Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

9/10/08

O Mundo Quebrou? - Parte II

Davi Castiel Menda

 

“A política de juros altos é tanto mais eficaz quanto maior o dano que puder causar.” (Fernando Cardim de Carvalho)

Afinal, qual a origem da sinistrose financeira que está abalando o mundo nos últimos dias? É improvável, por mais que se tente, por mais que se explique, que se consiga determinar o momento exato do início da tragédia. Tantos dão palpite hoje em dia, que me sinto no direito de expor a minha teoria: o dia D ocorreu quando um homem, muito tempo antes da era cristã, premido pelas circunstâncias, recorreu a uma operação que se convencionou chamar de crédito, oferecendo ou sendo obrigado a pagar uma “multa” ou algum tipo de cálculo primário de juros.

O homem primitivo era uma pessoa que exercia as mais variadas indústrias e se ocupava em múltiplos misteres, e onde a natureza era a responsável por todas as suas necessidades. Os homens viviam em comunidades muito restritas e normalmente inimigas entre si. Porém, aos poucos, com o início de um incipiente artesanato e agricultura, as trocas começaram a se tornar necessárias: estava criado o escambo, a troca direta, sem intervenção de uma moeda.

O mais interessante é que, muitas vezes, esse escambo era realizado entre comunidades que mantinham relações hostis: uma das partes interessada depositava num lugar previamente determinado, aquilo que pretendia trocar. No dia seguinte, encontrava ao lado do seu material, o produto proposto pelo outro parceiro. Considerada a troca conveniente, a mercadoria era levada, caso contrário, o material ali permanecia e voltavam no dia seguinte na esperança de uma melhor oferta. Essa operação poderia durar vários dias, ou mesmo não ocorrer quando não havia entendimento entre as partes.

É evidente que todos os homens tinham que trabalhar, produzir, era uma questão de sobrevivência. O mundo não dava espaço para indolentes (leia-se sem subterfúgios: investidores) e, provável e lamentavelmente, aos doentes e velhos. Era um mundo em que o homem tinha que ser Homem para sobreviver! Ele tinha que caçar, plantar, brigar e prover a segurança da sua comunidade.

Apesar de ser um processo em que o homem-trabalhador-guerreiro era extremamente valorizado, essa prática era um estorvo e aos poucos alguns deles (os ancestrais dos atuais economistas) começaram a imaginar uma unidade-escambo. A primeira dessas unidades foi criada na Grécia pré-helênica, aliás, uma unidade literalmente de peso: o boi ou, para agradar às pessoas que tratam das questões econômicas e no seu linguajar tecnicista-economês: o boi-padrão. Daí pra frente, vieram as derivações: nas ilhas do Pacífico, os colares de pérolas; no Egito, os metais, em formato de pepitas, palhetas, lingotes ou anéis.

O grande problema do homem em todo esse processo foi, repetindo o dito no primeiro parágrafo, a criação dos juros: o dinheiro trabalhando (?) pelo dinheiro. O que é um Banco de Investimentos? Um grupo de pessoas que não gera absolutamente nada, nenhum bem, não planta, não cria; além disso, não contentes em nada produzir, saem a cata de outras pessoas com dinheiro disponível (apavorados com a possibilidade de ver suas economias depreciadas) tentando convencê-los a emprestar essas economias a pessoas ou empresas carentes de capital. A explicação teorizada pelos investidores é que com o dinheiro deles, os tomadores do empréstimo trabalham e geram riquezas. Tenho minhas dúvidas.

É uma rotina de difícil entendimento: admitindo que o meio circulante fosse estático, como justificar que um empréstimo de R$ 100,00 a 5% de juros - por exemplo - teria que ser pago com R$ 105,00? Multipliquem-se os milhares de empréstimos vigentes no mercado, com juros de até 429% a.a. (já entrando no mercado interno), e não há economista que me convença da normalidade desse processo. Sobra promissória e sobra papel - falta moeda! E, se algum se habilitar a me contradizer, olhe em volta o que está acontecendo a nível mundial: o tsunami-financeiro responde a tudo e a todos. Perdão, menos ao pessoal de Brasília, que por estar bem no centro do país, afastado da costa, só espera por uma marolinha…

A sociedade moderna capitalista valorizou o ter em relação ao ser, e violenta-se diariamente no consumo desenfreado, comprometendo ganhos futuros, pagando juros no cheque especial, num mês, mais do que o dobro do que rende a poupança num ano. Graças (?) a essa abertura de crédito sem paralelo na história mundial, os brasileiros já devem 20,7 bilhões em cartões ou no cheque especial. Insisto - dever é o de menos - o problema são os juros.

