Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

5/12/08

Torre de Babel - Fé ou Razão? - I Parte

Davi Castiel Menda

“O pensamento religioso é mais sábio do que os ídolos dos últimos 200 anos, que criaram fórmulas de perfectibilidade para nossa risível Babel. Filosofia, ciência e religião devem fundamentar a formação dos mais jovens. A relação entre razão e infelicidade é empírica, a relação entre razão e felicidade é ideal. Contrariamente ao pensamento mágico que se crê científico, reconhecer a sabedoria da religião nada tem a ver com aquela contradição moderna entre razão e fé, pois tal oposição já é fruto de má filosofia.” – Luiz Felipe Pondé.

No seu trabalho Conflitos Éticos em Psiquiatria, Ivan de Araújo Mora Fé declara que um dos aspectos mais notáveis da aventura do homem ao longo da história tem sido seu constante anseio de buscar novas perspectivas, abrir horizontes desconhecidos, investigar possibilidades ainda inexploradas, enfim, ampliar o conhecimento. Desde seus primórdios, os seres humanos se dedicam a investigar e a pesquisar, sendo esta curiosidade, este desejo de conhecer, uma das mais significativas forças impulsoras da humanidade.

O que leva o homem a esta inquietação, a esta busca intelectual? Qual a origem e o significado deste esforço do homem para superar a si próprio e ao seu mundo? É assunto que tem ocupado exaustivamente os estudiosos. O fato é que esta ininterrupta e incansável luta pelo saber tem sido uma das mais importantes atividades do homem. Ocorre que, ao dar vazão ao seu insaciável afã de descobrir, criar, conquistar, ao tentar realizar em toda a sua plenitude a livre aventura do espírito, o homem se depara com seus limites.

A Bíblia relata que, com o objetivo de alcançar os céus, os homens decidiram construir uma alta torre, a qual ficou conhecida como a Torre de Babel, pois da experiência resultou a confusão, a desordem, o desentendimento, a discórdia, como castigo divino por uma ação tida como orgulhosa. Em outra perspectiva, esta questão é abordada por Goethe, em seu notável poema Fausto, onde o personagem central se angustia com a constatação da pequenez dos seus conhecimentos ante a imensidão do desconhecido e decide passar por cima de quaisquer regras ou considerações para empreender a tentativa de desvendar os mistérios da natureza, os enigmas do universo. A verdade é que, muitas vezes, tem sido o homem tentado a querer ultrapassar sua própria condição humana, e este anseio, esta fantasia, se expressa nas crenças, nos mitos, no folclore e nas produções artísticas e literárias, mesclado com a intuição dos riscos inerentes a esta "transgressão".

Ainda de acordo com a Bíblia, todas as línguas e raças do mundo tiveram sua origem em um momento determinado: a destruição da legendária Torre de Babel. Teria sido tal torre realmente construída como descrita na bíblia? Será que Deus a destruiu e dispersou os habitantes que a rodeavam pelos quatro cantos da terra?

A contradição entre razão e fé foi magistralmente explorada por Werner Keller, através da sua obra (década de 60) “E a Bíblia tinha razão…”, livro que alcançou recordes mundiais de vendagem, desenvolvido dentro de um caráter arqueológico e que tinha como finalidade explicar, dentre os mais variados relatos da Bíblia, os milagres ocorridos, tanto aqueles mencionados no Antigo Testamento, como no Novo Testamento. Destacamos: o Dilúvio, o Êxodo, José do Egito, a vida e morte de Jesus, João Batista, os Apóstolos et cetera. Através de um estudo profundo de pesquisas, o autor narra tais fatos provando que realmente eles ocorreram, mas não da forma como estão expostos nos textos bíblicos. Indícios que nortearam as pessoas que os escreveram (sob inspiração Divina, segundo praticamente todas as religiões) nos remetem exatamente aos locais previstos e descritos na Bíblia.

A fé, segundo Gênesis, nos relata que o Senhor desceu a fim de ver a cidade e a torre que os homens estavam a edificar. E o Senhor disse: «Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros.» E o Senhor dispersou-os dali por toda a superfície da Terra.

A razão, sem pretender duvidar da fé a da Bíblia (que usa e abusa das metáforas, o que provoca a diversidade de religiões e interpretações) se pergunta: se os homens estivessem construindo uma torre para alcançar os céus, e Deus veio trazer a disseminação de novas línguas, este mesmo Deus estaria temendo que simples homens pudessem alcançar os céus? Mas em que patamar teria sido projetada a Torre de Babel para atingir este utópico objetivo? Independente da resposta, Babel pode ser simbolicamente considerada uma precursora do desejo do homem de construir edifícios cada vez mais altos, febre que vem se acentuando nos últimos tempos, principalmente no berço da Torre: a Ásia.

- continua -

criado por projetosnumericos    5:39 — Arquivado em: Ensaio

Torre de Babel - Fé ou Razão? - II Parte

Davi Castiel Menda

II Parte

O Livro dos Jubileus especula e menciona a altura da torre como sendo de 5.433 cúbitos e dois palmos (2.484 metros de altura). Isto seria aproximadamente quatro vezes mais alto do que as estruturas mais altas do mundo de hoje e em toda a história da humanidade. Tal afirmação seria considerada mítica para a maioria dos estudiosos, visto que os construtores naqueles tempos, seriam incapazes de construir uma estrutura correspondente a um prédio de 800 andares!

A outra fonte extra-canonical é encontrada no Terceiro Apocalipse de Baruch; menciona que a ‘torre da discórdia’ alcançava uma altura de 463 cúbitos (212 metros de altura). Apesar de mais razoável, esta altura ainda seria mais alta do que qualquer outra estrutura construída no mundo antigo (a maior delas a Pirâmide de Quéops com 146,59 metros em Gizé, Egito) e mais alta do que qualquer estrutura construída na história até à montagem da Torre Eiffel em 1889.

A literatura religiosa oferece variados relatos sobre as causas para a Torre de Babel ter sido construída, além dos objetivos dos seus construtores. Na Mishná (uma das principais obras da Literatura Rabínica) era vista como uma rebelião contra Deus. Uns midrash (no judaísmo, forma narrativa desenvolvida através da tradição oral) mais tardios registam que os construtores da Torre teriam dito: "Deus não tem o direito de escolher o mundo superior para Si próprio, e de deixar o mundo inferior para nós; por isso iremos construir uma torre, com um ídolo no topo segurando uma espada, para que pareça como se pretendesse guerrear com Deus".

