Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

21/11/08

Prêmios malditos - Parte I

Davi Castiel Menda

O jornalista Júlio Mariani, no artigo Prisioneiros dos Deuses, publicado em Zero Hora em 1998, relatou com muita propriedade: “sábios orientais já se perguntaram se o universo não seria apenas um sonho simultâneo de deuses e seres humanos. Um grande deus adormecido estaria sonhando com este mundo e esta vida, e nós, personagens do sonho divino, estaríamos por nossa vez sonhando outros pequenos sonhos inseridos dentro do sonho maior, e assim por diante.”

O sonho é uma sequência de fenômenos psíquicos que involuntariamente ocorrem durante o sono. Entretanto, podemos sonhar acordados e nossos sonhos passam a ser dirigidos através de pensamentos, de idéias vagas, normalmente agradáveis, muitas vezes incoerentes, às quais o espírito se entrega em estado de vigília, fantasiando, num processo de fuga da realidade.

Quem não imaginou algum dia ser o presumível herdeiro de uma herança multimilionária, originária de um parente, nobre, distante e desconhecido? Quem não gostaria de ganhar uma bolada numa loteria, que muitas vezes, acumulada por vários sorteios, atinge dezenas de milhões de reais, nem que fosse para ter o prazer de, no dia seguinte, mandar o chefe às favas.

Particularmente, por calcular antecipadamente as chances em tudo que aposto, me considero o jogador mais pessimista do mundo, pois jogo sabendo que as chances de acertar nas loterias são muito próximas de zero. Peço desculpas aos leitores por ser um desmancha-prazeres, mas não se trata de sonho, vencer o sistema é pura utopia: poucos em vida terão a oportunidade de concretizar este desejo incontido.

Um cálculo nada complicado, empregando uma simples regra de três, ajudaria os sonhadores a retornar ao mundo real, da verdade, onde os fundamentos da estatística substituem com vantagem os antigos oráculos: se você comprar duas vezes por semana um bilhete da Loteria Federal, que de longe, entre todas as loterias, é a menos difícil de acertar, terá seu bilhete sorteado no primeiro prêmio, probabilisticamente falando, uma vez a cada 700 anos. Não por acaso toda regra tem suas exceções: desde 15.09.1962, data da primeira extração sob a administração da Caixa, há bilhetes que se destacaram, incrivelmente sorteados no primeiro prêmio em três oportunidades (bilhetes 05.487 – 32.330 e 53.053). É muito provável que seus compradores, em todos os três sorteios, tenham sido as mesmas pessoas, ou quem sabe até seus herdeiros!

Apostadores são otimistas por natureza. Após comprar um bilhete por dez reais, ofereça-lhe 20, 50 ou até 100 reais por esse bilhete e o apostador dificilmente lhe venderá. Na sua concepção, depois que o bilhete entrou em seu bolso, passa a ter o valor de face do primeiro prêmio: 100 mil reais. Um dos meus amigos de infância, Maurício Behar, foi durante largo tempo proprietário da Casa de Apostas, uma das lotéricas mais luxuosas do país; sua lotérica jamais vendeu um bilhete sequer apesar de receber da Caixa uma quantidade razoável para comercialização. E ele explica o motivo: “Se eu colocasse os bilhetes na vitrine, alguém por certo compraria. Se iria comprar, era porque tinha esperança de que seria premiado. Então, minha opção era eu mesmo concorrer aos prêmios oferecidos.” Isso sim é que era otimismo!

Normalmente o argumento usado pelos apostadores é invariavelmente o mesmo: é difícil, mas alguém tem que ganhar! Concordo! E é nesse exato momento que esse “feliz pobre coitado” passa efetivamente a conhecer seu inferno astral, pelos pedidos de empréstimos principalmente de parentes, solicitação de doações, propostas de negócios mirabolantes, o receio de voltar ao status quo anterior, o medo de ser sequestrado, assaltado, logrado, perder o dinheiro na bolsa, enfim, centenas de opções, quase todas elas, infelizmente, negativas.

O governo americano durante muito tempo empregou uma solução que considero a ideal no caso de prêmios milionários: esse era pago em parcelas anuais durante vinte anos. Por mais perdulário que fosse o ganhador, sempre teria um “ordenado” a receber ao final do ano. Sabendo que aqui no Brasil boa parte dos ganhadores de prêmios intermediários liquida literalmente com seu prêmio em menos de três anos, os vinte anos americanos é um belo prazo. O sistema funcionou a contento por muito tempo até que a máfia entrou na história, comprando os bilhetes premiados à vista, evidentemente com um polpudo deságio. O ganhador recebia seu prêmio à vista – provavelmente 40% do valor – e a máfia se contemplava com um investimento garantido durante vinte anos. Atualmente é o próprio governo que propõe esta antecipação ao apostador, com o devido deságio, é claro…

Situação mais trágica é quando o sonho de atingir o inatingível – um primeiro prêmio - se concretiza, mas por um motivo qualquer, a bolada tão sonhada não chega às mãos do ganhador. Conta-se às centenas as histórias de bilhetes perdidos, jogados no lixo inadvertidamente (promovendo verdadeiras caravanas aos lixões a sua procura), usados para fins escatológicos, tragados por cachorros, enfim, o que era para ser o pontapé inicial para uma vida de folgança, transforma-se no primeiro ato de uma tragédia. Não estou considerando nesta lamentável estatística aquelas pessoas que nem ficam sabendo que seu cartãozinho ou bilhete foi premiado - ou por perda ou mal conferidos. A Caixa informa anualmente esses dados e é de estarrecer a quantidade de prêmios não reclamados.

QUANDO O SONHO SE TRANSFORMA EM PESADELO

Danilo A., durante muito tempo foi apostador habitual de uma agência lotérica localizada na Avenida Protásio Alves, em Porto Alegre. Segundo notícia publicada pelo jornal Zero Hora de 16 de agosto de 1998, Danilo iria receber desta lotérica, a título de indenização, a importância de R$ 300 mil, valor do prêmio que coube ao bilhete no. 00.939 da Loteria Federal, mais correção monetária. A decisão foi tomada pelo 2o. Grupo Cível do Tribunal de Justiça do Estado, presidido pelo desembargador Alfredo Guilherme Englert.

