Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

11/11/08

Jogos de Sorte ou Azar?

Davi Castiel Menda

                                                                    

"Há duas ocasiões na vida em que uma pessoa não deve jogar: a primeira, quando não tiver posses para isso; a segunda, quando tiver". - MarkTwain

 

Poucos devem lembrar do fatídico 30 de abril de 1946, quando o Marechal Dutra, pressionado pela carolice de sua mulher e matreirice do seu ministro da Justiça, puseram o jogo na ilegalidade, fechando os cassinos existentes no país. Teriam sido estes realmente os motivos?

Voltemos no tempo: se não fossem os Cassinos da Urca, do Copacabana Palace e do Quitandinha, o Rio não se tornaria a praia mais cosmopolita do planeta à época, parte de um circuito milionário de entretenimento e badalação, formado pelo triângulo Rio – Buenos Aires - Havana. Inexplicavelmente, coincidentemente, lamentavelmente, este negócio milionário e ponta de lança do turismo internacional foi proibido quase que simultaneamente nestas três cidades (e em todo o Brasil). Não por acaso, neste mesmo ano de 1946, foi inaugurado o primeiro grande cassino em Las Vegas, cidade que, a partir deste marco, foi se expandindo cada vez mais e mais. Coincidência? Sempre me questiono se os governantes que sistematicamente sempre se posicionaram contra a abertura do jogo no país são sabedores desta ocorrência pouco conhecida historicamente e de flagrante subserviência latina aos interesses americanos.

Recentemente assistimos ao fechamento de todos os bingos do país e a proibição de máquinas caça-níqueis. Não entro no mérito dos motivos do governo, ou de possíveis fraudes, lavagens de dinheiro ou softwares adulterados - refiro-me a jogos honestos e empresários do jogo honestos. Normalmente, jogos envolvendo dinheiro são de azar, todos eles retirando um percentual - uns mais, outros menos - sobre o montante apostado, valor que a banca usa para pagar seus custos. E a Mega-sena e outros jogos similares, cujo desconto é superior a 70% são ou não são jogos de azar? A explicação de que são explorados pelo governo não os isenta deste rótulo! Há uma lei (pelo menos havia) que proibe a exploração de qualquer aposta em que esteja envolvido o esforço humano; e a loteria esportiva, como fica? São 22 jogadores, além de técnicos, juizes e bandeirinhas. É ou não é esforço humano?

 

Longe de mim desejar o fechamento das loterias - pelo contrário. O homem sempre foi e sempre será um jogador em potencial, a competição da vida assim o exige. Desde o dia em que soldados romanos rodaram seus escudos circulares apostando no ponto de parada, estava plantada a semente dos futuros cassinos. Na Idade Média surgiram as estampas de naipes (cartas) e o jogo com elas. Decretos nunca acabarão com o jogo, ele é inato no homem. Não posso concordar, que numa sociedade cada mais globalizada, em países altamente civilizados, o jogo é legal, permitido, e os governos lucram com este fato; e em outros (no caso específico do Brasil), o jogo só é tolerado se administrado de forma monopolizadora pelo próprio governo. Esta insistência demagógica em não liberá-lo tem nos custado caro, pois o governo abdicou de faturar no último meio século alguns bilhões de dólares em impostos.

Joga quem quer. Se mesmo avisados de que vão contrair câncer fumando, fumantes fumam, qual o motivo de alguém não poder dispor de seu dinheiro como bem lhe aprouver?

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10/11/08

Como ganhar nas corridas de cavalos

Davi Castiel Menda

Nos próximos dias será inaugurado mais um shopping center em Porto Alegre, na Avenida Diário de Notícias, junto ao Hipódromo do Cristal. O nome da avenida é uma homenagem da cidade a um dos maiores jornais do Rio Grande do Sul nas décadas de 40 a 60, pertencente aos Diários Associados de Assis Chateaubriand e que, durante muito tempo, competiu de igual para igual com o poderoso – na época - Correio do Povo de Breno Caldas.

Gostaria de contar uma história praticamente desconhecida a respeito do Diário: muito provavelmente fui eu a pessoa que mais comprou Diário de Notícias num único dia! Eu explico: em 1963 – quase meio século atrás – morava em Cachoeira do Sul. Guri ainda, 20 anos, com todo o gás do mundo, tinha tempo para ser funcionário do Banco do Brasil, escrevia a página de turfe do Jornal do Povo, transmitia eventualmente os páreos do Hipódromo do Amorim e ainda vinha aos fins de semana a Porto Alegre colaborar com o Vergara Marques na Rádio Itaí, nas transmissões diretamente do Hipódromo do Cristal.

Nesta época, o Diário de Notícias lançou um concurso de turfe em que o desafio era acertar os dois primeiros colocados nos quatro últimos páreos de domingo do Hipódromo do Cristal. Prêmio de CR$ 40.000,00 (que era uma bela quantia na época) acumulável em caso de não encontrar ganhador. Quando na primeira semana não houve acertador, procurei um grupo de amigos e fiz ver a eles que com 5.000 cupons nossa chance seria fora de série. Eles toparam a idéia. Esperamos acumular mais uma semana – quando o prêmio atingiu CR$ 120 mil – e telefonamos a Porto Alegre encomendando 5.000 jornais.