À primeira vista essa afirmação pode ser chocante, agressiva aos nossos sentidos e princípios, desrespeitosa à religião. Mas não devemos esquecer que os povos que viviam naquela época e região do globo eram guerreiros por natureza e profissão; a espada era seu instrumento de trabalho, de defesa, a personificação da sobrevivência. Guerras, sangue e vingança faziam parte do cotidiano. Os nomes dos vários deuses (inclusive o de Deus), sob as mais variadas denominações, ou era aliado ou inimigo! E, partindo do princípio bíblico de que os homens foram moldados à sua imagem e semelhança, por isonomia - não teriam pensado eles? – imaginaram que poderiam usufruir do direito aos mesmos conhecimentos, às mesmas regalias, da mesma moradia. O paraíso, os céus?

Admitindo de que todos os fatos relatados na Bíblia sobre a Torre de Babel sejam autênticos, a interferência de Deus numa obra humana não estaria indo contra a teoria do livre arbítrio? Se Deus tinha o conhecimento eterno, onipotência e onisciência, sabia desde o início dos tempos que um dia o homem chegaria a tal ponto. Por quê não impediu antes? O direito ao livre arbítrio teria prevalecido até então? Porém, ao “sentir” a proximidade dos homens, Deus interferiu na construção através da multiplicidade de idiomas, constrangendo a apregoada e discutível liberdade de escolha pela consciência do homem. Teria sido um acerto esse desagregamento compulsório?

Apesar de tudo - e ainda dentro do mesmo raciocínio anterior de veracidade dos fatos - o homem, mesmo temente a Deus, não se convenceu plenamente do ocorrido e, a todo o momento, constrói suas Torres de Babel, sejam elas particulares ou em âmbito universal. O que são os prédios fantásticos, espetaculares, monstrengos e desproporcionais construídos nos ricos países asiáticos? O que é o esperanto (criação de Ludwik Zamenhof), senão uma língua que servisse para toda a população mundial? O que é o COI (Comitê Olímpico Internacional), o que é a FIFA, o que é a ONU? São tentativas de reerguimento da Torre!

A raça humana, por mais que tenha avançado nas mais variadas ciências, ainda funciona como um grupo de trogloditas pré-históricos, cujas necessidades se limitavam fundamentalmente a viver em comunidade. Os homens de hoje, empirica e subjetivamente, preferem viver enclausurados numa torre, intimamente juntos, num instinto muito contraditório de sobrevivência – é atávico, utópico, eterno.

criado por projetosnumericos    5:37 — Arquivado em: Ensaio

19/11/08

Second Life - Emoções e desejos

Davi Castiel Menda

 

"Pessoas mortas há pouco tempo podem mudar seu aspecto simplesmente pensando em uma dada forma, sendo sumamente fácil para seres brincalhões ou mesmo malévolos enganar os que não foram preparados para reconhecer tais ilusões."

Sou freqüentador de um clube que promove torneios de Poker semanalmente. A título de curiosidade, uma das regras afixadas em letras garrafais (aliás, regra provavelmente exclusiva deste clube e jamais imaginada pelos criadores do Poker) nos informa que é terminantemente proibido reagir com emoções a um lance inesperado durante as disputas dos torneios. Aparentemente, o criador desta aberração lúdico-jurídica desconhece que a emoção é congênita à natureza do homem: trata-se de uma perturbação ou variação do espírito advinda de situações inesperadas e que se manifesta na forma de alegria, tristeza, raiva. Exagerando, seria o mesmo que pendurar um cartaz num estádio de futebol comunicando aos torcedores que devem se portar com educação, cortesia e civilidade e que, durante os festejos de um gol, devem manter-se corretamente sentados em seus lugares; no máximo, aplaudir com palmas moderadas o autor da façanha. Pedir bis ou goleada, já seria contravenção.

 

O desejo é semelhante à emoção, é ter a vontade de possuir, de gozar, de ter anseios, cobiça, ambição, ou até apetite, seja ele na mesa ou na cama (apetite sexual). Os desejos e emoções variam de pessoa a pessoa. São tantas as variáveis que poderia afirmar que o somatório dessas geram um padrão de individualidade a cada pessoa, tal qual as impressões digitais.

Mesmo que você seja uma pessoa correta, honesta, cumpridora das leis, fiel ao seu cônjuge, é de se supor que já tenha tido um mau pensamento, lascivo e sensual ao ver um filme ou fotos de um(a) artista sexy de cinema ou TV. Ou quem sabe, imaginando-se com o prêmio milionário de uma mega sena no bolso, passeando numa Ferrari pelas ruas de Mônaco, convidado da princesa Caroline para um garden-party nos jardins do seu palácio… Que atire a primeira pedra quem, durante uma áspera discussão com seu chefe, não pensou em “eu ainda mato esse sujeito”. Meia hora depois, você, o pseudo-matador, e ele, o chefe, confraternizavam na sala do cafezinho, como se nada tivesse acontecido. Tal comportamento é normal: a natureza sabiamente a tudo isso previu. São desejos de efêmera duração – pelo menos, deveriam ser – e tendem a sumir rapidamente. Entretanto, se forem permanentes, a idéia deixa de ser desejo e transforma-se em obsessão e o comportamento humano passa a ser tratado como um desvio de conduta, com menor ou maior gravidade.

Segundo a Wikipédia, teosoficamente falando, o Mundo de Desejo também é conhecido como plano astral. Concordando com outras correntes, a Teosofia diz que este é um plano de existência intermediária entre o mundo físico e o mundo mental ou celeste, uma região onde a vida é mais ativa e as formas mais plásticas que no plano físico, formas que estão sujeitas à influência do pensamento. As entidades que aqui vivem - elementais, devas inferiores (no hinduísmo e no budismo, devas = cada uma das diversas divindades que se situam entre os seres divinos superiores e os homens) e pessoas mortas há pouco tempo - podem mudar seu aspecto simplesmente pensando em uma dada forma, sendo sumamente fácil para seres brincalhões ou mesmo malévolos enganar os que não foram preparados para reconhecer tais ilusões. É o reino das emoções e desejos por excelência, onde eles são sentidos em toda sua intensidade sem o efeito amortecedor causado pelo corpo físico mais denso.

Pois alguém resolveu materializar este Mundo de Desejos e colocá-lo à disposição de todos através da Internet, sob o título de Second Life, um ambiente virtual e tridimensional onde são simulados aspectos da vida real e social do usuário. O internauta “morre” por algum tempo na vida real e muda seu aspecto terreno assumindo uma nova forma, identidade, profissão e até sexo nesse mundo virtual. O Second Life pode ser encarado como um jogo, quem sabe um simulador de vidas ou talvez um comércio virtual.

Na verdade, é a transposição de pessoas insatisfeitas com a sua vida real (Real Life ou primeira vida), gerando uma vida paralela em situações totalmente imaginárias, de acordo com os anseios de cada um. Essa perigosa brincadeira que joga com os sentimentos humanos, transforma seus participantes em escritores de folhetim ou talvez, exageradamente, em deuses - pela possibilidade de criação de personagens, mesmo que irreais. A comunidade do Second Life vem crescendo de forma exponencial e seus partícipes recriam uma nova rede social, uma nova ir-“realidade”, e passam a conviver com ela.