Danilo alegou que, havia mais de dois anos, firmara um acordo tácito com a agência para que esta lhe reservasse permanentemente o bilhete 00.939. E durante todo esse tempo o pacto funcionou a contento. A agência mantinha a guarda dos bilhetes para as extrações das quarta-feiras, sábados e eventuais sweepstakes; às terças-feiras, invariavelmente, o apostador passava na lotérica e acertava a conta. Milhares e milhares de apostadores por esse Brasil afora são atendidos de semelhante forma. É negócio no fio-de-bigode.

No sorteio de sete de setembro de 1996, o bilhete 00.939 foi sorteado no primeiro prêmio no valor de R$ 300 mil. Assim que soube do resultado, Danilo entrou imediatamente em contato com a lotérica para tomar posse do bilhete, mas lá lhe informaram que o bilhete fora vendido em pedacinhos para várias pessoas. Inconformado com a situação, investigou e descobriu que a própria dona da agência recebera o prêmio. O sonho se transformara em pesadelo.

Danilo encaminhou ação judicial contra a lotérica alegando má-fé. A juíza Judith dos Santos Mottecy, da 6a. Vara Cível de Porto Alegre acolheu o pedido de indenização, condenando a agência a ressarcir o apostador. Houve apelação, um novo recurso, e finalmente o 2o. Grupo Cível, seguindo o voto do relator desembargador Luiz Ari Azambuja Ramos, manteve a sentença por sete votos a um, determinando o pagamento dos R$ 300 mil – corrigidos – ao apostador.

Afim de que esse artigo não ficasse incompleto e os leitores no desconhecimento, fomos a campo e, através de duas fontes fidedignas, tomamos conhecimento de que, lamentavelmente, o senhor Danilo, pelo menos até 2006, decorridos dez anos do sorteio, não recebera um centavo sequer do valor do seu prêmio.

São situações incomuns como esta que nos levam a pensar sobre o texto de Júlio Mariani, lá no início do blog, se em determinadas ocasiões, ao invés de sonhar, os deuses, por estarem acordados, se divertem manipulando ao seu bel-prazer suas minúsculas cobaias, firmemente aprisionadas num imenso labirinto chamado Terra, que para eles não é mais do que uma pequena e redonda gaiola azul.

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20/11/08

Prêmios malditos

Entre tantos crimes que acontecem diariamente no país, o que mais vem chamando a atenção é a morte do ganhador da Mega Sena de São Paulo. Imbróglios envolvendo ganhadores vão se tornando uma constante e o blog Al Karismi, um dos raros especializados em loterias, passa a divulgar a partir de 6ª. feira uma série sobre esses fatos que nos leva a pensar: será que vale a pena mesmo ganhar?
Saiba de antemão o que você vai ler:

Prêmios malditos – Parte I – 6ª. feira – dia 21
“No sorteio de sete de setembro de 1996, o bilhete 00.939 - assinatura permanente de Danilo A. - foi sorteado no primeiro prêmio, valor de R$ 300 mil. Logo que soube do resultado, Danilo A. entrou imediatamente em contato com a lotérica e lhe foi dito que o bilhete fora vendido em pedacinhos para várias pessoas. Inconformado com a situação, investigou e descobriu que a própria dona da agência recebera o prêmio. O sonho se transformara em pesadelo.” Acompanhe essa dramática história que foi aos tribunais, nos seus mínimos detalhes.

Prêmios malditos – Parte II – Sábado – dia 22
Três casos sobre confusões envolvendo ganhadores de loterias.

Prêmios malditos – Parte III – 2ª. feira – dia 24
- Comerciante que integrava grupo de apostadores que se desentendeu na divisão do prêmio de 16 milhões é assassinado em SP.
- O ex-lavrador Renné Sena, ganhador do concurso 679 da mega sena é assassinado quando bebia em um bar na região metropolitana do Rio.
- Já dura 15 meses a confusão sobre o prêmio do concurso 896 da mega sena entre Altemir José da Igreja e seu ex-funcionário Flávio Júnior Biass.

Prêmios malditos – Parte IV – 3ª. feira – dia 25
O ganhador de bilhete da Loteria Federal, na década de 60, que parou num bar para festejar e chegou em casa sem o bilhete. Caso que transitou na 3ª. Vara Criminal de Porto Alegre.

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E enquanto você aguarda por essa série que promete, viaje pelo mundo dos desejos e emoções no blog logo aí abaixo – Second Life.

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19/11/08

Second Life - Emoções e desejos

Davi Castiel Menda

 

"Pessoas mortas há pouco tempo podem mudar seu aspecto simplesmente pensando em uma dada forma, sendo sumamente fácil para seres brincalhões ou mesmo malévolos enganar os que não foram preparados para reconhecer tais ilusões."

Sou freqüentador de um clube que promove torneios de Poker semanalmente. A título de curiosidade, uma das regras afixadas em letras garrafais (aliás, regra provavelmente exclusiva deste clube e jamais imaginada pelos criadores do Poker) nos informa que é terminantemente proibido reagir com emoções a um lance inesperado durante as disputas dos torneios. Aparentemente, o criador desta aberração lúdico-jurídica desconhece que a emoção é congênita à natureza do homem: trata-se de uma perturbação ou variação do espírito advinda de situações inesperadas e que se manifesta na forma de alegria, tristeza, raiva. Exagerando, seria o mesmo que pendurar um cartaz num estádio de futebol comunicando aos torcedores que devem se portar com educação, cortesia e civilidade e que, durante os festejos de um gol, devem manter-se corretamente sentados em seus lugares; no máximo, aplaudir com palmas moderadas o autor da façanha. Pedir bis ou goleada, já seria contravenção.

 

O desejo é semelhante à emoção, é ter a vontade de possuir, de gozar, de ter anseios, cobiça, ambição, ou até apetite, seja ele na mesa ou na cama (apetite sexual). Os desejos e emoções variam de pessoa a pessoa. São tantas as variáveis que poderia afirmar que o somatório dessas geram um padrão de individualidade a cada pessoa, tal qual as impressões digitais.