O Brasil tem hoje a mais elevada taxa de juros reais do mundo – do mundo – do mundo (a repetição é proposital). Juro real é a medida da taxa de juros básica da Economia (no Brasil, representada pela taxa Selic), descontada a expectativa de inflação. O nosso Banco Central vive aterrorizado com um monstro chamado inflação e sob a égide de metas inflacionárias, aumenta a todo o momento as taxas de juros, tentando conter a demanda, ou seja, querem que paremos de comprar. Expliquem isso aos comerciantes e aos industriais!

E o mais incrível nessa história, é que metade da dívida pública do Governo Federal é indexada à taxa Selic. Cada vez que a taxa de juros é elevada, o governo está dando um tiro no próprio pé (que a essas alturas, pelo histórico de elevações, deveria estar gangrenado). São investimentos de menos em escolas, em habitação, segurança, hospitais e em infra-estrutura. Esses juros altos atraem investidores do mundo inteiro, na ânsia de fazer dinheiro com dinheiro, realizar ganhos rápidos e cair fora. Claro que esse processo afeta nossa taxa de câmbio, impactando nossa balança comercial, que vai se refletir na balança de pagamentos.

A tal taxa Selic, até ontem mantinha-se em 13,75% ao ano. Pergunta-se: qual o motivo desse dinheiro chegar tão “caro” para nós consumidores? É a praga das pragas: o “spread bancário”, a multa, o bônus, o prêmio cobrado pelo credor para remunerar o seu custo, pagar os impostos (nós pagamos o nosso e o dos bancos), e o lucro. Provavelmente a composição do spread atinja ganhos da ordem de 40%. Se o pessoal do narcotráfico desconfia disso, provavelmente abandonaria seu lucrativo comércio e criaria um mais lucrativo ainda: Bancos. É muito mais negócio, e é legal…

 

 E para encerrar, e não saírem por aí dizendo que só falo mal do Brasil, duas notícias sobre economia internacional que envolvem zeros até onde a nossa imaginação não alcança. A primeira, sobre o reloginho instalado na famosa 6ª. Avenue, bem próximo de Times Square, e que registra a dívida interna americana: estourou sua capacidade que era de 9,999 trilhões. Hoje está batendo em 11 trilhões de dólares, o que significa que cada americano, pobre ou rico, deve (simbolicamente) U$ 36,666.00 (pouco mais de trinta e seis mil dólares). A segunda, sobre a inflação do Zimbábue: chegou aos 231.000.000% em julho. A persistir esta evolução, projetamos  algo parecido com 14 quatrilhões por cento (14.000.000.000.000.000%)  ao término de 2008.

No final das contas, nós (brasileiros) somos felizes e não sabíamos! Devemos menos que os americanos e nossa inflação é menor que a do Zimbábue. Podemos dormir tranqüilos.

criado por projetosnumericos    23:28 — Arquivado em: Ensaio

8/10/08

O Mundo Quebrou?

Davi Castiel Menda

"Por vontade de um prego, perdeu-se uma ferradura;
Por vontade de uma ferradura, perdeu-se um cavalo;
Por vontade de um cavalo, perdeu-se um cavaleiro;
Por vontade de um cavaleiro, perdeu-se uma batalha;
Por vontade uma batalha, perdeu-se um reino."

Nas mitologias e cosmogonias pré-filosóficas, o caos seria o vazio obscuro e ilimitado que precedeu a geração do mundo. Ele teria sido interrompido pelo big-bang, modelo atualmente aceito para explicar a evolução cósmica. Decorridos milhões de anos, o homem descobriu a entropia, medida da quantidade de desordem num sistema e que conduziria o universo inexoravelmente ao caos. Na verdade, foi uma redescoberta, pois o caos nunca deixou de existir. A realimentação que ilustra o início deste artigo, com suas origens na sabedoria popular, é um exemplo admirável de que o caos está permanentemente à nossa volta.