Conheço poucas pessoas que transitam diariamente pela Second Life e, pelo conjunto de conhecimentos acumulados ao longo de uma existência, chego a conclusão de que – num estudo preliminar desses raros criadores de avatares que me brindaram com sua entusiasmada opinião a respeito - não assumem uma segunda vida; que perdoem minha opinião, na verdade confundem a vida real com o mundo da fantasia, com o mundo dos desejos. A vida, que deveria ser a real, passa a ser a irrreal e vice-versa, gerando uma situação que se caracteriza pelo aparecimento de ambições e de suspeitas, evoluindo para delírios persecutórios e de grandeza.

Para fortalecer meu juízo a respeito da Second Life, cito o ocorrido recentemente na Inglaterra, onde traição cometida naquele mundo virtual, por homem que mantinha avatar como amante, terminou em divórcio na vida real. Aos leigos, para um melhor entendimento, em informática, avatar é a representação gráfica de um utilizador em realidade virtual (de acordo com a tecnologia, pode variar desde uma simples imagem até um sofisticado modelo 3D).

O caso inglês tem características surrealistas, com total desprezo pelas construções refletidas ou dos encadeamentos lógicos e pela ativação sistemática do inconsciente e do irracional. Amy Taylor e David Pollard, após quatro anos de vida em comum, separaram-se depois que Amy, com a ajuda de um detetive cibernético, descobriu que o alter ego de seu marido a traia com outra mulher. Só que “a outra” era um avatar, uma representação gráfica, um personagem irreal, enfim, em linguagem simples, um mero desenho, sem vida, sem consistência, sem alma, só existindo na tela de um computador, morrendo a cada vez que esse fosse desligado.

- Doeu muito. Não pude acreditar no que ele fez. Para mim foi infidelidade – comentou Amy. É uma situação inusitada e o homem (no presente caso, Amy, a esposa “traída”) toma atitudes inesperadas frente a uma situação nova e fico a pensar na essência de seus pensamentos e avaliação sobre o caso. A jovem esposa, imaginando a rival com que seu marido mantinha relações extraconjugais, eternamente jovem, sempre com as mesmas feições e características, a versão cibernética da fonte da juventude. Deve ter sido fantástico o conjunto dessas ilações!

A novela se torna mais dramática e assume ares de comédia e escárnio pelo grotesco, ao se tomar conhecimento de que o ex-marido David, após a separação, já tem uma nova noiva virtual (qual teria sido o motivo de ter abandonado a amante avatar causadora da destruição do seu lar?) e afirma que não vê a hora de com ela casar na vida real. Repetindo, para que não haja dúvidas: a notícia informa que David Pollard já tem uma nova noiva virtual e afirma que não vê a hora de com ela casar na vida real!

A que ponto chegamos! Loucura por loucura, prefiro ficar falando com meus cachorros e com os passarinhos que fazem ninho praticamente dentro de minha casa. Pelo menos eles são reais.

criado por projetosnumericos    2:07 — Arquivado em: Ensaio

14/11/08

I.N.R.I. - Notas de Rodapé

Davi Castiel Menda

Como era de se esperar, o interesse pelas colocações sobre Jesus (textos publicados em 12.11.08, logo aí abaixo) foi bem acima da média. Quase 300 acessos, tornando-se o segundo texto mais lido do blog (o primeiro, Livre Arbítrio, que com incríveis 6.800 acessos, acredito que jamais será ultrapassado). Além dos três comentários diretamente no blog, recebi vários e-mails, todos eles muito bem redigidos, com posições definidas, críticas fundamentadas, enfim, a recompensa que o autor de um blog deseja.

Gostaria de salientar que, respondendo à preocupação e crítica de alguns leitores - talvez pela rapidez e dinamismo na leitura do blog - o autor jamais duvidou da existência de Jesus, tendo apenas citado dois autores dos tantos que já escreveram sobre o tema. O objetivo real do texto foi procurar levar aos leitores o que nenhuma igreja põe em dúvida: o judaísmo de Jesus. Aliás, tema de um livro que estará sendo lançado neste mês de novembro, simultaneamente na Argentina e Espanha, de autoria do Dr. Mario Saban, de onde nos valemos para algumas citações no nosso blog.

Também interessantíssimas as opiniões expressas pelo José Francisco, Mário F. e do Sérgio Vasconcellos lá das Minas Gerais (que com esse completa o seu 74. comentário); por e-mail, do Paulo Castelani  e do grande moderador Nelson Menda, lá dos States, que foi a fonte de inspiração para este terceiro texto sobre o assunto.

O que pôde suscitar controvérsia nos dois artigos, isso sim, é o pensamento do autor com relação à suposta criação de Jesus do cristianismo. O judaísmo, a exemplo de tantas religiões, à época de Jesus tinha diversas ramificações: entre outras a dos fariseus, essênios, saduceus. Por volta do século II d.C., um grupo de Rabinos, tentando dar um pouco de esperança para a sofrida população judaica da época, criou e recriou alguns mitos, que poderiam ter proporcionado, aí sim, o nascimento do cristianismo, na verdade uma forma atenuada e popular do judaísmo da época.

Substituiram a circuncisão pelo batismo com água (bem menos doloroso para os pais e para a criança), o hebraico pelo latim e o ícone para representar essas mudanças foi a figura mítica de Jesus, lembrada insistentemente pela tradição oral. Rapidamente, o cristianismo, de um mero segmento do judaísmo, criou vida própria, mostrou sua força e os poderosos de Roma chegaram à conclusão que não adiantava lutar contra aquela onda avassaladora.

Ao invés de perseguir, torturar e jogar os cristãos às feras, Roma resolveu oficializar a nova religião, tendo a própria Roma como sede, o Imperador como sacerdote supremo e o latim, ao invés do hebraico ou grego, como idioma litúrgico. Nessa ocasião alguém se lembrou da crença judaica na vinda do Messias e da condição virginal de sua mãe. E foi exatamente por essa época que um Concílio (provavelmente o primeiro,) passou a considerar Jesus como o tão esperado Messias.

Tenha ou não existido, seja ou não o Messias, a partir do momento em que bilhões de pessoas em grande parte do mundo passam a acreditar em Jesus Cristo como o Filho de Deus, ele passa a ser um personagem real.

Um outro fato que pouca gente se dá conta é de que, com o advento do cristianismo, o Império Romano mostrou sua capacidade de adaptação e sobrevivência. Nós vivemos, queiramos ou não, sob a influência da Roma dos Césares. Em que idioma nos comunicamos, se não em um derivado do Latim? O que representam as milhões de igrejas cristãs pelo mundo se não as representações diplomáticas, algumas mais, outras menos, obedientes, ao poder central romano?