Mesmo que você seja uma pessoa correta, honesta, cumpridora das leis, fiel ao seu cônjuge, é de se supor que já tenha tido um mau pensamento, lascivo e sensual ao ver um filme ou fotos de um(a) artista sexy de cinema ou TV. Ou quem sabe, imaginando-se com o prêmio milionário de uma mega sena no bolso, passeando numa Ferrari pelas ruas de Mônaco, convidado da princesa Caroline para um garden-party nos jardins do seu palácio… Que atire a primeira pedra quem, durante uma áspera discussão com seu chefe, não pensou em “eu ainda mato esse sujeito”. Meia hora depois, você, o pseudo-matador, e ele, o chefe, confraternizavam na sala do cafezinho, como se nada tivesse acontecido. Tal comportamento é normal: a natureza sabiamente a tudo isso previu. São desejos de efêmera duração – pelo menos, deveriam ser – e tendem a sumir rapidamente. Entretanto, se forem permanentes, a idéia deixa de ser desejo e transforma-se em obsessão e o comportamento humano passa a ser tratado como um desvio de conduta, com menor ou maior gravidade.

Segundo a Wikipédia, teosoficamente falando, o Mundo de Desejo também é conhecido como plano astral. Concordando com outras correntes, a Teosofia diz que este é um plano de existência intermediária entre o mundo físico e o mundo mental ou celeste, uma região onde a vida é mais ativa e as formas mais plásticas que no plano físico, formas que estão sujeitas à influência do pensamento. As entidades que aqui vivem - elementais, devas inferiores (no hinduísmo e no budismo, devas = cada uma das diversas divindades que se situam entre os seres divinos superiores e os homens) e pessoas mortas há pouco tempo - podem mudar seu aspecto simplesmente pensando em uma dada forma, sendo sumamente fácil para seres brincalhões ou mesmo malévolos enganar os que não foram preparados para reconhecer tais ilusões. É o reino das emoções e desejos por excelência, onde eles são sentidos em toda sua intensidade sem o efeito amortecedor causado pelo corpo físico mais denso.

Pois alguém resolveu materializar este Mundo de Desejos e colocá-lo à disposição de todos através da Internet, sob o título de Second Life, um ambiente virtual e tridimensional onde são simulados aspectos da vida real e social do usuário. O internauta “morre” por algum tempo na vida real e muda seu aspecto terreno assumindo uma nova forma, identidade, profissão e até sexo nesse mundo virtual. O Second Life pode ser encarado como um jogo, quem sabe um simulador de vidas ou talvez um comércio virtual.

Na verdade, é a transposição de pessoas insatisfeitas com a sua vida real (Real Life ou primeira vida), gerando uma vida paralela em situações totalmente imaginárias, de acordo com os anseios de cada um. Essa perigosa brincadeira que joga com os sentimentos humanos, transforma seus participantes em escritores de folhetim ou talvez, exageradamente, em deuses - pela possibilidade de criação de personagens, mesmo que irreais. A comunidade do Second Life vem crescendo de forma exponencial e seus partícipes recriam uma nova rede social, uma nova ir-“realidade”, e passam a conviver com ela.


Conheço poucas pessoas que transitam diariamente pela Second Life e, pelo conjunto de conhecimentos acumulados ao longo de uma existência, chego a conclusão de que – num estudo preliminar desses raros criadores de avatares que me brindaram com sua entusiasmada opinião a respeito - não assumem uma segunda vida; que perdoem minha opinião, na verdade confundem a vida real com o mundo da fantasia, com o mundo dos desejos. A vida, que deveria ser a real, passa a ser a irrreal e vice-versa, gerando uma situação que se caracteriza pelo aparecimento de ambições e de suspeitas, evoluindo para delírios persecutórios e de grandeza.

Para fortalecer meu juízo a respeito da Second Life, cito o ocorrido recentemente na Inglaterra, onde traição cometida naquele mundo virtual, por homem que mantinha avatar como amante, terminou em divórcio na vida real. Aos leigos, para um melhor entendimento, em informática, avatar é a representação gráfica de um utilizador em realidade virtual (de acordo com a tecnologia, pode variar desde uma simples imagem até um sofisticado modelo 3D).

O caso inglês tem características surrealistas, com total desprezo pelas construções refletidas ou dos encadeamentos lógicos e pela ativação sistemática do inconsciente e do irracional. Amy Taylor e David Pollard, após quatro anos de vida em comum, separaram-se depois que Amy, com a ajuda de um detetive cibernético, descobriu que o alter ego de seu marido a traia com outra mulher. Só que “a outra” era um avatar, uma representação gráfica, um personagem irreal, enfim, em linguagem simples, um mero desenho, sem vida, sem consistência, sem alma, só existindo na tela de um computador, morrendo a cada vez que esse fosse desligado.

- Doeu muito. Não pude acreditar no que ele fez. Para mim foi infidelidade – comentou Amy. É uma situação inusitada e o homem (no presente caso, Amy, a esposa “traída”) toma atitudes inesperadas frente a uma situação nova e fico a pensar na essência de seus pensamentos e avaliação sobre o caso. A jovem esposa, imaginando a rival com que seu marido mantinha relações extraconjugais, eternamente jovem, sempre com as mesmas feições e características, a versão cibernética da fonte da juventude. Deve ter sido fantástico o conjunto dessas ilações!

A novela se torna mais dramática e assume ares de comédia e escárnio pelo grotesco, ao se tomar conhecimento de que o ex-marido David, após a separação, já tem uma nova noiva virtual (qual teria sido o motivo de ter abandonado a amante avatar causadora da destruição do seu lar?) e afirma que não vê a hora de com ela casar na vida real. Repetindo, para que não haja dúvidas: a notícia informa que David Pollard já tem uma nova noiva virtual e afirma que não vê a hora de com ela casar na vida real!

A que ponto chegamos! Loucura por loucura, prefiro ficar falando com meus cachorros e com os passarinhos que fazem ninho praticamente dentro de minha casa. Pelo menos eles são reais.

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17/11/08

Uma nova espécie de chatos

Nelson Menda

Muito se escreveu sobre os chatos e suas diferentes modalidades de atuação, mas creio ter identificado uma nova espécie, que exerce sua nefanda atividade em lojas, supermercados e outros estabelecimentos comerciais.

