Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

2/10/08

Flanelinha condenado por extorsão

Davi Castiel Menda

Juiz de Rondônia condena flanelinha por extorsão

Max Pedro Pinheiro de Freitas foi condenado a quatro anos e seis meses de reclusão em regime semi-aberto pelo crime de extorsão. Segundo decisão do juiz Daniel Ribeiro Lagos, da 3ª Vara Criminal de Porto Velho (RO), Freitas constrangeu e agrediu o dono de um carro, exigindo que ele pagasse R$ 10,00 por ter vigiado o veículo. Freitas já está preso por outras quatro condenações de furto.

Em outubro de 2006, de acordo com os autos,o flanelinha exigiu o pagamento alegando que cuidou do carro. O dono do veículo se negou a pagar e disse que daria apenas R$ 2,00. Enfurecido com a proposta, Freitas jogou pedras no carro e no seu dono, que ficou ferido, dizem os autos.

Segundo o juiz, os documentos provam a materialidade do crime. O acusado confessou que jogou as pedras, mas negou que tenha cobrado R$ 10,00. Para o juiz, o constrangimento da vítima também ficou evidenciado.

O juiz Lagos aproveitou a decisão para chamar atenção das autoridades sobre os flanelinhas: “está passada a hora das autoridades assumirem uma postura desprovida de hipocrisia em relação à atuação nefasta dos chamados ‘flanelinhas’ que, a pretexto de trabalho, exigem dos motoristas pagamento por serviços de vigilância para estacionar em via pública, arvorando-se ‘donos’ do espaço público, quando se sabe que o que se cobra não é vigilância, mas pagamento para não ter o bem danificado”.

O juiz ainda completou: “se for justificar essa atividade no desemprego, estaria justificado a pistolagem, o tráfico de entorpecentes, entre outros, com reflexos econômicos, o que é inadmissível”.

Fonte: Revista Consultor Jurídico, 1 de outubro de 2008

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25/9/08

Buracos Negros

Davi Castiel Menda

Quando eu era menino ainda, com dois ou três anos de idade, confesso que tinha medo da noite. Não do escuro, mas sim da noite chegando, mandando para um lugar desconhecido a claridade, a luz, luz que desde as sociedades primitivas sempre foi sinônimo de vida. Tinha medo que a noite, aproveitando-se do sol que se escondia, pudesse como num passe de mágica engolir o mundo, literalmente. Pensando bem, eu tinha medo de um buraco negro – astronomicamente falando - e não sabia.

Lembro, na mesma época, de meu pai ter me levado, certa noite, até à agência dos Correios com o intuito de enviar um telegrama. Você pode até achar estranho, mas os Correios ficavam permanentemente abertos para manter as comunicações em atividade. A única forma - naquela época sem Internet, de telefonia incipiente e péssimo serviço - de se manter contato urgente com alguém era através do telegrama. Logo em seguida, meu pai ainda me levou à redação do jornal Diários de Notícias, na Rua da Praia. Naquela noite eu descobri que, apesar do escuro, a noite também dimanava vida: pessoas andavam pelas ruas, trabalhavam, mandavam notícias, escreviam em jornais. Aquela noite me marcou profundamente: sempre que acordava por um motivo qualquer durante a madrugada, lembrava-me automaticamente dos funcionários dos Correios e do jornal, e ficava seguro! Aqueles heróis noturnos, anônimos e de maneira incógnita, estavam zelando pela humanidade. Deixei de ter medo de buracos negros.

O tempo passou. Assisti ao vivo o quebra-quebra logo após o suicídio de Getúlio Vargas. Vibrei intensamente com a Legalidade de Brizola. Vi entristecido um país dominado pela ditadura militar. Leis, decretos, atos institucionais, decretos-leis foram criados aos magotes, uns bons, outros protecionistas, alguns demagógicos. A democracia é assim.

Mas, aos poucos, noto que o governo cada vez mais vai se intrometendo na vida do cidadão; em suma, na minha. Um dia é um pardal que me controla permanentemente nas estradas; outra lei me proíbe de ter uma arma onde moro, apesar do legislador não me proporcionar a segurança que mereço; e mais recentemente, um governante me manda um recado pelos jornais: que não se deve falar demais ao telefone, já que qualquer cidadão corre o risco de estar grampeado. Se não bastasse, agora por último a Lei Seca. Sinto-me no direito de discordar, pois minha dose máxima é (é não, era!) dois chopes semanais. Whisky – adoro whisky; a última garrafa que recebi no meu aniversário (em março), ainda está pela metade. Se os acionistas da Ambev e das destilarias escocesas dependessem de mim, já teriam falido. Portanto, não concordo com a discriminação generalizada que nos transformou a todos em beberrões contumazes e, pior ainda, em criminosos com direito a cadeia e tudo.

