27/11/08
Thanksgiving
Nelson Menda
O Thanksgiving, ou Dia de Ação de Graças, é celebrado nos Estados Unidos na quarta quinta-feira de novembro, que este ano cai no dia 27. Rememora uma solenidade realizada, pela primeira vez, em 1621 na localidade de Plimouth, atual Estado de Massachusetts. Naquela ocasião, um grupo de colonos ingleses comemorou a primeira colheita um ano após ter chegado ao Novo Mundo. Tinha sido um período particularmente difícil para os pioneiros, pois metade do grupo original não conseguiu sobreviver aos rigores do inverno, às doenças e à fome, pela própria dificuldade em produzir alimentos no novo país.
Quem ajudou os chamados pilgrim-fathers, ou pais-peregrinos, foi uma tribo indígena local, que ensinou aos recém-chegados os segredos da pesca, o cultivo do milho e a maneira de abater e preparar uma espalhafatosa ave nativa, até então desconhecida dos europeus, o peru. Os colonos convidaram os índios para uma cerimônia conjunta de gratidão a Deus, dando origem, a partir dessa ocasião, ao Dia de Ação de Graças, que vem sendo comemorado, desde então, nos Estados Unidos. É a única ocasião em que todo o comércio, mas todo mesmo, fecha as portas, para reabrir no dia seguinte com uma tradicional e concorrida liquidação de queima de estoques.
No Thanksgiving as pessoas se reúnem ao redor de uma farta mesa e depois das orações de agradecimento saboreiam pratos especialmente preparados para a festividade, com destaque para o peru assado ou recheado acompanhado por um molho agridoce de cranberry, uma espécie de uva nativa, purê de batatas com caldo de carne que os americanos chamam de gravy e o tradicional pumpkin-pie, um pastelão de abóbora.
Pouca gente sabe, mas há exatos sessenta e um anos uma comemoração de Thanksgiving ajudou a mudar a face do mundo. Foi durante a Primeira Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque, sob a Presidência do brasileiro Oswaldo Aranha. Corria o ano de 1947 e as cinzas da Segunda Guerra ainda fumegavam no ar. A então Palestina, sob Mandato Britânico desde a derrocada do Império Otomano na guerra de 14 -18, havia servido de refúgio para milhares de judeus sobreviventes do Holocausto, que vieram se juntar aos seus irmãos que habitavam a Terra Santa desde os tempos bíblicos. Ao lado dos judeus, a Palestina abrigava também uma população árabe constituída por cristãos e muçulmanos. Era preciso, além de criar dois países, um para os judeus e outro para os árabes, delimitar suas fronteiras. Londres entregou a delicada questão, uma autêntica batata-quente inglesa, para o plenário da recém criada organização decidir.
Aranha era o homem certo para essa difícil missão. Enviou uma delegação da ONU para examinar in-loco a situação da região. A delegação retornou do Oriente Médio com uma proposta concreta de Partilha da Palestina, que deveria ser discutida, votada e aprovada por 2/3 do plenário. Como seria de se esperar, os debates foram acalorados e não fosse a enorme experiência parlamentar de Oswaldo Aranha teria sido muito difícil chegar a um consenso. O primeiro dia de discussões coincidiu com a véspera de Thanksgiving e ainda havia muito o que deliberar. Aranha tinha sido Embaixador do Brasil nos Estados Unidos e sabia da importância do Dia de Ação de Graças para os norte-americanos.
Em respeito aos funcionários americanos da ONU, suspendeu os trabalhos por um dia, para que todos pudessem comemorar o Thanksgiving em casa, com suas famílias. Para os diplomatas estrangeiros, porém, foi um dia de intensas negociações, que permitiram a formação de um consenso sobre a necessidade de aprovação do parecer do comitê que havia estado no Oriente Médio. No dia seguinte, um histórico 29 de novembro de 1947, a Assembléia Geral da ONU discutiu, votou e aprovou pela ampla maioria de 2/3 dos votos a Partilha da Palestina, criando condições, no ano seguinte, para a criação do Estado de Israel.
Se a decisão da ONU após aquele memorável Dia de Ação de Graças tivesse sido acatada em sua plenitude, certamente o Oriente Médio estaria vivendo hoje uma fase bem mais tranquila. Quem sabe neste Thanksgiving de 2008, com um novo mandatário às vésperas de tomar posse no governo dos Estados Unidos e com eleições à vista também em Israel e na Autoridade Palestina, ao invés do peru, um animal ruidoso e desajeitado, uma outra ave, dessa feita uma elegante pomba, venha simbolizar o acatamento da sábia decisão da Assembléia Geral da ONU de novembro de 1947.
