Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

20/1/07

Piro e outras manias . Parte II

Davi Castiel Menda

Advertência: leia advertência na Parte I deste artigo.

- continuação -

Em estudos realizados em indivíduos com o transtorno da piromania, chegou-se a conclusão de que existe para eles uma fascinação, um interesse, curiosidade e atração pelo fogo e seus contextos situacionais. São espectadores regulares de incêndios, sentem prazer em acionar alarmes falsos, são vistos freqüentemente próximos ao corpo de bombeiros e - até mesmo - aspiram tornar-se um deles! A satisfação é sentida ao provocar incêndio, ao testemunhar seus efeitos ou participar de seu combate. Normalmente não envolve ganhos monetários e estão mais ligados a expressar uma ideologia sócio-política, uma atividade criminosa, expressar raiva ou vingança ou uma resposta a delírio ou alucinação.

A distância temporal do crime de Eróstrato e o pseudo-envolvimento de Nero no incêndio de Roma, somados às características diagnósticas dos indivíduos com piromania, ainda não são suficientes para nos sensibilizar. A medida em que avançamos no texto e no tempo, aí sim, os fatos ficam mais e mais chocantes pela proximidade, e vamos nos dando conta da realidade nada dignificante da doença.

Em 1233 o Papa Gregório IX editou duas bulas que marcaram o início da Inquisição, que perseguiu, torturou e matou vários dos seus inimigos, ou quem ela entendesse como inimigo, acusando-os de hereges ou bruxaria. Os réus poderiam ser torturados (inclusive crianças e velhos), presos, enviados para galeras ou levados à fogueira. Se durante o processo o preso viesse a falecer, a Inquisição mandava queimar os restos mortais do herege e jogar suas cinzas ao vento. Era comum também a execução em efígie, onde era queimada a imagem do condenado, quando este fugia e não era encontrado. Livros eram levados à fogueira (nada de ineditismo - era praticamente o primeiro ato insano cometido por invasores ao dominar uma cidade, a queima de bibliotecas, numa tentativa ridícula e bárbara de varrer do mapa a cultura do povo dominado).

Voltando à prática da execução na fogueira, se essa fosse suficientemente grande, a inspiração do monóxido de carbono seria um alívio(!) para o condenado, pois o deixaria inconsciente e causaria uma morte não tão dolorosa quando as chamas atingissem o corpo. Caso contrário, uma fogueira pequena, manteria a vítima lúcida e em grande agonia por muitos minutos (no caso, uma eternidade), sendo progressivamente queimada e morrendo devido à perda de sangue ou ataque cardíaco. A literatura registra casos em que eram acrescentadas pequenas porções de pólvora ao condenado, transformando a execução numa autêntica sessão pirotécnica. O objetivo era "humanizar" a execução, já que boa parte da pólvora era colocada próxima à cabeça da vítima, que morria rapidamente devido à explosão quando o fogo a atingisse. A execução na fogueira subsiste até hoje em alguns países como a India e Quênia.

Se você acha as touradas espanholas e a farra do boi espetáculos desprezíveis, é porque não conhece os "touros de fogo", realizados periodicamente na Catalunha: o touro é atado pelos cornos, arrastado pelo povo com grande violência e conduzido até um pilar onde lhe atam a cabeça, as patas e lhe tiram o rabo. Na sua cabeça são introduzidos artigos metálicos com grandes bolas de material inflamável que são acesos antes de soltar o pobre animal, que fica envolto cada vez mais pelo fogo com suas constantes cabeçadas tentando se desvencilhar do seu tormento. Das bolas de fogo respinga um líquido incandescente que salpica nos seus olhos e nariz. A brutalidade destes espetáculos provoca profundos sofrimentos físicos e psíquicos aos animais, e contrasta com a idéia que a Catalunha (onde são realizados) quer dar ao mundo de país civilizado e europeizado. Cabe salientar que o espetáculo (aqui empregado no sentido de cena escandalosa), é assistido por milhares de pessoas que vibram enlouquecidas como se estivessem num campo de futebol (a TV Bandeirantes apresentou estas cenas recentemente num dos Vídeos Incríveis: é simplesmente repugnante e nojoso; um pouco de auto-censura seria recomendável a todas nossas emissoras). E provavelmente, pouco depois, já que a representação é à noite, os espectadores devem dormir o sono dos "justos", certamente sem o mínimo remorso, e atingindo orgasmos de satisfação e prazer bestial, sonhando com os "touros de fogo".

A auto-imolação às margens do Ganges, pelas viúvas dos recém falecidos, o suicídio por fogo e os protestos de diversos grupos minoritários, ateando fogo às próprias vestes, também devem ser lembrados, cada um deles com seus motivos específicos e peculiares. Perto de tudo que se viu, são gestos isolados e pessoais que atingem somente os agentes causadores, não prejudicando a terceiros (pelo menos fisicamente).

E finalmente chegamos ao ponto culminante e crucial do artigo, e que atinge a todos nós diretamente: o atear fogo a índios, mendigos e ônibus; no caso do último, impedindo covardemente a saída dos passageiros. Na tentativa de chantagear as autoridades ligadas à segurança, são sacrificados inocentes que morrem estupidamente porque um grupo de fascínoras presos assim determinou, e um bando de idiotas assim cumpriu. Índios e mendigos, pela sua natural passividade são presas fáceis de celerados "que só queriam brincar um pouco"; e que posteriormente, ao serem descobertos e presos, choram hipocritamente, lamentando a morte das suas vítimas.

Até quando pessoas e animais serão vítimas indefesas de piromaníacos, desequilibrados emocionais, que normalmente agem acobertados pelo anonimato? Até quando índios e mendigos serão queimados por covardes que agem em bandos, contra seres indefesos e pegos de surpresa? Até quando autoridades pusilânimes aceitarão serem ridicularizadas por inimigos que estão sob a sua guarda, presos, numa atitude de deboche sem precedentes.