Já vigorava uma lei que punia  bêbedos ao volante. Mas não, o governo precisava radicalizar. E o mais interessante é que quem criou a lei, se beneficia de carro com motorista - pago pelos contribuintes; e ainda pode beber a vontade com o cartão corporativo, despesas não comprovadas ou coisa que o valha. É um espetáculo…

Instituam a pena de morte aos bêbedos, mas não chamem de criminoso e joguem numa cela quem bebe um chope! Fechem as fábricas de bebida e façam da Lei Seca uma lei de verdade, não de mentirinha. Falta coragem, o dinheiro – os impostos – fala mais alto!

Tomar um mísero chope e dirigir é menos perigoso do que dirigir e ouvir uma partida de futebol. Se o seu time estiver perdendo, você ficará irritado, se estiver ganhando, eufórico. Pergunte a um psicólogo ou psiquiatra e ele lhe dirá que são sensações idênticas ou talvez piores. Bebericar um chope e dirigir é provavelmente menos perigoso que discutir com o carona sentado ao seu lado, fato comum numa viagem longa, principalmente com crianças no carro. Sem falar nos que bebem chimarrão, fumam, se agarram na (o) namorada (o), etc.

Hoje é um chope, em São Paulo já existe o rodízio de veículos, quem sabe amanhã proíbam a fabricação de automóveis? Garanto que vai diminuir mais ainda as estatísticas de mortos no trânsito. Diminuir? Balela! As estatísticas comprovam que continua tudo na mesma. O que falta são estradas boas, carros seguros, fiscalização coerente, investimento em estradas de ferro, em hidrovias. E não gastar milhões em tapa-buracos pré-eleição.

Milhões de brasileiros deixaram de se divertir, ir a um bar, a um restaurante, temerosos com a aplicação da famigerada lei – todos se tornaram criminosos. No fundo, no fundo, esse é o objetivo. Se você passa a ter medo, não pode acusar quem realmente tem culpa. É assim que funciona.

Que pena, depois de mais de sessenta anos, os buracos negros voltaram a me assustar.

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24/9/08

Eleições 2008 - Candidatos Bizarros

"Nas democracias, embora o poder seja formalmente do povo, na prática está com a sociedade civil, que dele se diferencia porque, no povo, cada cidadão tem um voto, na sociedade civil o peso de cada cidadão depende do seu conhecimento, de seu dinheiro e de sua capacidade de comunicação e organização." Bresser Pereira - 2005.

Um dos mais assíduos leitores do blog Al Karismi me envia e-mail sobre o último artigo Adoro Horário Político, criticando-me, argumentando que não tratei com a devida seriedade um tema tão importante.

Meu caro Felipe: para seu conhecimento, considero as eleições o momento supremo da democracia, aquele instante mágico onde o somatório de milhões de consciências, de eleitores sérios, de pessoas convencidas pelo marketing político, de interesseiros, de interessados, de desinteressados, se fundem, e, num átimo de tempo, decide os destinos do país pelos próximos anos. É sério, muito sério.

Agora, se uma parcela dos candidatos não assume este momento solene com a gravidade necessária, por favor, isso me dá o direito de seguir a orientação de ilustre ex-ministra, ora candidata à prefeita pela cidade de São Paulo, de amplo conhecimento de todos.

Corroborando com o último parágrafo, recolhi pela Internet material aqui e ali, sem grandes preocupações. E, ainda lembrando, que este é um blog de âmbito internacional (apesar do gremismo do seu editor), sugiro aos nossos correspondentes lá nos States, Nelson e Susana, que nos enviem alguma matéria sobre a disputa entre Mccain e Obama, ou coisa que o valha.

Em Fortaleza, a candidata à reeleição à Câmara de Vereadores Débora Soft, stripper e estrela de show de sexo explícito, este ano terá uma parada dura pela frente. Trata-se de Kátia Heffner, que numa das suas entrevistas afirmou: “chega dessas caras de bunda que existem em nossa política, é hora de inovar, criar, fazer diferente”. Da matéria ela deve ter toda a propriedade para falar…. Número da candidata: 14069. E surgem notícias de que a Adrielle Fatal também está na disputa! Nem imagino quem seja, mas pelo nome e pelo curriculum das outras duas candidatas, essa é uma eleição com direito a muito corpo a corpo na disputa pelo voto….masculino.