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Comentário por Davi Castiel Menda — 27 27UTC novembro 27UTC 2008 @ 7:07
Já que o Nelson “invade” o meu blog com habitualidade, me sinto no direito de “meter minha colher” no assunto, com dados interessantes sobre o Thanksgiving.
A idéia de transformar o “Dia de Ação de Graças” em acontecimento unversal nasceu de um brasileiro, Joaquim Nabuco, quando Embaixador do Brasil em Washington.
Em 1909, ao final da primeira Missa Pan-Americana, que celebrava o “Dia de Ação de Graças”, o Embaixador brasileiro formulou publicamente o seguinte voto: “Eu quisera que toda a humanidade se unisse, no mesmo dia, para um agradecimento universal a Deus”.
No Brasil, o “Dia Nacional de Ação de Graças” foi instituÃdo em 17 de agosto de 1949, pelo presidente Eurico Gaspar Dutra. Mas o curioso é que o Thanksgiving, que muitos leitores podem imaginar que seja uma festa tipicamente americana, é também lembrada aqui no Brasil, inspirada na declaração de Joaquim Nabuco, através da Lei nº 5.110, de 22 de setembro de 1966: essa lei determina que o “Dia Nacional de Ação de Graças” seja comemorado na 4ª quinta-feira do mês de novembro.
Portanto, Nelson, nosso brihante correspondente nos Estados Unidos - Happy Thanksgiving Day! pra você e Feliz Dia de Ação de Graças aos brasileiros.
Comentário por Nelson Menda — 27 27UTC novembro 27UTC 2008 @ 13:06
Davi. Nem sempre “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, como afirmou, certamente em um momento de pouca inspiração, o finado polÃtico baiano Juracy Magalhães. Posso estar enganado, mas acho que o “Dia de Ação de Graças” brasileiro é uma dessas leis que “não pegaram”. Não lembro de ter assistido a alguma comemoração relativa à data no nosso paÃs nem de ter presenciado ou participado de alguma ceia festiva no Dia de Ação de Graças. Mesmo porque não faria sentido comemorarmos uma efeméride tipicamente norte-americana, em que os pratos servidos (torta de abóbora, peru com cranberry e purê de batatas com gravy) além da dificuldade em encontrar os ingredientes necessários à sua preparação, certamente não agradariam ao paladar brasileiro. Além de ter fechado os cassinos e queimado nossas reservas com a importação de chicletes, carros rabos-de-peixe e bambolê, podemos creditar mais essa esquisitice ao ex-Presidente Dutra.
Comentário por Susana Menda — 28 28UTC novembro 28UTC 2008 @ 1:43
Participa os de um brunch de Thanksgiving aqui em Little Rock, convidados por uma familia americana . havia um peru feito pelo anfitriao, dr. Steve Kahler e esposa, a Pam . O jantar, feito pelo dono da casa esteve perfeito , o peru que muitas vezes e seco, estava no ponto , recheado com miudos e um arroz . Havia o pure de batas doce , a qual ele pos pecans , acucar queimado e manteiga , uma delicia , o gravy , o molho p/ o peru, um doce de cranberries e o pumpkin pie , tudo no figurino.
havia me faltado a historia do Thanksgiving, mas agora gracas ao Nelson Menda, casualmente meu irmao, ja sei do que estamos falando.
Aqui em Little Rock um dia calmissimo, pouca gente transitando e a TV mostrando o povo ja na fila p/ a grande liquidacao do Black Friday ( agora sao 1O,3O P.M.).
A temperatura, como no inverno de Poa, uns 8o C .
Comentário por Sergio — 28 28UTC novembro 28UTC 2008 @ 8:01
Senhores, Davi, Nelson e Sra. Suzana.
Pela descrição do cardápio que a Sra. faz, Dna. Suzana, eu, que não entendo inglês, deduzi que Thanksgiving deve querer dizer “O dia em que eu quebrei a minha dieta - novamente” Claro!
Abraços a todos.
Comentário por Cecilia — 28 28UTC novembro 28UTC 2008 @ 22:03
Gentem!
Vocês sabem como se traduz cranberry ao portugês?
Oxicoco!!!!
Cecilia (no Rio: “Brumas no ar, no céu, no pensamento”).