Julgando ser a única vítima dessa forma específica de chatice, nunca havia comentado sobre o fato até que, há poucos dias, tomei coragem e troquei emails sobre o assunto com uma pessoa a quem estimo muito e, para minha surpresa, constatei que ela também havia passado por situações semelhantes e, para minha surpresa, em mais de um país e por mais de uma vez. Portanto, é bastante provável que os leitores do Blog também tenham vivenciado o que irei relatar.

Há muitos anos meu amigo e colega Adolfo Wasserstein, ainda ao tempo em que ambos morávamos em Santa Maria, RS, revelou uma didática classificação dos chatos elaborada por um intelectual seu conhecido. Segundo ele, os chatos poderiam ser divididos em duas categorias. A primeira, formada pelos discursadores, aqueles chatos que falam sem parar, não permitindo ao interlocutor a menor possibilidade de concordar ou discordar de seus pontos de vista. Nesse grupo poderíamos incluir a variante dos chatos que, para suprema infelicidade, costumam cuspir enquanto falam, o que torna seus intermináveis monólogos ainda mais perturbadores.

A segunda seria dos chatos perguntantes, bem mais desagradável do que a primeira, pois ficariam perturbando o interlocutor com indagações inteiramente fora de propósito. Alguns chatos desse segundo grupo teriam a agravante de associar, à cada pergunta, uma respectiva cutucada, agregando ao desconforto psíquico de suas incontáveis indagações uma perturbação física nada agradável. Ainda segundo o autor dessa sábia classificação, o menos chato dos chatos seria o pertencente ao grupo dos discursadores, pois permitiria à vítima, claro que depois de um certo treinamento, fingir estar interessada em sua interminável falação, deixando o pensamento voar livremente. Mas a variedade por mim descoberta - e faço questão de, como pioneiro na identificação e divulgação dessa nova espécie, dos merecidos louros - não pertence a nenhum dos grupos mencionados. Esses neo-chatos não falam, não cuspem, não perguntam e, sobretudo, não cutucam. Costumam agir em total silêncio, e essa é uma de suas principais características, mas sua ação consegue ser mais predatória e nociva do que a de seus colegas discursadore e perguntativos.

Tudo se passou no dia quatro deste mês de novembro, em que Barack Obama ganhou a eleição presidencial nos Estados Unidos. É preciso esclarecer que, ao contrário do Brasil, esse dia não é feriado nacional e, com exceção das escolas onde estão instaladas as secções eleitorais, tudo o mais funciona normalmente. Era a primeira vez que eu presenciava, in-loco, uma eleição nos Estados Unidos - e que eleição - com a agravante de não poder exercer o sagrado direito do voto. Não me dei por vencido e fiz questão de visitar, como prêmio consolação, um posto eleitoral e solicitar ao seu presidente uma explicação sobre o processo de votação. Ele, solícito, exibiu a cédula, física, de papel, enorme, do tamanho de uma página de um jornal tablóide. Naquela localidade cada eleitor teria de sufragar, entre candidatos à Presidência, Deputados e Senadores federais e locais, questões constitucionais estaduais e municipais, em um total de dez opções, a última das quais bastante prosaica, sobre a autorização à Prefeitura para alienar um determinado terreno.

Uma vez preenchida a imensa cédula, ela deveria ser introduzida em uma espécie de scanner e a votação concluída. Isso explicaria a demora do processo, comparada à simplicidade da nossa eficiente urna eletrônica verde-amarela. Saciada a curiosidade, decidi dedicar o restante do dia a uma das atividades, pelo menos para mim, bastante estressante, que é a aquisição de um par de calçados.

Adquirir sapatos, para mim, sempre foi um tormento. Primeiro, porque o tamanho dos meus pés corresponde a um meio-número, um quarenta e meio, inexistente no Brasil. Segundo, porque um dos meus pés é ligeiramente diferente do outro, o que me obriga a provar uma infinidade de modelos até encontrar, se tiver paciência e tempo, o que me agrade. Tenho de aproveitar, portanto, sempre que venho aos Estados Unidos, para adquirir sapatos. Neste país, além de oferecer os sonhados meios-números, as lojas especializadas apresentam uma outra vantagem, que é a de não possuir vendedores, categoria profissional especializada, desculpem a franqueza, em iludir os clientes. Se o sapato está folgado, eles afirmam que, com o tempo, irá encolher. Se, ao contrário, está apertado, asseguram exatamente o contrário, garantindo que, com o próprio uso, ele irá se expandir, como se isso fosse fisicamente possível.

Nas grande lojas de calçados norte-americanas o cliente tem inteira liberdade para examinar e provar os diferentes modelos expostos, sem nenhum vendedor para dar palpites nem a obrigação de adquiri-los. Ainda goza do inalienável direito de, mesmo depois de tê-los comprado e utilizado, mudar de idéia, devolvê-los à loja e receber, integralmente, seu dinheiro de volta. Todavia, só depois de algumas horas de busca é que consigo, quando tenho sorte, encontrar um par de calçados que alie à satisfação visual o indispensável conforto para os pés. Daí a vantagem do quatro de novembro, quando imaginei que a imensa loja estaria repleta de sapatos e vazia de clientes. E estava mesmo.

Fui direto para as prateleiras do tipo de calçado que procurava, na verdade um simples par de chinelos, e comecei a selecionar e provar, com calma, os diferentes modelos. Aí aconteceu o inesperado. Vindas do outro lado da loja, como que atraídas por algum ferormônio, duas senhoras de meia-idade se dirigiram à mesma prateleira onde estavam expostos os chinelos e sandálias correspondentes ao meu número. Começaram a remexer nos mesmos produtos que eu já havia experimentado ou pretendia fazê-lo. Pensei comigo mesmo: ora, os tamanhos e modelos de calçados masculinos e femininos são inteiramente diferentes e ninguém adquire sapatos sem experimentar. Portanto, essas duas chatas vieram aqui só para me azucrinar. Fiz de conta que elas não existiam, mudei de secção para ocupar o tempo e esperei que elas tivessem ido embora para retornar ao local onde poderia encontrar o que buscava. Foi nesse momento que me dei conta de que já havia passado por situação semelhante em outros estabelecimentos comerciais. E também lembrei que, observando atentamente o comportamento desses chatos de loja, eles não tem a menor intenção de adquirir qualquer mercadoria, pois costumavam sair dos estabelecimentos de mãos abanando.