E além do candidato Zóinho, o Cacareco da vez e que deve se eleger com uma boa margem pela sua sinceridade fulgurante, a Internet publica uma relação dos melhores slogans dessa eleição, onde destacamos o grito de guerra do candidato Lingüiça, lá de Cotia –SP, cada vez que se despede no vídeo: “Lingüiça neles!”. E a esperança do candidato a Prefeito de uma cidade do interior nordestino: “Com a minha fé, e as fezes de vocês, vou ganhar essa eleição.”

A física elementar nos ensina que a cada ação, há uma reação. Se alguém ganha, alguém perde. Quem vai ganhar essas eleições eu nem imagino mas, com esses candidatos bizarros, eu sei quem vai perder: nós, como sempre!

criado por projetosnumericos    9:39 — Arquivado em: Crônica, Opinião

22/9/08

Adoro Horário Político

Davi Castiel Menda

Não gosto de televisão. Não da invenção em si, que é realmente sensacional, mas da programação. Acho péssima. Claro que há as exceções: bons filmes, documentários com assuntos palpitantes, concertos sensacionais, a exemplo do transmitido sábado último pela Rede Vida, com o vibrante diretor de orquestra e violinista holandês André Rieu (lamentável que o evento não tivesse sido divulgado suficientemente – claro que, se as pessoas tivessem tomado conhecimento, deixariam de assistir a novela da Globo A Favorita e mudariam imediatamente de canal). Afora esses, para mim, há um programa imperdível: o Horário Político.

Faça chuva, faça sol, estando ocupado ou não, mesmo tendo um compromisso inadiável com a Adriane Galisteu, é uma programação que faço a mais absoluta questão de assistir, principalmente no turno dos vereadores. É quando eu sinto no ar toda a vibração, todo o patriotismo, toda a vontade daqueles futuros edis de ajudar o Brasil, de colaborar com o povo na solução de seus problemas. Cheira-se civilidade no ar. Como é bonito! É nessas horas que acredito na humanidade e que o Brasil não está perdido.

O ar fica impregnado de democracia com aquela competição aberta e saudável, de candidatos e candidatas irmanados num único propósito: bem servir aos munícipes. Fico emocionado com o desprendimento de todo aquele pessoal, que promete dar tudo de si se eleito, na ânsia de resolver os problemas de saúde, de segurança, de escola, de creche, de aposentadoria, de condução. Chego a chorar de felicidade, pois finalmente, nos próximos quatro anos, todos os nossos problemas estarão resolvidos. (Deixo de citar os financeiros, que serão solucionados com os dividendos do pré-sal, equitativamente distribuído entre o povo).

O Tribunal Eleitoral, mais uma vez nos contempla com o título de patrão. É um exagero. Nós é que devemos agradecer por ter o Brasil tantos candidatos responsáveis, capazes e conscientes do seu dever cívico. Não é fácil se comprometer com tantos propósitos e só ganhar R$ 8.561,00 de salário por mês como vereador em Porto Alegre. É menos que um salário mínimo por dia…

Mas uma dúvida me atormenta e me preocupa: são 504 candidatos à vereança da capital gaúcha e somente 36 deles serão eleitos. Quatrocentos e sessenta e oito ficarão de fora, pessoas que poderiam estar colaborando com a nossa grandeza, com a nossa pujança.

Sugiro a eles que, um dia após conhecido o resultado do pleito, façam um mutirão, formem um bloco compacto e se dirijam ao Tribunal Eleitoral; peçam – peçam não, exijam - uma vaga para qualquer cargo. Claro - sem remuneração, pois não há verba orçamentária prevista para tanta gente. Isso é de somenos importância para quem quer ajudar e colaborar.

Essas 468 vozes não podem ficar de fora do processo. Tenho certeza que eles querem cooperar – graciosamente – e deixá-los de fora da máquina governamental fatalmente criaria um trauma de difícil solução. Eles, com seu ilimitado saber, são insubstituíveis formadores de opinião. Deixem esse pessoal ajudar. Dêem tarefas a eles. Eles fazem questão de trabalhar. Mas de graça, não esqueçam…

Eu e os eleitores, comovidos, agradecem.

criado por projetosnumericos    17:41 — Arquivado em: Crônica, Opinião, Política

19/9/08

Grêmio - sem chances?

