Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

22/11/08

Prêmios malditos - Parte II

Davi Castiel Menda

Neste segundo artigo, por ser um sábado, fim de semana, vamos procurar tratar do tema de uma maneira mais light. Nos primórdios da Loteria Esportiva, lá pela década de 60, os volantes eram nominais, obrigando o apostador a preencher o nome em cada volante apostado. Ao longo do tempo, essa regulamentação caiu por terra; entretanto, pela inexperiência de uns, ou criatividade exagerada de outros, ficaram agregadas ao folclore da Loteca situações tragicômicas e surrealistas. Antes de iniciar a leitura lembre-se de que naquela época eram 13 jogos (hoje são 14). Os relatos abaixo são genuinamente verídicos.

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Certo apostador sonhou com sua mãe, falecida recentemente, indicando-lhe no sonho, com a mais absoluta precisão, quais seriam os treze ganhadores na Loteria Esportiva. Excitadíssimo com a possibilidade de equilibrar-se financeiramente, marcou um volantezinho e, em homenagem à falecida, subscreveu seu nome no volante. Aguardou com impaciência a chegada do final de semana e, sábado e domingo acompanhou com o maior interesse os jogos pelas emissoras de rádio. Coincidência ou não, acertou todos os jogos!

Teve que dividir o prêmio com seus quatro irmãos já que o cartão premiado, no nome da mãe (falecida), entrou em inventário, com inteira justiça.

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O padre de certa paróquia do interior, fanático por futebol e assíduo na Loteria, arriscava semanalmente um cartãozinho, sempre pensando em aumentar os recursos financeiros da sua igreja. Para não ficar mal com os fiéis e rotulado como jogador, sempre preenchia o volante em nome do sacristão, sem que esse soubesse.

Certo dia não deu outra: treze pontos! Feliz da vida, comunicou o fato ao sacristão que se mostrou surpreso pelo uso indevido do seu nome, exigindo como compensação, para receber o prêmio, uma comissão de dez por cento. O padre, indignado, alegando que o prêmio seria integralmente revertido para os pobres, ofendeu o sacristão, chamando-o de ladrão e outros epítetos censuráveis. Estava criado o impasse: um tinha o cartão - o padre - mas em nome de outrem – o sacristão.

A essas alturas, toda a população da cidadezinha já tomara conhecimento dos mínimos detalhes do imbróglio, tendo sido criada uma comissão, entre os paroquianos com o objetivo de convencer o sacristão a abrir mão da percentagem exigida. Esse, furioso por ter sido ofendido pelo padre, afirmou que, para receber o prêmio, o valor tinha sido reajustado para vinte por cento! O padre, mais indignado, possesso, chamou de ladrão por inúmeras vezes o sacristão. E esse cada vez mais furioso pelas ofensas.

Para encurtar a história, depois de idas e vindas, ultrajes, injúrias e afrontas, finalmente o prêmio foi cobrado, cabendo 50% para os pobres da paróquia e 50% para o “ofendido” sacristão, pelos irreversíveis danos morais sofridos, e uso indevido do seu nome.

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Um colega meu de empresa, leigo de carteirinha em matéria de futebol e incapaz de apostar um centavo, era assediado semanalmente por vizinho de rua, tentando convencê-lo a apostar na Loteria Esportiva. Tanto insistiu que, o meu colega, certa semana, cedeu e milagre dos milagres: acertou (ou acertaram?) os treze pontos; e o melhor, por terem ocorrido algumas “zebras”, o teste (naquele tempo não era concurso, era teste mesmo) encontrou apenas três ganhadores, rateando um prêmio compensador, algo assim em torno de 300 mil dólares.

Encerrados os jogos, lá pelas seis ou sete da tarde, tudo era festa, comemoração, caipirinha, tapinha nas costas, e nada do vizinho-sócio (o dos palpites, já que quem “bancou” integralmente o valor da aposta foi o meu colega) ir embora. Pela meia-noite conseguiram despachá-lo.

E não é que na manhã seguinte, nem bem o dia tinha raiado, e o “dono dos palpites” bateu na casa do ganhador, acompanhado de um advogado, com um documento datilografado (sou do tempo da máquina de escrever) dividindo o prêmio, destinando 50% a cada um. O meu colega, previsivelmente, deu um “corridão” nos dois e o assunto foi o tema dominante por várias semanas na cidadezinha de São Leopoldo, Rio Grande do Sul.

Após a intervenção de amigos comuns – e até da imprensa – o meu colega (que jura que daria a metade ao palpiteiro, não fosse o episódio do advogado), após ter a capota do seu carro conversível totalmente danificada por quimbas de cigarro, concordou em ceder 20% do prêmio ao vizinho palpiteiro.

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Os três casos acima envolveram jogadores bissextos, sem a menor experiência lúdica. Tragédia maior aconteceu com um apostador que se considerava um verdadeiro profissional e mais, com fama de malandro. Seu casamento, estando por um fio, inclusive com data marcada para a separação definitiva, e com receio de acertar na Esportiva e ter que dividir o prêmio com a esposa preenchia invariavelmente os volantes apostados em nome da amante.

O final é previsível: acertou os treze pontos e, para gáudio das leitoras, ficou sem a mulher, sem a amante, e sem o dinheiro do prêmio.

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Posfácio:

Com relação ao comentário do Sérgio Vasconcellos sobre a escolha do título, é claro que ele é importante e o fiel da balança na decisão do leitor se irá lê-lo ou não.  A manchete mais célebre na imprensa sensacionalista brasileira ocorreu na década de 60: "Cachorro fez mal à moça". Não tire ilações precipitadas - estudante comprou um cachorro-quente na saída do colégio e por estar a salsicha  provavelmente estragada, provovou-lhe um problema estomacal. Mas o objetivo do jornal, que era a venda, foi atingido plenamente.

criado por projetosnumericos    3:09 — Arquivado em: Crônica

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