A pessoa do outro lado da linha (do Diário), apavorada com a encomenda incomum, informou que esta quantidade era praticamente toda a edição do jornal… Mesmo assim, ele foi muito gentil e prestativo e ficou acertado que seriam impressos 5.000 jornais extras, com entrega programada para o meio da semana. No dia aprazado, foram necessárias umas dez viagens de carrinho de mão para buscar todos aqueles jornais na Viação Férrea, sem contar a trabalheira para recortar e preencher todos aqueles cupons. Tudo em vão - erramos um dos páreos…

Não satisfeitos, voltamos à carga na semana seguinte e encomendamos mais 5.500 jornais. Desta vez acertamos! Prêmio de CR$ 160.000,00 - menos 40% de Imposto de Renda – e ainda dividido com mais dois acertadores - o que proporcionou um prêmio líquido de CR$ 32.000,00, pelo menos suficiente para cobrir a despesa de compra dos 10.500 jornais. O que sobrou foi consumido em chopes durante uma semana para festejar o acerto.

Só para complementar: acima do cupom do concurso turfístico, vinha publicado um outro, destinado ao concurso de miss alguma coisa. Escolhi a mais simpática - pelas fotos divulgadas - descobri seu endereço com a comissão organizadora e seria o óbvio afirmar que com os nossos 10.500 votos a candidata ganhou “disparada”.

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Posfácio:

Ao escrever esta crônica, em outubro, cheguei a pensar em me candidatar ao Guiness Book. Coincidentemente, li naquela mesma semana, que um grupo político comprara 37 mil exemplares num único dia de um jornal fluminense, com o claro objetivo da população não tomar conhecimento de determinada notícia (boa coisa eu garanto que não era). Que pena, eu era um sério candidato…

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7/11/08

O Esporte dos Reis

Davi Castiel Menda

                                      

Muito, muito tempo atrás, o homem descobriu que um animal do gênero Equus era excelente para transportar cargas que ele mesmo – o homem - não suportaria. Não levou tanto tempo a produzir cavalos que primassem pela velocidade e resistência para competir os primeiros páreos da história.

Os historiadores admitem que as primeiras corridas de cavalos tivessem ocorrido entre tribos nômades por volta de 4500 a.C. Nas olimpíadas disputadas na Grécia, 640 a.C., as corridas de cavalos era uma das modalidades, passando daí para a Ásia central e posteriormente ao mediterrâneo.

Os cavaleiros do Império Britânico importaram cavalos árabes no seu retorno das cruzadas. Nos anos que se seguiram, centenas de garanhões árabes foram cruzados com éguas inglesas, proporcionando uma desejável combinação: velocidade e resistência. Estava criado o puro-sangue inglês, a nobreza e liderança, o ideal para competições e apostas milionárias ou até, em último caso, diversão.

É evidente que este novo tipo de entretenimento, para evoluir, necessitava de recursos, e quem senão a nobreza poderia ter os investimentos necessários para investir na criação de cavalos com esta finalidade? Portanto, daí a origem do slogan O Esporte dos Reis, que nos últimos tempos tem sito totalmente deturpado, usado não só para designar o jogo de pólo, mas inexplicavelmente até o surfe.

Maldosamente, aqui no Brasil, afirmam que é esporte dos reis, pois somente com a renda de um monarca para resistir aos violentos percentuais subtraídos páreo a páreo dos apostadores nas corridas de cavalos. Com a experiência acumulada de 53 anos sobre o assunto, posso afirmar com a mais absoluta segurança que após uma maratona turfística de oito a dez páreos, em números aproximados, de 75 a 85% dos freqüentadores do jockey perdem, uns 10 a 15% empatam e apenas uns 5 a 10% ganham.

Os Jockeys Clubes brasileiros tiveram sua fase áurea quando as opções de lazer eram mínimas e apostas oficiais se resumiam a apenas duas: as corridas de cavalos e a loteria federal (alguns poucos estados administravam loterias estaduais, caso do Rio Grande do Sul, a primeira loteria da América latina, criada em 1843 e no momento inativa), além é claro do clandestino jogo do bicho. Mais tarde, com o advento das loterias da Caixa, a morte dos jockeys foi decretada. Péssimas administrações, prêmios baixos aos proprietários de cavalos, percentuais escorchantes contra os apostadores, falta de apoio governamental à criação, não adaptação dos clubes à nova realidade brasileira; este o somatório de fatos negativos que estão liquidando aos poucos uma agradável opção de lazer do brasileiro de todas as classes sociais nos fins de semana. Para aqueles que pensam exclusivamente em jogo e não no esporte, é muito mais vantajoso gastar apenas R$ 1,00 na lotérica dali da esquina, arriscando a ganhar milhões numa das tantas loterias acumuladas, do que pegar uma condução e se deslocar até o Jockey Clube, muitas vezes em dias frios e chuvosos, sem acomodações decentes, arriscar R$ 1,00 num favorito, torcer desesperadamente e, em certos casos, mesmo ganhando, receber apenas o seu R$ 1,00 de volta! É claro que não há comparação e as ingênuas e incompetentes diretorias nunca se deram conta desse fato. Mesmo alertadas, jamais tomaram uma única providência para “combater” o inimigo. Até o Sweepstake, que movimentava apostadores de todo o país em função dos polpudos prêmios ofertados, e que proporcionava um belo lucro à parceria Loteria Federal e Jockeys, morreu.

Aqui no Rio Grande do Sul o Jockey Club agoniza de forma lamentável. Para mim, freqüentador desde os 12 anos de idade, cronista de turfe aos 15, proprietário aos 19, posteriormente Conselheiro, agora afastado de qualquer atividade ligada ao assunto por questões de foro íntimo, é muito triste ver o que acontece, já que o turfe foi parte integrante da minha vida por décadas.

Boa parte da área do Hipódromo do Cristal foi vendida a um grupo que este mês estará inaugurando mais um templo de consumo, mais um shopping. Muitos que passam em frente ao Hipódromo, talvez desconheçam que aquela avenida chama-se Diário de Notícias e provavelmente a quase totalidade nem imagina qual o motivo desta designação.