Davi Castiel Menda

Havia uma época em que eu realmente acompanhava futebol de forma profissional. Podia até me gabar de entender do riscado. Era simultaneamente o redator, editor, diretor, repórter, comentarista, arquivista e entregador do semanário Treze Pontos e pela TV, rádio, jornal e Internet observava a evolução pari passu de todos os campeonatos que você possa imaginar: regionais, nacionais e internacionais.

Hoje, aposentado e exilado voluntariamente num sítio, reduzido a um parco, sóbrio e modesto editor de blog, pelo que acompanho nos jornais, pelo que ouço nas rádios e TV, cheguei à triste conclusão de que não entendo mais nada de futebol, principalmente depois dos acontecimentos da última semana.

Segundo a crônica amiga (e “dando corda” à imprensa do centro do país, xenofóbica aos clubes e interesses gaúchos) o Grêmio, apesar de isolado na liderança com três pontos de vantagem, teve suas chances praticamente zeradas, enquanto a grande sensação do campeonato passou a ser o seu coirmão, plantado na 11ª. posição e que, segundo eles, estaria praticamente encostando no 4º. colocado, na luta pela Libertadores. Senhores, onze menos quatro dá sete: são sete clubes a serem suplantados. Clubes que, segundo o grande filósofo Dino Sani, vão perder, empatar, mas que também irão ganhar três pontos nas suas partidas.

Um dos cronistas preconizou que o primeiro passo para o Inter seria ganhar os pontos necessários para chegar ao G4 - concordo - e, aí sim, aspirar um melhor posicionamento (aí é querer enfeitar a torcida)! Não quero ser desmancha prazeres, mas provavelmente o campeão deste ano o será com 72 pontos e, o Internacional, para atingir este objetivo, teria que ter um aproveitamento de 92,3% a partir de hoje, o que convenhamos, seria um milagre que nem o mais fervoroso dos torcedores colorados acredita.

A imprensa foi tão convincente que assustou até a maior torcida do Rio Grande. Não esqueçamos que, no início do ano, o Internacional era um dos grandes favoritos ao título e, o Grêmio, possível candidato ao rebaixamento. Se o tricolor chegar à Libertadores – e só um desastre de proporções inimagináveis tira o Grêmio dessa situação – já será um feito; o Campeonato - a glória. E, para chegar ao título, o Grêmio só precisa de um aproveitamento futuro de 59,0% - não esqueçamos que o seu aproveitamento atual é de 65,3%, portanto, meta nem um pouco difícil de atingir.

Já para o Internacional, o panorama não é tão cor-de-rosa: para chegar ao G4, seu aproveitamento futuro deverá ser de 69,2% - seu aproveitamento atual é de 48%. Vai ter que melhorar – e muito.

E para encerrar, lembrem-se: torcedores, diretores, jogadores e técnicos de 19 clubes do país, do Palmeiras à Portuguesa, invejam a situação do clube que está no topo do campeonato: o Grêmio, e gostariam, sonhariam em ter os seus pontos e a mísera (?) vantagem sobre o segundo colocado. Por que motivo, nós, os torcedores gremistas, deveríamos estar preocupados?

criado por projetosnumericos    11:14 — Arquivado em: Opinião

17/9/08

Palmas para o ladrão…

Responsável – segundo o Aurélio, que responde legal ou moralmente pela vida, pelo bem-estar de alguém, que tem noção exata de responsabilidade; que não é irresponsável.
Ladrão – também segundo o Aurélio, aquele que furta ou rouba; gatuno, ladro, larápio, rato, amigo do alheio.

Por mais que se analise os sentidos destas duas palavras, não se nota incompatibilidade, portanto, alguém pode ser ladrão e responsável simultaneamente. Vejam o fato inusitado que aconteceu hoje na cidade de Passo Fundo.

Um sujeito – o ladrão – passeava tranqüilamente de madrugada pelas ruas da despoliciada (palavra que não existe, mas que todo mundo sabe o significado) cidade gaúcha, quando notou um carro semi-aberto. Mais do que depressa, entrou no veículo e “se mandou”.

