!

Nas últimas eleições presidenciais, o atual Presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve exatos 46,44% de votos no primeiro turno. O que não consigo inferir, com todo o meu discernimento matemático cultivado ao longo de seis décadas - e gostaria (sinceramente) que alguém me explicasse - como um candidato que enfrentou uma turbulência jamais vista nos anais políticos do Brasil, batizada com o sugestivo título de mensalão, com funcionários, secretários, deputados e ministros de seu partido envolvidos direta ou indiretamente, em menos de um ano após o affaire conseguiu atingir o índice de 50% na intenção de votos nas pesquisas. Ou é um caso de indenidade excepcional ou os números não estão refletindo a realidade.

Um dos pilares (o principal) em que se baseiam aqueles que acreditam piamente nos resultados destas pesquisas, e a conseqüente vitória de Lula já no primeiro turno, seria a supremacia do candidato-presidente na região Nordeste. Vamos ao mapa:

O Nordeste compreende nove estados brasileiros e seu universo representa apenas 27,11% do eleitorado brasileiro. Pouco mais do que um quarto dos eleitores não pode, jamais, decidir uma eleição; ajuda, isto sim. Nos aprofundando um pouco mais nas caatingas nordestinas, deparamos com o maior estado da região, a Bahia do cacique ACM e seu candidato a governador Paulo Souto. Mais uma vez a tão propalada superioridade numérica do PT no nordeste é questionada: Paulo Souto (PFL) tem 52% das intenções de voto e o candidato governista-petista Jaques Wagner (ex-ministro) tão somente 16%. Admitindo que todos aqueles que votarem em Paulo Souto concedam também, por lógica, seu voto a Alckmin, só aí já seriam 4,7 milhões de votos ao tucano. Se você pensa que é pouco, isto representa 3,2% dos votos de todo o país - só na Bahia!
Em Pernambuco, a história se repete: o candidato ao governo, pelo PFL, Mendonça Filho, leva 12% de vantagem nas pesquisas sobre o candidato Humberto Costa (ex-ministro) do PT: mais dois milhões de votos ao candidato Alckmin. E assim por diante…
Num apanhado geral, na região onde pretensamente o PT afirma que vai decidir as eleições, leva vantagem nas pesquisas para o governo do estado somente no Piauí e em Sergipe - dois estados em nove! Convenhamos, é muito pouco…

Do Nordeste pulamos para o Norte, região com o menor colégio eleitoral brasileiro: 7,00% dos eleitores, metade deles residindo no Pará. E, curiosamente, quem está à frente nas pesquisas ao governo do estado? O candidato do PSDB Almir Gabriel com 20 pontos percentuais de vantagem sobre a candidata petista. E mais uma vez a mesma leitura: sete estados e em apenas um (Acre - Binho Marques) o PT leva vantagem.

Centro-oeste - 7,06% do eleitorado. Nos quatro estados da região, o único candidato petista ao governo que aparece entre os dois melhores posicionados na intenção de votos é Delcidio Amaral pelo Mato Grosso do Sul. Está em segundo: 38 pontos percentuais o separam do candidato que lidera. Nem a sua constante visibilidade na TV, na condição de presidente da CPI dos Correios, o ajudou.

Na região Sul - 15,12% dos eleitores: nos três estados os candidatos pelo PMDB lideram a intenção de votos a governança do estado. No Rio Grande do Sul, as pesquisam apontam empate técnico entre os dois principais candidatos à presidência. Desconheço a situação de Santa Catarina e Paraná, mas sei que os candidatos ao governo de seus respectivos estados Luiz Henrique (SC) e Roberto Requião (PR) apóiam Geraldo Alckmin.

E finalmente a grande massa votante: o Sudeste. São 55 milhões de eleitores - 43,70%, já que abrange os três maiores colégios eleitorais do país: só em São Paulo são 28 milhões de eleitores! Lá, José Serra, que pelo menos (!) deveria ser o maior cabo eleitoral de Alckmin, leva vantagem sobre Aloizio Mercadante (PT) em 28 pontos percentuais. Se transferidos os votos de Serra para Alckmin (e por que não?), somente no estado de São Paulo, o candidato que está em segundo nas pesquisas presidenciais apregoadas, teria a "bagatela" de 12,9 milhões de votos - mais de 10% dos votos válidos em todo o Brasil. Nas Minas Gerais, do já reeleito governador pelo PSDB, Aécio Neves, a vantagem sobre o candidato do PT é acaçapante - 62 pontos percentuais: mais 9,4 milhões de votos para a bagagem de Alckmin.

Poderia me estender estado por estado, mas isto se tornaria enfadonho. Apenas para concluir este estudo, no somatório dos votos de apenas quatro estados, acima analisados individualmente, Bahia (4,7 milhões), Pernambuco (2,0 milhões), São Paulo (12,9 milhões), Minas Gerais (9,4 milhões), dariam a Alckmin 29 milhões de votos - 23% do total nacional - numero já superior ao atribuído (na soma dos 27 estados) nas pesquisas divulgadas insistentemente pela mídia. Será que no Rio de Janeiro, Espírito Santo, região Sul, e em todos os outros estados brasileiros Alckmin não fará nenhum voto?

O que se depreende de tudo isto, pelos baixíssimos índices eleitorais do PT, é a tentativa de dissimular e desvincular o candidato à presidência pelo PT, do PT. Na verdade, o PT não tem candidato já que o candidato que deveria ser do PT é candidato de si mesmo!

O candidato-presidente pode até ganhar a eleição, já que a máquina administrativa-partidária-governamental tem trabalhado full time e usando de todos os meios possíveis e inimagináveis para atingir este objetivo. Mas ganhar no primeiro turno?! A quem querem enganar? Por favor, senhores…

(*) Davi Castiel Menda, o autor deste texto, é conhecido como um dos maiores estudiosos sobre Loterias no país (leia-se Estatísticas), o que pode ser comprovado pela extensa aparição na imprensa escrita e falada, inclusive tendo o fato sido citado no Senado Federal, durante sessão daquela Casa, pelo Senador Demóstenes Torres. O autor é totalmente apartidário (vota em indivíduos, não em partidos) e, mesmo o voto sendo secreto (se é secreto, como os pesquisadores de campo dos Institutos de Opinião podem inquirir eleitores sobre suas preferências eleitorais?), faz questão de abrir seu voto: Cristovam Buarque. E na sua nominata para o dia primeiro de outubro, há inclusive candidato do PT.

criado por projetosnumericos    11:43 — Arquivado em: Política
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