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11/1/07

Por que acumula tanto a Mega Sena

Davi Castiel Menda

Boa ou má notícia - dependendo de quem a encara - é que, os brasileiros que apostam em loterias, são em número reduzido e jogam pouco, comparativamente a outros países. Apenas 3,3% da população brasileira aposta regularmente em loterias, o que representa, num universo de 180 milhões de brasileiros, apenas seis milhões de apostadores. Esse número aumenta sensivelmente, chegando a triplicar (ou talvez até mais), no momento em que a Mega Sena acumula por várias semanas.

Aliás, este aumento de público perseguindo os milhões em jogo, é um fenômeno intrigante, considerando o poder aquisitivo de parcela significativa da sociedade brasileira. Eu explico: quando a Mega Sena não está acumulada, o valor do prêmio principal gira em torno de um milhão de reais. Nela apostam aqueles seis milhões que habitualmente fazem a sua fezinha, em busca de um prêmio que por certo resolveria financeiramente a vida de mais de 95% dos brasileiros. Este valor, um milhão de reais, se bem administrado, é muito dinheiro!

 Mas, aparentemente, para aqueles apostadores bissextos que só se inscrevem quando a Mega acumula,  a impressão que nos passa é que somente dez, vinte ou cinqüenta milhões solucionaria sua vida financeira (ou provavelmente projetando a de dezessete gerações futuras)! Enfrentam enormes e quilométricas filas, se transformam em experts economistas e investidores (haja vista as entrevistas proporcionadas pela TV), em busca dos milhões prometidos, quando - desculpe a insistência - pouco mais de alguns milhares de reais resolveria os problemas da maioria. A não ser que em seus projetos de consumo imediato esteja incluída a aquisição de um avião ou iate; nesta hipótese eu dou mão à palmatória.

Apenas a título de curiosidade, já que é irrelevante ao tema proposto, em torno de 3.000 apostadores vão à lotérica regularmente, e por inércia, indolência (ou até palpite - ou falta dele) preenchem seus respectivos cartões com exatamente as seis dezenas que foram sorteadas no último concurso (procure acessar a estatística da Mega Sena - os resultados dos concursos 308 e 309 dão sustentação a essa tese). E há também aqueles que jogam duas ou três vezes o mesmo volante, pensando salomonicamente na divisão do prêmio entre matriz e filiais.

Seguidamente sou questionado na rua, por telefone ou através de e-mails do motivo pelo qual a Mega Sena acumula tantas e tantas vezes e só encontra ganhador após vários concursos. Vou tentar, didaticamente, dar a minha opinião.

Em primeiro lugar, o que provavelmente todos já sabem, as chances de acerto são muito reduzidas: um apostador, jogando um cartãozinho simples com seis dezenas, tem uma chance em 50.063.860 ou, arredondando, uma em 50 milhões! Considere também o fato de que as dezenas de 01 a 31 (dias de nascimento) e 01 a 12 (meses de nascimento) são as mais apostadas, o que é um complicador a considerar, principalmente quando a maioria das dezenas sorteadas superar a casa dos trinta.

Outro fator importantíssimo é a repetição de combinações - se num concurso, forem apostados 10 milhões de cartões, teoricamente teríamos 20% das combinações apostadas, o que não espelha a realidade, já que algumas combinações se repetem. Abaixo, a tabela com estas projeções:

10 milhões cartões apostados - possibilidade de acumular: 82,0%
15 milhões cartões apostados - possibilidade de acumular: 74,0%
20 milhões cartões apostados - possibilidade de acumular: 67,0%
25 milhões cartões apostados - possibilidade de acumular: 60,5%
30 milhões cartões apostados - possibilidade de acumular: 55,0%
35 milhões cartões apostados - possibilidade de acumular: 50,0%
40 milhões cartões apostados - possibilidade de acumular: 45,0%
50 milhões cartões apostados - possibilidade de acumular: 37,0%

Pela tabela, chega-se a conclusão que a quantidade de 35 milhões é o limite exato em que as chances de acerto ou acúmulo se igualam. Considerando que esta venda só é atingida quando o montante em dinheiro começa a ser chamativo, a tendência natural e lógica é acumular constantemente.

E veja como é significativa essa questão da repetição de volantes, exemplificada pela última linha da tabela: o fato de existirem 50 milhões de combinações possíveis, e mesmo sendo apostados 50 milhões de cartões, a probabilidade de acúmulo é altíssima: 37%.

Está explicado?

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6/1/07

Teoria do Caos . Comentários I

José Stelle  *
 
A teoria do caos tem muita relação com a teoria econômica, especialmente no tocante aos conceitos antagônicos de (1) planificação central ou parcial (socialismo-comunismo-intervencionismo-dirigismo) - o "caos planejado", nas palavras de Ludwig von Mises –e de (2) livre ação dos agentes econômicos no mercado, sob a égide do Direito (livre mercado-liberalismo econômico-"capitalismo", no sentido ideal dessas palavras).
 
Adam Smith já em 1776, e mesmo o jesuíta Luis Molina e outros escolásticos antes de Smith, bem como alguns filósofos e historiadores gregos e romanos da antiguidade, já haviam percebido que o aparente caos do mercado era na realidade um sistema ordenado pelos preços. Num mercado relativamente livre, os preços preexistem às decisões econômicas. Ou seja, os preços são um produto social, espontâneo, como o samba e a música popular. Todos ajudam a formá-los em conjunto por intermédio do processo de mercado, mas ninguém os forma ou controla individualmente, ou mesmo os entende; e todos fazem suas decisões com base neles, aceitando-os ou rejeitando-os (abstendo-se de comprar, especulando, substituindo a laranja mais cara pela banana mais barata, etc.), em geral mesmo quando a qualidade parece ser o fator determinante.
 
