Davi Castiel Menda
- continuação -
"Existe uma fórmula facílima de sair com uma pequena fortuna de um Cassino; basta entrar com uma grande fortuna."
Uma das tentativas mais emocionantes de "quebrar a banca", a qual tive a felicidade de vivenciar, foi coletiva e inconsciente, e pelo inusitado, até os detalhes posso fornecer: 18 de fevereiro de 1963, no cassino de Rivera, cidade uruguaia fronteiriça com Santana do Livramento. O público era exatamente o oposto dos habitués famosos e endinheirados de Monte Carlo: uma mescla de turistas de classe média e moradores locais.
A noite chegara naquele limite invisível em que os ganhadores se preparavam para uma saída sorrateira, vitoriosa, com os lucros enrustidos e, os perdedores, procuravam por uma tábua de salvação, um último expediente para aquela situação aflitiva, que tanto poderia ser um número ganhador, ou até, quem sabe, um empréstimo com algum amigo magnânimo.
"Para conseguir um empréstimo com o gerente do Cassino, basta você provar que não precisa."
Muitos apostadores, cientes de que o zero era favorável à banca, invertiam a situação, nele apostando suas fichas, figuradamente aliando-se ao inimigo, aliás, um comportamento perfeitamente válido, ético e inteligente.
- "Zero" - anunciou um dos crupiês da mesa um - e apressou-se a pagar aqueles que haviam apostado suas fichas e esperanças no número fatídico, o número que não é par nem ímpar, não tem cor, não pertence a nenhuma coluna ou dúzia, e como asseveram alguns jogadores em devaneios lúgubres-poéticos, o número que não tem alma… Até aí nada demais; porém, instantes depois, lançada a bolinha e, apesar de existirem outros trinta e seis números no cilindro, esta insistiu em cair pela segunda vez consecutiva no mesmo local: zero!
O terror dos banqueiros é a repetição. Nenhum apostador conscientemente retira as fichas posicionadas num número que tenha originado lucro - pelo contrário, o costume é adicionar mais algumas - e a estas fichas acresçam-se as apostas de outros jogadores. Dois zeros seguidos, todavia, não eram necessariamente motivos de preocupação para um cassino que se preze e tal fato, na verdade, sempre é uma atração na monótona sucessão de números da roleta. Entretanto, sem que ninguém imaginasse, o drama, do ponto de vista da banca, começava a ser escrito.
Novo giro da bolinha de marfim; o suspense tomando conta de todos e o resultado, num misto contraditório de esperado e surpreendente: "Zero" - explodiu mais uma vez a voz do crupiê. "Zero" - gritaram os mais próximos da mesa provocando eco, e a algazarra, apesar do ambiente tradicionalmente sóbrio, foi generalizada. Fatídico momento para a banca - era, indiscutivelmente, o dia da caça! O terceiro zero!
"O momento em que dá o seu número de sorte na roleta, três vezes consecutivas, coincide com o momento exato em que você não tinha mais fichas para apostar. "
Os jogadores acotovelavam-se compactamente sobre o zero, causando, naquele momento e naquele lugar, a maior concentração demográfica por metro quadrado do planeta. A área destinada às apostas - no zero propriamente dito - estava totalmente encoberta por cascatas, montanhas de fichas que se acumulavam sobre o número - empregando um jargão turfístico - tríplice coroado. O crupiê responsável pelo arremesso da bolinha que deveria, pelo menos, tentar aparentar calma e neutralidade, parecia que a encarava e ao cilindro, mirando, calculando vetores, velocidade, tempo, peso e até mesmo a direção do vento, como se este fenômeno atmosférico fosse possível num cassino. A situação era insólita e as evidências daquela atitude fantasiosa apontavam para um objetivo básico: não acertar o zero! Mesmo a banca tendo trinta e seis números a seu favor e apenas o zero contra (numa inversão de valores por tudo o que foi dito até agora), "eles" estavam com medo! Aquele ar de nonchalance que cinge os crupiês - e que invejamos, pobres mortais que somos - tinha sumido como por encanto.
Roleta girando numa direção e a bolinha em sentido contrário, na sua trajetória inicialmente circular e transmudando-se numa espiral ao perder velocidade, mansamente, hipnotizando pela sua lentidão; et por cause, alojando-se novamente no zero, pela quarta vez consecutiva, num gesto de fidelidade absurda para os banqueiros, mas enlouquecidamente festejado pelos apostadores.
"Se você estiver ganhando num Cassino, não se preocupe. Isso passa."
Estávamos vivenciando uma situação invulgar, logrando um sucesso financeiro de dar inveja aos magnatas de Punta Del Este, Monte Carlo, Las Vegas, numa revanche sem precedentes por todos os reveses sofridos ao longo de anos e anos de derrotas. Os freqüentadores, os apostadores e inclusive os próprios crupiês (graças às gorjetas mais do que generosas), naquele instante, se sentiam irmanados, pouco se importando com lucros ou perdas - o que contava agora era o momento, um momento histórico, mágico e inédito, de transe, de orgasmo, de euforia incontida.
E por mais incrível que possa parecer, pela quinta vez consecutiva, a bolinha se aninhou mais uma vez no zero. O pagamento, pela quantidade de ganhadores, se prolongou por um bom quarto de hora, tarefa que normalmente é executada pelos crupiês em apenas um ou dois minutos.
Faço uma pausa para informar que, segundo o Guiness Book, o recorde de repetição na roleta pertence ao número sete, por seis vezes consecutivas. As probabilidades de uma sêxtupla repetição de um número qualquer? Trinta e sete na 5a. potência ou seja, uma chance em 69.343.957.
Felizmente para a banca, o fenômeno cessou por aí. Seria demais pedir pelo milagre de um sexto zero. Pelo menos naquela noite, aproximadamente trinta pessoas, ganhando (simbolicamente) verdadeiras fortunas, vingaram todos aqueles cúmplices e solidários apostadores do mundo inteiro, que quando se reúnem, visam um objetivo único: vencer o sistema, ganhar da banca! Desta vez deu certo, com requintes de perversidade: com o número "deles"…