Você, que está incluído entre esses últimos, está convidado a ler o nosso próximo blog, na segunda-feira, com um tema bem mais ameno do que o “necrológio” de hoje, onde conto a aventura de um grupo de apostadores, que para tentar ganhar uma “bolada” no Jockey, comprou 10.000 jornais no espaço de duas semanas (e ganhou).

E não esqueça, entre hoje e segunda, no domingo tem o imperdível Olhar Dominical.

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6/11/08

A pessoa mais honesta do mundo

Davi Castiel Menda

Na década de 70, uma vez por ano, Porto Alegre se transformava: boa parte de sua população ficava inteiramente envolvida com a gincana promovida por um centro comercial - o Hipoimcosul. O prêmio principal, habitualmente, era um automóvel, o que pode não parecer muito, mas na época, era uma atração sensacional e movimentava muito mais gente do que uma mega sena acumulada nos dias de hoje.

A segunda ou terceira versão da promoção, pelo número de carros inscritos, ficou conhecida como a Gincana dos Mil Carros e a Ana Maria - minha esposa - eu, e mais uma turma de amigos, inscrevemos uma pequena equipe com apenas cinco automóveis. Entretanto, se somarmos a retaguarda, composta de co-pilotos, telefonistas, cozinheiros, especialistas em antiguidades, assessores, etc., éramos umas trinta pessoas.

Sendo meu pai um aficionado pelo teatro, e estando a Casa do Artista Riograndense passando por dificuldades financeiras, combinamos entre o pessoal da nossa equipe que, se vencêssemos, doaríamos o automóvel para aquela instituição, o que foi antecipadamente comunicado à Sra. Rina Ceriana, presidente da Casa. Dona Rina era proprietária de uma barbearia na Galeria Chaves e, quando lhe participei da nossa intenção, pessoalmente, ela se mostrou estranhamente surpresa e, a custo, conteve as lágrimas, apesar de antecipar-lhe que era mais um gesto simbólico, pois as nossas chances eram remotas.

Lembro-me que elaboramos uma mala direta para umas cem pessoas, a maioria de "velhinhos e velhinhas" já que, as tarefas da gincana, versavam invariavelmente pela busca de coisas antigas. As meninas da equipe se debruçaram sobre os telefones por vários dias, reforçando a mala direta e divulgando o nosso objetivo em caso de vitória. O marketing estava perfeito, as intenções eram as melhores possíveis e a equipe estava a postos. Aguardávamos somente a largada.

Até a décima ou décima-primeira tarefa fomos muito bem, conseguindo cumpri-las integralmente. A partir daí as coisas começaram a se complicar e a medida que a madrugada de domingo avançava, o cansaço tomando conta de todos, algumas tarefas não sendo atingidas, encetamos nossa desistência. Domingo pela manhã, o que restou da equipe fez uma avaliação e resolvemos dar por encerrada a nossa participação, pois as chances de chegar ao primeiro lugar se tornavam cada vez mais distantes.

Coincidentemente, em visita a Porto Alegre, naquele domingo, estava o embaixador Paschoal Carlos Magno, homem que dedicava as 24 horas do dia ao teatro, fundador e mecenas da Aldeia do Arcozelo. E como era praxe, sempre que dispunha de algum tempo, almoçava na casa de meus pais. Imaginem a balbúrdia (e coitada da minha mãe): um embaixador convidado a almoçar e o apartamento servindo de base para nossa equipe! Bem, enquanto era servido o almoço, escutávamos, mais por curiosidade, qual seria a última tarefa. Normalmente, era a busca por uma determinada personalidade, ligada às artes e ao Rio Grande do Sul, e a pontuação dessa tarefa era tão alta que a equipe que a obtivesse, praticamente ganharia a gincana.

O locutor que anunciava as tarefas pelo rádio, ao meio-dia em ponto, divulgou-a: "Apresentar a atriz que atuou no papel principal do primeiro filme longa metragem realizado no Rio Grande do Sul. Valor da tarefa: cinco mil pontos." Apesar de meu pai ter trabalhado em alguns curtas, não soube precisar quem seria a pessoa procurada; desligamos o rádio e, a gincana, a estas alturas, era coisa do passado. A historinha terminaria por aqui, de forma insossa, não fosse uma exclamação/interrogação, meia hora depois, do embaixador Carlos Magno, expansivo e irreverente como era seu jeito de ser, num grito que assustou a todos: "Mas a primeira atriz de um longa metragem gaúcho não foi a Rina?!"

Como? A "nossa" Rina, a mesma que dois ou três dias antes eu havia conversado sobre o assunto? Não é possível? Se nós agregássemos esses cinco mil pontos, seguramente seríamos os vencedores da gincana! A procura pelo endereço de dona Rina nos fez perder mais uns 15 minutos. Suplantado mais este empecilho, saí "cantando pneu" rumo ao Gasômetro, bairro onde ela morava. Já tínhamos perdido uns bons 45 minutos desde o momento em que o locutor anunciara a tarefa.

Chegando ao prédio, um casal que se antecipara a nós, saía orgulhoso com o seu troféu, que valia um automóvel: Rina Ceriana, a primeira atriz de um longa metragem gaúcho, a dona da barbearia que eu freqüentava há séculos, segura firmemente por ambos os braços. Minha esposa e eu a perdêramos por "toque de focinho". Olhei para dona Rina, a cumprimentei, sorri meio confuso, ela retribuiu e, naquele momento mágico, inesquecível, compreendi que tinha diante de mim a pessoa mais honesta do mundo.