Por volta de 1840 o francês Frederic Bastiat comoveu-se ao reconhecer que, embora nem ele nem o governo tivessem algo a ver com a produção, o garrafa de leite e o jornal eram colocados à sua porta todas as manhãs. Havia, escreveu Bastiat "harmonias econômicas" a serem investigadas: a demanda encontrava a sua oferta sem que as autoridades cuidassem disso. Trinta anos mais tarde, o austríaco Carl Menger estudou a harmonia econômica entre os preços e a produção de pão em Viena, descobrindo assim o marginalismo, teoria que se tornou irrefutável. (Seu discípulo Hayek denominaria uma de sua importantes obras econômicas "Prices and Production," publicada na década de 30 e  lida em sigilo na China na época da Mao.) No final da Primeira Guerra Mundial, e mais especificamente em 1922, com a publicação da obra "Socialismo," Ludwig von Mises, aluno de Menger e mentor de Hayek, anunciou a impossibilidade do socialismo.
 
Resumindo, a tese de Mises era a seguinte. Toda a fé no socialismo se baseia em duas idéias falsas. Primeiro, a de que o capitalismo, fundado na propriedade privada dos meios de produção, é caótico, anticientífico, e ineficiente, portanto gerador de escassez e pobreza. Segundo, a de que o socialismo resolverá essa ineficiência, gerando abundância e fartura pela aplicação do "socialismo científico" mediante a planificação econômica e a distribuição eqüitativa da produção. Como disse Lenin, abolidos a propriedade e os preços, a nação inteira será transformada numa só fabrica, com igualdade de salários e de distribuição. (Em sua pressa revolucionária, os socialistas esqueceram a dificuldade inicial dessa esperança, pois como a produção e a introdução de novos produtos ocorrem no tempo e sempre em quantidades insuficientes, a distribuição não poderá ser eqüitativa e "democrática" porquê alguns terão necessariamente de receber os produtos correntes ou os novos antes dos outros - no caso de produção dependente de grande capital (automóveis, por exemplo), às vezes anos antes. Mas isso, embora importante, é secundário.)
 
Qual a origem desses dois erros? Disse Mises, lembrando Smith: Existe uma  regularidade claramente observável na seqüência e interdependência dos fenômenos de mercado. (Ver sua obra "Ação Humana," publicada em português.) Portanto, o que ocorre na economia livre sob condições normais não é caótico. Todo planejamento, quer pessoal, empresarial, ou governamental, se baseia em cálculo; todo o cálculo econômico se baseia  em preços; todos os preços se baseiam no mercado; todo o mercado se baseia na propriedade privada. Onde não há propriedade não há nem mercado, nem preços, nem cálculo econômico, nem ordem econômica. O planejamento central dependeria de preços;  não tendo o socialismo um método natural de gerar preços (a propriedade privada e o mercado foram abolidos), não poderia realizar sua promessa. Ou seja, o socialismo é impossível, pois sua promessa maior, a de uma economia planificada, com abundância e fartura - de fato, o fim da fome milenar que tem assolado a humanidade — é impossível, pois o socialismo destrói a própria chave do cálculo econômico - ou seja, os preços de mercado — subvertendo assim a sua própria identidade como sistema. (O socialismo, por ser um sistema econômico primitivo e ineficiente, é também necessariamente um sistema de consumo imediato, que não investe no futuro; mas, mais uma vez, embora importante, isso é de "menos".) 
 
Essa á a famosa tese da impossibilidade do socialismo, que abalou os meios intelectuais europeus no início da década de 20, dando início ao debate sobre o cálculo econômico no regime socialista até mais ou menos 1945. Os socialistas e comunistas não sabiam como responder e o que fazer. Até hoje não conseguiram resolver esse problema, nem na teoria nem na prática. Como disse José Genoino, do PT, os socialistas devem reconhecer que não tem teoria econômica. Na recém criada União Soviética de Lenin, em que haviam morrido 7 milhões de pessoas, a maioria de fome, dada a colossal descoordenação econômica provocada pela extinção de uma economia "capitalista" primitiva, apareceu então o Novo Plano Econômico de Lenin. Esse NPE, anunciado em 1921, parece ter estado em cogitação desde 1919. Seja como for, permitiu a volta da propriedade parcial de certos meios de produção, investimentos estrangeiros, e outras liberalizações, embora sob o cinismo arrasador dos comunistas. A produção de alimentos e produtos básicos, até mesmo dos de luxo, reanimaram um pouco a economia.

(continua)

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*   Brasileiro de Curitiba, ex-jornalista, é economista amador, pintor, escritor e poeta, atualmente elaborando sua dissertação de doutorado sobre sistemas constitucionais. Reside nos EUA e estuda na Inglaterra.

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Teoria do Caos . Comentários II

José Stelle *

(continuação) 
 
Como explicar o NPE? É que Bukharin, o economista de Lenin, havia participado de seminários de economia conduzidos por Mises em Viena. Bukharin admitou mesmo que os economistas austríacos, da escola de Viena  (Menger, Wieser, Bawerk, Mises e outros de menos renome), haviam explicado a economia capitalista corretamente. Se Lenin tivesse vivido mais uns 10 ou 15 anos, a URSS provavelmente teria enveredado para os caminhos tomados pela Suécia ou mais recentemente pela China. Com a ascensão de Stalin, as coisas ficaram pretas. Entre 1928 e 1933, a fome, que retornou à URSS, foi contornada com milhões de toneladas de  cereais entregues por graneleiros ocidentais, principalmente americanos, aos portos soviéticos, o mesmo que ocorre hoje para reduzir a fome na Coréia do Norte.
 
A partir daí, mesmo o regime stalinista, que enviava milhões de donas de casa para campos de concentração por venderem legumes e galinhas criados em seus quintais (um ato capitalista), foi sustentado mais por esse pequeno capitalismo de quintal do que pela produção estatal. Na época de Brezhnev, essa realidade tornou-se motivo de investigação científica, pois dois terços da produção agrícola da URSS se originava nos quintais, não nas grandes fazendas coletivas do estado socialista.  
           