O Dicionário Aurélio é irrepreensível ao conceituar o caos: "Comportamento praticamente imprevisível exibido em sistemas regidos por leis deterministas, e que se deve ao fato de as equações não-lineares que regem a evolução desses sistemas serem extremamente sensíveis a variações, em suas condições iniciais; assim, uma pequena alteração no valor de um parâmetro pode gerar grandes mudanças no estado do sistema, à medida que este tem uma evolução temporal."

A Teoria do Caos faz jus ao nome pelo contraditório. O princípio fundamental estabelece que tudo que acontece no universo, apesar da aleatoriedade, segue uma determinada ordem. Aos nossos olhos, essa quantidade imensurável de ocorrências, com possibilidades que tendem ao infinito, apresentam-se como simples acontecimentos ao acaso. Entretanto, para - principalmente - matemáticos, físicos, economistas e meteorologistas, esses comportamentos casuais podem ser previstos através de fórmulas e dentro de margens estatísticas confiáveis; isto seria algo inconcebível ao leigo - a previsão do acaso! O segundo caminho, diametralmente em oposição ao primeiro, nos demonstra a dificuldade em alcançar resultados satisfatórios, motivados pela confusão e desorganização - o caos propriamente dito, cujo exemplo maior é a economia.

O mundo vive hoje uma catastrófica situação de caos financeiro, aliás, perfeitamente previsível. Isto é cíclico e economistas renomados já esperavam por esse momento. A ciranda financeira com todos ganhando é não só improvável: é realmente impossível. É uma lei que até o mais inculto dos ignorantes é sabedor: se alguém ganha – outrem perde. Quando um grande banco americano de investimentos, para um dólar de capital, chegou a ter 33 dólares emprestados, era de se prever que algo estava errado: bastaria que apenas um desses 33 não fossem pagos para que a liquidez do banco se tornasse periclitante; no presente caso, todos os 33 se transformaram em créditos podres. Um plano desconexo (o primeiro) de auxílio de 700 bilhões de dólares foi proposto ao Congresso americano, com toda a nação pagando pelas loucuras do mercado (leia-se diretores de instituições financeiras irresponsáveis - só um deles recebeu 300 milhões de dólares nos últimos anos a título de salários e bônus pelo bom desempenho(!?)).

O nosso presidente, com suas bravatas características, criticou a “roleta” internacional, declarando-nos isentos do caos. EEUU e Europa apavorados com o "fim do mundo" e o grande Brasil assistindo de camarote à hecatombe?  É muita pavonada! O que dizer do nosso Banco Central que vem especulando durante os últimos anos, com as mesmas práticas dos cassinos financeiros (e diga-se de passagem – perdendo), manipulando a nossa inflação artificialmente, numa política cambial totalmente desastrosa? Empresários perdiam com o valor baixo do dólar nas exportações, mas ganhavam do BC na especulação. Era o caos institucionalizado – e evidentemente com o dinheiro do povo vilipendidado. O que dizer das grandes empresas brasileiras  que fizeram empréstimos de vulto em dólar? Ontem, ontem era R$ 1.60; hoje R$ 2.35. Uma das maiores empresas daqui do Sul – Caldas Jr. – sucumbiu num passado recente numa agonia lenta e dolorosa devido a semelhante processo. Quantas resistirão?

Economistas e políticos procuram uma explicação: onde estaria a origem da gota d`água causadora deste caos? A resposta está em estabelecer que uma desprezível ocorrência, em determinado ponto de um sistema dinâmico, pode acarretar conseqüências de proporções inimagináveis. Edward Lorenz, em 1963, teorizou através da simbologia de um simples bater de asas de uma borboleta em um lugar qualquer do mundo. O ar produzido poderia ser o limite diferencial entre um simples vento e uma perturbação passageira ou uma tempestade tropical, desencadeando uma alteração no comportamento da atmosfera terrestre em localidades e tempos distantes, num processo denominado realimentação. Sintetizando a idéia de Lorenz: uma borboleta bate asas na China e causa um furacão na América - o chamado efeito borboleta. Isto nos leva a afirmar que todos os pequenos eventos que ocorrem instante a instante são na verdade incontáveis efeitos borboleta, cujos somatórios se transformam em grandes mudanças universais.