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O dia de hoje na História:

 

Em 1950, conheci uma garotinha com seis anos - com um olhar meigo (qualquer hora publico no Olhar Dominical), de trancinhas: foi paixão à primeira vista; afirma ela que sentiu o mesmo à época. Entre idas e vindas, levamos uns bons 14 anos até oficializar este namoro, em sete de novembro de 1964 (amanhã completa 44 anos). Somando casamento, noivado, namoro e amizade, são 58 anos, mas tenho uma leve suspeita que lá na maternidade celestial, muito tempo antes da gente nascer, já éramos vizinhos de berço e lançávamos vez ou outra uma piscadinha.

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5/11/08

O Inferno é Endotérmico ou Exotérmico?

Davi Castiel Menda

Baseado em texto que circulou pela Internet em 2007 de autor desconhecido.

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Primeiramente, postulemos que o inferno exista e que esse é o lugar para onde vão algumas almas. Partindo do pressuposto que almas existam, elas devem ter massa e ocupar algum volume. Então, um conjunto de almas também tem massa e, da mesma forma, ocupa um certo volume. Nesse caso, a que taxa as almas estão se movendo para fora, e a que taxa elas estão se movendo para dentro do inferno? A primeira hipótese, para fora, está de plano descartada: seguramente uma alma, uma vez introduzida ao inferno, apontam as probabilidades que seja de forma eterna - nunca mais sairá de lá; caso contrário, as ameaças vociferantes das autoridades religiosas aos tementes não teriam sentido.

Analisemos o fato pela ótica das diferentes religiões que existem no mundo, e no que pensam elas a respeito. Algumas religiões pregam que, se você não professar o credo que elas pressupõem como a única verdadeira, o destino de sua alma fatalmente será o inferno. Cumulativamente, se você descumprir algum dos 10 mandamentos ou desagradar a Deus, você tem passagem garantida, só de ida, para o mesmo destino. Considerando que ninguém professa todas as religiões simultaneamente, todas menos uma - a que você segue - não estão sendo adotadas e, como a experiência nos mostra que poucos respeitam os 10 mandamentos, é lícito projetar que um número muito próximo de 100% de almas tem rumo certo; com as taxas de mortalidade progressivas, a expectativa é de um crescimento exponencial de almas no inferno.

Agora, examinemos a taxa de mudança de volume no inferno: a Lei de Boyle afirma que para a temperatura e a pressão no inferno serem as mesmas, a relação entre a massa das almas e o volume do inferno deva ser constante.

Existem então, duas opções: 1a.) Se o inferno se expandir numa taxa menor do que a taxa com que as almas entram, então a temperatura e a pressão no inferno irão aumentar até explodir, portanto, Exotérmico. 2a.) Se o inferno estiver se expandindo numa taxa maior do que a entrada de almas, então a temperatura e a pressão irão baixar até que o inferno se congele, portanto, Endotérmico.

Se aceitarmos a assertiva feita por uma vidente que, ao contrário da grande maioria, fazia questão absoluta de prever fatos verdadeiros e desagradáveis, e que indagada se eu acertaria a mega sena em breve, respondeu que “só no dia em que o inferno congelar”, e levando-se em conta que até hoje, malgrado centenas de tentativas, jamais obtive sucesso nesta empreitada reconhecidamente inglória, sou obrigado a descartar a segunda hipótese e declarar que a primeira opção se apresenta como a mais indicada ao questionamento proposto no título: o inferno é Exotérmico.

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Exotérmico - diz-se de processo ou de reação química que ocorre em um sistema, e em que há liberação de calor para o meio externo.

Endotérmico - Diz-se de processo ou de reação química que ocorre em um sistema, e em que há absorção de calor do meio externo.

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1/11/08

A equipe de futebol que preferiu morrer a perder

1a. Parte

A história do futebol mundial inclui milhares de episódios emocionantes e comovedores, mas seguramente nenhum seja tão terrível como o protagonizado pelos jogadores do Dínamo de Kiev, nos anos 40 – século passado. Os jogadores participaram de uma partida, sabendo que se ganhassem, seriam assassinados e, no entanto, decidiram ganhar. Na morte, deram uma lição de coragem, de vida e honra, que não encontra, por seu dramatismo, outro caso similar no mundo.
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Para compreender sua decisão, é necessário conhecer em que condições participaram daquela decisiva partida, e por que um simples encontro de futebol se tornou para eles o momento crucial de suas vidas.
Tudo começou em 19 de setembro de 1941, quando a cidade de Kiev - capital ucraniana - foi ocupada pelo exército nazista, e os homens de Hitler impuseram um regime impiedoso, além de arrasar com tudo que viam pela frente. A cidade, controlada pelos nazistas, converteu-se num inferno. Além disso, nos meses seguintes, desembarcaram centenas de prisioneiros de guerra, que não tinham permissão para trabalhar nem viver nas casas. Eram compulsoriamente obrigados a vagar pelas ruas na mais absoluta indigência. Entre aqueles soldados doentes e desnutridos, estava Nikolai Trusevich, ex-goleiro do Dínamo.

Josef Kordik, um padeiro a quem os nazistas não perseguiam por ser alemão de origem, curiosamente era torcedor fanático do Dinamo. Certo dia, caminhando pelas ruas, surpreendeu-se ao observar um desses mendigos e imediatamente se deu conta de que era seu ídolo: o gigante Trusevich.

Ainda que fosse ilegal, mediante artimanhas, o padeiro alemão, enganando aos nazistas, contratou o goleiro para que trabalhasse em sua padaria. Sua ânsia por ajudá-lo foi valorizada pelo goleiro, agradecido pela possibilidade de se alimentar e dormir debaixo de um teto. Ao mesmo tempo, Kordik emocionava-se por ter feito amizade com um dos antigos astros da sua equipe.