O grande erro da Igreja Católica, nesses vinte séculos de existência, foi a criação do mito de que os "Judeus mataram Jesus", que tanto sofrimento causou ao povo de Israel. Erro devidamente retificado por João XXIII, quando considerou os Judeus "nossos irmãos mais velhos". Hoje, felizmente, Judeus e Cristãos vivem em paz e harmonia, procurando respeitar tanto seus inúmeros pontos em comum quanto suas poucas, mas significativas, diferenças.

criado por projetosnumericos    7:40 — Arquivado em: Ensaio

12/11/08

I.N.R.I - Parte I

Davi Castiel Menda

“O homem primitivo, sentindo-se indefeso diante do mundo hostil que o rodeia e que desconhece, a tudo teme. Apavoram-no os fenômenos da natureza, tais como as tempestades, os trovões, os relâmpagos e tantos outros os quais julga serem a manifestação digna de um Ser Supremo, muito poderoso e desconhecido. Então, na sua impotência para controlar a natureza, e não encontrando explicações razoáveis para os acontecimentos, volta-se o nosso homem para aquele Ser Poderoso que imagina comandar o mundo. Submisso e suplicante implora-lhe perdão pelas faltas cometidas, simula preces e oferece-lhe sacrifícios. Com isso, supõe aplacar a ira dos deuses e ganhar-lhes sua benevolência para dias vindouros, Está, assim, lançada a semente da religião que no decorrer do tempo irá ganhando novas formas e sofrerá modificações, de acordo com o próprio homem, suas necessidades e aspirações.” - La Sagesse

Jesus - um dos personagens mais marcantes e polêmicos da história da humanidade; tão polêmico que alguns autores já escreveram incontáveis artigos e livros tentando provar que ele jamais teria existido. Um dos textos mais conhecidos sobre o tema é de autoria de La Sagesse que procura, através da citação de inúmeros documentos, das escrituras, dos evangelhos e suas incongruências, atestar que Jesus teria sido uma invenção da Igreja. Ele não usa de meias palavras e seu texto é um ataque a tudo e a todos: aos católicos, aos judeus, às Igrejas cristãs, enfim, a Deus. Ninguém escapa. Outro livro recente sobre o mesmo tema é do médico e escritor Emílio Bossi, ferrenho partidário da teoria da não existência de Jesus.

As principais fontes de informação sobre a vida de Jesus e seus ensinamentos são os evangelhos, especialmente os evangelhos sinóticos: Mateus, Marcos e Lucas. O papiro P52, escrito em grego e paleograficamente datado como tendo sido escrito por volta do ano 125 d.C., é atualmente reconhecido como o mais antigo documento sobre Jesus. Contém um fragmento de João 18:31-33 no recto (frente) e João 18:37-38 no verso. Essa distância de mais de um século entre o período em que Jesus viveu - teoricamente seu nascimento teria ocorrido entre os anos 3 a.C. a 1 d.C. – até o escrito do papiro, é que suscita duas grandes questões. Se Jesus era tão importante assim (a ponto de ter sido crucificado como “rei dos judeus”) e segundo as igrejas cristãs o fundador do cristianismo, por quê somente um século após a sua morte uma citação sobre ele? Teria Jesus realmente existido?

Particulamente, por tudo que li – e posso garantir que não foi pouco - e pelas intermináveis, polêmicas e agradabilíssimas conversas com teólogos, padres, pastores e rabinos sobre o assunto, acredito que Jesus realmente tenha existido. Acadêmicos bíblicos e historiadores aceitam a existência histórica de Jesus - portanto, ponto final sobre essa primeira dúvida. Descarto definitivamente a hipótese apresentada por La Sagesse, Emílio Bossi e tantos outros.

A segunda grande questão: a deidade de Jesus. Ao contrário dos textos sobre a não existência de Jesus, de raríssima aceitação entre as comunidades teológicas e científicas, que mais os leva para o lado folclórico, a cristandade/deidade de Jesus, esta sim é posta em dúvida, principalmente entre os judeus. Afinal, Jesus era judeu de nascimento, era um rabi (rabi = rabino, sacerdote do culto judaico - um dos inúmeros epítetos por quais era conhecido), morreu como judeu (quem não conhece a inscrição INRI, afixada nas centenas de milhões de crucifixos espalhados pelo mundo, cujo significado é Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum - Jesus Nazareno Rei dos Judeus - mesmo que colocada no topo da cruz de forma sarcástica pelos romanos), além de ter sido enterrado dentro das tradições e no rito judaico. Portanto, cabe a dúvida, teria sido mesmo Jesus o fundador do cristianismo? E se Jesus realmente era o filho de Deus – o principal argumento do cristianismo - como justificar que um Pai (no presente caso, Deus), principalmente o Senhor de tudo e de todos, pudesse admitir que seu filho morresse de forma tão cruel? A idéia de um sacrifício pela humanidade tão difundida pela Igreja contraria todos os princípios da paternidade.

No judaismo, a idéia de Jesus ser um Deus, ou mesmo parte de uma trindade, é considerada heresia. A religião judaica igualmente sustenta que Jesus não poderia ser o tão esperado Messias, sob o argumento que ele não teria cumprido as profecias messiânicas, principalmente no tocante à eliminação das guerras entre os homens. O Mishneh Torá, escrito por Maimônides, uma das obras mais importantes da lei judaica, afirma que a deificação de Jesus faz com que "a maioria do mundo erre para servir a uma divindade além de Deus". Alguns movimentos modernos, messiânicos-reformistas, tentam conciliar o cristianismo atual às tradições judaicas, criando uma confusão sem limites entre seus seguidores. O judaísmo conservador jamais aceitará entre o seu seio esses reformistas sob a alegação de que alguém que afirma que Jesus é seu salvador já não é um judeu (ou nunca foi), e sim um apóstata.

É interessente também analisar o pensamento do islamismo com relação a Jesus. Ele é conhecido, em árabe, como Isa ibn Maryam - Jesus, filho de Maria - e é um dos principais Profetas do Islã. Ao contrário do cristianismo e seguindo idêntica orientação judaica, não é considerado um ser divino. O Alcorão rejeita a trindade e se refere a Jesus como “Verbo de Deus”, mas não o filho dele.

- continua  -

criado por projetosnumericos    14:00 — Arquivado em: Ensaio

I.N.R.I. - Parte II

Davi Castiel Menda

Na primeira parte deste ensaio afirmamos que Jesus era um rabino, fato histórico, inegável e reconhecido por todas as religiões. Considerando que o rabinato na época pertencia ao movimento fariseu, por asserção pode-se afirmar que Jesus era um fariseu. O leitor pode ficar assombrado com esta afirmação pois o cristianismo perpetrou através dos tempos uma visão estereotipada dos “perushim” (a origem do nome fariseu seria o latim – pharisaeus – que por sua vez deriva do grego antigo e assentado no hebraico como “prushim”, que basicamente significa separar, afastar; portanto, os perushim eram aqueles que se afastavam da população comum para o estudo da Torá e suas tradições - não eram ascetas, pois consideravam importante estar junto à população quando não estavam no seu retiro, para o ensino das escrituras e tradições), como adversários de Jesus, que atacou seu orgulho e sua avareza.