Andou cinco quadras e, de repente, constatou que havia uma criança no banco de trás. Imediatamente parou o carro e telefonou para a Brigada Militar (para quem não é daqui do sul, trata-se da nossa Polícia Militar):

- Alô. É da Brigada? Eu vou ser bem sincero. Estou ligando para avisar que roubei um carro, mas havia uma criança dentro. É um carro marrom, marca tal, e deixei ele (sic) no cruzamento das ruas tais e tais. Ah, tem mais uma coisa, avisa pra o fedepê e irresponsável do pai dele, que se eu descobrir que ele deixou novamente o filho sozinho no carro, eu mato ele!

Palmas para o (esse) ladrão… que ele merece! Final feliz para todos. O ladrão, que pelo gesto de arrependimento, vai ser manchete em todos os jornais. A criança, sã e salva, pois poderia haver uma tragédia. O pai (na verdade o padrasto), um irresponsável, que apesar de tudo recebeu o enteado e o carro de volta (mas que provavelmente responderá a processo). E eu, que estava sem assunto para o blog, consegui um na última hora.

criado por projetosnumericos    19:07 — Arquivado em: Opinião

4/9/08

Homens de pouca fé

Davi Castiel Menda

Dizem que quando a Terra era habitada por um número reduzidíssimo de pessoas – segundo a Bíblia, apenas dois, Adão e Eva – os homens (para ser mais preciso, um homem e uma mulher) podiam se dar ao luxo de conversar diretamente com o Criador, formular suas reivindicações e, na maioria das vezes, ser atendidos; afinal de contas, eram só dois mesmo.

Quando Eva comeu do fruto proibido, um episódio até hoje não muito bem esclarecido, Deus teve que tomar uma atitude para a qual não estava preparado: expulsar os dois do Paraíso (abrindo um parêntese: na semana passada, durante a convenção democrata nos Estados Unidos, foi proibida a entrada de maçãs – algo a ver?). Para Ele, imbuído de toda bondade do mundo, não foi fácil, e até devem ter lhe faltado as palavras apropriadas. Provavelmente, usando da sua onipotência, consultou o Google Future(*), digitou a palavra “expulsão” e dentre os milhares de verbetes disponíveis, aproveitou as expressões utilizadas por Donald Trump ao eliminar seus candidatos no seu célebre programa televisivo.

Os dois banidos seguiram à risca o “crescei e multiplicai-vos” e aqui estamos nós, beirando os oito bilhões de habitantes, todos cheios de problemas, uns maiores, outros menores.

As religiões se encarregaram de divulgar a existência deste Ser supremo com poder absoluto e infinito. E, o homem, sempre que se vê em situação difícil, lembra da Sua existência e tenta resolver seus problemas existenciais e principalmente materiais com orações e pedidos, todos crentes que as suas pendências são as mais importantes e que devem ser priorizadas com a ficha um nos atendimentos divinos. Para uns, o paraíso seria dispor de um prato de comida diária, um só que fosse; para outros, divisar seus milhões de inimigos mortos numa guerra – questão de ponto de vista, de educação ou de criação.

Com esse desmedido crescimento populacional, o Criador delegou poderes aos anjos para analisar os pedidos de toda essa massa humana. Não deve ser fácil. Tente acompanhar um bem comum: o “seu” Antonio deseja ganhar 30 mil reais para comprar um carro. O que são 30 mil reais para um anjo? Absolutamente nada, zero. Respeitadas as proporções, é como se um mendigo nos pedisse dez centavos - e quantas vezes recusamos míseros centavos a um esmoleiro?

Lá em cima, o negócio não funciona como o órgão que julga a apelação das multas de trânsito aqui na Terra: o anjo tem que prestar contas ao Chefe e não pode simplesmente dizer não; tudo tem que ser muito bem analisado e justificado. Todas as variáveis têm que ser minuciosamente programadas. O futuro é jogado numa tela tridimensional e aquilo que parecia simples ao pedinte, pode se transformar num drama: um mês após o carro adquirido – se o pedido fosse atendido - o “seu” Antonio se veria envolvido num terrível acidente de trânsito. Os custos de hospitalização seriam elevados. Processos, cassação de carteira, traumas, tudo decorrente do ganho extra, não previsto no livro da vida quando ele nasceu. É claro que as variáveis são infinitas e em escala geométrica, e essa é só uma amostra do que poderia ocorrer. O anjo, pesando os prós e contras, apõe o seu carimbo no processo – Indeferido!