Na convivência, as conversas sempre giravam em torno do futebol e do Dínamo, até que o padeiro teve uma idéia genial e humanitária: solicitou a Trusevich que, em lugar de trabalhar como padeiro, se dedicasse a buscar o resto de seus colegas. Seria uma forma, de juntos, salvar esses outros jogadores.

O arqueiro percorreu o que restara da cidade devastada, e entre feridos e mendigos, foi descobrindo, um a um, seus antigos colegas do Dinamo. Kordik deu trabalho a todos, esforçando-se para que ninguém descobrisse a manobra. Trusevich descobriu também alguns jogadores rivais do campeonato russo, entre eles três jogadores da Lokomotiv, e também os resgatou. Em poucas semanas, a padaria escondia entre seus empregados uma equipe completa.

Reunidos pelo padeiro, os jogadores não demoraram em dar um passo adiante, e decidiram, alentados por seu protetor, voltar a jogar. Era, além de escapar dos nazistas, a única coisa que sabiam fazer – e muito bem, por sinal. Muitos tinham perdido suas famílias nas mãos do exército de Hitler, e o futebol era a última lembrança grata de suas vidas anteriores.

Como o Dinamo estava proibido de atuar, criaram um novo nome para aquela equipe. Assim nasceu o FC Start, que através de contatos alemães, começou a desafiar equipes de soldados inimigos e seleções formadas pelo III Reich.

Em sete de junho de 1942, jogaram sua primeira partida. Apesar de estarem famintos e cansados, por terem trabalhado toda a noite, venceram por 7 a 2. Seu seguinte rival foi a equipe de uma guarnição húngara: ganharam de 6 a 2. Depois engavetaram 11 gols numa equipa romena. A coisa ficou séria quando, em 17 de julho, enfrentaram uma equipe do exército alemão, e a golearam por 6 a 2. Muitos nazistas começaram a ficar desorientados pela crescente fama do grupo de empregados da padaria, e buscaram uma equipe melhor na tentativa de acabar com aquela sucessão de vitórias. Trouxeram da Hungria o MSG, com a missão de derrotá-los, mas o FC Start goleou mais uma vez: desta vez por 5 a 1; na revanche, um escore mais apertado, mas nova vitória - de 3 a 2.

Em seis de agosto, convencidos de sua superioridade, os alemães foram buscar uma equipe com membros da Luftwaffe, o Flakelf, uma equipe de primeira linha que tinha como objetivo servir como instrumento de propaganda de Hitler. Os nazistas acreditavam ter trazido o time ideal para liquidar com a fama do FC Start, que já gozava de enorme popularidade entre o sofrido povo refém dos nazistas. A surpresa foi monumental: apesar da violência e falta de esportividade dos nazistas, o Start venceu por 5 a 1.

 

Continua no blog abaixo

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A equipe de futebol que preferiu morrer a perder

2a. Parte

Depois dessa fragorosa queda do time de Hitler, os alemães passaram a investigar, e descobriram a manobra do padeiro. De Berlim chegou a ordem de liquidar sumariamente com todos eles, inclusive com o padeiro, mas as autoridades nazistas locais não se contentaram com essa ordem. Não queriam que a última imagem dos russos fosse de uma vitória, pois acreditavam que desta forma, estariam criando um grupo de mártires, e a derrota alemã não seria esquecida tão cedo.

A superioridade da raça ariana, em particular no esporte, era uma obsessão para Hitler e os altos comandos. Por essa razão, antes de fuzilá-los, queriam de qualquer maneira derrotá-los. Com um clima de pressão inédito – além de inúmeras ameaças aos jogadores da padaria - anunciou-se a revanche para 9 de agosto, no Estádio Zenit. Pouco antes do jogo, um oficial da SS entrou no vestiário e disse em russo aos jogadores do Start:

- "Vou ser o juiz do jogo, respeitem as regras eantes do início saúdem o público com o braço levantado", exigindo que eles fizessem a saudação nazista.

Já em campo, os jogadores do Start (camisa vermelha e calção branco) levantaram o braço, mas no momento da saudação, levaram a mão ao peito e no lugar de dizer: - "Heil Hitler!", gritaram - "Fizculthura!", uma expressão soviética que proclamava a cultura física.

Os alemães marcaram o primeiro gol, mas ao final dos primeiros 45 minutos o Start já virara o jogo, vencendo por 2 a 1. Receberam nova visita ao vestiário, desta vez com guardas armados e a advertência clara e concreta:

- "Se vocês ganharem, não sai ninguém vivo". A ameaça partir de um outro oficial da SS. Os jogadores, naturalmente com muito medo, pensaram em não voltar para o segundo tempo, mas pensaram em suas familiares mortas, nas perseguições, nos crimes que cometidos pelos nazistas, na gente sofrida que nas arquibancadas gritava desesperadamente por eles - e decidiram, sim, voltar para o segundo tempo.

Deram um verdadeiro “baile” nos nazistas. No final da partida, quando o escore lhes era favorável por 5 a 3, o atacante Klimenko ficou cara a cara com o goleiro alemão. Deu um drible sensacional, deixando o coitado estatelado no chão; ao ficar de frente para o gol escancarado, deu meia volta e chutou a bola para o centro do campo, num gesto de desprezo, de deboche, de superioridade total. O estádio veio abaixo.

Os nazistas deixaram que o grupo de jogadores do Start saísse do campo como se nada tivesse ocorrido, e inclusive o grupo jogou dias depois, goleando o Rukh por 8 a 0. Mas a vingança já estava definida: dias depois dessa última partida, a Gestapo “visitou” a padaria.

