Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

29/11/08

Amenidades

Davi Castiel Menda

Gosto de comer bem, apesar de vegetariano. Sempre estou procurando novidades, mesmo que essas estejam escondidas em botecos de terceira ou de categoria indefinida. Por esses dias, com pressa, entrei num restaurante semipopular, administrado por uma grande organização. Pelo menos, o preço era fixo; nada daquela nefanda, abominável e execrável balança. Eram mínimas as opções do buffet e senti que o almoço não seria dos melhores. Servi-me das poucas variedades de salada, uma concha de arroz e, salvação, lá adiante batatas fritas. Aproximei-me lépido e faceiro e no momento em que iria completar meu prato, uma atendente, intimidativa, num grito ameaçador avisou-me: “aqui é a seção de grelhados; se pegar alguma coisa é mais R$ 2,30.”

Expliquei a ela, numa boa, que meu intuito era somente servir-me de batatas fritas, não me interessava as carnes, de aspecto indefinido, mas que ela orgulhosamente chamava de grelhados. Para minha incredulidade e desespero (não pelos R$ 2,30 – mas pela classificação absurda, confundido um tubérculo com um tecido muscular, mais conhecido por carne), continuou classificando batata frita como grelhado.


Em matéria de gastronomia, morro e não vejo tudo.

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No meu tempo de guri, os heróis eram, como classificar, assexuados?
Eram eternamente namorados, noivos, e respeitavam certos limires vitorianos. Não cresciam, não ficavam velhos, não casavam, não “ficavam”. Quem é do meu tempo – bota tempo nisso – deve lembrar-se do Fantasma e sua noiva Diana Palmer. Linda de morrer, mas o Fantasma, com aquela ridícula fantasia, preferia ficar perdido na selva com seus amigos pigmeus. Lembro do Mandrake e sua noiva (Narda?), rica, elegante, frequentadora das altas rodas da sociedade. E o Mandrake, na sua mansão Xanadu, às voltas com um negrão de dois metros de altura, o Lothar. Sem contar a amizade colorida entre Batman e Robin, o sorrelfa Super-Homem que ia e vinha e nada de faturar a Louis Lane, aquela repórter sonsa e sem graça, tanto nos quadrinhos como na tela. E os heróis de Disney, todos eles tios, ninguém queria saber de oficializar um comprometimento maior. Era o Tio Patinhas, Donald e seus sobrinhos, e as pobres Margarida e Minnie a ver navios, vendo seus amados brincar com o Pateta e Pluto.

E ontem fiquei surpreendido com a notícia do iminente beijo da Mônica e Cebolinha, heróis brasileiros do Maurício de Souza. Não é que os personagens da Turma da Mônica mudaram? A comilona Magali agora faz dieta; Cascão, para desespero dos ambientalistas que orientam a população a economizar água, agora resolveu tomar banho; e os eternos inimigos Mônica e Cebolinha, numa atitude que ainda vai provocar polêmica entre os moralistas de plantão, devem dar um beijo frontal, que esses (os moralistas) esperam que pelo menos não seja explícito demais que envolva o órgão muscular alongado, móvel, situado na cavidade bucal, que serve para a degustação e deglutição, que desempenha papel importante na articulação de sons e que, em algumas oportunidades, através de leve ou violenta sucção, pode concretizar um ósculo lascivo. Resumindo, o Maurício terá coragem de promover um beijo de língua entre os heróis dito infantis?

Em matéria de Histórias em Quadrinhos, morro e não vejo tudo.

criado por projetosnumericos    7:23 — Arquivado em: Humor

28/10/08

De Médico e de Louco…

Davi Castiel Menda

O fato narrado a seguir, aconteceu num Clube Comercial do interior do Rio Grande, lá por volta de 1962, envolvendo pessoas conhecidas e de famílias tradicionais; em face do exposto, mantemos o anonimato dos personagens.

Certo fazendeiro, apreciador do jogo carteado, sofrendo de pressão alta, problemas no coração, artrite, e outras doenças características da terceira idade, durante um joguinho de pif-paf - nada amistoso por sinal, considerando-se que o dinheiro circulante numa única parada seria o suficiente para adquirir um automóvel O km - ao receber suas nove cartas, ficou petrificado: levantara “pifado” (para os não iniciados, dependia de somente uma carta para ganhar). Bem, o “pife” não era lá estas coisas - a única carta que lhe servia para “bater a parada” era o quatro de ouros - mas convenhamos, levantar “pifado” é uma vantagem nada desprezível, principalmente levando-se em conta que vários jogadores habilitaram-se àquela partida. Ah, íamos esquecendo uma outra vantagem adicional: por serem dois baralhos no pif-paf, conseqüentemente a chance era dupla, pois existiam dois quatro de ouros em jogo.