Eles frequentam as lojas, talvez até sem se dar conta disso, com o único objetivo de encher a paciência dos verdadeiros clientes. Com sua atuação, além de interferir no ciclo natural de venda das mercadorias, prejudicam não só o consumidor real como o próprio estabelecimento, afetando um dos pilares básicos do capitalismo, que é a liberdade de compra. Comecei a me questionar, a partir dali, sobre a atitude correta a tomar em tais situações. Se devemos fingir que não é conosco e nos afastarmos para retornar depois que o chato ou a chata resolver atuar em outra freguesia ou simplesmente ir embora sem adquirir nada. Ou se devemos reagir, olhando feio para o(a) importunador(a) ou até mesmo enfrentá-lo(a) verbalmente. Confesso que ainda não decidi o que fazer na próxima vez que, a partir dessa importante descoberta e da existência de outros casos, tenho a certeza voltará a acontecer e gostaria de compartilhar minha indecisão com os demais leitores do Blog. Se já passaram por isso e qual, a seu ver, a melhor atitude a tomar nesses casos.

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David Nelson Menda, o autor do texto, é colaborador permanente do blog acumulando as funções de correspondente nos Estados Unidos.

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15/11/08

Olhar dominical - 12

       

                   

Sharbat Gula (1972) é uma mulher afegã da etnia Pashtu. Seu rosto ficou famoso na capa da revista norte-americana National Geographic. Gula perdeu os seus pais durante o bombardeio soviético do Afeganistão. Enquanto ela estava no campo de refugiados Nasir Bagh, no Paquistão, em 1984, ela foi fotografada pelo fotógrafo Steve McCurry. Gula, então com 12 anos de idade (foto da esquerda), era uma das estudantes em uma escola dentro do campo de refugiados. McCurry tirou a foto quando a encontrou sem burca - dada a rara oportunidade de fotografar o rosto de mulheres afegãs (a lei afegã obrigava as mulheres a usarem a burca).

Embora seu nome não fosse conhecido, sua foto, nomeada Afghan Girl (Menina afegã), apareceu na capa da revista National Geographic, edição de junho de 1985. A imagem de seu rosto, com um tecido enrolando sua cabeça, e seus olhos verdes olhando diretamente para a câmera fotográfica, tornou-se um símbolo do conflito entre afegãos e da situação dos refugiados por todo o mundo. A foto de Gula foi nomeada como a fotografia mais reconhecida na história da revista.

A identidade da menina afegã ficou desconhecida por mais de 15 anos, à medida que o Afeganistão continuava fechado para a imprensa ocidental, até a queda do taliban, em 2001. McCurry fez várias tentativas em localizar Gula, na década de 1990, mas sem sucesso.

Em janeiro de 2002, uma expedição da National Geographic viajou ao Afeganistão, com a missão de localizar Gula, a pessoa da famosa fotografia. McCurry, ao saber que o campo de refugiados Nasir Bagh estava para fechar, perguntou aos outros refugiados que ainda moravam no campo. Um deles conhecia o irmão de Gula, e conseguiu fornecer pistas da localização de Sharbat Gula.

A expedição finalmente encontrou Sharbat Gula, então, com 30 anos  de idade (foto da direita) , numa região remota do Afeganistão. Ela tinha voltado para o seu país de origem em 1992. A sua identidade foi confirmada, usando tecnologia biométrica. Os padrões da íris de Gula eram iguais aos da íris da mulher na fotografia. Ela lembrou-se vividamente de ter sido fotografada (por McCurry) - ela nunca havia sido fotografada, anterior ou posteriomente. No final da década de 90, Gula casou-se, e teve quatro filhas, uma delas morrendo quando bebé. Gula não tinha a menor idéia do impacto causado pela sua foto nas sociedades ocidentais.

A história de Sharbat Gula foi mostrada na edição de abril de 2002. Ela também foi o principal tema de um documentário de televisão, que foi ao ar em março de 2002. Em reconhecimento a Gula, a National Geographic criou um fundo de caridade, com o objetivo de beneficiar as mulheres afegãs.
Fonte: Wikipédia

Bom domingo!

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Proclamação da República

Davi Castiel Menda

 

A Proclamação da República Brasileira é o evento, na História do Brasil, que instaurou o regime republicano no país, derrubando a Monarquia. Ocorreu dia 15 de novembro de 1889 no Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, na praça da Aclamação (hoje Praça da República), quando um grupo de militares do Exército brasileiro, liderados pelo comandante marechal Deodoro da Fonseca, deu um golpe de estado e depôs o imperador D. Pedro II. Institui-se então a República, sendo nessa data que o jurista Rui Barbosa assinou o primeiro decreto do novo regime, instituindo um governo provisório. - Wikipédia

Eu imaginava que, pelo menos, todo e qualquer brasileiro alfabetizado soubesse que quem proclamou a República foi o Marechal Deodoro da Fonseca. Pois bem, hoje, logo após a meia noite, no programa “A NOITE AINDA É UMA CRIANÇA”, na TV Bandeirantes, o apresentador informou sobre o feriado e perguntou aos participantes se  sabiam o motivo – uns quarenta, entre pessoal das bandas, produtores, ajudantes, puxadores de fio, claque, etc.etc.etc. – e SOMENTE UM cameraman soube dar a resposta certa. Um, um entre mais de quarenta!!! Ao ser questionado como sabia aquela "dificílima" resposta, informou a todos que "lera num livro". Apesar da obviedade da resposta, ouviu-se um OHHHHH de admiração na platéia. E é esse o pessoal (por favor, exceto o cameraman) que vota pelos destinos da República…

 

                  

É por essa e por outras que os responsáveis pela Loteria da Paraíba,  numa das suas extrações, em 16.11.87, homenagaram o dia 15 de Novembro, como o Dia da Bandeira!!!

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14/11/08

I.N.R.I. - Notas de Rodapé

Davi Castiel Menda

Como era de se esperar, o interesse pelas colocações sobre Jesus (textos publicados em 12.11.08, logo aí abaixo) foi bem acima da média. Quase 300 acessos, tornando-se o segundo texto mais lido do blog (o primeiro, Livre Arbítrio, que com incríveis 6.800 acessos, acredito que jamais será ultrapassado). Além dos três comentários diretamente no blog, recebi vários e-mails, todos eles muito bem redigidos, com posições definidas, críticas fundamentadas, enfim, a recompensa que o autor de um blog deseja.

