Davi Castiel Menda
Quando eu era menino ainda, com dois ou três anos de idade, confesso que tinha medo da noite. Não do escuro, mas sim da noite chegando, mandando para um lugar desconhecido a claridade, a luz, luz que desde as sociedades primitivas sempre foi sinônimo de vida. Tinha medo que a noite, aproveitando-se do sol que se escondia, pudesse como num passe de mágica engolir o mundo, literalmente. Pensando bem, eu tinha medo de um buraco negro – astronomicamente falando - e não sabia.
Lembro, na mesma época, de meu pai ter me levado, certa noite, até à agência dos Correios com o intuito de enviar um telegrama. Você pode até achar estranho, mas os Correios ficavam permanentemente abertos para manter as comunicações em atividade. A única forma - naquela época sem Internet, de telefonia incipiente e péssimo serviço - de se manter contato urgente com alguém era através do telegrama. Logo em seguida, meu pai ainda me levou à redação do jornal Diários de Notícias, na Rua da Praia. Naquela noite eu descobri que, apesar do escuro, a noite também dimanava vida: pessoas andavam pelas ruas, trabalhavam, mandavam notícias, escreviam em jornais. Aquela noite me marcou profundamente: sempre que acordava por um motivo qualquer durante a madrugada, lembrava-me automaticamente dos funcionários dos Correios e do jornal, e ficava seguro! Aqueles heróis noturnos, anônimos e de maneira incógnita, estavam zelando pela humanidade. Deixei de ter medo de buracos negros.
O tempo passou. Assisti ao vivo o quebra-quebra logo após o suicídio de Getúlio Vargas. Vibrei intensamente com a Legalidade de Brizola. Vi entristecido um país dominado pela ditadura militar. Leis, decretos, atos institucionais, decretos-leis foram criados aos magotes, uns bons, outros protecionistas, alguns demagógicos. A democracia é assim.
Mas, aos poucos, noto que o governo cada vez mais vai se intrometendo na vida do cidadão; em suma, na minha. Um dia é um pardal que me controla permanentemente nas estradas; outra lei me proíbe de ter uma arma onde moro, apesar do legislador não me proporcionar a segurança que mereço; e mais recentemente, um governante me manda um recado pelos jornais: que não se deve falar demais ao telefone, já que qualquer cidadão corre o risco de estar grampeado. Se não bastasse, agora por último a Lei Seca. Sinto-me no direito de discordar, pois minha dose máxima é (é não, era!) dois chopes semanais. Whisky – adoro whisky; a última garrafa que recebi no meu aniversário (em março), ainda está pela metade. Se os acionistas da Ambev e das destilarias escocesas dependessem de mim, já teriam falido. Portanto, não concordo com a discriminação generalizada que nos transformou a todos em beberrões contumazes e, pior ainda, em criminosos com direito a cadeia e tudo.
Já vigorava uma lei que punia bêbedos ao volante. Mas não, o governo precisava radicalizar. E o mais interessante é que quem criou a lei, se beneficia de carro com motorista - pago pelos contribuintes; e ainda pode beber a vontade com o cartão corporativo, despesas não comprovadas ou coisa que o valha. É um espetáculo…
Instituam a pena de morte aos bêbedos, mas não chamem de criminoso e joguem numa cela quem bebe um chope! Fechem as fábricas de bebida e façam da Lei Seca uma lei de verdade, não de mentirinha. Falta coragem, o dinheiro – os impostos – fala mais alto!
Tomar um mísero chope e dirigir é menos perigoso do que dirigir e ouvir uma partida de futebol. Se o seu time estiver perdendo, você ficará irritado, se estiver ganhando, eufórico. Pergunte a um psicólogo ou psiquiatra e ele lhe dirá que são sensações idênticas ou talvez piores. Bebericar um chope e dirigir é provavelmente menos perigoso que discutir com o carona sentado ao seu lado, fato comum numa viagem longa, principalmente com crianças no carro. Sem falar nos que bebem chimarrão, fumam, se agarram na (o) namorada (o), etc.
Hoje é um chope, em São Paulo já existe o rodízio de veículos, quem sabe amanhã proíbam a fabricação de automóveis? Garanto que vai diminuir mais ainda as estatísticas de mortos no trânsito. Diminuir? Balela! As estatísticas comprovam que continua tudo na mesma. O que falta são estradas boas, carros seguros, fiscalização coerente, investimento em estradas de ferro, em hidrovias. E não gastar milhões em tapa-buracos pré-eleição.
Milhões de brasileiros deixaram de se divertir, ir a um bar, a um restaurante, temerosos com a aplicação da famigerada lei – todos se tornaram criminosos. No fundo, no fundo, esse é o objetivo. Se você passa a ter medo, não pode acusar quem realmente tem culpa. É assim que funciona.
Que pena, depois de mais de sessenta anos, os buracos negros voltaram a me assustar.