O “seu” Antonio, triste por não ser atendido nas suas súplicas diárias e constantes, passa a se lamuriar e até troca de religião. Que injustiça com o anjo que lhe salvou de poucas e boas…

Apesar da imparcialidade divina com relação a esses e a todos os pedidos, dizem que só há um caso em que o Chefe faz plena questão que não seja atendido de forma alguma. Quando alguém pede para ganhar na loteria, na Mega Sena acumulada, por exemplo, o anjo encarregado de analisar o processo deve contar quantos volantes o pedinchão apostou: se for mais de um, é sinal que é um homem de pouca fé. Indeferido nele!

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(*) Posfácio: é claro que o termo Google Future é uma brincadeira, mas como sei de fonte segura que o Bill Gates lê esse blog eventualmente, não se espante se ele aproveitar a idéia e lançar o MS Future. Aliás, considerando que os nossos vizinhos ricos da América já investiram em segredo dezenas de bilhões de dólares – secretamente – em pesquisas para prospectar petróleo no passado (!!!), quando ele acabar no presente, nada vindo deles pode me (nos) surpreender.

criado por projetosnumericos    13:54 — Arquivado em: Opinião

15/8/08

Razão Versus Palpitação

Davi Castiel Menda

Se alguém me perguntasse, ontem, antes do resultado da extração, quantos acertadores teria a Loto Fácil, vendidos em torno de 13.960.000 cartões – que é a quantidade provável de bilhetes que concorriam no Concurso 349 - eu responderia sem exitar: em torno de 4 acertadores para 15 dezenas e aproximadamente 640 para 14 dezenas, aliás, cálculo que serve para qualquer extração com aquela quantidade de bilhetes vendidos. Acertei?

Errado! Abro a minha Internet e às 5,30 hs da manhã tenho o primeiro susto do dia (dos tantos que me aguardam): 32 cravaram as 15 dezenas e 27.396 tiveram a felicidade de ganhar pouco mais de míseros 18 reais ao acertarem 14 dezenas, cuja dificuldade de acerto é de uma possibilidade em 21.791!!

Viajando no tempo e no espaço, regresso aos anos 80 (século passado…) e lembro de conversa com psiquiatra que afirmava que o sucesso dos jogos da Caixa ocorria pelo fato de ser uma das raras oportunidades em que o pobre, o trabalhador, o assalariado, tinha a chance de dar palpite – mandar - em alguma coisa. E mais, que a monotonia (sempre o mesmo ônibus, sempre um chefe a ditar as mesmas ordens, a rotina do arroz e feijão, do futebol aos domingos, o eterno torcer para o mesmo time, os terríveis programas televisivos  dominicais) conseguia ser quebrada num simples marcar de algumas dezenas num cartãozinho da Loto: ele, naquele instante de glória, era o chefe, podia escolher a vontade as cinco, seis ou oito dezenas ao seu bel-prazer - ele, naquele momento, podia impor a sua vontade, ele era o todo-poderoso. Certo?

Errado! O homem moderno, seja pobre ou seja rico, na sua grande maioria, prefere não pensar - quer as coisas prontas. Exemplo maior, para quem não lembra: o concurso 308 da Mega Sena, em 27.10.2001 teve sorteadas as seguintes dezenas: 04-11-25-29-39-55. Até aí nada demais. Entretanto, no concurso 309, quatro dias depois, foram sorteadas as dezenas 04-11-25-39-50-55, ou seja, das seis dezenas, cinco foram coincidentes. Sabem o que aconteceu? A quina – pasmem! – teve 3.001 acertadores contra 2.997 acertadores da quadra. Quem acertou quatro dezenas recebeu mais de quem acertou cinco dezenas!!! A explicação: provavelmente aquelas 3.001 almas chegaram na lotérica para apostar no concurso 309 e para não ter que pensar, palpitar, lembrar de datas de nascimento (ugh!!!) simplesmente copiaram para o seu volante as dezenas premiadas no concurso anterior. Já imaginaram se repetem as seis dezenas – três mil acertadores na mega?

Volta para 2008.

E o resultado do concurso 349 da Loto Fácil, novamente veio de encontro à tese acima: considerando que repetiram 14 dezenas do concurso 348, das 15 sorteadas, a maioria daqueles 27 mil que faturaram o prêmio de 14 acertos, simplesmente transpôs para o seu volante o resultado exposto nos painéis das lotéricas do concurso anterior.