Na década de 1940, o socialista Americano Abba Lerner referiu-se a Smith, admitindo que o valor da teoria do antigo economista escocês está em seu realismo, pois reconhece que os preços constituem uma forma de disciplina que leva os agentes econômicos a tomar em conta a maioria dos fatores que incidem sobre suas decisões, o que contribui para que o mercado seja grandemente ordenado. Como lembrou Hayek nessa época (ver seus famosos ensaios "Economics and Knowledge" e "The Use of Knowledge in Society"), mesmo Trotsky criticara os soviéticos, afirmando que sem o cálculo de lucros e perdas expresso em contabilidade de partidas dobradas não pode haver ordem econômica ou planejamento. Durante toda a sua curta história, a URSS usava o sistema de preços mundiais, principalmente os do mercado americano; mas como suas condições eram muito inferiores às do mundo capitalista, seu "cálculo" econômico "socialista" era altamente defasado, não refletindo nem de perto as condições de oferta e demanda no país. O caos continuava.
 
A tese de Hayek sobre o uso do conhecimento na sociedade é uma extensão da de Mises sobre a impossibilidade do socialismo. Disse Hayek, na minha interpretação tosca: A idéia de ordem econômica via planejamento central, científico, é uma ilusão intelectual, pois os planejadores jamais poderão compreender, verificar, ou reunir todos os trilhões de fatores de produção e seus preços relativos (alguns dos quais, no pregão da bolsa, por exemplo, se modificam a cada segundo) a fim de fazer seu plano. Se conseguissem, esse plano já estaria obsoleto ao ser completado. Isso porque o conhecimento necessário é basicamente prático. Não é científico, de laboratório, ou intelectual; ele está disperso na mente e nas técnicas e conhecimentos de todos os participantes do mercado em todo o mundo, de modo que só o processo de mercado, pelo sistema de preços, pode reconhecer sua existência e levá-los em consideração pela função coordenadora que exerce automaticamente.
 
Ou seja, não é questão de caos versus ordem, de planejamento central versus desordem econômica. Os sistemas capitalistas são altamente ordenados e produtivos, e as pequenas desordens que tem resultam do impacto das  intervenções governamentais, de cunho socialista, principalmente na área monetária, e da apatia moral dos políticos. A ordem total não vem do planejamento total; vem da soma (social!) dos planejamentos que cada agente econômico faz com base nas suas necessidades, inteligência, e avaliações psicológicas (não-racionais mais não por isso irracionais) em função do sistema de preços.
 
Em seu conhecido ensaio publicado no "The New Yorker" em 1984, Robet Heilbroner, o socialista Americano mais criativo e de maior renome, admitiu finalmente que "Marx estava errado e Mises estava certo." A tese da impossibilidade do socialismo, anunciada por Mises oficialmente em 1922, foi por final aceita. Anos depois, a URSS chegou, pelo menos fisicamente, ao fim.  Como escreveu Bettina Greaves logo depois de queda do Muro de Berlim e da implosão da URSS, o sistema de preços do mercado, não o rearmamento americano sob Reagan, acabou derrotando a União Soviética".
 
No entanto, a esperança de um "sistema alternativo", socialista, é a ilusão fatídica que continua assolando a maioria dos intelectuais e flagelando a humanidade, principalmente os pobres, o elo mais fraco e imediato da cadeia social.  Derrotado na Ásia e na Europa, o caos do socialismo revolucionário tenta agora se implantar na América Latina, no solo fértil criado nos últimos 100 anos pelos socialistas latino-americanos de todos os partidos, e até com a colusão de capitalistas nacionalistas, que esperam ingenuamente usar os socialistas para impedir a concorrência estrangeira.
 
Esperamos que a fome e o arame farpado não estejam vindo por aí. Mas como as idéias tem conseqüências, é bom ficarmos atentos a esse "caos planejado", que, como sabemos, não é só ou mesmo apenas econômico, mas principalmente político, no sentido distorcido, primitivo e não raro sangrento dessa palavra.

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*    Brasileiro de Curitiba, ex-jornalista, é economista amador, pintor, escritor e poeta, atualmente elaborando sua dissertação de doutorado sobre sistemas constitucionais. Reside nos EUA e estuda na Inglaterra.

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5/11/06

A Origem do Cifrão - Contraponto

Aqueles que leram meu artigo anterior - A Origem do Cifrão - devem ter notado que tentei resgatar uma piada história, com toda singeleza possível, tão comum nos anos 40 e 50, quando a política era mais séria, os políticos idem, e o humor mais aguçado. Hoje em dia, pelo volume e velocidade, a Internet multiplicou nossas risadas, quando se trata de política & políticos, mas em contrapartida, o humor se tornou mais grosso, um humor de deboche, perdeu a finesse

Poucas horas após ter postado o blog sobre o cifrão, recebi o sempre esperado comentário do Stelle, curitibano radicado nos Estados Unidos e que faz, sem desmerecer meus outros leitores, comentários inteligentíssimos, oportunos, ferinos, que dão o que pensar, e que, muitas vezes, dão origem a outros artigos.

Nada mais justo do que divulgar seu comentário, histórico, respeitável e tremendamente elucidativo sobre a verdadeira origem do cifrão. Se o armazenasse sem divulgá-lo, minha consciência pesaria eternamente, acusando-me de egoísta.

A verdadeira origem do Cifrão
José Ítalo Stelle

O cifrão, diriam os nacionalistas, deve ser abolido, pois é um "enlatado alienígena". Vem de fato do dólar. Aposto que ao ouvir isso, Lula, como bom comunista, vai abolir esse símbolo, colocando em seu lugar a foice e o martelo, também alienígena, mas mais a seu gosto. (Quem disse que os comunistas são justos?) Ou vai usar apenas o S, em homenagem a Stalin.

Mas de onde vem o cifrão do dólar? Vale a pena pesquisar. Segundo me lembro da história popular americana ("norte-americana" me corrigem os nacionalistas; "é isso mesmo - norte-americana; que imperialismo é esse!" gritam os comunistas, açambarcando a causa nacionalista) o cifrão do dólar resultou, na época da Revolução Americana, das duas letras U e S (de "United States"), sobrepostas, colocadas nas toscas caixas de munição, disfarçadas de caixas de alimentos, as vezes contrabandeadas pelos revolucionários por entre as linhas britânicas.

