28/11/06
Azares da Sorte
Davi Castiel Menda
1990, para mim, foi um ano excepcional por um motivo singelo: correspondeu ao lançamento de meu primeiro livro – Azares da Sorte. Era uma coletânea de pequenas historietas, na verdade mini-tragi-comédias, muitas delas vivenciadas por mim, acompanhando lances audaciosos de jogadores destemidos e suas apostas contingenciais, em situações divertidas e simultaneamente melancólicas. O tema de Azares da Sorte era o que convencionamos atribuir a forças que determinam ou regulam tudo quanto ocorre, e cujas causas – favoráveis ou não - imputamos ao acaso das circunstâncias ou a uma suposta predestinação.
Sendo eu um ilustre desconhecido no ramo literário, e pretendendo não dar vexame na minha estréia (comercialmente falando), obtive algumas autorizações, graças ao meu bom relacionamento, que me permitiram inserir no livro três narrativas de pessoas famosas: Aparício Silva Rillo, grande autor gauchesco, já falecido; Chico Anysio - precisa apresentação? - e Paulo Santana, jornalista polêmico e polemista, ligado a RBS e conhecido pelo seu “gremismo” exagerado (e inteligente). Ainda, somando, como handicap favorável, a colaboração de um dos mais brilhantes caricaturistas uruguaios – radicado no Brasil – Rubem Ygua, que com suas ilustrações, deu mais vida e alegria ao trabalho.
O lançamento do livro teve situações sui generis, que só poderiam ter acontecido comigo e mais ninguém:
1a. – A primeira edição totalizava 1.100 exemplares – não foi vendido nenhum! Vendas = zero! Pior, todos os livros foram para o lixo – literalmente falando!
2a. – A segunda edição, com o mesmo número de exemplares da primeira, impressa cinco dias depois, foi integralmente vendida em quatro meses. Para conhecimento do leitor, informo que as histórias eram exatamente as mesmas da primeira edição. Não foi mudada uma vírgula sequer…E para seu conhecimento número dois, saiba que 1.100 livros é livro que não acaba mais. Se você escrever um algum dia, publicá-lo, e vender todos eles, considere-se autor de um legítimo best-seller.
3a. – O melhor dos contos, que seria o somatório de todas aquelas historietas que efetivamente foram publicadas, ocorreu 16 anos atrás, paralelamente ao lançamento do livro, mas está sendo escrito somente hoje! E ele, realmente, se encaixa como uma luva com o título do livro. _
______________
Saí de casa na velocidade de um bólide – não era para menos – o pessoal da gráfica me telefonara informando que Azares da Sorte estava pronto. Mantendo a mesma rapidez, apanhei um táxi, busquei os 1.100 livros encomendados, e eis-me sentado junto ao motorista – agora mais calmo – saboreando um exemplar do meu livro, lendo uma página aberta ao acaso, que por certo eu conhecia de cor e salteado.
Opa – na primeira frase, faltou acento numa palavra! O fato me pareceu estranho, já que o livro passara por três revisões; a minha própria, a da minha esposa, Ana Maria (professora de Letras), e da dona Zilah, igualmente professora e contratada especificamente como revisora do projeto. Tudo bem, o que é um acento na imensidão de um livro? Mas prosseguindo na leitura, observo que faltou outro acento, e mais outro, e de repente constato, apavorado, que em qualquer página que o livro fosse aberto, qual um livro inglês, os acentos eram inexistentes.
Peço ao taxista que dê meia volta, rumo à gráfica e, no curto trajeto, mentalizo e vislumbro dezenas de estagiários a contratar, munidos de canetas especiais, preenchendo os acentos que faltam ao livro. Mesmo com o cérebro embotado pelos acontecimentos, calculo rapidamente: em média 18 acentos por página, vezes 100 páginas, vezes 1.100 exemplares: são praticamente dois milhões de acentos a serem corrigidos manualmente!!! Meu cérebro dá voltas, estou nauseado, sinto ímpetos de esganar o pessoal da gráfica, penso em sabotadores e passo a lutar com eles tal qual Don Quixote ao guerrear com seus moinhos de vento, inimigos imaginários.
Retornando ao prédio da gráfica, volto a falar com o gerente – agora transformado em meu inimigo mortal. Ele, naturalmente, se espanta ao ver-me e mais ainda ao receber um livro – que recém saíra da sua gráfica - e ser convidado a abri-lo numa página qualquer. Apresentado e constatado o problema, ele imediatamente, na defensiva, alega que eu fora o responsável pela última revisão, aquela em que o autor lê e verifica os fotolitos, um a um, e dá o OK. Realmente, este fora o procedimento, mas lembro que no momento que eu os examinara, os acentos estavam lá; agora, tinham sumido, qual passe de mágica…
Pelo menos, eu senti o olhar de apavoramento do meu interlocutor – eu conseguira dividir o problema e isto suavizava o meu sofrimento. Um pequeno inquérito foi montado às pressas e instantes depois o veredicto era dado a conhecer: logo após a minha derradeira revisão, o material fora entregue a um funcionário - no seu primeiro dia de trabalho(!) – cuja tarefa era suprimir, com um líquido corretivo, os pequenos traços, riscos e imperfeições dos fotolitos. Funcionário novo, inexperiente, cumprindo rigorosamente e ao pé da letra suas ordens, tracinhos, risquinhos e acentos se confundindo… Preciso continuar?
A gráfica, evidentemente, assumiu o prejuízo e prometeu reimprimir uma nova edição, mas no momento em que, mais tranqüilo, me dirigia à saída, escutei – num tom acima do normal - uma ordem do gerente dirigida a todos os funcionários (entretanto, presumo que o alvo da mensagem teria um destino certo – a minha pessoa): “A partir de hoje, está proibido nesta gráfica pegar qualquer serviço ou livro, cujo título ou texto contenha a palavra Azar!”
Dou todo o meu apoio.
criado por projetosnumericos
7:58 — Arquivado em: 