Pela situação incomum e levando em conta seu histórico de problemas cardiovasculares, mesmo antes da parada iniciar, nosso amigo fazendeiro começou a suar frio e tremer, indicando claramente aos seus parceiros que suas cartas, sem dúvida, eram boas. Ao chegar sua vez de comprar a carta a que tinha direito, foi ao baralho, chuleou lentamente e, pela banda da carta, viu que era um … quatro … quatro vermelho … puxou a carta de sopetão e…, que pena, era o quatro de copas! Mais tremores, mais suores, mais frio. Jogou fora o quatro que não lhe servia e continuou na expectativa. Cada jogada dos outros parceiros parecia-lhe que durava um século. Felizmente, para sua satisfação, ninguém “bateu”, e sua vez de jogar chegou novamente: ele comprou a carta e … replay da jogada anterior: o outro quatro de copas! Nosso jogador se sentiu na pele de um imaginário personagem bonzinho das novelas da Globo, daqueles que são perseguidos do início até o último capítulo.

Num espaço de tempo que lhe pareceu uma eternidade, mas que na verdade não durou mais do que um segundo, ele sentiu o mundo girar, não resistiu e desmaiou, sob o olhar atônito e preocupado dos demais participantes. Um médico que estava presente e, coincidentemente, “peruando” o jogo do desfalecido, imediatamente foi convidado a reanimá-lo. O médico, um tremendo gozador, e sabendo que o desmaio não teria maiores conseqüências, abriu sua maleta, tirou o receituário e, sem mesmo conferir as condições do jogador, lascou aquela que seria a sua receita mais invulgar (e genial - do ponto de vista lúdico) de toda sua carreira, e que, na sua concepção, curaria o desmaiado: “Quatro de ouros, de meia em meia hora”!

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Minha homenagem a todos os médicos que vem me tratando dos mesmos problemas do fazendeiro "azarado": pressão alta, problemas no coração, artrite, psoríase-reumatóide e outras doenças características da terceira idade; em especial à Dra. Janete.

criado por projetosnumericos    7:42 — Arquivado em: Humor, Jogos & Loterias

26/9/08

O Caos na Economia Americana

Davi Castiel Menda                

                   

Já imaginaram? Pra eles se safarem precisam 700 bilhões dessas notinhas! Colocadas todas essas notas lado a lado, e ainda empilhadas em montinhos de quatro dólares, dá para cobrir toda a cidade de São Paulo. É pouco?

criado por projetosnumericos    17:47 — Arquivado em: Humor

13/9/08

Frases…somente frases

- Quem acha tudo gozado, é faxineira de motel… (Anônimo)

- Depois da derrota, o pior resultado é o empate. (Galvão Bueno)

- A abstinência é uma boa coisa, desde que praticada com moderação. (Anônimo)

- O carro que mais vende no Brasil é o carro usado. Por que as montadoras não passam a fabricar carros de segunda mão? (Carlito Maia)

- É claro que uma relação platônica é possível; mas só entre marido e mulher. (Anônimo)

- O casamento é o preço que os homens pagam pelo sexo; o sexo é o preço que as mulheres pagam pelo casamento. (Anônimo)

- Muitas mulheres consideram os homens perfeitamente dispensáveis no mundo, a não ser naquelas profissões reconhecidamente masculinas, como as de costureiro, cozinheiro, cabeleireiro, decorador de interiores e estivador. (Luís Fernando Veríssimo)

- O primeiro economista do mundo foi Cristóvão Colombo: quando saiu, não sabia para onde ia; quando chegou, não sabia onde estava. E tudo por conta do governo. (Ronaldo Costa Couto)

- Preserve os gatos pingados da extinção. Afinal, eles são só meia dúzia. (Anônimo)

- O primeiro sentimento de quem está de dieta é o de revolta. Dá vontade de acabar com tudo, a começar pelo que tem na geladeira. (Anônimo)

- Prestígio só dá dinheiro pra Nestlé! (Anônimo)

- Existem três tipos de mulher: as bonitas, as inteligentes e a maioria. (Anônimo)
(Atenção revisor – retirar esta frase: pode desagradar um grupo de mulheres)
(Resposta do revisor – não há motivo para preocupação: as que lêem o teu blog estão incluídas simultaneamente nas duas primeiras opções: bonitas e inteligentes)