Ao serem interceptados pelos Ingleses, ocasionalmente, os americanos diziam que eram suprimentos para um parente que morava ali perto chamado Uncle Sam (palavras que utilizam as mesmas letras, U e S), o famoso Tio Sam. No tocante ao U do cifrão original, com o tempo, os valores contrabandeados e registrados por essa letra sobreposta foram representados apenas por duas linhas verticais, pois ao escreverem rapidamente o U antes de sobrepô-lo com o S, os almoxarifes, numa premonição daquela rapidez do "time is money", acabaram abandonando a curva do U, usando apenas as duas linhas verticais. Aos poucos os valores em dólar passaram a ser indicados pelo cifrão, ou seja, pelo U e o S sobrepostos e, finalmente, sem a curva do U.

Gosto do cifrão pela seguinte razão: como defensor da economia livre, interpreto as duas barras verticais como dois agentes econômicos, e o S como o laço voluntário e civilizatório que une esses dois agentes numa transação de mercado. As duas barras verticais podem também ser interpretadas como as regras jurídicas que garantem a justiça enquanto se dão os dinâmicos movimentos econômicos representados pelo S (que pode representar a vontade individual dos agentes).

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16/10/06

Cem por cento – computadores e paradoxos

Davi Castiel Menda

"Ninguém faz o mal voluntariamente, mas por ignorância, pois a sabedoria e a virtude são inseparáveis". Paradoxo socrático.

Os leitores que me perdoem. Não é a eles que me dirijo, mas é um dado estatístico comprovado: 80% dos brasileiros - 136 milhões de almas - não sabem as quatro operações fundamentais. E pior, são conhecedores do fato. No entanto, eis a insensatez: toda esta multidão – os 80%, e mais os 20% (onde você provavelmente deva estar incluído) que sabem somar, subtrair, multiplicar e dividir - é perita, com pós-graduação, Phd e menção honrosa, em probabilidades, chances aritméticas, estatísticas, previsão do tempo, flutuação cambial, pesquisas eleitorais e afins.

A todo instante somos bombardeados com percentuais probabilísticos, muitos deles afirmando a possibilidade da ocorrência de certo evento ser igual a cem por cento, programas de computador que não erram, máquinas infalíveis, compras seguras pela Internet, direcionando-nos a uma rigidez que impede que qualquer outra possibilidade fique de forma - irretorquível - descartada. E todos nós sabemos, por experiência de vida, que isto é uma falácia.

O transporte mais seguro que existe, a aviação comercial, não está isento de acontecimentos calamitosos – as estatísticas confirmam que 99,9999% das viagens são bem sucedidas. Por mais noves que acrescentemos à direita – aproximando-nos infinitesimalmente dos 100%, jamais ressuscitaremos as milhares de pessoas que já pereceram em acidentes aéreos.

É quase impossível aviões chocarem-se no ar. A revista Veja informou que a chance do acidente envolvendo o avião da Gol com o Legacy seria de uma em duzentos milhões (para que esse valor seja considerado exato, o seu autor deveria ter a informação privilegiada de que até hoje ocorreram 3,2 bilhões de vôos comerciais, sabendo-se que foram registradas 16 ocorrências semelhantes). E mesmo que fosse uma em um trilhão, não justificaria a tragédia perante os amigos e parentes das vítimas: 99,9999995% continuam não sendo 100%!

Você, que acompanha o Campeonato Nacional, poderia tentar impugnar este corolário com a seguinte afirmação: e se um clube está oito pontos à frente do segundo colocado, e faltam somente duas partidas – não se pode declarar, com 100% de certeza – que o líder já é de fato campeão, pois apenas seis pontos estão em jogo? E eu lhe respondo com outra pergunta (característica semítica): você lembra do ocorrido no ano passado, quando uma penada interferiu no final do campeonato?

Empiricamente divagando, até a afirmação de que a única coisa certa que existe é a morte pode ser questionada à luz da matemática e das probabilidades. Segundo William Feller, a proporção de homens que atingem mil anos de vida é da ordem de grandeza de um para um número com 10 na potência 27 bilhões de zeros. Essa afirmação não faz sentido algum no ponto de vista biológico ou sociológico, mas considerada exclusivamente pelo ponto de vista estatístico, ela certamente não contradiz experiência alguma. Obviamente, probabilidades tão diminutas são compatíveis com a nossa noção de impossibilidade. E, se encararmos o assunto sob o ponto de vista religioso, muitas doutrinas pregam a ressurreição corporal, e a morte, da forma que conhecemos, seria efêmera dentro do conceito de tempo divino.

Sempre que leio ou ouço que computadores e os programas que lhes servem são isentos de erros ou falhas – 100% inexpugnáveis – acesso o Explorer da minha memória, busco a pasta Literatura, percorro as centenas (ou serão milhares?) de contos que li na minha vida e lá encontro o que me interessa: A chave-inglesa, escrito em 1951 por Gordon Dickson.

A história passa-se no planeta Vênus, e as únicas duas pessoas que lá se encontram, numa estação meteorológica, dependem de uma máquina para todo o trabalho. Relembro - como se estivesse lendo neste instante - palavra por palavra do operador desta máquina, sobre a sua infalibilidade: “Agora, preste atenção: a certeza que eu tenho não é de apenas noventa e nove vírgula nove, nove, nove, nove por cento. É de cem por cento”.

Seu colega, recém chegado ao planeta, mesmo sabedor que ambos dependem da máquina, inclusive para sobreviver, resolve testá-la, criando um paradoxo - uma dupla implicação entre uma proposição e sua negação - para que esta resolvesse: “você tem que rejeitar todas as afirmações que agora estou fazendo, porque todas as afirmações que eu faço estão erradas”, tornando assim inoperantes todos seus circuitos, na tentativa de atender àquela contradição insolúvel. Uma única pergunta derrubou os teóricos 100% para um zero absoluto, com resultados previsivelmente desastrosos.

O autor, no seu texto, cita o Paradoxo de Epimênides, quando provavelmente – quem sou eu para contradizer Gordon Dickson? – gostaria de ter dito o Paradoxo de Eubúlides de Mileto, o favorito dos matemáticos, que vem a ser algo parecido com a seguinte afirmação: “Todo homem é mentiroso”.