O primeiro a morrer torturado, em frente a todos os outros, foi Kordik, o padeiro. Os demais presos foram enviados para campos de concentração de Siretz. Ali mataram brutalmente a Kuzmenko, Klimenko e o arqueiro Trusevich, este vestido com a camiseta do FC Start. Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, foram os únicos que sobreviveram, escondidos, até a libertação de Kiev em novembro de 1943. O resto da equipe foi torturada até a morte.

Ainda hoje, os possuidores de entradas daquela partida têm direito a um assento gratuito no estádio do Dinamo de Kiev. Nas escadarias do clube, custodiado em forma permanente, conserva-se atualmente um monumento que saúda e recorda àqueles heróis do FC Start, os indomáveis prisioneiros de guerra do Exército Vermelho, invictos durante uma dezena de históricas partidas, entre 1941 e 1942.

Foram praticamente todos mortos entre torturas e fuzilamentos, mas se negaram a perder uma partida, que lhes custou a vida. Bons tempos em que os homens eram homens, em que jogadores eram homens.

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Esta é a história da dramática "Partida da Morte". O cineasta John Huston inspirou-se neste fato real para rodar seu filme "Fuga para a vitória" (Escape to Victory) en 1982, que chamou atenção à época do lançamento porque dele participaram grandes nomes do cinema como Michael Caine, Sylvester Stallone e Max Von Sydow, além da participação de algumas estrelas do futebol como Bobby Moore, Osvaldo Ardiles, Kazimierz Deyna e Pelé. No filme, John Huston fez o que não pôde o destino: salvar os heróis.

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30/10/08

Halloween

                                              

Nelson Menda

 

"Há meses que super-mercados, lojas de roupas e até mesmo grandes farmácias dedicam gôndolas e prateleiras inteiras para a exposição de objetos relacionados ao Halloween, que neste ano, apesar da crise, irá representar um gasto de 47 dólares por habitante, maior do que o PIB de muitos países."

 

Há alguns anos começaram a aparecer cartazes em muros e paredes de prédios cariocas combatendo o Halloween (pronuncia-se halouím, com o h aspirado), por tratar-se de uma festa alienígena, nada tendo a ver com a tradição popular brasileira. Como, pelo menos àquela época, eu não era muito chegado nem às festas populares brasileiras, quanto mais às estrangeiras, não me toquei. Aliás, minto. Sempre gostei da maneira como se comemoravam as festas juninas no meu tempo de Porto Alegre. A coincidência com a época dos pinhões e a indumentária de gaúchos e prendas me fascinavam.

Cheguei a fazer parte, na adolescência, de um grupo que dançava e cantava músicas folclóricas do Rio Grande do Sul, como Cana Verde, Chimarrita, Pezinho e tantas outras. Tinha até botas e bombachas e era assim, pilchado, que comparecia aos ensaios, na casa da Família Sena, em plena Vinte de Setembro, na Azenha. Depois, já no Rio, constatei que as festas juninas no restante do país eram bem diferentes daquelas comemoradas no Rio Grande. Ao invés de indumentária e canções que procuravam recordar o passado, como as nossas, eram festividades caipiras, que procuravam, através de fantasias um tanto quanto ridículas, criar situações engraçadas, que culminavam, inexoràvelmente, com o "Casamento na Roça", o ponto alto da festa. De comum, apenas a fogueira, com a diferença de que, no Sul, era a forma de aquecer as frias noites do inverno.

Mesmo com essas profundas diferenças regionais, poderíamos afirmar que as festas juninas e julinas, essas sim, podem ser consideradas autenticamente verde-amarelas, ao contrário do Halloween, que alguns brasileiros estariam tentando importar e nos enfiar goela abaixo. Por falar nisso, tenho de procurar uma máscara para o Baile de Halloween do próximo sábado, em Portland, Maine, a três horas da minha casa, localizada em Glastonbury, Connecticut, Estados Unidos. Como vim parar aqui e o que estou fazendo no site do Davi Menda, meu primo de Gravataí, são outros quinhentos, que pretendo ir revelando aos poucos.

Primeiro, é preciso localizar Glastonbury no mapa mental de cada um, para facilitar o entendimento do que será relatado. Todo mundo sabe que Nova Iorque fica na costa leste, ou Atlântica, dos Estados Unidos. Um pouco acima de Nova Iorque, também à beira do Atlântico, fica Boston, famosa por suas universidades. A meio caminho entre Nova Iorque e Boston está localizado o Estado de Connecticut, cuja capital, Hartford dista apenas 10 minutos de carro de Glastonbury. Fácil, não? Na realidade, não é bem assim, pois é Glastonbury, com seus 25.000 habitantes, que fica a 10 minutos de carro de Hartford, uma cidade bem maior em extensão e população. Connecticut, juntamente com outros cinco estados da região nordeste dos Estados Unidos, formam a assim chamada "New England" ou Nova Inglaterra, pois foi por aqui que a colonização do país, pelos ingleses, teve início. Daí a razão de grande parte de suas cidades e rios terem recebido o mesmíssimo nome de localidades e acidentes geográficos da velha Inglaterra.

