20/1/07
Piro e outras manias . Parte II
Davi Castiel Menda
Advertência: leia advertência na Parte I deste artigo.
- continuação -
Em estudos realizados em indivíduos com o transtorno da piromania, chegou-se a conclusão de que existe para eles uma fascinação, um interesse, curiosidade e atração pelo fogo e seus contextos situacionais. São espectadores regulares de incêndios, sentem prazer em acionar alarmes falsos, são vistos freqüentemente próximos ao corpo de bombeiros e - até mesmo - aspiram tornar-se um deles! A satisfação é sentida ao provocar incêndio, ao testemunhar seus efeitos ou participar de seu combate. Normalmente não envolve ganhos monetários e estão mais ligados a expressar uma ideologia sócio-política, uma atividade criminosa, expressar raiva ou vingança ou uma resposta a delírio ou alucinação.
A distância temporal do crime de Eróstrato e o pseudo-envolvimento de Nero no incêndio de Roma, somados às características diagnósticas dos indivíduos com piromania, ainda não são suficientes para nos sensibilizar. A medida em que avançamos no texto e no tempo, aí sim, os fatos ficam mais e mais chocantes pela proximidade, e vamos nos dando conta da realidade nada dignificante da doença.
Em 1233 o Papa Gregório IX editou duas bulas que marcaram o início da Inquisição, que perseguiu, torturou e matou vários dos seus inimigos, ou quem ela entendesse como inimigo, acusando-os de hereges ou bruxaria. Os réus poderiam ser torturados (inclusive crianças e velhos), presos, enviados para galeras ou levados à fogueira. Se durante o processo o preso viesse a falecer, a Inquisição mandava queimar os restos mortais do herege e jogar suas cinzas ao vento. Era comum também a execução em efígie, onde era queimada a imagem do condenado, quando este fugia e não era encontrado. Livros eram levados à fogueira (nada de ineditismo - era praticamente o primeiro ato insano cometido por invasores ao dominar uma cidade, a queima de bibliotecas, numa tentativa ridícula e bárbara de varrer do mapa a cultura do povo dominado).
Voltando à prática da execução na fogueira, se essa fosse suficientemente grande, a inspiração do monóxido de carbono seria um alívio(!) para o condenado, pois o deixaria inconsciente e causaria uma morte não tão dolorosa quando as chamas atingissem o corpo. Caso contrário, uma fogueira pequena, manteria a vítima lúcida e em grande agonia por muitos minutos (no caso, uma eternidade), sendo progressivamente queimada e morrendo devido à perda de sangue ou ataque cardíaco. A literatura registra casos em que eram acrescentadas pequenas porções de pólvora ao condenado, transformando a execução numa autêntica sessão pirotécnica. O objetivo era "humanizar" a execução, já que boa parte da pólvora era colocada próxima à cabeça da vítima, que morria rapidamente devido à explosão quando o fogo a atingisse. A execução na fogueira subsiste até hoje em alguns países como a India e Quênia.
Se você acha as touradas espanholas e a farra do boi espetáculos desprezíveis, é porque não conhece os "touros de fogo", realizados periodicamente na Catalunha: o touro é atado pelos cornos, arrastado pelo povo com grande violência e conduzido até um pilar onde lhe atam a cabeça, as patas e lhe tiram o rabo. Na sua cabeça são introduzidos artigos metálicos com grandes bolas de material inflamável que são acesos antes de soltar o pobre animal, que fica envolto cada vez mais pelo fogo com suas constantes cabeçadas tentando se desvencilhar do seu tormento. Das bolas de fogo respinga um líquido incandescente que salpica nos seus olhos e nariz. A brutalidade destes espetáculos provoca profundos sofrimentos físicos e psíquicos aos animais, e contrasta com a idéia que a Catalunha (onde são realizados) quer dar ao mundo de país civilizado e europeizado. Cabe salientar que o espetáculo (aqui empregado no sentido de cena escandalosa), é assistido por milhares de pessoas que vibram enlouquecidas como se estivessem num campo de futebol (a TV Bandeirantes apresentou estas cenas recentemente num dos Vídeos Incríveis: é simplesmente repugnante e nojoso; um pouco de auto-censura seria recomendável a todas nossas emissoras). E provavelmente, pouco depois, já que a representação é à noite, os espectadores devem dormir o sono dos "justos", certamente sem o mínimo remorso, e atingindo orgasmos de satisfação e prazer bestial, sonhando com os "touros de fogo".
A auto-imolação às margens do Ganges, pelas viúvas dos recém falecidos, o suicídio por fogo e os protestos de diversos grupos minoritários, ateando fogo às próprias vestes, também devem ser lembrados, cada um deles com seus motivos específicos e peculiares. Perto de tudo que se viu, são gestos isolados e pessoais que atingem somente os agentes causadores, não prejudicando a terceiros (pelo menos fisicamente).
E finalmente chegamos ao ponto culminante e crucial do artigo, e que atinge a todos nós diretamente: o atear fogo a índios, mendigos e ônibus; no caso do último, impedindo covardemente a saída dos passageiros. Na tentativa de chantagear as autoridades ligadas à segurança, são sacrificados inocentes que morrem estupidamente porque um grupo de fascínoras presos assim determinou, e um bando de idiotas assim cumpriu. Índios e mendigos, pela sua natural passividade são presas fáceis de celerados "que só queriam brincar um pouco"; e que posteriormente, ao serem descobertos e presos, choram hipocritamente, lamentando a morte das suas vítimas.
Até quando pessoas e animais serão vítimas indefesas de piromaníacos, desequilibrados emocionais, que normalmente agem acobertados pelo anonimato? Até quando índios e mendigos serão queimados por covardes que agem em bandos, contra seres indefesos e pegos de surpresa? Até quando autoridades pusilânimes aceitarão serem ridicularizadas por inimigos que estão sob a sua guarda, presos, numa atitude de deboche sem precedentes.
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