Segundo Laplace, que formulou o desenvolvimento e os princípios da Teoria das Probabilidades (a mater inspiradora da Teoria do Caos), "uma inteligência conhecendo todas essas variáveis em determinado momento, poderia compor numa só fórmula matemática a unificação de todos os movimentos do universo. Conseqüentemente, deixariam de existir para esta inteligência o passado e o futuro, pois aos seus olhos todos os eventos seriam resultantes do momento presente".

A dúvida que fica no ar: se essa inteligência descrita por Laplace, ou um grupo, ou uma nação, disponibilizasse supermentes operando supercomputadores - tipo um Earth Simulator (japonês) que atinge a velocidade de 35,86 teraflops  - com o intuito de controlar matematicamente os pequenos eventos que se transformam em grandes conseqüências, teria o poder de dominar, através desta manipulação, o destino de toda ou boa parcela da humanidade? Isso já não teria sido tentado? Não estará neste exato momento em plena execução?

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Posfácio

Você tem agora as seguintes opções:
1) Desligar o computador, deitar, e ter pesadelos com o texto;
2) Conhecer um pouco mais sobre o assunto, clicando aqui, e ler A Crise da Economia Americana, escrita em 28.08.08;
3) Migrar para o blog Jus Sperniandi (Ilton C. Dellandréa) e, de uma maneira divertida e didática, Entender a Crise Americana .

Sugiro as duas últimas.

criado por projetosnumericos    7:11 — Arquivado em: Ensaio

26/8/08

Livre Arbítrio - republicação

Davi Castiel Menda

“Se a vontade do homem é livre ou não? A questão ela mesma é imprópria: e é tão insignificante perguntar se a vontade do homem é livre quanto perguntar se seu sono é veloz, ou sua virtude quadrada: a liberdade sendo tão pouco aplicável à vontade, quanto a velocidade do movimento ao seu sono, ou a quadratura à virtude. Todo o mundo deve rir da absurdalidade de uma questão tão peculiar quanto essa: porque é óbvio que as modificações do movimento não pertencem ao sono, nem a diferença de figura à virtude; e quando se considera isso bem, penso que se percebe que a liberdade, a qual é apenas um poder, pertence apenas aos agentes, e não pode ser um atributo ou modificação da vontade, a qual também é apenas um poder.” - John Locke (filósofo britânico – Séc. XVII)

Um dos grandes enigmas da humanidade é responder à questão que vem intrigando há séculos, físicos, filósofos, humanistas, biólogos e sociólogos, além dos – indiscutivelmente - maiores interessados, teólogos e religiosos: o homem tem direito a escolhas ou sua vida, ao nascer, já está totalmente predeterminada?

O enigma dentro do enigma é a tentativa de explicar o inexplicável: o conflito da onisciência de Deus com o livre-arbítrio. Admitindo como dogmática a onissapiência divina, Ele saberia com antecipação tudo o que ocorreria no futuro, inclusive os nossas arbítrios, o que gera um paradoxo. O conhecimento eterno de Deus sobre as opções individuais do homem constrange a nossa apregoada e discutível liberdade de escolha. Se agirmos de forma diferenciada daquilo que Deus já sabia antecipadamente que aconteceria, nós O estaríamos surpreendendo, o que é uma incongruência - a onisciência cristaliza o futuro.

Aristóteles, filósofo grego que viveu 350 anos antes da era cristã, foi praticamente o pioneiro a plantar a semente da dúvida, sobre a existência ou não da liberdade metafísica, o direito do homem de escolher as suas alternativas. De lá para cá, várias correntes se formaram, todas gravitando em torno do tema: determinismo, incompatibilismo, indeterminismo, libertarismo, compatibilismo, que por sua vez também tiveram suas ramificações.