Para dar alguns exemplos: a uma hora daqui temos o Rio Tâmisa, minha filha mais velha mora em Manchester e trabalha em New Britain, ambas pelas redondezas e a praia mais próxima se chama New London. Quanto ao sufixo bury, de Glastonbury, ainda não consegui decifrar muito bem seu significado, mesmo porque há uma quantidade enorme de localidades terminadas em bury, como Waterbury e Danbury, essa última considerada um dos maiores redutos de brasileiros dos Estados Unidos. Pelo dicionário bury pode ser traduzido como enterrar e começo a ficar em dúvida se, na verdade, eu não estaria enterrado em Glastonbury, uma cidade encantadora que se prepara, como o restante do país, a comemorar, ao anoitecer desta sexta-feira, o Dia das Bruxas, ou, como já dissemos, Halloween.

Meu neto de quatro anos já está com a fantasia de Batman tinindo, para sair pela vizinhança do condomínio onde mora ameaçando assustar as pessoas que se negarem a oferecer-lhe guloseimas. Na porta de suas casas os americanos exibem, há alguns meses, orgulhosamente, uma imensa abóbora, espécie desenvolvida com essa finalidade específica, pois não estraga ou apodrece com o passar do tempo. Alguns se dão ao trabalho de recortar olhos, nariz e boca em uma das superfícies do vegetal, iluminando seu interior com lamparinas ou velas. Outras pessoas decoram suas portas e janelas com máscaras de bruxas, caveiras e fantasmas. Até mesmo as lojas de artigos eróticos disponibilizam aos clientes deste mundo objetos e indumentárias fantasmagóricos do outro, apesar de eu ter minhas dúvidas se, na hora da onça beber água, tais apetrechos não acabem funcionando como verdadeiros anti-afrodisíacos.

Há meses que super-mercados, lojas de roupas e até mesmo grandes farmácias dedicam gôndolas e prateleiras inteiras para a exposição de objetos relacionados ao Halloween, que neste ano, apesar da crise, irá representar um gasto de 47 dólares por habitante, maior do que o PIB de muitos países. Na realidade, apesar de já ter vindo aos Estados Unidos uma porção de vezes, eu só conhecia o Halloween pelos filmes e TV e esta será a primeira vez em que estarei vendo e participando ao vivo de uma festa inteiramente exótica para os padrões brasileiros, que costumam curtir muito mais a vida do que a morte. 

 

 

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29/10/08

A Incrível e Fantástica História do Pavão

Davi Castiel Menda

“Quando você tiver certeza absoluta de alguma coisa – vá em frente, aproveite. Não é sempre que você pode tripudiar seus adversários.”

Quando no ano de 2000 mudei-me para um sítio na zona rural, o sonho de uma vida, herdei do proprietário anterior um lote de 50 galinhas (que doei na primeira meia hora), meia dúzia de gansos, quatro patos, um filhotinho de pastor belga (o Buster, que esta semana completou nove anos), além de uma belíssima cisne negra, a Black Star. Como vocês já devem estar pressentindo, na semana seguinte, todos esses animais foram devidamente batizados. Tinha até uma gansa com o artístico nome de Demi Moore. Além de toda essa fauna, o sítio possuía um galinheiro de material, que de tão bonito e tão espaçoso, a bicharada ficava constrangida de usá-lo, dormindo invariavelmente na grama, mesmo que chovesse a cântaros.

Pouco tempo depois, a esses foi agregado um casal de pavões; ao passar por uma loja especializada em agropecuária, vi aqueles dois engaiolados num espaço mais destinado a passarinhos do que aqueles enormes fasianídeos, me senti penalizado e os comprei. O macho imediatamente recebeu o nome de Mauríce de minha parte, em homenagem ao grande cantor-ator Maurice Chevalier; minha esposa preferia chamá-lo de pavão mesmo, acentuando o “a” nasalado e arrastando o “o” final.

O Mauríce era um espetáculo a parte. Além de aderir ao movimento dos bichos de não dormir no galinheiro, ele e a cara-metade se adonaram do telhado do galinheiro! Era para lá que eles voavam assim que o sol se punha e por lá passavam a noite. Aos domingos, quando se acentuava o número de citadinos em busca da paz no campo (e em contrapartida infernizando a nossa pacata vidinha), ele pressentia o público, levantava sua crista azul e verde e abria suas plumas caudais, com aquelas fantásticas manchas oculares iridescentes, num grande leque, obrigando os carros a pararem.

E num caso especial a ser estudado pela psicologia, pois normalmente o animal tende a incorporar o comportamento humano, com o pavão é exatamente o contrário: ele transmite ao seu proprietário o seu exibicionismo característico. Notei essa tendência quando me dei conta de que eu também desfrutava prazerosamente de todos aqueles carros parando em frente à minha casa, tentando, pelas frestas da cerca, admirar o pavão.

Num belo dia, recebi a visita do meu primo e xará David Nelson Menda para conhecer o sítio e descansar das suas infindáveis viagens pelo mundo. Depois de muita conversa, levei-o da área social da casa para a parte rural; foi quando dei falta do pavão. Uns dias antes a fêmea tinha sido morta por um gambá - agora perder o pavão era um duplo baque. Mas por mais que eu procurasse, não o encontrei e fiquei realmente muito aborrecido. É claro que o Mauríce tinha sido roubado; era de se duvidar que ele abandonasse aquela boa vida que levava.

Convidei o Nelson para visitar duas agropecuárias localizadas na estrada na tentativa de achá-lo; se alguém o roubara, fatalmente teria colocado à venda numa delas. Na primeira não havia nenhum; na segunda exatamente doze. Fiquei olhando atentamente para a grande gaiola montada na frente da loja e, lá no fundo, cabisbaixo, triste, estava o Mauríce.

Você, a essas alturas, deve estar se perguntando: de que forma, entre doze pavões, todos rigorosamente iguais, eu poderia identificar o meu pavão? Devo lembrar-lhe que quando atuava como cronista de turfe no Hipódromo do Cristal, eu e uma dezena de colegas, identificávamos pelo menos uns mil cavalos pelo nome, só de olhá-los na raia galopando. E ainda nos dávamos ao luxo de citar a sua filiação e em muitos casos o proprietário. É claro que aquele era o “meu” pavão!!!