Como é que você vai saber se a afirmação é verdadeira ou falsa, uma vez que eu também sou homem e, no caso de ser verdadeira, só posso estar mentindo. Então, se nem todo homem é mentiroso, a afirmação é falsa, ou seja, é uma afirmação mentirosa. Se for falsa, é verdadeira e, se for verdadeira, é falsa, e assim por diante.

Considerando os exemplos dados, reais ou ficcionais, como pode alguém afirmar que uma máquina, qualquer que seja, é infalível? Máquinas e computadores foram criados e programados por seres humanos, reconhecidamente finitos na sua capacidade. Como a criatura poderá ser rotulada de melhor que o criador? Não se trata de uma questão de competência ou até de honestidade, e sim - parafraseando o paradoxo socrático - por ignorância mesmo.

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13/10/06

País medroso

Autor desconhecido
 
E deu segundo turno. Alegria por isso? Não. Sinceramente, não. 
Hoje ficou provado que 50% do meu país aprova a corrupção, aprova tudo que  foi escandalosamente feito no Palácio do Planalto, aprova um candidato que,  no mínimo, foi omisso. 

Hoje, 50% do meu país deu o aval para que quem conseguir ser eleito roube dos cofres públicos, compre parlamentares e ambulâncias super-faturadas,  compre aviões com dinheiro que daria para construir um montão de escolas, que passe 90% do seu mandato em hotéis de luxo e conhecendo os países mais  ricos do globo, enquanto, os que nele votaram passam fome e às vezes não tem  nem água para beber. 

Hoje, 50% do meu país comprado, medroso e sem rumo deu aval para o enriquecimento ilícito do filho do Presidente, deu aval para que este  continue fazendo festas a beira da piscina com o seu dinheiro. 50% desse país medroso e covarde, deu aval para que as coisas continuem como estão. 

O "eu não sabia" agora é válido como defesa, claro que sim, 50% do meu país diz que isso é válido e não poderemos mais reclamar quando alguém nos apontar uma arma e depois do disparo disser que "não sabia que estava carregada". 
Ficou provado que 50% do meu país é medroso e se vende por ninharias quando devia lutar por uma vida melhor. Ficou sim provado que 50% do meu país acha melhor que se tenha 20 latas de leite doadas do que emprego e dignidade para poder comprá-las com o próprio suor, que é mais fácil esperar do que fazer. 

Hoje, 50% do meu país achou que é melhor continuar o que não deu certo e não me venham alguns dos que o apóiam dizer que deu, pois não deu. Durante 20 anos esse Senhor pediu uma chance e quando conseguiu simplesmente não atacou o que mais prometeu atacar que era a corrupção, ao contrário, o que se viu  foi dinheiro saindo pelo ladrão (sem trocadilhos), o dinheiro dos impostos sim, esses que fazem de você refém do "Bolsa Família", que não permitem a criação de emprego, que afugentam empresas e que não deixam o Brasil crescer.

Hoje, 50% do meu país deu aval para que o dinheiro que serviria para  construir creches, escolas, estradas, ferrovias, pontes, gerar emprego e essas "pequenas coisas" que nos fariam ter um presente e futuro melhor seja usado para encher cuecas, compra de votos de Deputados, compra de dossiês,  propina nos correios, compra de aviões de luxo, festas a beira da piscina,  "arraiá" de festa junina, publicidade acima do permitido por lei, sete
toneladas de açúcar, duas toneladas e meia de arroz, duas toneladas de café, 400 latas de azeitonas, 500 quilos de bombons, 800 latas de castanha de caju, seis mil barras de chocolate, duas mil latas de cerveja, 610 garrafas de vinho, 50 garrafas de licor, uma tonelada e meia de banana, uma tonelada de caqui, 2400 abacaxis, 495 litros de suco de uva, duas mil dúzias de ovos,  etc, etc, etc… 

Hoje, 50% do meu país medroso, vendido e sem rumo tentou me dizer que tudo  que aprendi está errado e que o Lula está certo.

criado por projetosnumericos    9:35 — Arquivado em: Opinião, Política

11/10/06

Yeda Crusius x Olívio Dutra – 2o. Round

Davi Castiel Menda

Não poderia deixar de manifestar minha projeção sobre a escolha do governador aqui no estado, que será decidida em 2o. Turno. Levei em consideração que as eleições no Rio Grande tem uma peculiaridade: a ambivalência regional - o gaúcho ou é a favor, ou contra o PT, e esta situação já definitivamente arraigada e histórica tem peso preponderante numa análise que envolva somente dois candidatos, sendo um deles petista.

Num primeiro momento, a candidata Yeda arranca com praticamente 40% dos votos válidos (seus eleitores no 1o. Turno, acrescidos aos de Francisco Turra); Olívio com 28% (seus eleitores e mais os de Beto Grill). No somatório de ambos - 68% dos votos – Olívio concede um handicap de 12 pontos percentuais a Yeda – imutáveis; serão incomuns os votos cambiados deste eleitorado aparentemente fiel, e esta boa margem pró-Yeda deixa o candidato do PT em situação desconfortável.

Atente que estão em jogo os votos de apenas 32% do eleitorado. Para que Olívio reverta esta vantagem, teria que conquistar pelo menos 69% dos que votaram em Rigotto, Collares, Robaina e os demais candidatos, o que convenhamos, é uma tarefa hercúlea (69% de 32% correspondem a 22,1%, que somados aos 28% garantidos de Olívio, totalizariam os 50% mais um, necessários para vencer a eleição). Outro fautor (toda vez que alguém resolve reeditar meus textos e aparece este termo, trocam por fator – é fautor mesmo!) complicador ao candidato petista: o PMDB, que representa praticamente 85% deste eleitorado a ser conquistado, estará apoiando Yeda.

Se não ocorrerem percalços no percurso, o que é pouco provável, pois se trata de uma disputa entre dois políticos politizados – desculpem a redundância, mas na conjuntura política nacional atual… - Yeda Crusius deve atingir 61,4% dos votos e Olívio Dutra 38,6%.

