21/11/08
Prêmios malditos - Parte I
Davi Castiel Menda
O jornalista Júlio Mariani, no artigo Prisioneiros dos Deuses, publicado em Zero Hora em 1998, relatou com muita propriedade: “sábios orientais já se perguntaram se o universo não seria apenas um sonho simultâneo de deuses e seres humanos. Um grande deus adormecido estaria sonhando com este mundo e esta vida, e nós, personagens do sonho divino, estaríamos por nossa vez sonhando outros pequenos sonhos inseridos dentro do sonho maior, e assim por diante.”
O sonho é uma sequência de fenômenos psíquicos que involuntariamente ocorrem durante o sono. Entretanto, podemos sonhar acordados e nossos sonhos passam a ser dirigidos através de pensamentos, de idéias vagas, normalmente agradáveis, muitas vezes incoerentes, às quais o espírito se entrega em estado de vigília, fantasiando, num processo de fuga da realidade.
Quem não imaginou algum dia ser o presumível herdeiro de uma herança multimilionária, originária de um parente, nobre, distante e desconhecido? Quem não gostaria de ganhar uma bolada numa loteria, que muitas vezes, acumulada por vários sorteios, atinge dezenas de milhões de reais, nem que fosse para ter o prazer de, no dia seguinte, mandar o chefe às favas.
Particularmente, por calcular antecipadamente as chances em tudo que aposto, me considero o jogador mais pessimista do mundo, pois jogo sabendo que as chances de acertar nas loterias são muito próximas de zero. Peço desculpas aos leitores por ser um desmancha-prazeres, mas não se trata de sonho, vencer o sistema é pura utopia: poucos em vida terão a oportunidade de concretizar este desejo incontido.
Um cálculo nada complicado, empregando uma simples regra de três, ajudaria os sonhadores a retornar ao mundo real, da verdade, onde os fundamentos da estatística substituem com vantagem os antigos oráculos: se você comprar duas vezes por semana um bilhete da Loteria Federal, que de longe, entre todas as loterias, é a menos difícil de acertar, terá seu bilhete sorteado no primeiro prêmio, probabilisticamente falando, uma vez a cada 700 anos. Não por acaso toda regra tem suas exceções: desde 15.09.1962, data da primeira extração sob a administração da Caixa, há bilhetes que se destacaram, incrivelmente sorteados no primeiro prêmio em três oportunidades (bilhetes 05.487 – 32.330 e 53.053). É muito provável que seus compradores, em todos os três sorteios, tenham sido as mesmas pessoas, ou quem sabe até seus herdeiros!
Apostadores são otimistas por natureza. Após comprar um bilhete por dez reais, ofereça-lhe 20, 50 ou até 100 reais por esse bilhete e o apostador dificilmente lhe venderá. Na sua concepção, depois que o bilhete entrou em seu bolso, passa a ter o valor de face do primeiro prêmio: 100 mil reais. Um dos meus amigos de infância, Maurício Behar, foi durante largo tempo proprietário da Casa de Apostas, uma das lotéricas mais luxuosas do país; sua lotérica jamais vendeu um bilhete sequer apesar de receber da Caixa uma quantidade razoável para comercialização. E ele explica o motivo: “Se eu colocasse os bilhetes na vitrine, alguém por certo compraria. Se iria comprar, era porque tinha esperança de que seria premiado. Então, minha opção era eu mesmo concorrer aos prêmios oferecidos.” Isso sim é que era otimismo!
Normalmente o argumento usado pelos apostadores é invariavelmente o mesmo: é difícil, mas alguém tem que ganhar! Concordo! E é nesse exato momento que esse “feliz pobre coitado” passa efetivamente a conhecer seu inferno astral, pelos pedidos de empréstimos principalmente de parentes, solicitação de doações, propostas de negócios mirabolantes, o receio de voltar ao status quo anterior, o medo de ser sequestrado, assaltado, logrado, perder o dinheiro na bolsa, enfim, centenas de opções, quase todas elas, infelizmente, negativas.
