5/12/08
Torre de Babel - Fé ou Razão? - II Parte
Davi Castiel Menda
II Parte
O Livro dos Jubileus especula e menciona a altura da torre como sendo de 5.433 cúbitos e dois palmos (2.484 metros de altura). Isto seria aproximadamente quatro vezes mais alto do que as estruturas mais altas do mundo de hoje e em toda a história da humanidade. Tal afirmação seria considerada mítica para a maioria dos estudiosos, visto que os construtores naqueles tempos, seriam incapazes de construir uma estrutura correspondente a um prédio de 800 andares!
A outra fonte extra-canonical é encontrada no Terceiro Apocalipse de Baruch; menciona que a ‘torre da discórdia’ alcançava uma altura de 463 cúbitos (212 metros de altura). Apesar de mais razoável, esta altura ainda seria mais alta do que qualquer outra estrutura construída no mundo antigo (a maior delas a Pirâmide de Quéops com 146,59 metros em Gizé, Egito) e mais alta do que qualquer estrutura construída na história até à montagem da Torre Eiffel em 1889.
A literatura religiosa oferece variados relatos sobre as causas para a Torre de Babel ter sido construída, além dos objetivos dos seus construtores. Na Mishná (uma das principais obras da Literatura Rabínica) era vista como uma rebelião contra Deus. Uns midrash (no judaísmo, forma narrativa desenvolvida através da tradição oral) mais tardios registam que os construtores da Torre teriam dito: "Deus não tem o direito de escolher o mundo superior para Si próprio, e de deixar o mundo inferior para nós; por isso iremos construir uma torre, com um ídolo no topo segurando uma espada, para que pareça como se pretendesse guerrear com Deus".
À primeira vista essa afirmação pode ser chocante, agressiva aos nossos sentidos e princípios, desrespeitosa à religião. Mas não devemos esquecer que os povos que viviam naquela época e região do globo eram guerreiros por natureza e profissão; a espada era seu instrumento de trabalho, de defesa, a personificação da sobrevivência. Guerras, sangue e vingança faziam parte do cotidiano. Os nomes dos vários deuses (inclusive o de Deus), sob as mais variadas denominações, ou era aliado ou inimigo! E, partindo do princípio bíblico de que os homens foram moldados à sua imagem e semelhança, por isonomia - não teriam pensado eles? – imaginaram que poderiam usufruir do direito aos mesmos conhecimentos, às mesmas regalias, da mesma moradia. O paraíso, os céus?
Admitindo de que todos os fatos relatados na Bíblia sobre a Torre de Babel sejam autênticos, a interferência de Deus numa obra humana não estaria indo contra a teoria do livre arbítrio? Se Deus tinha o conhecimento eterno, onipotência e onisciência, sabia desde o início dos tempos que um dia o homem chegaria a tal ponto. Por quê não impediu antes? O direito ao livre arbítrio teria prevalecido até então? Porém, ao “sentir” a proximidade dos homens, Deus interferiu na construção através da multiplicidade de idiomas, constrangendo a apregoada e discutível liberdade de escolha pela consciência do homem. Teria sido um acerto esse desagregamento compulsório?
Apesar de tudo - e ainda dentro do mesmo raciocínio anterior de veracidade dos fatos - o homem, mesmo temente a Deus, não se convenceu plenamente do ocorrido e, a todo o momento, constrói suas Torres de Babel, sejam elas particulares ou em âmbito universal. O que são os prédios fantásticos, espetaculares, monstrengos e desproporcionais construídos nos ricos países asiáticos? O que é o esperanto (criação de Ludwik Zamenhof), senão uma língua que servisse para toda a população mundial? O que é o COI (Comitê Olímpico Internacional), o que é a FIFA, o que é a ONU? São tentativas de reerguimento da Torre!
A raça humana, por mais que tenha avançado nas mais variadas ciências, ainda funciona como um grupo de trogloditas pré-históricos, cujas necessidades se limitavam fundamentalmente a viver em comunidade. Os homens de hoje, empirica e subjetivamente, preferem viver enclausurados numa torre, intimamente juntos, num instinto muito contraditório de sobrevivência – é atávico, utópico, eterno.
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