Não se trata de pesquisa, e muito menos indução ao voto de quem quer que seja!
É simplesmente a opinião pessoal de alguém que gosta de eleições e matemática, exercendo sua cidadania.

Memória de cálculo:

YEDA CRUSIUS
Candidato                   % - 1o. Turno         Pró Yeda          Total 2o. Turno
Yeda Crusius                    32,90 %               100,00 %              32,90 %
Germano Rigotto              27,12 %                 73,00 %              19,80 %
Francisco Turra                 6,66 %               100,00 %              6,66 %
Alceu Collares                    3,71 %                40,00 %               1,48 %
Roberto Robaina                1,11 %                20,00 %                0,22 %
Beto Grill                           0,59 %                 0,00 %                0,00 %
Demais candidatos              0,51 %               60,00 %                0,31 % 
                        TOTAL                                                       61,37 %

OLÍVIO DUTRA
Candidato                   % - 1o. Turno         Pró Olívio         Total 2o. Turno
Olívio Dutra                      27,39 %             100,00 %               27,39 %
Germano Rigotto              27,12 %               27,00 %                 7,32 %
Francisco Turra                 6,66 %                 0,00 %                 0,00 %
Alceu Collares                   3,71 %                 60,00 %               2,23 %
Roberto Robaina                1,11 %                80,00 %                0,89 %
Beto Grill                          0,59 %              100,00 %                 0,59 %
Demais candidatos             0,51 %                40,00 %                 0,21 %
                       TOTAL                                                       38,63 %

criado por projetosnumericos    15:03 — Arquivado em: Opinião, Política

6/10/06

Pesquisas, previsões e probabilidades

Davi Castiel Menda

“Predição é muito difícil, especialmente se for sobre o futuro”.
Niels Bohr, físico dinamarquês.

Os grandes perdedores das eleições de três de outubro último não foram os partidos políticos – em especial o PT – e sim os principais institutos de pesquisa do país. Mais uma vez, mesmo trabalhando com margens de erro de 4% a 6% (2% a 3% para cima e para baixo), erraram fragorosamente em nível nacional, rendendo-se às evidências da ocorrência de segundo turno somente na hora derradeira, quando naquela instância era inadiável a divulgação de dados o mais próximo possível da verdade. Ibope e Datafolha, na última pesquisa antes das eleições, reconheceram, de forma constrangedora, a possibilidade de segundo turno, porém, o Sensus – Pesquisa e Consultoria, insistiu em atribuir ao candidato Lula, 51% das intenções de voto, numa tentativa espúria de, nos estertores, influenciar o eleitorado - aqueles ainda listados no bloco dos indecisos – a votar naquele candidato. Num exercício de imaginação, admitindo-se a hipótese do Sensus ser estabelecida no Japão ao invés das Minas Gerais, tenho a mais absoluta certeza que seus responsáveis já teriam praticado haraquiri.

Erraram feio na Bahia e aqui no estado – RS – nem se fala, invertendo a posição dos candidatos que, segundo os institutos, ocupavam respectivamente a primeira e terceira posições nas pesquisas. O franco favorito, Rigotto, turfisticamente falando, não pagou nem placê. Registre-se como exceção o Instituto Methodus, que nos últimos dias conseguiu detectar o crescimento de Yeda Crusius.

Jorge Rolla, que tive o prazer de desfrutar da sua amizade por décadas, enquanto vivo, jamais errou um prognóstico eleitoral. Jamais! Não era matemático, não era economista, muito menos estatístico. Nunca sentou à frente de um micro. Usava da intuição e da sua equipe de campo, aliás, disponível a todos que a quiserem contratar em futuras eleições, sem despender um centavo sequer!

Sua equipe de pesquisadores – e ele não escondia o fato – era constituída de três categorias ligadas à prestação de serviços, que atingia toda a gama de eleitores: taxistas, engraxates e barbeiros. Avaliem, eles têm à mão o termômetro da popularidade e da rejeição de todos os candidatos. Eles dispõem de todo o tempo do mundo para conversar com uma infinidade de pessoas diariamente, ao contrário dos imutáveis 2.002 pesquisados. Eles pesam, avaliam, liquidificam todas as informações, sem auxílio de computador e sem planilhas Excel, somente usando do bom senso. Tabulam com perfeição esta coleta de dados imaginária, que provocaria arrepios e incredulidade aos senhores-ibope da vida. Todavia, acertam…

Este era o segredo de Jorge Rolla, que lá de cima onde se acha, deve estar se divertindo à beça com as desculpas dos estatísticos de plantão sobre as previsões e erros cometidos no primeiro turno.

É muito comum, nos experimentos relacionados à teoria matemática das probabilidades, usar-se freqüentemente como exemplo o mais simples dos exercícios, qual seja, o lançamento de moedas, contando quantas caras e coroas contabilizaremos ao final da série, que pode ser de 100, 200 ou 2.002 lançamentos, tentando demonstrar a realidade da lei dos grandes números, que ao final obteremos uma totalização muito parecida nas duas colunas. É de uma simplicidade tão gritante que qualquer um pode realizar a experiência.

Atravessando o limite (muito tênue) das probabilidades para pesquisas, imaginemos uma eleição entre dois candidatos, “cara” e “coroa”, e que esta eleição será decidida através do experimento acima relatado, num único lançamento da moeda, cara ou coroa. Projete uma pesquisa qualquer e atribua um percentual a cada candidato. Pronta a pesquisa?

Independente dos valores arbitrariamente escolhidos, tudo leva a crer que você errou! Ao ser uma moeda lançada para cima, ela não cairá necessariamente cara ou coroa; ela poderá rolar para um bueiro próximo (e não saberemos quem foi o eleito) ou até incrivelmente cair em pé. As duas últimas hipóteses figuradamente são os imprevistos enfrentados pelos institutos de pesquisa, as probabilidades não avaliadas, não detectadas (leia-se desculpas).

Hoje em dia, com os recursos tecnológicos que conquistamos, além daqueles que são adicionados diariamente, em progressão geométrica, é de uma temeridade empírica imaginar que qualquer ocorrência seja impossível. Até a tão conhecida afirmação de que “a única coisa certa é a morte”, pode matematicamente ser questionada.