Gostaria de salientar que, respondendo à preocupação e crítica de alguns leitores - talvez pela rapidez e dinamismo na leitura do blog - o autor jamais duvidou da existência de Jesus, tendo apenas citado dois autores dos tantos que já escreveram sobre o tema. O objetivo real do texto foi procurar levar aos leitores o que nenhuma igreja põe em dúvida: o judaísmo de Jesus. Aliás, tema de um livro que estará sendo lançado neste mês de novembro, simultaneamente na Argentina e Espanha, de autoria do Dr. Mario Saban, de onde nos valemos para algumas citações no nosso blog.

Também interessantíssimas as opiniões expressas pelo José Francisco, Mário F. e do Sérgio Vasconcellos lá das Minas Gerais (que com esse completa o seu 74. comentário); por e-mail, do Paulo Castelani  e do grande moderador Nelson Menda, lá dos States, que foi a fonte de inspiração para este terceiro texto sobre o assunto.

O que pôde suscitar controvérsia nos dois artigos, isso sim, é o pensamento do autor com relação à suposta criação de Jesus do cristianismo. O judaísmo, a exemplo de tantas religiões, à época de Jesus tinha diversas ramificações: entre outras a dos fariseus, essênios, saduceus. Por volta do século II d.C., um grupo de Rabinos, tentando dar um pouco de esperança para a sofrida população judaica da época, criou e recriou alguns mitos, que poderiam ter proporcionado, aí sim, o nascimento do cristianismo, na verdade uma forma atenuada e popular do judaísmo da época.

Substituiram a circuncisão pelo batismo com água (bem menos doloroso para os pais e para a criança), o hebraico pelo latim e o ícone para representar essas mudanças foi a figura mítica de Jesus, lembrada insistentemente pela tradição oral. Rapidamente, o cristianismo, de um mero segmento do judaísmo, criou vida própria, mostrou sua força e os poderosos de Roma chegaram à conclusão que não adiantava lutar contra aquela onda avassaladora.

Ao invés de perseguir, torturar e jogar os cristãos às feras, Roma resolveu oficializar a nova religião, tendo a própria Roma como sede, o Imperador como sacerdote supremo e o latim, ao invés do hebraico ou grego, como idioma litúrgico. Nessa ocasião alguém se lembrou da crença judaica na vinda do Messias e da condição virginal de sua mãe. E foi exatamente por essa época que um Concílio (provavelmente o primeiro,) passou a considerar Jesus como o tão esperado Messias.

Tenha ou não existido, seja ou não o Messias, a partir do momento em que bilhões de pessoas em grande parte do mundo passam a acreditar em Jesus Cristo como o Filho de Deus, ele passa a ser um personagem real.

Um outro fato que pouca gente se dá conta é de que, com o advento do cristianismo, o Império Romano mostrou sua capacidade de adaptação e sobrevivência. Nós vivemos, queiramos ou não, sob a influência da Roma dos Césares. Em que idioma nos comunicamos, se não em um derivado do Latim? O que representam as milhões de igrejas cristãs pelo mundo se não as representações diplomáticas, algumas mais, outras menos, obedientes, ao poder central romano?

O grande erro da Igreja Católica, nesses vinte séculos de existência, foi a criação do mito de que os "Judeus mataram Jesus", que tanto sofrimento causou ao povo de Israel. Erro devidamente retificado por João XXIII, quando considerou os Judeus "nossos irmãos mais velhos". Hoje, felizmente, Judeus e Cristãos vivem em paz e harmonia, procurando respeitar tanto seus inúmeros pontos em comum quanto suas poucas, mas significativas, diferenças.

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12/11/08

I.N.R.I - Parte I

Davi Castiel Menda

“O homem primitivo, sentindo-se indefeso diante do mundo hostil que o rodeia e que desconhece, a tudo teme. Apavoram-no os fenômenos da natureza, tais como as tempestades, os trovões, os relâmpagos e tantos outros os quais julga serem a manifestação digna de um Ser Supremo, muito poderoso e desconhecido. Então, na sua impotência para controlar a natureza, e não encontrando explicações razoáveis para os acontecimentos, volta-se o nosso homem para aquele Ser Poderoso que imagina comandar o mundo. Submisso e suplicante implora-lhe perdão pelas faltas cometidas, simula preces e oferece-lhe sacrifícios. Com isso, supõe aplacar a ira dos deuses e ganhar-lhes sua benevolência para dias vindouros, Está, assim, lançada a semente da religião que no decorrer do tempo irá ganhando novas formas e sofrerá modificações, de acordo com o próprio homem, suas necessidades e aspirações.” - La Sagesse

Jesus - um dos personagens mais marcantes e polêmicos da história da humanidade; tão polêmico que alguns autores já escreveram incontáveis artigos e livros tentando provar que ele jamais teria existido. Um dos textos mais conhecidos sobre o tema é de autoria de La Sagesse que procura, através da citação de inúmeros documentos, das escrituras, dos evangelhos e suas incongruências, atestar que Jesus teria sido uma invenção da Igreja. Ele não usa de meias palavras e seu texto é um ataque a tudo e a todos: aos católicos, aos judeus, às Igrejas cristãs, enfim, a Deus. Ninguém escapa. Outro livro recente sobre o mesmo tema é do médico e escritor Emílio Bossi, ferrenho partidário da teoria da não existência de Jesus.

As principais fontes de informação sobre a vida de Jesus e seus ensinamentos são os evangelhos, especialmente os evangelhos sinóticos: Mateus, Marcos e Lucas. O papiro P52, escrito em grego e paleograficamente datado como tendo sido escrito por volta do ano 125 d.C., é atualmente reconhecido como o mais antigo documento sobre Jesus. Contém um fragmento de João 18:31-33 no recto (frente) e João 18:37-38 no verso. Essa distância de mais de um século entre o período em que Jesus viveu - teoricamente seu nascimento teria ocorrido entre os anos 3 a.C. a 1 d.C. – até o escrito do papiro, é que suscita duas grandes questões. Se Jesus era tão importante assim (a ponto de ter sido crucificado como “rei dos judeus”) e segundo as igrejas cristãs o fundador do cristianismo, por quê somente um século após a sua morte uma citação sobre ele? Teria Jesus realmente existido?