- Triste não é mudar de idéia. Triste é não ter idéia para mudar. (Francis Bacon)

- Quando alguém lhe disser que não é uma questão de dinheiro, mas de princípio, trata-se de uma questão de dinheiro. (K. Hubbard)

- Quem tiver dinheiro para comprar carne, em nome de Deus, eu libero para comê-la na Sexta-Feira Santa. (D. Paulo Evaristo Arns)

- Computador e Internet servem como uma espécie de droga benigna. Idiotas de todo o mundo trocam mensagens idiotas entre si: melhor do que saírem dando tiros por aí. (Marcelo Coelho)

- A televisão é maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana. (A. Torelly - Barão de Itararé)

- A descoberta consiste em ver o que todo mundo viu e pensar o que ninguém pensou. (A. Szent-Gyorgyi)

- Em dia de tempestades e trovoadas o local mais seguro é perto da sogra, pois não há raio que a parta. (Anônimo)

- Passado de mulher é igual à cozinha de restaurante: melhor não conhecer senão você não come. (Anônimo)

- Se um dia, a pessoa que você ama lhe trair, e você pensar em se jogar de um prédio, lembre-se: você tem chifres, não asas… (Anônimo)

- O cérebro humano começa a trabalhar no momento em que o sujeito nasce e não para até o momento em que ele sobe num palanque para fazer um comício. (G. Jessel)

- Noventa por cento dos políticos dão aos 10% restantes uma péssima reputação. (Henry Kissinger)

- É claro que sou uma excelente dona-de-casa. Sempre que me separo fico com a casa! (Mae West, atriz americana, casada inúmeras vezes)

- A mulher deve sempre sonhar com um homem fiel e obediente… Só não deve querer transformar o sonho em realidade. (Anônimo)

- Está comprovado cientificamente que doce não engorda… Quem engorda é você!!! (Anônimo)

- No fundo, no fundo, todo mundo é bom. Difícil é segurar os canalhas no fundo da piscina! (Frangonildo Barbosa)

- Virgindade é como máquina de escrever: é uma coisa muito antiga e restam poucas, mas nem por isso quer dizer que valem muito. (Autor anônimo)

- Não gosto de enterros. Se algum dia chegar a ir no meu, irei a contra gosto. (Frangonildo Barbosa)

criado por projetosnumericos    6:38 — Arquivado em: Humor

11/9/08

Manchetes do Fim do Mundo

Davi Castiel Menda

Quem transitou pela free-way ontem às 16.30 horas, vivenciou praticamente como seria o fim do mundo. Literalmente um buraco negro desenhado no céu e uma enxurrada nunca vista. Lembrei-me das experiências no túnel - lá nos Alpes - e do efeito borboleta. Aproveitei para, colaborando com vários jornais, elaborar as manchetes anunciando o evento.

 

Jornal do Leão: RECEITA COMUNICA – ESTRAGOS PROVOCADOS PELO FIM DO MUNDO NÃO PODERÃO SER ABATIDOS NA DECLARAÇÃO DE 2009

Jornal dos Engenheiros: CREA GARANTE - PRÉDIOS POR ELA FISCALIZADOS NÃO SOFRERÃO AVARIAS

Jornal dos Lotéricos: CAIXA LANÇA MAIS UM NOVO JOGO – APOSTADOR DEVE ACERTAR HORÁRIO EXATO DO FIM DO MUNDO

Jornal dos Shoppings: COMÉRCIO PROMOVE LIQUIDAÇÃO MONSTRO – PAGAMENTOS SOMENTE À VISTA

Correio Braziliense: POLÍTICOS, EM 2007, TENTARAM ACORDO PARA QUE BRASIL FICASSE DE FORA DO FIM DO MUNDO – PARTIDOS DA BASE ALIADA  NEGAM  ENVOLVIMENTO

Jornal do Vestibular: PROFESSOR DE CURSINHO PREVÊ – QUESTÕES SOBRE O EVENTO CERTAMENTE CAIRÃO NO VESTIBULAR DE VERÃO

 

Diário Oficial da União: PRECATÓRIOS RELATIVOS AO FIM DO MUNDO SÓ SERÃO PAGOS EM 2020 

Informática News: VERSÃO BETA DO WINDOWS–THE END TERIA PROVOCADO O PROBLEMA – BILL GATES PROMETE ELIMINAR “BUGS” E REVERTER O QUADRO

Jornal dos Bancos: SERVIÇO DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO  E SERASA TENTAM  RENEGOCIAÇÃO URGENTE COM DEVEDORES