Um dos ensinamentos atribuídos a Jesus seria um dos marcos do socialismo e comunismo atuais: os bens dos ricos deveriam ser distribuídos ou repartidos entre os pobres da comunidade. Na verdade, a idéia não era nova – ela já era defendida pelo movimento essênio, uma das seitas judaicas que durou aproximadamente trezentos anos (século II a.C. até século I d.C.), um grupo fechadíssimo, coeso e de vida ascética. Portanto, o perfil de Jesus vai se desenhando: de nascimento judeu, rabino, fariseu, com idéias essênicas.

Jesus prega entre o povo que o Reino de Deus está próximo – interprete-se como a chegada da Era Messiânica. Deve-se ressaltar que a religião judaica sempre afirmou que essa Era só chegará (o verbo “chegar” está propositadamente conjugado no Futuro para que não pairem dúvidas sobre o pensamento do autor) no dia em que se cumpra a profecia de Isaias que “nenhuma nação levantará a espada contra outra nação”, a existência da justiça absoluta, o fim da pobreza, a não mais existência da morte física. Jamais, não só nos tempos de Jesus, mas nos últimos vinte e um séculos a humanidade conseguiu por em prática pelo menos um ítem da profecia material, já que a profecia do fim da morte física depende exclusivamente da vontade divina. Portanto, Jesus não seria o tão esperado Messias.

Abro um parêntese para citar uma afirmação pouco conhecida, mesmo entre os seguidores da fé judaica, do Rabino Ovadia de Bartenura, que viveu na era medieval: em cada geração existe um judeu que é potencialmente o Messias. Sendo assim, hoje, presentemente, temos um Messias vivendo entre nós, quem sabe até no nosso país, na nossa cidade, na nossa comunidade. Mas, como os requisitos vaticinados pelo profeta Isaias não são cumpridos, não se produz a Era Messiânica, e o Messias não se dá a conhecer (se é que ele sabe da sua condição).

Na verdade, temos uma situação kafkiana, muito bem explorada e resolvida pelo filósofo judeu alemão Martin Buber (Franz Kafka e Buber foram contemporâneos, mas provavelmente nem se conheceram) que afirmou que a Era Messiânica pode ser produzida mesmo sem o Messias. A Era é mais importante que a figura do Messias e o seu anunciador poderia ser inclusive o próprio Deus, sem intermediários. Ou até, quem sabe, a nova vinda de Jesus, como prega o cristianismo.

Não tiro os méritos de Jesus como pregador, e provavelmente tinha todos os atributos para ser o Messias, o mesmo ocorrendo com os milhares de rabinos que viveram ao longo destes últimos vinte séculos e que nos legaram ensinamentos fantásticos. Lamentavelmente, a Era Messiânica não se produziu e a cada dia que passa fica essa predição mais difícil de acontecer. Um homem sozinho dificilmente poderá criar as condições profetizadas por Isaias, e não seria utópico imaginar que somente a natureza, quando exaurida de todas as suas reservas, possa ser “a tão esperada” Messias. Fecha parêntese.

Apesar do parêntese fechado, o assunto não fica esgotado e voltamos a questionar a hipotética volta de Jesus, tão apregoada pelo cristianismo. Admitindo a ocorrência desta hipótese, e lembrando o histórico de Jesus, judeu de nascimento, rabi, pregador na sinagoga, a morte como “rei dos judeus”, enterrado no rito judaico, onde podemos imaginar que ele surgiria? Na condição de judeu, Jesus procuraria por uma sinagoga e não uma Igreja! Que me perdoem os teólogos cristãos, mas devem lembrar que Jesus viveu no século I e os primeiros escritos sobre o cristianismo datam mais de 100 anos após, em pleno século II! E tentar lembrar a pérfida acusação de que os judeus mataram Jesus, é desconhecer a história e a crueldade atribuída a Pilatos, um governante egocêntrico e tirano que matava judeus quase que diariamente, na tentativa de manter a Palestina, sob o jugo romano, plenamente dominada.

Ao morrer na cruz, atribue-se a Jesus as palavras: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste”? Indubitavelmente, Jesus, na condição de judeu e rabino, jamais poderia se sentir o próprio Deus e portanto rezava e apelava a Deus realmente e não a ele próprio! (E mesmo que tivesse dito, segundo alguns historiadores, “Meu Pai, por que me abandonaste”? – lembro do Salmo 82:6 que reza que todos somos filhos de Deus, e Jesus tinha plena consciência disso). Jesus jamais pensou numa Trindade e ao encerrar esse ensaio, cito um importante descobrimento ocorrido em 1966 pelo professor Shelomo Pines, a respeito de um manuscrito do Novo Testamento atribuído a Mateus (capítulo 28). Nele Jesus teria dito que seus seguidores deveriam batizar a todos os povos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Na verdade, tal procedimento foi decidido somente no ano 325, quase 300 anos após a morte de Jesus, no Concílio de Nicea …

criado por projetosnumericos    6:03 — Arquivado em: Ensaio

24/10/08

Lei da Conservação da Inteligência - 1a. Parte

Davi Castiel Menda

“O hominídeo da espécie Homo neanderthalensis, mais conhecido como Homem de Neanderthal, tinha um QI muito superior ao homem dos nossos dias, maior talvez do que Da Vinci ou Einstein. Não esqueça que ele sobreviveu por dezenas de milhares de anos, num mundo totalmente hostil, ao passo que nós – ao que tudo indica - podemos estar caminhando para a extinção”.

Segundo a Lei de Conservação da Inteligência (LCI), o somatório da inteligência humana é constante e imutável. Sei que não é fácil, assim à primeira vista, assimilar rapidamente essa informação que foge um pouco a toda nossa experiência de vida; encare então sob outro prisma: a LCI assevera que a soma da inteligência dos sete bilhões de habitantes da terra é estática e, quando dentro de quatro décadas a população da Terra atingir 15 bilhões de habitantes, o somatório da Inteligência de todos esses homens, continuará inalterável. Na teoria, a cada criança que nasce, nossa inteligência diminui um micro-ponto nessa escala de avaliação abstrata e estanque. Na prática, nossa inteligência é socializada - temos que dividi-la equanimemente com o restante da população.