Comentário por Sergio — 28 28UTC novembro 28UTC 2008 @ 23:26
Davi, Nelson, Suzana, CecÃlia.
Hoje, fui à reza de uma novena, na casa de vizinhos; ela descendente de italianos (muita massa) e ele de espanhóis(boa comida) . Rezamos pela aproximação do Natal e as orações eram direcionadas contra os excessos de comida do Natal. A gula.
Depois da cerimônia foi-nos servido lauto lanche.
Resultado: saÃmos todos, com mais pecados do que quando entramos.
O pior, amanhã, haverá mais orações em outra casa vizinha. Ela Belgo-Mineira(cerveja), ele mineiro mesmo(comida mineira). Temo, que amanhã, haja cometimentos em excesso. Vou explicitar o “menu” de hoje:
Beringela recheada, empadão de frango, pizza feita em casa, bolo de coco (quindão), brigadeiro e mais algumas coisas. Para beber, água. Parece desrespeito, mas não é - foi o que realmente aconteceu.
E, novena …
Comentário por Nelson — 29 29UTC novembro 29UTC 2008 @ 15:50
Sergio e Cecilia. Sensacional organizar um regabofe para combater o pecado da gula. Quanto à berinjela recheada, me faz lembrar uma canção em ladino, “Komida de Merendjena”, que ensina a preparar esse nutritivo vegetal de sete maneiras diferentes. Uma delas, “La Dolmá”, recheada com arroz e carne, exatamente como fazia minha avó paterna. Quanto à tradução de cranberry enviada pela Cecilia, o meu mini-Aurélio fornece uma outra, “uva do monte”, que pode dar a falsa impressão de se tratar de uma fruta proveniente da Serra Gaúcha. Além de poder ser saboreado ao vivo e em conservas, o cranberry também tem uso medicinal, pois ao acidificar a urina é um bom coadjuvante na prevenção e tratamento das cistites.
Comentário por Cecilia — 29 29UTC novembro 29UTC 2008 @ 21:25
Sim, Nelson, eu também conheço essa tradução,”uva-do-monte”. Sempre me perguntei que monte seria esse. Quanto à “Komida de berendjena” (ou meredjena), em geral, cantam-se sete coplas, mas no total são 36. Já imaginou? Trinta e seis maneiras de preparar a berinjela!
Gosto muito é do refrão, com o trocadilho do “vino” = vinho e “vino” = veio, no caso da canção “lhe caiu bem”.
“A mi tio Cherasi ke le agrada bever vino,
Kon el vino vino vino, muncho bien a él le vino”.
Abraços, com chuva.
Cecilia.
Comentário por Nelson — 30 30UTC novembro 30UTC 2008 @ 14:52
Cecilia. Ontem, finalmente, conheci a tal cranberry ao vivo. Não tem nenhuma semelhança com a uva. Parece um “coquinho”, que no Rio Grande do Sul chamamos de butiá e, no Rio, de sirigüela. A forma é alongada, tem a casca durinha, a cor é alaranjada e tem o mesmo tamanho de uma dessas frutinhas mencionadas, ao redor de 2cm de comprimento. Não provei, pois para fazê-lo teria de adquirir uma caixinha inteira e preferi trazer para casa uma outra frutinha da mesma famÃlia, a blackberry, nossa popular amora. Estavam deliciosas, maduras e docinhas e me fizeram recordar as amoreiras da Praia da Alegria, à s margens do GuaÃba, onde passei muitas férias na “minha infância querida que os anos não trazem mais”. Posso estar enganado mas, pelo jeitão, acho que as cranberrys devem ser azedas. Nelson
Comentário por Sergio — 30 30UTC novembro 30UTC 2008 @ 22:06
Srs. Davi e Nelson, Sra. CecÃlia.
Esse cranberry causou intensa confusão não?
É do monte, não é, é côco ou é uva. ….
Com nomes ou frutas estrangeiras, a que me complicava era a grapefruit. Toda dieta importada, ou copiada de estrangeiros, trazia a indicação, de uma grape fruit no café da manhã. Hoje deve ser fácil achá-la em grandes cidades, mas, antigamente, eu não achava.
Um dia decretei a mim mesmo: toda dieta que incluir a tal grapefruit estará descartada. Problema resolvido.
Nelson e CecÃlia, vejam só, que a simples, porém vistosa beringela, gerou recordações, canções, boas lembranças.
Enfim, se gerou alegrias, fiquei satisfeito.
E você Davi? o grande vegetariano , não diz mais nada, a respeito dessa comilança toda?