O governo americano durante muito tempo empregou uma solução que considero a ideal no caso de prêmios milionários: esse era pago em parcelas anuais durante vinte anos. Por mais perdulário que fosse o ganhador, sempre teria um “ordenado” a receber ao final do ano. Sabendo que aqui no Brasil boa parte dos ganhadores de prêmios intermediários liquida literalmente com seu prêmio em menos de três anos, os vinte anos americanos é um belo prazo. O sistema funcionou a contento por muito tempo até que a máfia entrou na história, comprando os bilhetes premiados à vista, evidentemente com um polpudo deságio. O ganhador recebia seu prêmio à vista – provavelmente 40% do valor – e a máfia se contemplava com um investimento garantido durante vinte anos. Atualmente é o próprio governo que propõe esta antecipação ao apostador, com o devido deságio, é claro…
Situação mais trágica é quando o sonho de atingir o inatingível – um primeiro prêmio - se concretiza, mas por um motivo qualquer, a bolada tão sonhada não chega às mãos do ganhador. Conta-se às centenas as histórias de bilhetes perdidos, jogados no lixo inadvertidamente (promovendo verdadeiras caravanas aos lixões a sua procura), usados para fins escatológicos, tragados por cachorros, enfim, o que era para ser o pontapé inicial para uma vida de folgança, transforma-se no primeiro ato de uma tragédia. Não estou considerando nesta lamentável estatística aquelas pessoas que nem ficam sabendo que seu cartãozinho ou bilhete foi premiado - ou por perda ou mal conferidos. A Caixa informa anualmente esses dados e é de estarrecer a quantidade de prêmios não reclamados.
QUANDO O SONHO SE TRANSFORMA EM PESADELO
Danilo A., durante muito tempo foi apostador habitual de uma agência lotérica localizada na Avenida Protásio Alves, em Porto Alegre. Segundo notícia publicada pelo jornal Zero Hora de 16 de agosto de 1998, Danilo iria receber desta lotérica, a título de indenização, a importância de R$ 300 mil, valor do prêmio que coube ao bilhete no. 00.939 da Loteria Federal, mais correção monetária. A decisão foi tomada pelo 2o. Grupo Cível do Tribunal de Justiça do Estado, presidido pelo desembargador Alfredo Guilherme Englert.
Danilo alegou que, havia mais de dois anos, firmara um acordo tácito com a agência para que esta lhe reservasse permanentemente o bilhete 00.939. E durante todo esse tempo o pacto funcionou a contento. A agência mantinha a guarda dos bilhetes para as extrações das quarta-feiras, sábados e eventuais sweepstakes; às terças-feiras, invariavelmente, o apostador passava na lotérica e acertava a conta. Milhares e milhares de apostadores por esse Brasil afora são atendidos de semelhante forma. É negócio no fio-de-bigode.
No sorteio de sete de setembro de 1996, o bilhete 00.939 foi sorteado no primeiro prêmio no valor de R$ 300 mil. Assim que soube do resultado, Danilo entrou imediatamente em contato com a lotérica para tomar posse do bilhete, mas lá lhe informaram que o bilhete fora vendido em pedacinhos para várias pessoas. Inconformado com a situação, investigou e descobriu que a própria dona da agência recebera o prêmio. O sonho se transformara em pesadelo.
Danilo encaminhou ação judicial contra a lotérica alegando má-fé. A juíza Judith dos Santos Mottecy, da 6a. Vara Cível de Porto Alegre acolheu o pedido de indenização, condenando a agência a ressarcir o apostador. Houve apelação, um novo recurso, e finalmente o 2o. Grupo Cível, seguindo o voto do relator desembargador Luiz Ari Azambuja Ramos, manteve a sentença por sete votos a um, determinando o pagamento dos R$ 300 mil – corrigidos – ao apostador.
Afim de que esse artigo não ficasse incompleto e os leitores no desconhecimento, fomos a campo e, através de duas fontes fidedignas, tomamos conhecimento de que, lamentavelmente, o senhor Danilo, pelo menos até 2006, decorridos dez anos do sorteio, não recebera um centavo sequer do valor do seu prêmio.
São situações incomuns como esta que nos levam a pensar sobre o texto de Júlio Mariani, lá no início do blog, se em determinadas ocasiões, ao invés de sonhar, os deuses, por estarem acordados, se divertem manipulando ao seu bel-prazer suas minúsculas cobaias, firmemente aprisionadas num imenso labirinto chamado Terra, que para eles não é mais do que uma pequena e redonda gaiola azul.
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