Jornal da Comunicação: OPERADORAS DE TELEFONIA MÓVEL PREVÊEM AUMENTO EXAGERADO DE DEMANDA PARA A HORA ZERO DO EVENTO E GARANTEM REFORÇO DE PESSOAL

Estado de São Paulo: Exclusivo – FITAS COMPROMETEM EMPREITEIROS DO RAMO DE DEMOLIÇÕES – QUERIAM EXCLUSIVIDADE NOS TRABALHOS DE RESCALDO

Jornal das Praias: DURANTE O FIM DO MUNDO COMERCIANTES DE CAPÃO DA CANOA, TORRES E TRAMANDAÍ, COM RESPALDO DA METEOROLOGIA , GARANTEM TEMPO BOM AOS VERANISTAS QUE POR LÁ SE REFUGIAREM

Jornal de Santa Cruz: FABRICANTES DE CIGARRO SAEM AS RUAS, EM REPRESÁLIA, PORTANDO FAIXAS OSTENSIVAS – “O FIM DO MUNDO FAZ MAL À SAÚDE”

Jornal do Carnaval: CARNAVALESCOS PROMETEM DESTAQUE-SURPRESA PARA DESFILE DE 2009 COM O CARRO APOCALIPSE NOW – O MUNDO DO APOGEU AO PERIGEU

Jornal do Estado: GOVERNADORA CATEGÓRICA – PAGAMENTO DE SETEMBRO AO FUNCIONALISMO, SOMENTE APÓS O FIM DO MUNDO

Jornal do PT: FOME ZERO FINALMENTE DARÁ CERTO – A PARTIR DE AMANHÃ, NINGUÉM MAIS PASSARÁ FOME…

Jornal dos Sindicatos: SINDICATO DOS COVEIROS, PREVENDO AUMENTO EXCESSIVO DE DEMANDA, PROMOVE GREVE EM BUSCA DE MELHORES SALÁRIOS

Jornal dos Barzinhos: AMBEV GARANTE – NÃO VAI FALTAR CERVEJA

Diário Oficial do Estado: GOVERNO DECRETA PONTO FACULTATIVO PARA AMANHÃ

 

Jornal Espírita: ESPÍRITO DE ORSON WELLES APARECE EM SESSÃO E SE DIZ EXTREMAMENTE MAGOADO –“EU É QUE GOSTARIA DE DAR A NOTÍCIA EM 1a. MÃO”

criado por projetosnumericos    7:06 — Arquivado em: Ficção, Humor

9/9/08

Brasileiros devem 20,7 bilhões

As manchetes dos principais jornais de ontem davam conta que os brasileiros, mesmo em tempos de juros altos e restrição ao crédito, atingiram o endividamente de mais de 20 bilhões no cheque especial. Lembrei-me da crônica abaixo,  publicada pela primeira vez no Jornal Treze Pontos, posteriormente em O Fenal (setembro/2002). Na época, recebi várias críticas: algumas elogiosas e outras me acusando de não entender nada de economia. Deixo a decisão com vocês.

 

 No Tempo dos DInossauros

Davi Castiel Menda

 

Vamos dar asas à nossa imaginação e criar um país hipotético, num passado longínquo, de nome LisarB, e povoá-lo com apenas três homens e suas respectivas mulheres:

Antonio - era o curandeiro; José plantava e criava galinhas, alguns porquinhos e outras tantas reses; Luiz, por sua vez, trabalhava com madeira e metal: era o artífice da turma e, se por acaso, em LisarB houvesse eleições um dia, por certo seria eleito o chefe. Os negócios eram realizados na base do escambo, e todos viviam na mais perfeita paz e harmonia. Um belo dia porém, reunidos em torno da fogueira Central, Antonio teve uma idéia:

- E se nós criássemos uma moeda para comprar uns dos outros, ao invés de ficar trocando mercadorias?

Da teoria para a prática, foi um zás. Juntaram 3.000 ossinhos, cada um gravou a sua marca, e batizaram a nova moeda com o nome de laer. Não sendo muito bons de linguagem, criaram outra palavra para expressar mais de um laer: siaer. E por lógica, a cada um tocou 1.000 siaer.

Antonio agora cobrava por suas consultas; José comercializava a carne que produzia em siaer e, Luiz, prestava seus serviços profissionais para os seus conterrâneos não mais recebendo mercadorias, e sim ossinhos à guisa de honorários.
E, apesar da mudança, todos continuaram vivendo na mais perfeita paz e harmonia.

