Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

26/11/08

A Polêmica das Cotas

Davi Castiel Menda

Reza o inciso IV do artigo 3º da Constituição Federal que:
"Art. 3º - Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
IV — promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação".

Em minha vida já sofri toda espécie de discriminação e empresto toda a minha solidariedade e apoio às minorias que sofrem este tipo de crime. Sei que dói, dói muito, é humilhante. Fui discriminado por motivos religiosos, por não ser alto, por não ser rico, por não ter curso superior. No momento atual brasileiro, a discriminação da vez é a da cultura. Quem acompanha a história universal deve lembrar da polêmica revolução cultural empreendida por Mao Tse-Tung com o apoio de sua esposa Jiang Qing, em que milhões de chineses foram ridicularizados, apedrejados, torturados, mortos, pelo simples motivo de serem professores, escritores, artistas, enfim: cultos.

Laurence Peter e Raymond Hull, escritores ingleses, lançaram no ano de 1969 um primor de obra que deveria ser o livro de cabeceira de qualquer pessoa que um dia pretenda trabalhar (ou seja, a humanidade em geral, exceto o príncipe Charles, herdeiro eterno do trono inglês): Todo Mundo é Incompetente – Inclusive Você (The Peter Principle). O livro é extremamente agradável e recomendo lê-lo inúmeras vezes pela forma satírica e irônica, sutileza, ambigüidade e criatividade com que os autores abordam a incompetência nas empresas privadas, nas obras públicas, na política, na arte, nos esportes, enfim, em todos e nos mais remotos campos da atividade humana.

Um dos capítulos mais interessantes e diretamente ligado ao nosso tema é o da Esfoliação Hierarquial, onde além de inventivas explicações, é apresentada uma curva representando os vários tipos de hierarquias, partindo daquela que é inferior a tudo o mais – o sujeito superincompetente – passando pelo incompetente, moderadamente competente, competente e finalmente, lá no topo, o supercompetente. Segundo os autores, a supercompetência, em muitos casos, é ainda “mais condenável” que a incompetência. A explicação do paradoxo é que estes sofrem as piores discriminações, seja por medo ou inveja de chefetes receosos de perder sua posição na escala hierárquica, seja por ter sua autoridade colocada em xeque por alguém com um intelecto superior.

Hoje, no Brasil, num contra caminho da igualdade e em nome de um protecionismo/paternalismo que beira as raias da idiotia, tenta-se implantar um sistema de cotas nas universidades que é totalmente contrário ao inciso IV do art. 3º da Lei Suprema, descrita bem no início do texto. Aliás, atitude muito semelhante aos recém falidos sistemas socialistas e seus hábitos nefastos, onde para tudo havia cotas, inclusive alimentação e educação. Russos e cubanos que o digam!

A criação de cotas, além de provocar um estremecimento racial fantasmagoricamente ressuscitado, na teoria e na prática atendem somente às conveniências individuais (filosoficamente falando, é o fim em si), sendo puramente demagógico, discriminando o ser culto, o discípulo competente, o jovem que estudou, enfim - o que sabe (não interessa se aprendeu em colégio pago ou público, se em casa, se é rico, pobre ou remediado ou até se nasceu sabendo).

Se esse estudante residir no Brasil e, apesar da sapiência, pertencer à raça branca, e um índio ou afrodescendente a ele se igualar em notas num vestibular, o branco será preterido e ficará marcando passo. Esse procedimento se encaixa claramente no conceito de racismo, ou seja, a tendência ou modo de pensar em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas.

Quem acompanha o atletismo mundial, sabe que nos dias de hoje, a proporção de atletas entre os 20 melhores do mundo está assim distribuída aproximadamente: 12% são europeus, 85% de africanos; os demais totalizam 3%. Dentre os 85% de africanos, 56% são de quenianos, que tomaram conta da mais comentada e célebre prova brasileira: a São Silvestre. O leitor já imaginou se, por um decreto, o governo implantasse cotas: os atletas brancos teriam direito a vencer em 50% das vezes? Na hipótese bastante provável de um queniano vencer em 2008, pela nova regulamentação, esse seria desclassificado, subindo ao pódio um atleta branco. Haveria um clamor mundial, o país sofreria sanções e seguramente seria pedida a eliminação pura e simples do Brasil do Comitê Olímpico Internacional, além de outras represálias presumíveis. Você que me lê: mas não é exatamente o que está acontecendo na implantação de cotas nas universidades?

Segundo Ives Gandra da Silva (renomado professor emérito das universidades Mackenzie e UNIFMU e da Escola de Comando e Estado do Exército e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo), “em igualdade de condições, o branco está sendo considerado um cidadão inferior e discriminado, cada vez com menos espaço, nesta terra de castas e privilégios, apesar da Lei Maior.”

O governo, com raras exceções, é formado por políticos medíocres, sem líderes de projeção e com pouquíssima representatividade, preocupados exclusivamente com a eternização no poder, o apadrinhamento, a maracutaia, o mensalão, o empreguismo e o nepotismo. Com a implantação do sistema de cotas nas universidades, aparentemente tentam adotar como princípio constitucional a mediocridade como cavalo de batalha. É a isonomia da falta de inteligência, da falta de competência, da parvoíce, da asnice, da estupidez, da burriquice.

A mim não me importa se meu médico, meu advogado ou político em quem votei, seja afro, mulato, índio, branco, homossexual, peruano, mulher, chinês, verde ou o que quer que seja; mas exijo que sejam os mais competentes, os mais cultos, os mais sábios, os mais estudiosos, os mais inteligentes, enfim, os melhores, pois em suma, minha saúde, minha vida e meu futuro, da minha família e de toda a população brasileira, depende deles num futuro próximo.

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Posfácio:
“Escrever com ironia é um pouco como escrever em código: a comunicação só funciona se na outra ponta houver um decodificador. Quem se mete a escrever irônica ou satiricamente precisa saber que nem todos têm o decodificador. Não se trata de o leitor ser mais ou menos perspicaz. Ele às vezes simplesmente não tem a informação que o emissor pressupõe que ele tem, ou não tem tempo nem saco para ficar decifrando mensagens crípticas que querem dizer o contrário e só recebe ruído.” – Luiz Fernando Veríssimo

criado por projetosnumericos    4:24 — Arquivado em: Crônica

1 Comentário »

  1. Comentário por Mari Menda — 26 26UTC novembro 26UTC 2008 @ 11:46

    Davi,
    Adorei o texto. Só gostaria de lembrar que além de populista, demagógico, cínico, incompetente e corrupto, o governo liderado por Nosso Guia fez a proeza de ampliar a ignorância: no momento em que a nova mudança ortográfica entrar em vigor, ninguém mais vai saber escrever! E fica todo mundo igual a ele!
    Viva o Brasil!

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