É evidente que a quase totalidade deles não acredita em matemática, em estatística, em lógica, e muitos nunca ouviram falar em probabilidades; acho até que a linha de raciocínico destes felizardos(!) talvez esteja correta, caso contrário mudariam de calçada ao passar por uma lotérica, se imaginassem que a chance de repetir as 15 dezenas de um concurso para outro da Loto Fácil é superior a três milhões e pico, ou que a chance de acertar na mega sena é de uma em 50 milhões!

 

Sorte deles. Certo?

criado por projetosnumericos    10:10 — Arquivado em: Jogos & Loterias, Opinião

26/1/07

O sagrado direito de opinião

Davi Castiel Menda

"O Tribunal Superior Eleitoral confirmou, nesta segunda-feira, a ocorrência de uma falha em um lote de urnas eletrônicas utilizadas nas últimas eleições para governador de Alagoas. Denunciado pelo candidato derrotado, deputado João Lyra, do PTB, o problema, no entanto, não teria influenciado no resultado final. Segundo a assessoria do Tribunal, algumas urnas mais antigas não eram compatíveis com o programa adotado nas ultimas eleições. Isso acarretou erros na impressão do relatório que é entregue aos partidos".

Em 24.09.2006, o jornal Zero Hora publicou em destaque (Tema para debate), matéria posteriormente divulgada neste blog, sob o título As urnas eletrônicas e a zerézima, que vislumbrava a possibilidade das urnas eletrônicas serem fraudadas. O que me influenciou a externar essa opinião foi a insistência do TSE, avocando a todos brasileiros de patrão em suas propagandas televisivas, o que me daria, em princípio, certas regalias e direitos. Aliás, pensando bem, esta condição me deixou em estado de dúvida até os dias de hoje: se o vocábulo patrão estava sendo usado como se todos nós fôssemos (segundo o Aurélio) chefes de escritório, de uma repartição (no caso o próprio Tribunal Superior Eleitoral); se das Câmaras (alta, dos senadores ou baixa, dos deputados); tratamento simplesmente carinhoso e afetuosamente irônico ou retórica pura dos descompromissados marqueteiros.

Dois dias depois, Zero Hora divulgou diversas mensagens de leitores - em resposta ao debate proposto - favoráveis (a maioria) e desfavoráveis às opiniões emitidas no artigo, afinal vivemos numa democracia.

Em 28.09.2006, o mesmo jornal publicou escrito de autoria do Secretário de Tecnologia da Informação do TRE/RS, em resposta ao nosso artigo do dia 24, sob o título Zerésimas de conhecimento, tentando de todas as formas desqualificá-lo.

 Em 01.10.2006, o jornal O Sul editou em suas páginas - caderno colunistas - matéria do insigne desembargador aposentado Ilton Carlos Dellandréa sob o título A urna eletrônica é confiável?, que pode ser lida neste blog, também se posicionando ao lado da tese exposta em As urnas eletrônicas e a zerézima, ou seja, admitindo a possibilidade de ocorrência de fraude neste tipo de votação. Cumpre ressaltar que o desembargador Dellandréa exerceu o cargo de juiz eleitoral em Irai, Espumoso, Novo Hamburgo e Porto Alegre, e foi taxativo ao afirmar (Zero Hora, 26.09.2006) que a "urna eletrônica a ser usada nas próximas eleições é fraudável e torna possível a identificação dos votos dos eleitores". E mais, "que a inexpugnabilidade é um tabu que o TSE tenta impingir à sociedade brasileira".

A Rádio Guaíba, em seu noticiário do dia 22.01.2007, às 22.00 horas, divulgou a seguinte matéria: "O Tribunal Superior Eleitoral confirmou, nesta segunda-feira, a ocorrência de uma falha em um lote de urnas eletrônicas utilizadas nas últimas eleições para governador de Alagoas. Denunciado pelo candidato derrotado, deputado João Lyra, do PTB, o problema, no entanto, não teria influenciado no resultado final. Segundo a assessoria do Tribunal, algumas urnas mais antigas não eram compatíveis com o programa adotado nas ultimas eleições. Isso acarretou erros na impressão do relatório que é entregue aos partidos".

Nada como um dia depois do outro.

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Posfácio: Zerézima ou zerésima?

Ao escrever pela primeira vez essa palavra no meu artigo sobre as urnas eletrônicas, confesso que fiquei em dúvida: letra esse ou letra zê? O Aurélio seria o lugar mais indicado mas, por ser uma palavra nova, não constava nem uma, nem outra: permaneci na dúvida.