Mas como diz o ditado: não há bem que sempre dure… numa determinada noite, mais uma sem ter o que fazer, Luiz, o artesão, moldou dois pedacinhos de madeira -tornando-os semelhantes a dois cubos - pintou alguns pontinhos pretos, e … estava criado o jogo de dados em LisarB! Só para passar o tempo, jogaram algumas horas (a dinheiro!), e deu no que deu: Antonio, que sempre fora um homem de sorte, ficou com todos os 3.000 siaer que circulavam em LisarB.

Na hora, ninguém deu muita importância para o acontecido mas, no dia seguinte, todos foram surpreendidos com a entrevista coletiva de Antonio, anunciada por sua mulher. A bem da verdade, deve-se registrar que Antonio apareceu com seu melhor traje de folhas de bananeira, comunicando que a partir daquela data, não mais trabalharia como curandeiro, já que se tornara o único capitalista do país, e em conseqüência, viveria de rendas. E, levando em conta e antecipando-se ao fato de que José e Luiz precisariam de capital de giro para movimentar seus negócios, emprestou 1.500 siaer a cada um, a juros simbólicos de 1% ao mês.

Ao final de trinta dias, cada um dos tomadores do empréstimo, devia 1.515 siaer, que somados perfaziam 3.030 siaer! Reunidos, como sempre, em volta da fogueira, Luiz e José perguntaram a Antonio simultaneamente:

- Antonio, se todo o nosso capital circulante é de 3.000 siaer e, decorridos apenas um mês, nós já te devemos 3.030 - e este montante tende a continuar crescendo a cada 30 dias - nós estamos achando que a dívida se tornará impagável. Você não acha que a nossa Economia interna irá para o pântano?!

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Prezado leitor: para que você não se apavore, por favor, não faça a projeção da ficção acima para o país onde você reside, com 180 milhões de habitantes e não apenas três famílias, todos eles pagando juros aos bancos, financeiras e cartões de crédito - não de 1% como na historinha - mas malsinados 10% a 15% ao mês!!!

criado por projetosnumericos    8:53 — Arquivado em: Ficção, Humor

21/1/07

Lei de Parkinson

Davi Castiel Menda

Uma das primeiras providências que um viajante toma ao hospedar-se num hotel, em viagem nacional ou internacional, é consultar a lista telefônica e ir direto à página onde consta seu sobrenome. Concordam comigo?

Sendo uma das minhas filhas psicóloga, e a outra, quase, acho que tenho o duplo direito de imiscuição no assunto, sem correr o risco de ser processado por exercício ilegal da profissão. Portanto, numa análise mais profunda, este ato ou efeito de situar-se demonstra um claro sintoma de desamparo: a visualização do nome de família num teórico e pseudo-parente, visivelmente, deixa-o mais tranqüilo, antevendo a possibilidade da ocorrência de um problema qualquer durante a sua estada. É uma tentativa - totalmente inócua, diga-se de passagem - de aproximação social e parenteira, pois ele, (des)motivado pela distância da pátria mãe (ou do estado natal), sente-se desarraigado do seu chão de costume, o que gera uma situação de abandono. Aqueles quase setuagenários, como eu, já devem estar vacinados contra tal fato.

Se você está incluído no rol desses viajantes, não seja inconveniente telefonando ao seu "parente" recém descoberto na lista, por dois motivos: 1) sendo você brasileiro, ele presumirá que você pretende um empréstimo, e o tratamento dispensado não será dos melhores; 2) parentes ricos não procuram parentes pobres - somente a recíproca é verdadeira - portanto, ele presumirá que você pretende um empréstimo, e o tratamento dispensado não será dos melhores.

Por ser um contumaz freqüentador de restaurantes, cheguei à conclusão que os habitués das casas de pasto assemelham-se muito a viajantes e, seus medos, mesmo inconscientemente, são perfeitamente constatáveis. O comportamento e as atitudes, via de regra, são tão previsíveis, que foram analisadas pelo professor C. Northcote Parkinson, o criador da Lei de Parkinson, que ao ser divulgada, causou um impacto no campo da Administração, pública e privada, e serviu de base para a fundação da "Escola do Absurdo", da qual continua, ainda, como clássico maior.