O teorema de Bell é o contraponto ao determinismo de Albert Einstein e sugere que Deus esteja jogando dados, numa metáfora exagerada à aleatoriedade da vida. Ou talvez Deus não jogue dados, mas apenas siga sua vontade, sendo a mesma não determinada por nada, nem mesmo por um objeto formal como o bem ou a verdade, tal como na teoria das verdades eternas de Descartes.

Aceitar ou não que o nosso destino já estava escrito antes mesmo do nosso nascimento é uma questão que todas as religiões tentam responder, algumas de forma pragmática. A maioria, com pequenas variações, doutrina o livre-arbítrio, e por extensão, que não devemos culpar a Deus ou ao destino pelos nossos atos – nós somos os responsáveis por tudo que fazemos. Se o destino fosse o responsável direto pelas coisas boas e ruins que acontecem, nós seríamos marionetes manipuladas por extensos cordéis etéreos. Em Sonhos e Pesadelos, crônica escrita anteriormente, abordei algo semelhante: “se em determinadas ocasiões, ao invés de sonhar, os deuses, por estarem acordados, se divertem manipulando, ao seu bel-prazer, suas minúsculas cobaias humanas, firmemente aprisionadas num imenso labirinto azul chamado Terra.”

Entre as exceções, destacamos o Islamismo - acredita que o destino de cada um é determinado ainda no embrião – Maktub - a teoria do estava escrito!; a Igreja Batista segue a mesma linha. O judaísmo aborda o assunto de forma ambilátera, afirmando que sim, existe um destino que predetermina o comportamento humano, mas simultaneamente é dada liberdade ao homem para alterar este destino se assim o queira. Ou seja, o homem deve ajudar o seu destino, não deixando que o destino o domine e aja independente e soberanamente. Na verdade, são duas coisas distintas: destino e livre-arbítrio – entretanto, não seria coerente deixar de reconhecer que os dois conceitos estão interligados.

Spinoza, filósofo holandês contemporâneo de Locke, compara a crença humana no livre-arbítrio a uma pedra “pensando” que escolhe o caminho que percorre enquanto cruza o ar até o local onde cai. Diz mais: “as decisões da mente são apenas desejos, os quais variam de acordo com várias disposições”; “não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é determinada por sua vez por outra causa, e essa por outra e assim ao infinito”; “os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar”.

Levanto outra questão pertinente: se haveria livre-arbítrio antes do limite zero, o exato momento em que o embrião começa a tomar forma? Deus teria nos consultado se queríamos realmente vir a esse mundo? Tivemos direito à escolha do nosso corpo, local de nascimento, a família que iria nos abrigar e dar educação? Se alguns filósofos crêem que o livre-arbítrio é equivalente a ter uma alma, teria a nossa, no momento da concepção, o direito àquelas escolhas?

Resta abordar a questão do livre-arbítrio encarado sob a ótica da responsabilidade moral, pois a sociedade considera os homens responsáveis pelos seus atos. Pessoas que se projetam por sua notabilidade são elogiadas; atos criminosos são reprimidos. Se o livre-arbítrio é real, verdadeiro, a imputação ao elogio ou à repressão estão absolutamente corretos, mas se formos induzidos pela visão determinista, onde todos os eventos são resultados necessários de causas prévias, e tudo o que acontece tem uma causa, estaríamos próximos do caos e da anarquia, tendo que perdoar a tudo e a todos, inclusive os responsáveis pelos crimes mais hediondos. Como podemos considerar alguém responsável por uma ação prevista desde o início dos tempos?

Cabe uma derradeira pergunta: tive eu o direito de escolher se escreveria este artigo ou Deus, na sua ubiqüidade e onisciência já sabia antecipadamente local, data e hora da sua feitura, dos meus erros e acertos, enfim, da possibilidade de exercer um poder sem outro motivo que não a existência mesma desse poder, o meu direito à liberdade de indiferença?

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Posfácio: quando da primeira publicação no blog, em dezembro/2006, este ensaio teve exatos 6.802 acessos, além de comentários interessantíssimos. Espero - para aqueles que ainda não o conheciam - que tenham apreciado. Comentários são bem-vindos. 

criado por projetosnumericos    19:24 — Arquivado em: Ensaio

6/1/07

Teoria do Caos

 Davi Castiel Menda

 

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