Particulamente, por tudo que li – e posso garantir que não foi pouco - e pelas intermináveis, polêmicas e agradabilíssimas conversas com teólogos, padres, pastores e rabinos sobre o assunto, acredito que Jesus realmente tenha existido. Acadêmicos bíblicos e historiadores aceitam a existência histórica de Jesus - portanto, ponto final sobre essa primeira dúvida. Descarto definitivamente a hipótese apresentada por La Sagesse, Emílio Bossi e tantos outros.

A segunda grande questão: a deidade de Jesus. Ao contrário dos textos sobre a não existência de Jesus, de raríssima aceitação entre as comunidades teológicas e científicas, que mais os leva para o lado folclórico, a cristandade/deidade de Jesus, esta sim é posta em dúvida, principalmente entre os judeus. Afinal, Jesus era judeu de nascimento, era um rabi (rabi = rabino, sacerdote do culto judaico - um dos inúmeros epítetos por quais era conhecido), morreu como judeu (quem não conhece a inscrição INRI, afixada nas centenas de milhões de crucifixos espalhados pelo mundo, cujo significado é Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum - Jesus Nazareno Rei dos Judeus - mesmo que colocada no topo da cruz de forma sarcástica pelos romanos), além de ter sido enterrado dentro das tradições e no rito judaico. Portanto, cabe a dúvida, teria sido mesmo Jesus o fundador do cristianismo? E se Jesus realmente era o filho de Deus – o principal argumento do cristianismo - como justificar que um Pai (no presente caso, Deus), principalmente o Senhor de tudo e de todos, pudesse admitir que seu filho morresse de forma tão cruel? A idéia de um sacrifício pela humanidade tão difundida pela Igreja contraria todos os princípios da paternidade.

No judaismo, a idéia de Jesus ser um Deus, ou mesmo parte de uma trindade, é considerada heresia. A religião judaica igualmente sustenta que Jesus não poderia ser o tão esperado Messias, sob o argumento que ele não teria cumprido as profecias messiânicas, principalmente no tocante à eliminação das guerras entre os homens. O Mishneh Torá, escrito por Maimônides, uma das obras mais importantes da lei judaica, afirma que a deificação de Jesus faz com que "a maioria do mundo erre para servir a uma divindade além de Deus". Alguns movimentos modernos, messiânicos-reformistas, tentam conciliar o cristianismo atual às tradições judaicas, criando uma confusão sem limites entre seus seguidores. O judaísmo conservador jamais aceitará entre o seu seio esses reformistas sob a alegação de que alguém que afirma que Jesus é seu salvador já não é um judeu (ou nunca foi), e sim um apóstata.

É interessente também analisar o pensamento do islamismo com relação a Jesus. Ele é conhecido, em árabe, como Isa ibn Maryam - Jesus, filho de Maria - e é um dos principais Profetas do Islã. Ao contrário do cristianismo e seguindo idêntica orientação judaica, não é considerado um ser divino. O Alcorão rejeita a trindade e se refere a Jesus como “Verbo de Deus”, mas não o filho dele.

- continua  -

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I.N.R.I. - Parte II

Davi Castiel Menda

Na primeira parte deste ensaio afirmamos que Jesus era um rabino, fato histórico, inegável e reconhecido por todas as religiões. Considerando que o rabinato na época pertencia ao movimento fariseu, por asserção pode-se afirmar que Jesus era um fariseu. O leitor pode ficar assombrado com esta afirmação pois o cristianismo perpetrou através dos tempos uma visão estereotipada dos “perushim” (a origem do nome fariseu seria o latim – pharisaeus – que por sua vez deriva do grego antigo e assentado no hebraico como “prushim”, que basicamente significa separar, afastar; portanto, os perushim eram aqueles que se afastavam da população comum para o estudo da Torá e suas tradições - não eram ascetas, pois consideravam importante estar junto à população quando não estavam no seu retiro, para o ensino das escrituras e tradições), como adversários de Jesus, que atacou seu orgulho e sua avareza.

Um dos ensinamentos atribuídos a Jesus seria um dos marcos do socialismo e comunismo atuais: os bens dos ricos deveriam ser distribuídos ou repartidos entre os pobres da comunidade. Na verdade, a idéia não era nova – ela já era defendida pelo movimento essênio, uma das seitas judaicas que durou aproximadamente trezentos anos (século II a.C. até século I d.C.), um grupo fechadíssimo, coeso e de vida ascética. Portanto, o perfil de Jesus vai se desenhando: de nascimento judeu, rabino, fariseu, com idéias essênicas.

Jesus prega entre o povo que o Reino de Deus está próximo – interprete-se como a chegada da Era Messiânica. Deve-se ressaltar que a religião judaica sempre afirmou que essa Era só chegará (o verbo “chegar” está propositadamente conjugado no Futuro para que não pairem dúvidas sobre o pensamento do autor) no dia em que se cumpra a profecia de Isaias que “nenhuma nação levantará a espada contra outra nação”, a existência da justiça absoluta, o fim da pobreza, a não mais existência da morte física. Jamais, não só nos tempos de Jesus, mas nos últimos vinte e um séculos a humanidade conseguiu por em prática pelo menos um ítem da profecia material, já que a profecia do fim da morte física depende exclusivamente da vontade divina. Portanto, Jesus não seria o tão esperado Messias.

Abro um parêntese para citar uma afirmação pouco conhecida, mesmo entre os seguidores da fé judaica, do Rabino Ovadia de Bartenura, que viveu na era medieval: em cada geração existe um judeu que é potencialmente o Messias. Sendo assim, hoje, presentemente, temos um Messias vivendo entre nós, quem sabe até no nosso país, na nossa cidade, na nossa comunidade. Mas, como os requisitos vaticinados pelo profeta Isaias não são cumpridos, não se produz a Era Messiânica, e o Messias não se dá a conhecer (se é que ele sabe da sua condição).