Os comensais, ao entrar, dirigem-se preferencialmente para o lado esquerdo do restaurante, tendência com conotações biológicas. O nosso coração está ao lado esquerdo do corpo e, primitivamente, o homem usava o escudo desse lado para proteger-se, enquanto a arma - normalmente uma espada - era segura pela mão direita; conseqüentemente, a bainha ficava do lado esquerdo. Desse modo, era inviável, para não dizer impossível, montar a cavalo pelo lado direito. Seguindo a lógica, se você tinha que, compulsoriamente, montar do lado esquerdo, a tendência também seria manter o cavalo no lado esquerdo da estrada, o que me faz imaginar que talvez a Inglaterra e outros quarenta e  três países estejam certos ao conduzir seus carros pela esquerda, enquanto nós, dirigindo pela direita, posicionamo-nos totalmente contrários aos mais profundos instintos históricos.

Outro fato comprovado é que as pessoas preferem os lados direito e esquerdo ao centro do restaurante. As primeiras mesas a serem ocupadas são as localizadas à parede esquerda, em seguida as da direita e, com certa relutância, as do centro. A justificativa pela ojeriza às mesas centrais deriva de instintos pré-históricos. O troglodita, ao entrar na caverna de um estranho, não sabia como seria recebido e, se ficasse no centro, sentiria-se demasiadamente vulnerável. Então, andava de esguelha encostando-se pelas paredes, grunhindo e brandindo sua clava. Hoje o homem moderno, ao entrar num restaurante, toma atitude idêntica (só que, em vez da clava, manuseia e exibe-se com sua gravata multicolorida).

E a constatação mais surpreendente: se somente você e seus familiares estiverem no restaurante, e entrarem novas pessoas, a tendência será sentarem-se exatamente à mesa ao seu lado (por maior que seja o salão), tal qual um grupo de homens pré-históricos que, por necessidade, viviam em comunidade e intimamente juntos para sua sobrevivência - é atávico.

Creio ser desnecessário afirmar, principalmente aos estudiosos sobre o assunto, que a validade destas regras ficará comprometida se o assunto se tornar difundido demais. Portanto, o conteúdo deste texto, desde já, passa ser considerado confidencial e, estudantes ligados às Ciências Sociais devem conservar esses dados somente para uso próprio, evitando levá-los às mãos do público. Caso contrário, a Lei de Parkinson será revogada.

criado por projetosnumericos    16:09 — Arquivado em: Humor

31/12/06

Desagravo aa cigarra

Davi Castiel Menda

Considerando que o título original desta crônica seria Desagravo à cigarra; considerando que meu blog se recusa a aceitar determinados caracteres alfa-numéricos (crase por exemplo) no título;  considerando que me recuso a trocar de título; Desagravo aa cigarra foi a forma que encontrei para contemporizar os três considerandos…

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 "Um calor asfixiante caía sobre as pobres formigas que trabalhavam incansavelmente para poder passar um inverno seguro. Todas elas levavam a carga de alimentos nas suas costas. Enquanto isto, à sombra de uma árvore, a cigarra cantava suas alegres e afinadas canções, sem se preocupar com as agruras do inverno próximo" - A cigarra e a formiga.

É o trecho inicial de uma das mais conhecidas fábulas de Jean de La Fontaine, francês nascido em 1621 na região de Champagne. Chegou a formar-se em direito, pensou em ser padre, mas sua sensibilidade - e o apoio de um mecenas - o direcionaram para a literatura.

O leão e o rato, O corvo e a raposa, A cigarra e a formiga, entre outras. Quem não conhece estas fábulas de La Fontaine, escritor que dava vida e o verbo aos animais ao contar histórias inesquecíveis, que se destacavam pela narrativa provocativa e que visavam especialmente divertir o leitor?

É claro que, como morador da cidade grande, eu nunca ouvira uma cigarra cantar, a não ser aquelas campainhas elétricas que a imitam e funcionam pela vibração de lâminas comandadas eletromagneticamente. Não conhecendo seu canto, era obrigado a aceitar como líquida, certa e verdadeira a afirmação de La Fontaine sobre a indolência e imprevisão da cigarra quanto ao futuro. Entretanto, o que La Fontaine não imaginava, é que um dia eu iria morar literalmente "no meio do mato", onde abundam cigarras e formigas, afora outros bichos.

A primeira vez que ouvi o canto (não é um solo - é um coro fantástico) de cigarras, imaginei ser o ruído de caminhões passando velozmente na estrada longínqua. Aos poucos, aquele som estridente e contínuo foi martelando o meu cérebro e aguçando minha curiosidade. Investigando com moradores mais antigos da região, descobri que aquele era o famoso canto da cigarra, imortalizado por La Fontaine.