Partindo da suposição que esta premissa seja verdadeira, e considerando o crescimento da população em progressão exponencial - dobrando a cada 35 anos – deduzimos que o homem cada vez mais e mais está regredindo na sua capacidade de resolver situações novas mediante reestruturação dos dados perceptivos, que em suma é o que convencionamos chamar de inteligência. Entretanto, compensado pelo avanço tecnológico, numa escala sem precedentes desde que o homem é homem, este declínio praticamente não é notado, propiciando então um duvidoso equilíbrio que mascara a deficiência da apreensão, percepção e intelectualidade em benefício da tecnologia.

Afirmam os compêndios que o homem só utiliza 10% da sua inteligência, mas em tempos idos, quando a tecnologia era praticamente nula, provavelmente este índice deveria ser próximo dos 100%. São questionáveis os motivos pelos quais o homem padeça desse bloqueio repressivo no processo de utilização de toda sua potencialidade e intelecto. Seria em decorrência da explosão demográfica incontrolável? Ou este paupérrimo índice de 10% deva ser atribuído por ser o homem mais emotivo do que racional, num contraponto ao avanço tecnológico-cultural?

O pensador José Stelle, em troca de correspondência sobre o assunto, foi taxativo sobre a questão: “A razão disso é que poucos se dão ao trabalho de pensar, não só sobre coisas materiais, como também sobre os fundamentos da vida, que são transcendentais. A ignorância, as crenças e as ideologias violentas progridem e imperam no seio de um suposto mundo científico e racional; a sensatez e o conhecimento são mínimos ou rejeitados”.

Um deslocamento pelo túnel do tempo ao passado, nos conduz às conquistas humanas em épocas desprovidas de quaisquer recursos, indicativos que os povos que viveram séculos antes de nós, eram infinitamente mais criativos e mais inteligentes.

Eram incontáveis as dificuldades vividas e enfrentadas pelos antigos: ausência total de bibliografia e fontes de consulta; falta de divulgação e discussão dos seus trabalhos; incompreensão dos contemporâneos e, sobretudo, nos continentes europeu e americano, o temor de que as novas teorias não se entrechocassem com as diretrizes da Igreja (seja ela Católica ou Protestante), que dominou boa parcela do mundo e subjugou o pensamento do homem por mil anos, fator que contribuiu para uma estagnação sem precedentes.

 

- segue abaixo -

criado por projetosnumericos    7:00 — Arquivado em: Ensaio

Lei da Conservação da Inteligência - 2a. Parte

2a. parte

Na matemática, a ciência das ciências, perdemos por larga margem. Quem dos leitores, com todo o seu conhecimento e cultura, mesmo o autor o liberando a utilizar seu computador pessoal, bibliografia ou até mesmo o Google, teria condições de demonstrar como chegar ao valor de pi (o tão conhecido 3,1416 - valor que aparentemente herdamos ao nascer)? Lembro que em 1983, numa palestra versando sobre Informática, com público estimado em 300 alunos, prometi um computador de prêmio ao primeiro que resolvesse a questão. Mesmo todos conhecendo de antemão a resposta ao problema, nenhum dos presentes se candidatou ao brinde. Os professores, sabiamente, se consideraram impedidos… Entretanto, a história nos revela que muitos séculos antes da era cristã, vários povos já dominavam e usavam a constante pi em seus cálculos, com uma precisão admirável levando em conta a época.

A Astronomia é outro exemplo fabuloso. Desprovidos de telescópios, sem tábuas logarítmicas, sem réguas de cálculo, computadores ou Internet nem pensar, os antigos sem dúvida deram um espetáculo à parte (excetuando-se uma meia dúzia de astrônomos que isoladamente pregavam a teoria geocêntrica), prevendo eclipses, calculando distâncias e órbitas dos planetas e cometas, identificando constelações, estabelecendo o valor das epactas.

No Xadrez, hobby em que os bons resultados são diretamente proporcionais à inteligência de quem o pratica, nunca obteremos jogadores superiores – no conjunto – aos que viveram na segunda metade do século 19, como no futuro não teremos tão bons jogadores como os de hoje, e assim sucessivamente, mesmo sendo cada vez maior o número de simpatizantes. Cresce a população, aumenta em proporção o número de jogadores, mas paradoxalmente diminuem os grandes mestres e suas jogadas geniais! Nomes como Lowenthal, Steinitz, Tchigorin, Tarrasch, Lasker, Maroczy, Rubinstein, e mais recente Capablanca, viveram numa época privilegiada, quando quantitativamente o número de habitantes da Terra era impressionantemente menor do que o atual.

Onde estão presentemente os cérebros capazes de realizar a proeza de enfrentar até 50 adversários simultaneamente, às cegas, como Philidor, Morphy, Pillsbury, Tartacover e Breyer? Comparando partidas clássicas disputadas nos fins do século 19 - quando para diversos analistas o Xadrez atingiu o seu apogeu – com as melhores do século 20, nos posicionamos ao lado dos analistas! E, lamentavelmente, a preocupação primordial no presente não é gerar bons enxadristas e, sim, cada vez mais, melhorar o desempenho de computadores especificamente produzidos na tentativa de derrotar grandes mestres. A máquina é movida pela lógica do cálculo perfeito. O homem tem o poder de fazer julgamentos. Tudo parece muito caótico, mas é a forma sub-reptícia do homem e da natureza manter o equilíbrio: menos inteligência = mais tecnologia.

A LCI, do princípio ao fim, é um tema polêmico, abstrato e inexiste literatura sobre o assunto. Poderíamos nos dedicar a escrever um compêndio de situações que demonstram serem os povos antigos infinitamente superiores a nós no quesito inteligência, a não ser que tencionemos dar crédito à teoria, exaustivamente propagada pelos escritores Erich von Däniken (Eram os Deuses Astronautas?) e Peter Kolosimo (Não é Terrestre) que tentaram demonstrar que a “sabedoria” dos povos antigos era proveniente de ensinamentos ministrados por habitantes oriundos de outros planetas, o que é discutível.

É fácil aceitarmos, respeitosamente, a sabedoria de nossos pais e avós, mais pela experiência e vivência, afirmação espirituosamente fundamentada pelo conhecido ditado espanhol “El diablo sabe más por viejo do que por diablo” - não é o caso; estamos falando de inteligência, e inconscientemente, com o nosso orgulho ferido pela afirmação aparentemente esdrúxula sobre a diminuição progressiva da inteligência humana, nos posicionamos na defensiva. O enunciado da Lei não envolve somente ascendentes próximos – é muito mais amplo e extenso - e fica difícil que reconheçamos, em qualquer época ou situação, que o homem que viveu há 200, 1.000 ou 10.000 anos fosse mais inteligente do que nós: a negativa pura e simples resolve o imbróglio e os nossos brios permanecem intactos e preservados!