 Evidentemente que meu Dictionnaire des racines des langues européennes não foi de muito proveito, pois imagino que na idade da pedra as eleições eram decididas na base do grunhido e da clava; os trogloditas da época (pois hoje continuam existindo) desconheciam inclusive o zero, o que dirá zeréz(s)ima!

 Procurei usar da analogia, e as duas primeiras palavras que me vieram à mente foram enésimo (afinal, a minha área de atuação é matemática) e enzima (que nada tem a ver com o assunto). Estava ganhando a letra esse mas, por mais que eu insistisse, o Word98 do meu computador recusava-se terminantemente a aceitar zerésima com essa letra. A consulta seguinte foi ao Google: ganhou zerésima com 589 citações e zerézima estava lá com 381 (inclusive com texto do TRE paulista e de outros TREs brasileiros). No  momento atual, a  zerézima do meu artigo encabeça a lista de citações, no Google, da grafia com zê.

Pensando bem, meu tempo de colégio já passou, não estou prestando exame de português, e zerézima com zê me pareceu ser mais forte e muito mais chamativo que zerésima com esse. Até prova em contrário, fico com zerézima!

E se permitem me repetir, nada como um dia depois do outro.

criado por projetosnumericos    5:05 — Arquivado em: Opinião, Política

20/1/07

Piro e outras manias

Davi Castiel Menda

Advertência: o presente artigo descreve cenas chocantes que podem melindrar e ferir suscetibilidades. O objetivo é apontar, através de alguns poucos - mas fortes - exemplos documentais, a que ponto pode chegar a crueldade, o menosprezo pelo ser humano (e porque não, também aos animais), por seres que, lamentavelmente, por convenção, gozam da qualificação imerecida de racionais. Este tipo de atitude, fora dos padrões éticos, nos persegue desde tempos imemoriais e é hora de uma tomada de atitude diretamente proporcional à dimensão desses crimes, cometidos por ditos humanos; a pena, de continuarmos acomodados, é permanecer eternamente sob o signo do medo. E o pior, sentirmos vergonha de pertencer à raça humana…

piro- (Do grego - pyro) - Elemento de composição - fogo.
-mania [Do grego - manía] - Elemento de composição - loucura, mania; tendência ou inclinação para; que apresenta certa mania, tendência mórbida ou patológica.

O Dicionário Aurélio relaciona aproximadamente duzentos vocábulos que etimologicamente estão ligados a alguma espécie de obsessão ou idéia fixa doentia. Alguns parecem ser inócuos e irrelevantes: bailomania (paixão por bailes, por danças); outros pesados e aterrorizantes cujo exemplo máximo seria a demonomania (mania dos loucos que se julgam possessos pelo Demônio); entre os divertidos e exclusivos do sexo masculino, destaque para o donjuanismo (mania de bancar Don Juan, tipo espanhol de galanteador, de conquistar todas as mulheres); o conhecidíssimo e restrito ao sexo frágil - ninfomania (tendência, nas mulheres, para o abuso de relações sexuais, a qual às vezes assume caráter patológico); e outros tantos.

No exato momento em que um raio caiu sobre um punhado de arbustos, gerando uma pequena fogueira (o fautor realimentação do efeito borboleta), inicialmente assustando a um grupo de hominídeos - porém causa imediata e determinante do progresso através da inovação - estava plantada a semente da piromania, a mania pelo fogo e suas terríveis conseqüências.

O primeiro piromaníaco conhecido foi Eróstrato, responsável confesso (ressalte-se, mediante tortura) pelo incêndio do templo de Diana em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo antigo, no ano 356 antes da era cristã. Seu único objetivo era obter fama a qualquer preço e, ao ser descoberta sua intenção, proibiu-se pronunciar e registrar seu nome para sempre, sob pena de morte para a desobediência. A ameaça não foi suficiente: seu feito e nome sobreviveram até os nossos dias.

Cabe a Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus o galardão, no mau sentido, de ser o piromaníaco mais famoso, acusado de ter provocado o incêndio que destruiu praticamente dois terços da cidade de Roma no ano 64 - quem já não assistiu esta cena nos incontáveis filmes sobre o tema? Entretanto, estudos atuais põem em dúvida a veracidade desta acusação. Para Massimo Fini, as calúnias foram inventadas por Tácito, Suetônio e historiadores cristãos.

- continua -

criado por projetosnumericos    13:16 — Arquivado em: Crônica, Opinião
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