A probabilidade de que um homem atinja mil anos de vida apresenta-se com uma chance para o número 10 na potência 27 bilhões de zeros – um número portentoso! Segundo William Feller “essa afirmação não faz sentido algum do ponto de vista biológico ou sociológico, mas considerada exclusivamente do ponto de vista estatístico, ele certamente não contradiz experiência alguma”.

Se estivéssemos seriamente dispostos a desprezar a possibilidade de viver mil anos, teríamos que aceitar a existência de uma idade máxima e a suposição de que seria possível viver x anos e impossível viver x anos mais dois segundos é tão inaceitável quanto a idéia de vida ilimitada.

Resumindo, para mim, o que falta nas possas pesquisas, é um acasalamento mais íntimo com o cálculo das probabilidades. Não é só sair por aí perguntando “em quem você vai votar?” e pronto. O local da pesquisa e o momento não estão sendo bem avaliados. Teoricamente, divagando, se fosse feita uma pesquisa para presidente da república num dos tantos presídios de São Paulo, apresentados como opção Alckmin, Lula e Marcola, você teria dúvida de quem seria, indubitavelmente, o preferido do “público”?

criado por projetosnumericos    15:30 — Arquivado em: Opinião, Política

1/10/06

O último dos crentes

                                 

                                   H A B E M U S  2o. T U R N O

"Tente evitar a pobreza, ensinando a cada homem um ofício. Experimente todos os métodos antes de permitir que ele seja alvo da caridade, que pode degradá-lo, por mais ternos que sejam seus sentimentos para com ele".

             Trechos de artigos anteriores - vale a pena recordar

Pesquisa eleitoral para presidente - Números não fecham…
Publicado no blog Al-Karismi em 04.09.2006

Nas últimas eleições presidenciais, o atual Presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve exatos 46,44% de votos no primeiro turno. O que não consigo inferir, com todo o meu discernimento matemático cultivado ao longo de seis décadas - e gostaria (sinceramente) que alguém me explicasse - como um candidato que enfrentou uma turbulência jamais vista nos anais políticos do Brasil, batizada com o sugestivo título de mensalão, com funcionários, secretários, deputados e ministros de seu partido envolvidos direta ou indiretamente, em menos de um ano após o affaire conseguiu atingir o índice de 50% na intenção de votos nas pesquisas. Ou é um caso de indenidade excepcional ou os números não estão refletindo a realidade.
…..
O candidato-presidente pode até ganhar a eleição, já que a máquina administrativa-partidária-governamental tem trabalhado full time e usando de todos os meios possíveis e inimagináveis para atingir este objetivo. Mas ganhar no primeiro turno?! A quem querem enganar? Por favor, senhores…

Os velhinhos de Taubaté e Gravataí
Publicado no blog Al-Karismi em 23.09.2006

"Os governos mudam, as promessas se renovam, as autoridades nem tanto, mas se há uma coisa firme no país, é a crença da Velhinha de Taubaté no governo". Pois bem (ou talvez mal), as pesquisas para presidente nestas eleições de 2006 transformaram todo o povo brasileiro, do mais humilde ao mais esclarecido cientista político em "velhinhas de Taubaté" - todos acreditando piamente nas pesquisas eleitorais que indicam a vitória do candidato da situação já no 1o. Turno.
…..
E agora, para complicar a vida do PT, que usando do jargão turfístico, "levava de barbada" esta eleição, surge um novo - mais um - complicador, de amplo conhecimento de todos (o caso do Dossiê Cuiabá), que na verdade será a tábua de salvação de todos os institutos de pesquisa, jornais, rádios e TV, para justificar a realização do 2o. turno.
…..
Ontem (22.09.2006), o provedor Terra, na sua página principal, realizou uma enquete: você acredita que uma virada é possível na eleição presidencial? Desconheço o resultado final, mas às 17.25 horas, os internautas que haviam respondido sim, que acreditavam numa mudança, somavam 52.536 votos, num percentual de 64% sobre o total, um número considerável.
…..
Apesar de estarmos na reta final, e mesmo os institutos e datas da vida divulgando clamorosa e insistentemente a vitória de Lula no primeiro turno, continuo a duvidar. Será que somente às 17 horas do dia primeiro de outubro, encerradas as eleições, é que divulgarão a realização do segundo turno?

Se porventura eu estiver certo nas minhas previsões, tenho todo o direito de criar um novo personagem em contra-ponto à Velhinha de Taubaté: o Velhinho de Gravataí - aquele que não acredita em pesquisas! A bem da verdade, em pesquisas fundamentadas ele acredita - o que roda por aí é quiroscopia.

Caterva
Publicado no blog Al-Karismi em 27.09.2006

E mesmo com toda esta quizilenta situação, gerada pelo próprio Partido dos Trabalhadores, os três principais institutos de pesquisa e consultoria continuam apregoando a vitória do candidato-presidente ainda no primeiro turno. O censo da mineira Sensus - Pesquisa e Consultoria, divulgado hoje (27.09.2006) nos principais jornais do país - com o perdão do trocadilho - é um contra-senso, um disparate ofensivo à inteligência de brasileiros que - ainda - pensam e raciocinam.
…..
Basta que, de cada 10 eleitores que pretendessem votar no candidato da situação, um, apenas um em cada dez, troque de lado, insatisfeito com os escândalos presenciados e vividos com uma impressionante regularidade e definitivamente incorporados ao nosso cotidiano, e a vitória no primeiro turno tão apregoada com altivez, arrogância, presunção e sobrançaria, caia fragorosamente por terra.

Se eu estiver enganado, dou mão a palmatória, e mesmo professando outra religião, vou pessoalmente encabeçar uma petição ao Papa Bento XVI (imaginem o que eles não aprontariam se fosse Bento XIII), exigindo do Vaticano que o "homem" seja alçado à condição de santo, pois depois de tudo o que aconteceu no país, eleger-se no primeiro turno, só um milagreiro!

criado por projetosnumericos    7:26 — Arquivado em: Opinião, Política
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