Entretanto, por mais que você relute, é uma realidade irretorquível: o hominídeo da espécie Homo neanderthalensis, mais conhecido como Homem de Neanderthal, tinha um QI muito superior ao homem dos nossos dias, maior talvez do que Da Vinci ou Einstein. Não esqueça que ele sobreviveu por dezenas de milhares de anos, num mundo totalmente hostil, ao passo que nós – ao que tudo indica - podemos estar caminhando para a extinção.

 

criado por projetosnumericos    6:59 — Arquivado em: Ensaio

22/10/08

A Loteria da Babilônia

Davi Castiel Menda

“Sou de um país vertiginoso onde a loteria é a parte principal da realidade: até o dia de hoje, pensei tão pouco nela como na conduta dos deuses indecifráveis ou do meu coração”. – José Luis Borges – A Loteria da Babilônia.

Interessante, o Brasil é um país de contrastes esquisitos. A nossa legislação reza que os jogos de azar são proibidos, mas diariamente, podemos tentar a sorte - sorte e azar são gêmeos siameses, inseparáveis - nos mais variados tipos de loterias de números que se possa imaginar, corrida de cavalos, raspadinhas e a tão ex-popular Loteria Esportiva. E para agravar mais ainda a inconstitucionalidade de certos jogos ditos oficiais, há uma leizinha (se ela foi revogada, me penitencio) que proíbe terminantemente apostas em qualquer atividade que envolva esforço humano. Evidentemente, um sábio legislador quis preservar aos apostadores das tretas factíveis através de combinação prévia, permitindo somente jogos em que a sucessão de fatos e de causas independentes que convencionamos chamar de sorte, fado ou destino, fosse realmente a responsável pela indicação de felizardos ganhadores.

Na antiga Roma, os imperadores, para garantir a sustentação no poder, providenciavam para que nunca faltasse ao povo pão e circo. Mesmo com o agravamento da situação econômica de Roma, motivada pela corrupção generalizada e pela inflação, o povo pouco se preocupava: recebia através da generosidade pública o pão, alimento essencial da época, enquanto a diversão – o circo - funcionava ininterruptamente: gladiadores em lutas mortais, leões devorando os seguidores da nova seita (cristianismo), corridas de bigas ou quadrigas.

Se no parágrafo anterior trocássemos a Roma antiga pelo Brasil de hoje, além de alguns simbolismos, não faria muita diferença. O povo - beneficiário da bolsa-família, bolsa-alimentação, bolsa-gás, bolsa-colégio, bolsa-qualquer-coisa; alienado pelo sonho eterno de ser campeão, bi, penta, hepta, decacampeão (o infinito é o limite) no Campeonato do Mundo de Futebol, com o auxílio dos meios de comunicação que, motivados pelos altos faturamentos, ajudam a fomentar a esperança; e as eternas acumuladas milionárias da Mega Sena alimentando o sonho irreal da fortuna rápida - deixa para um segundo ou terceiro plano as verdadeiras questões e reais problemas que afligem a sociedade brasileira.

José Luis Borges, em 1941, lançou um conto chamado A Loteria da Babilônia. É um texto pesado, crítico, repleto de simbolismos, onde o autor consegue prender a atenção do leitor pela sucessão de regras que vão sendo adicionadas a uma loteria criada na Babilônia: “Meu pai contava que antigamente – questão de séculos, de anos? – a loteria na Babilônia era um jogo de caráter plebeu. Referia (ignoro se com verdade) que os barbeiros trocavam por moedas de cobre, retângulos de osso ou pergaminho adornados de símbolos. Em pleno dia verifica-se um sorteio: os contemplados recebiam, sem outra confirmação da sorte, moedas cunhadas de prata. O procedimento era elementar, como os senhores vêem”.

O tempo faz com que a esperança de ganho seja substituída pelo tédio; para atrair novos apostadores, são inseridos bilhetes aziagos, ou seja, o sorteado com aqueles números, ao invés de ganhar, teria que pagar uma multa. Era a equanimidade - a igualdade de ânimo tanto na desgraça quanto na prosperidade – introduzida na loteria pela Companhia, a administradora dos sorteios.

“Por inverossímil que seja, ninguém tentara até então uma teoria geral dos jogos. O babilônio é pouco especulativo. Acata os ditames do acaso, entrega-lhes a vida, a esperança, o terror pânico, mas não lhe ocorre investigar as suas leis labirínticas, nem as esferas giratórias que o revelam. Não obstante, a declaração oficiosa que mencionei instigou muitas discussões de caráter jurídico-matemático. De uma delas nasceu a seguinte conjectura: Se a loteria é uma intensificação do acaso, uma periódica infusão do caos no cosmos, não conviria que a casualidade interviesse em todas as fases do sorteio e não apenas numa?”

Aos poucos, novas e novas regras são introduzidas, permitindo aos ganhadores o acesso a cargos públicos ou a elevação ao concílio dos magos, a detenção de inimigos através da delação, o encontro nas pacíficas trevas de um quarto com a mulher dos sonhos; aos portadores dos bilhetes adversos, a mutilação, a infâmia, a prisão, a morte. Os mais humildes se revoltam por não poder participar da loteria, por motivos financeiros - a Companhia adota a liberalidade de franqueá-la a todos, indistintamente; ela passa a ser compulsória.

A história brinca com a teoria da predestinação e de que não temos controle algum sobre o futuro; é como se o universo fosse uma simulação dentro de um grande contexto, ou até de um simples programa de computador. Talvez uma grande brincadeira do autor, inventando um deus ex-machina, a exemplo de Kafka. O parágrafo final é de uma beleza assustadora, em que o próprio autor, talvez arrependido da sua maquinação, da assombrosa e perversa engrenagem administrada pela Companhia, admite a possibilidade de nada daquilo existir.

Não sei se cometo um pecado literário ao invocar Borges, traçando um paralelo entre o universo por ele criado na sua Loteria da Babilônia e as loterias no Brasil. Valho-me de um trecho de crônica de Roberto Pompeu de Toledo, sobre o mesmo tema, para justificar minha ação:
“Um deles é que há milhares de anos, na Babilônia, como hoje no Brasil (e no resto do mundo), identifica-se um caráter misterioso no giro de um punhado de bolinhas, esta com um número, aquela com outro, até que uma prevalece. Quem o determina, com que poderes secretos, e por que razões inalcançáveis? As pessoas ainda hoje se agarram à crença de que há nisso uma predeterminação, quando não uma lógica. Alguns se inspiram em sonhos, para penetrá-las, como se sonhos fossem canais condutores aos mistérios últimos da vida e da morte. Isso prova que, aqui como na Babilônia, a loteria é vista como algo que tem parte com o sagrado.”