Para tirar a prova dos nove chamei a minha esposa e enquanto eu e o Nelson olhávamos atentamente ela gritou: Pavããããôôô! Na mesma hora o pavão por mim identificado deu um pulo (só ele) e ficou nos olhando admirado. Ali estava a comprovação que eu precisava. Na hora, o sangue ferveu; eu queria ligar para a Polícia, para a Brigada, o esquadrão anti-seqüestro e anti-bombas, convocar a imprensa escrita, falada e televisada, o Correio de Gravataí, a Zero Hora, a Fátima Bernardes, o Datena, que abraçaria a causa imediatamente, chamando aqueles seqüestradores da fauna brasileira de canalhas, e pregando a pena de morte assim que fossem capturados.

Em consideração ao meu visitante, acalmei-me e resolvi dar uma oportunidade ao acaso. Consultei o Nelson, um sujeito moderado e, seguindo seu conselho, resolvi comprar “aquele” pavão e ao chegar no sítio, soltá-lo. Se à noite ele se abancasse no telhado do galinheiro, no dia seguinte eu faria o maior banzé. Processaria o dono da loja por receptação e faria com que a Polícia descobrisse o autor do furto. Os culpados pagariam caro por aquele rapto ignominioso.

Voei para casa no intuito de buscar o dinheiro. No exato momento que cheguei, outro carro estacionou paralelamente ao meu e reconheci ao volante um dos meus vizinhos. Apesar de não ser um bom momento, educadamente o recebi, fiz as apresentações, mas ele entrou direto no assunto: perguntou se eu não dera falta do meu pavão. Respondi afirmativamente e ele continuou: -“Tenho uma notícia triste pra te dar. O teu pavão voou para o meu terreno, possivelmente atrás das galinhas (não se conformou com a monotonia causada pela viuvez recente) e meus cachorros o pegaram. Ele está aqui num saco, mas se achares conveniente, o meu caseiro o enterra”.

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Que essa história sirva de lição para todos aqueles que garantem 100% de certeza em tantas situações, em tantos testemunhos. E quando você tiver certeza absoluta de alguma coisa – vá em frente, aproveite. Não é sempre que você pode tripudiar seus adversários. Mas lembre-se, você poderá estar cometendo uma grande injustiça!

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27/10/08

Futebol, Cachorreiros & Política

Davi Castiel Menda

Sou do tempo em que futebol era jogado no campo, decidido no campo. Sou do tempo em que, terminada uma partida, os torcedores subiam no mesmo bonde (é, também sou do tempo do bonde), sentavam lado a lado, comentavam a partida lado a lado, tocavam flauta lado a lado, e ninguém morria por ser torcedor…

Até onde minha memória pode alcançar, lembro-me de ser gremista, aquele de paixão, que não subia em ônibus se por acaso despontasse uma flâmula de determinado “co-irmão” próxima ao motorista.

Mas falando em futebol, lembrei-me de um craque e uma das primeiras demonstrações de que as torcidas estavam mudando: Ortunho, num Grenal, foi atingido covardemente por uma garrafa e voltou com a cabeça enfaixada, faixa que nos minutos seguintes assumiu a cor do adversário pelo sangue que a tingiu. Aqueles que não tinham um herói, como eu, passaram a ter: Jorge Carneiro, Ortunho, foi craque, foi herói, foi um símbolo do Grêmio, e aquela partida é uma das tantas partidas que ficaram gravadas na calçada da fama da minha memória.

Passados alguns anos, a paixão pelo futebol e pelos campos já diminuída, meu lazer dominical era passear com minha mulher e a Susie, um de meus cachorros, no Parque Farroupilha. Num desses passeios, noto aquela figura gigante aproximando-se de nós, e qual a minha surpresa, quando o Ortunho, em carne e osso – imagine, o herói vindo de encontro ao torcedor – dirigiu-se a nós. Cumprimentou-nos e contou, a mim e a Ana Maria, que também tivera uma cadelinha poodle, muito parecida com a nossa, que a havia perdido, e saudoso que estava, aproximava-se sempre dos cachorreiros para trocar uma palavra, consolar-se. Conversa vai, conversa vem, diz o Ortunho para nós:
- Vocês são muito jovens (mal imaginava ele a nossa idade…) e não devem me conhecer! Eu joguei por muito tempo no Grêmio, meu nome é Ortunho.

Bem, aí o surpreso ficou ele quando eu recitei automática e instantaneamente:
- Arlindo ou Alberto, Altemir, Airton, Áureo e Ortunho. Ou quem sabe: Sérgio, Airton e Ortunho; Figueiró, Elton e Enio Rodrigues; Hercílio, Gessy, Juarez, Milton e Vieira.

Ele ficou me olhando, num misto de espanto, orgulho e emoção, e se testemunhas tivessem presenciado a cena, o que ficariam imaginando, assistindo a um poodle abanando a cola sem parar, e três adultos com lágrimas nos olhos?

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O Al Karismi, nas suas previsões políticas, tem sido só acertos. Lamentavelmente, nas eleições americanas, vai errar não só na preferência pessoal como também no resultado. Deve ganhar Obama e eu jogava todas minhas fichas em McCain. Ontem descobri que o meu candidato tem nada menos, nada mais, do que 24 bichos de estimação entre cães e gatos; Obama não tem nenhum. Não sei, presidente americano sem um pet. Pensando bem, não sei se errei mesmo…

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