Na verdade, temos uma situação kafkiana, muito bem explorada e resolvida pelo filósofo judeu alemão Martin Buber (Franz Kafka e Buber foram contemporâneos, mas provavelmente nem se conheceram) que afirmou que a Era Messiânica pode ser produzida mesmo sem o Messias. A Era é mais importante que a figura do Messias e o seu anunciador poderia ser inclusive o próprio Deus, sem intermediários. Ou até, quem sabe, a nova vinda de Jesus, como prega o cristianismo.

Não tiro os méritos de Jesus como pregador, e provavelmente tinha todos os atributos para ser o Messias, o mesmo ocorrendo com os milhares de rabinos que viveram ao longo destes últimos vinte séculos e que nos legaram ensinamentos fantásticos. Lamentavelmente, a Era Messiânica não se produziu e a cada dia que passa fica essa predição mais difícil de acontecer. Um homem sozinho dificilmente poderá criar as condições profetizadas por Isaias, e não seria utópico imaginar que somente a natureza, quando exaurida de todas as suas reservas, possa ser “a tão esperada” Messias. Fecha parêntese.

Apesar do parêntese fechado, o assunto não fica esgotado e voltamos a questionar a hipotética volta de Jesus, tão apregoada pelo cristianismo. Admitindo a ocorrência desta hipótese, e lembrando o histórico de Jesus, judeu de nascimento, rabi, pregador na sinagoga, a morte como “rei dos judeus”, enterrado no rito judaico, onde podemos imaginar que ele surgiria? Na condição de judeu, Jesus procuraria por uma sinagoga e não uma Igreja! Que me perdoem os teólogos cristãos, mas devem lembrar que Jesus viveu no século I e os primeiros escritos sobre o cristianismo datam mais de 100 anos após, em pleno século II! E tentar lembrar a pérfida acusação de que os judeus mataram Jesus, é desconhecer a história e a crueldade atribuída a Pilatos, um governante egocêntrico e tirano que matava judeus quase que diariamente, na tentativa de manter a Palestina, sob o jugo romano, plenamente dominada.

Ao morrer na cruz, atribue-se a Jesus as palavras: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste”? Indubitavelmente, Jesus, na condição de judeu e rabino, jamais poderia se sentir o próprio Deus e portanto rezava e apelava a Deus realmente e não a ele próprio! (E mesmo que tivesse dito, segundo alguns historiadores, “Meu Pai, por que me abandonaste”? – lembro do Salmo 82:6 que reza que todos somos filhos de Deus, e Jesus tinha plena consciência disso). Jesus jamais pensou numa Trindade e ao encerrar esse ensaio, cito um importante descobrimento ocorrido em 1966 pelo professor Shelomo Pines, a respeito de um manuscrito do Novo Testamento atribuído a Mateus (capítulo 28). Nele Jesus teria dito que seus seguidores deveriam batizar a todos os povos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Na verdade, tal procedimento foi decidido somente no ano 325, quase 300 anos após a morte de Jesus, no Concílio de Nicea …

criado por projetosnumericos    6:03 — Arquivado em: Ensaio

11/11/08

Jogos de Sorte ou Azar?

Davi Castiel Menda

                                                                    

"Há duas ocasiões na vida em que uma pessoa não deve jogar: a primeira, quando não tiver posses para isso; a segunda, quando tiver". - MarkTwain

 

Poucos devem lembrar do fatídico 30 de abril de 1946, quando o Marechal Dutra, pressionado pela carolice de sua mulher e matreirice do seu ministro da Justiça, puseram o jogo na ilegalidade, fechando os cassinos existentes no país. Teriam sido estes realmente os motivos?

Voltemos no tempo: se não fossem os Cassinos da Urca, do Copacabana Palace e do Quitandinha, o Rio não se tornaria a praia mais cosmopolita do planeta à época, parte de um circuito milionário de entretenimento e badalação, formado pelo triângulo Rio – Buenos Aires - Havana. Inexplicavelmente, coincidentemente, lamentavelmente, este negócio milionário e ponta de lança do turismo internacional foi proibido quase que simultaneamente nestas três cidades (e em todo o Brasil). Não por acaso, neste mesmo ano de 1946, foi inaugurado o primeiro grande cassino em Las Vegas, cidade que, a partir deste marco, foi se expandindo cada vez mais e mais. Coincidência? Sempre me questiono se os governantes que sistematicamente sempre se posicionaram contra a abertura do jogo no país são sabedores desta ocorrência pouco conhecida historicamente e de flagrante subserviência latina aos interesses americanos.

Recentemente assistimos ao fechamento de todos os bingos do país e a proibição de máquinas caça-níqueis. Não entro no mérito dos motivos do governo, ou de possíveis fraudes, lavagens de dinheiro ou softwares adulterados - refiro-me a jogos honestos e empresários do jogo honestos. Normalmente, jogos envolvendo dinheiro são de azar, todos eles retirando um percentual - uns mais, outros menos - sobre o montante apostado, valor que a banca usa para pagar seus custos. E a Mega-sena e outros jogos similares, cujo desconto é superior a 70% são ou não são jogos de azar? A explicação de que são explorados pelo governo não os isenta deste rótulo! Há uma lei (pelo menos havia) que proibe a exploração de qualquer aposta em que esteja envolvido o esforço humano; e a loteria esportiva, como fica? São 22 jogadores, além de técnicos, juizes e bandeirinhas. É ou não é esforço humano?

 

Longe de mim desejar o fechamento das loterias - pelo contrário. O homem sempre foi e sempre será um jogador em potencial, a competição da vida assim o exige. Desde o dia em que soldados romanos rodaram seus escudos circulares apostando no ponto de parada, estava plantada a semente dos futuros cassinos. Na Idade Média surgiram as estampas de naipes (cartas) e o jogo com elas. Decretos nunca acabarão com o jogo, ele é inato no homem. Não posso concordar, que numa sociedade cada mais globalizada, em países altamente civilizados, o jogo é legal, permitido, e os governos lucram com este fato; e em outros (no caso específico do Brasil), o jogo só é tolerado se administrado de forma monopolizadora pelo próprio governo. Esta insistência demagógica em não liberá-lo tem nos custado caro, pois o governo abdicou de faturar no último meio século alguns bilhões de dólares em impostos.

Joga quem quer. Se mesmo avisados de que vão contrair câncer fumando, fumantes fumam, qual o motivo de alguém não poder dispor de seu dinheiro como bem lhe aprouver?

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