 

Borges se martirizava por não ter tido idéias geniais e de ser um mau poeta. Antes de morrer afirmou: “Me arrependo de tudo que escrevi”. Por favor, José Luis Borges, onde quer que esteja, se arrependa de tudo, dos seus devaneios, dos seus contos, dos seus poemas, exceto d´A Loteria da Babilônia.

criado por projetosnumericos    11:39 — Arquivado em: Ensaio

20/10/08

Paralelo 30

Davi Castiel Menda

Prefácio:
Sempre que concluo um texto, uma dúvida atroz me deixa em estado de pânico: e se por uma coincidência sem precedentes, alguém já escreveu algum texto igual ao meu, e tragédia das tragédias, antes de mim? E se tivemos a mesma idéia simultaneamente? Lembro de que quando era o editor do jornalzinho 13 Pontos, publicamos uma charge um dia após o Grêmio ter sido derrotado pela Portuguesa (está aí – mais uma!) exatamente igual à publicada por Zero Hora. Uma era cópia fiel da outra, e sem a menor possibilidade da ocorrência de plágio.
Provavelmente, já foram escritos no mundo aproximadamente 144 bilhões de textos, mas acho muito pouco provável que algum deles tenha se ocupado da matéria que abordo no texto abaixo. Só por esse motivo, é um dos meus favoritos.

__________________________________________________

Coquimbo no Chile, Porto Alegre no Brasil, Durban na África do Sul, Marree, Bourke e Grafton na Austrália: o que estas cidades tem em comum?

É melhor começar do princípio, pois a teoria que submeteremos à sua crítica e apreciação, se realmente comprovada, possivelmente ocasionará um êxodo maciço de pessoas para o… Esqueça, a experiência nos indica que deveremos recomeçar mais aquém para um perfeito entendimento. Temos certeza que, partindo da proposição que nos serviu de base, ainda que de modo provisório, e cuja verdade seja inquestionável, enunciaremos com mais clareza a questão.

Imagine um carrossel, aquele aparelhinho que é atração em todas as feiras e parques de diversões. Quem não conhece um carrossel, um conjunto constituído de um rodízio que sustém uma viga vertical, à qual se prendem hastes horizontais em cujas extremidades estão presos cavalos de plástico, carrinhos, aviõezinhos ou outras figuras que giram com o eixo?

Prosseguindo com o nosso exercício de mentalização, posicionemos os cavalinhos na parte interna do carrossel, no círculo interior, distanciados 2 metros do eixo (na realidade, estes 2 metros representam o raio deste círculo); num segundo círculo, os carrinhos a 4 metros do eixo e, finalmente, na parte exterior do carrossel, os aviõezinhos a 6 metros do eixo.

É claro que todos devem lembrar da fórmula - 2.Pi.R - da circunferência, mas para facilitar, informamos que a dos cavalinhos (a interna) é igual a 12,56 metros; a segunda, a dos carrinhos é igual a 25,12 metros; e, finalmente, a externa, a dos aviões é igual a 37,68 metros. Concluída a construção – figuradamente - do carrossel, o passo seguinte é vender ingressos para a criançada: quem sabe R$ 1,00 com direito a dez voltas, com a duração de cinco minutos?

Lotação completa - vamos pôr em funcionamento o carrossel e dar as voltinhas prometidas. Pronto? Todos satisfeitos? Crianças se divertindo à beça, o gerente do parquinho exultante com o faturamento, pais orgulhosos de seus filhos, fotos coloridas de recordação. Parece que tudo está correndo às mil maravilhas; entretanto, não é bem assim: as crianças que andaram nos aviõezinhos obtiveram flagrante vantagem sobre as outras, quer seja na velocidade, quer seja na distância. Os “internos” subvencionaram o passeio dos “externos”!

Os pequenos jóqueis, os da “raia” interna, nas dez voltas realizadas, percorreram a distância de 125,6 metros, a uma velocidade de 1,5 km por hora. Os promissores e audazes pilotos de Fórmula 1, obtiveram um desempenho duas vezes melhor: nos mesmos cinco minutos, completaram 251,2 metros, a uma velocidade de 3 km por hora. Entretanto, os intrépidos pilotos dos aviõezinhos, bateram o recorde da garotada: nos mesmos cinco minutos, percorreram 376,8 metros, a uma velocidade de 4,5 km por hora.

Todas as crianças pagaram o mesmo valor, todas andaram dez voltas, todas permaneceram por cinco minutos divertindo-se no carrossel, mas as posicionadas na circunferência dos aviões passearam muito mais e numa velocidade mais acima que as do grupo dos carrinhos e estes, por sua vez, mais do que o pessoal dos cavalinhos. Afinal, não são as altas velocidades que produzem adrenalina?

O princípio de igualdade, assegurado constitucionalmente, foi arranhado, não houve isonomia. Se você não está convencido, imagine três carrosséis independentes, com dimensões diferentes. Seriam cobrados os mesmos valores? É evidente que não. Quanto maior a aparelhagem, mais material gasto, maiores investimentos, maior o consumo de energia, maior a expectativa de lucro; e os fins justificando os meios, mais divertimento para a criançada.

Um paradoxo de implicação material como esse, inédito, não tendo registro no nosso cérebro, vai gerar uma pequenina semente de dúvida. Vamos germiná-la fantasiando o problema em outra dimensão, numa escala muito, mas muito maior: a idéia é substituir o carrossel pela nossa velha e conhecida Terra, e projetar a circunferência dos cavalinhos lá no círculo Antártico, os carrinhos sobre a Latitude S-30 e, a linha do equador (Latitude 0) no lugar dos aviõezinhos. O princípio é o mesmo – a Terra não deixa de ser um carrossel de proporções gigantescas.

Os habitantes da linha do equador terrestre percorrem diariamente, acompanhando o movimento de rotação, uma distância de 40.000 km – a circunferência máxima da Terra - a uma velocidade de 1.666 km por hora (resultado obtido pela divisão de 40.000 por 24 horas), enquanto os habitantes do Paralelo 30 - Porto Alegre e as demais cidades na introdução relacionadas - “viajam somente” 34.600 km a 1.443 km por hora. Os que moram sobre a linha do equador e adjacências “passeiam” todos os dias muito mais e mais rápido que todos os outros terráqueos. Quanto mais próximo dos círculos Ártico e Antártico, mais se acentua a diferença. Nos levam alguma vantagem a exemplo do carrossel do parquinho? Empiricamente, “vivem mais celeremente” do que nós ou o efeito se dá ao contrário? A teoria da relatividade tem algo a ver com a tese apresentada? Os argumentos apresentados serão devaneios do autor?

Comentários a respeito serão muito bem-vindos.

________________________________________________________

Posfácio:

Meus agradecimentos à Samantha Castiel-Menda pelo cálculo da circunferência na Latitude S-30. Este cálculo poderia ter sido feito através de coordenadas espaciais (x,y,z), porém ela apresentou-me uma fórmula mais enxuta, de solução rápida, sendo assim…

criado por projetosnumericos    9:09 — Arquivado em: Ensaio
Posts mais antigos »
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://davicm.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.