 Não é um canto, é um lamento, é um pranto, é um choro dolente - e sabem o motivo? São milhares e milhares de cigarras, comandadas por um maestro invisível, pedindo chuva. Exatamente isso - a seca, a falta de água que tanto atormenta o homem, principalmente o homem do campo, é o motivo pelo qual a cigarra canta - na verdade é uma súplica, tal qual a dança da chuva dos índios (é uma pena que este texto não seja sonoro, pois nesse exato momento em que escrevo, ouço o canto das cigarras bem próximo e, se pudesse retransmiti-lo, vocês me dariam toda a razão!).

Senhor de La Fontaine: a cigarra, com seu canto entristecedor, não está se divertindo e sim, solidarizando-se com os homens que clamam por chuva - seu objetivo não é ser reconhecida e cantar no Olympia de Paris, como adaptações licenciosas e mais recentes da sua fábula podem levar a crer. Ela só quer chuva, para molhar nossas hortas, nossas lavouras, nossas plantações. E até ela se horrorizaria, se TV assistisse, quando em plena estiagem, com as plantas definhando, com o gado morrendo, e a "mulher do tempo" declarando com um sorriso nos lábios: "Amanhã, tempo bom - sol em todos o país!".

Ao encerrar, provando que aprendi a lição de casa: a cigarra - fêmea - não canta! Quem canta, são os machos: "os" cigarras. 

criado por projetosnumericos    17:34 — Arquivado em: Crônica, Humor

19/12/06

Trinca de Reis

Davi Castiel Menda

Pois o Dr. Netinho é uma das figuras mais respeitadas na cidade onde mora. Não tem hora para trabalhar, mas quando o relógio marca 20 horas, ele se dirige religiosamente para o clube, a fim de jogar o seu poquerzinho com os outros luminares do lugar. O jogo, a tostões, vai sistemática até as 22 horas, quando então é processada a contabilidade e apurado o prejuízo ou lucro de cada um. Ouvi falar que, o recorde, numa noite, foi obtido pelo escrivão local, que ganhou R$ 8 reais - isso que conseguiu a façanha de fechar um Royal Straight Flush!

Mas em 1943, o Netinho (naquela época era estudante, ainda não era doutor) viera cursar a faculdade na capital, e morava numa pensão, como todo o estudante do interior, recebendo do pai o equivalente a dois salários mínimos para sobreviver.

Numa de suas andanças noturnas, descobriu, por acaso, que num dos mais tradicionais clubes da capital, se jogava pôquer, "esporte" que ele adorava. Aliás, pôquer pra gente grande, pois as apostas eram de meter medo. O Netinho ficou boquiaberto com a quantidade de fichas na mesa, e mais apavorado ainda ao ser informado que o cacife para entrar no jogo era o equivalente a dez salários mínimos.

Apesar de ainda jovem, era uma pessoa determinada, de personalidade forte, e quando cismava com alguma coisa… Prometeu a si mesmo que, algum dia, ainda entraria naquele jogo, custasse o que custasse. Da mesada que recebia, passou a economizar a metade. Privou-se de muita coisa, chegando inclusive a passar fome, mas depois de dez longos meses, completou o tão almejado valor para entrar no joguinho do tal clube.

Tomou um banho caprichadíssimo, colocou sua melhor roupa, contou e recontou o dinheiro e lá se foi em direção ao clube, com pinta de milionário, com o intuito de multiplicar o capital, juntado com tanto sacrifício.

Deu sorte, o jogo recém iniciara e havia somente uma vaga, justamente ao lado de um proeminente político. Distribuídas as cartas para a rodada inicial, o Netinho, não tendo nem um só parzinho, não foi na parada, jogando fora suas cartas. Permaneceram no jogo somente um senhor que fumava um charuto imenso e seu vizinho da direita - o político, lembram-se?

As apostas começaram a crescer rapidamente e, o Netinho, se deliciava só em admirar os dois contendores se digladiando além do prazer ser aceito por tão honoráveis e respeitáveis parceiros. Era o seu debut na sociedade. Repentinamente, o político se viu acuado pelo oponente, e era obrigado a pagar a parada ou perder tudo que já tinha apostado. Furtivamente, mostrou ao Netinho suas cartas - uma trinca de reis - e, sem o menor constrangimento, "pediu emprestado" todas as suas fichas para continuar no jogo.

O Netinho pego de surpresa, ficou encantado com tanta deferência, poder emprestar por alguns instantes - como alegara o político - suas fichas a tão eminente personalidade. Não é todos os dias que se tem este privilégio!

Apostas encerradas, o homem do charuto apresentou na mesa cinco cartas do mesmo naipe - flush - evidentemente ganhando da trinca de reis, do político. O Netinho viu se evaporarem suas fichas antes de jogar uma só parada, o que não deixa de ser um feito memorável?!

E, a bem da verdade, em 1977, trinta e quatro anos depois, quando o Dr. Netinho esteve em Brasília tratando de uma pendência jurídica, e em visita ao Congresso, conseguiu receber o "empréstimo", sem juros naturalmente!

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Posfácio:
É claro que o enredo da historinha acima e todos os seus personagens são fictícios, do título ao ponto exclamativo final. Ela foi publicada pela primeira vez em setembro de 1997 no semanário 13 Pontos, e qual a minha surpresa ao receber um telefonema de um dos mais assíduos leitores, o Dr. Luiz (este não é fictício), que me confessou ter sido amigo do Dr. Netinho na sua juventude; sabia por alto da historinha esta do pôquer e ficara satisfeito em tomar conhecimento de detalhes que desconhecia. Não é fantástico? É indiscutivelmente o melhor elogio - para quem escreve - que se pode receber.

criado por projetosnumericos    10:49 — Arquivado em: Humor, Jogos & Loterias

30/11/06

Se non è vero…

Davi Castiel Menda

Esta história, me contada como verdadeira, ocorreu na cidade de Cachoeira do Sul, interior do Rio Grande, onde morei por dois anos. Um viajante, vendedor de tecidos, miudezas e atavios femininos, dirigiu-se a um dos tantos hotéis da cidade, preencheu a ficha de hóspedes e, levando em conta que toda a rede hoteleira estava com sua lotação esgotada, devido à festa que anualmente lá se realizava, foi alojado junto a outro hóspede, que residia permanentemente no hotel. Duas pessoas distintas, idosas, honestas, camas separadas é claro.

O viajante, herói da nossa história, deixou dois de seus trajes (considerando-se que a história ocorreu por volta dos anos 50, juro que fiquei tentado a usar “duas de suas fatiotas”…) pendurados no único armário do quarto, e rumou para o interior do município, procedimento freqüentemente adotado pelos viajantes. Por três ou quatro dias enfrentou todo o tipo de estrada, mas o sacrifício foi compensado pelo bom índice de vendas junto aos bolicheiros locais.

De volta à sede do município, qual não foi sua surpresa, ao tomar conhecimento que seu companheiro de quarto falecera e, mais surpreso ainda, ao constatar que uma das suas fatio… roupas – a melhor, o terno azul-marinho – fora usada para vestir o defunto na sua derradeira viagem!

Refeito da invulgar situação, superou o fato rápida e cavalheirescamente, sem queixas. Jantou, saboreou seu cafezinho, e dirigiu-se à sala onde se reuniam os viajantes para conversar, trocar idéias, contar causos.

Nem bem sentara, surgiu conhecido vendedor de bilhetes que, sem muita conversa, dirigiu-se – todo sorridente - ao nosso viajante, cumprimentando-o: “Doutor, meus parabéns; avisei, quando lhe ofereci o bilhete, assim que o senhor chegou à cidade, que eu estava lhe vendendo a sorte grande. Estou lhe procurando desde ontem para dar a boa notícia!”

O viajante teve que se refazer de mais um susto, o terceiro do dia. Lembrava de ter comprado um bilhete, mais para ajudar o vendedor, pois sinceramente, não acreditava que a sorte lhe sorrisse algum dia. Nem imaginava o número do bilhete e, se o rapaz não lhe procurasse, provavelmente o jogaria fora sem ao menos se dar ao trabalho de conferi-lo.

Todos os outros viajantes, hóspedes, o proprietário do hotel, a camareira, e até o porteiro, se deslocaram em comitiva ao quarto do felizardo para conferir o bilhete. O viajante, com passos decididos e mais rápidos do que o normal, chave do quarto na mão, abria o séquito; logo a seguir, o bilheteiro, lista oficial da loteria a tiracolo, evidentemente excitado e nervoso com a perspectiva de uma boa gratificação e, fechando o cortejo, aquele povaréu ansioso para testemunhar algo de diferente, que espantasse a mesmice de todas as noites.

Procuraram o bilhete na mala, nas gavetas, no armário, e… de repente, a lembrança terrível: o bilhete fora guardado justamente num dos bolsos do paletó, da roupa azul-marinho, aquela mesma usada para vestir o hóspede falecido!!!

Se non è vero, è bene trovato!

criado por projetosnumericos    9:48 — Arquivado em: Humor
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