19/11/08
Second Life - Emoções e desejos
Davi Castiel Menda
"Pessoas mortas há pouco tempo podem mudar seu aspecto simplesmente pensando em uma dada forma, sendo sumamente fácil para seres brincalhões ou mesmo malévolos enganar os que não foram preparados para reconhecer tais ilusões."
Sou freqüentador de um clube que promove torneios de Poker semanalmente. A título de curiosidade, uma das regras afixadas em letras garrafais (aliás, regra provavelmente exclusiva deste clube e jamais imaginada pelos criadores do Poker) nos informa que é terminantemente proibido reagir com emoções a um lance inesperado durante as disputas dos torneios. Aparentemente, o criador desta aberração lúdico-jurídica desconhece que a emoção é congênita à natureza do homem: trata-se de uma perturbação ou variação do espírito advinda de situações inesperadas e que se manifesta na forma de alegria, tristeza, raiva. Exagerando, seria o mesmo que pendurar um cartaz num estádio de futebol comunicando aos torcedores que devem se portar com educação, cortesia e civilidade e que, durante os festejos de um gol, devem manter-se corretamente sentados em seus lugares; no máximo, aplaudir com palmas moderadas o autor da façanha. Pedir bis ou goleada, já seria contravenção.
O desejo é semelhante à emoção, é ter a vontade de possuir, de gozar, de ter anseios, cobiça, ambição, ou até apetite, seja ele na mesa ou na cama (apetite sexual). Os desejos e emoções variam de pessoa a pessoa. São tantas as variáveis que poderia afirmar que o somatório dessas geram um padrão de individualidade a cada pessoa, tal qual as impressões digitais.
Mesmo que você seja uma pessoa correta, honesta, cumpridora das leis, fiel ao seu cônjuge, é de se supor que já tenha tido um mau pensamento, lascivo e sensual ao ver um filme ou fotos de um(a) artista sexy de cinema ou TV. Ou quem sabe, imaginando-se com o prêmio milionário de uma mega sena no bolso, passeando numa Ferrari pelas ruas de Mônaco, convidado da princesa Caroline para um garden-party nos jardins do seu palácio… Que atire a primeira pedra quem, durante uma áspera discussão com seu chefe, não pensou em “eu ainda mato esse sujeito”. Meia hora depois, você, o pseudo-matador, e ele, o chefe, confraternizavam na sala do cafezinho, como se nada tivesse acontecido. Tal comportamento é normal: a natureza sabiamente a tudo isso previu. São desejos de efêmera duração – pelo menos, deveriam ser – e tendem a sumir rapidamente. Entretanto, se forem permanentes, a idéia deixa de ser desejo e transforma-se em obsessão e o comportamento humano passa a ser tratado como um desvio de conduta, com menor ou maior gravidade.
Segundo a Wikipédia, teosoficamente falando, o Mundo de Desejo também é conhecido como plano astral. Concordando com outras correntes, a Teosofia diz que este é um plano de existência intermediária entre o mundo físico e o mundo mental ou celeste, uma região onde a vida é mais ativa e as formas mais plásticas que no plano físico, formas que estão sujeitas à influência do pensamento. As entidades que aqui vivem - elementais, devas inferiores (no hinduísmo e no budismo, devas = cada uma das diversas divindades que se situam entre os seres divinos superiores e os homens) e pessoas mortas há pouco tempo - podem mudar seu aspecto simplesmente pensando em uma dada forma, sendo sumamente fácil para seres brincalhões ou mesmo malévolos enganar os que não foram preparados para reconhecer tais ilusões. É o reino das emoções e desejos por excelência, onde eles são sentidos em toda sua intensidade sem o efeito amortecedor causado pelo corpo físico mais denso.
Pois alguém resolveu materializar este Mundo de Desejos e colocá-lo à disposição de todos através da Internet, sob o título de Second Life, um ambiente virtual e tridimensional onde são simulados aspectos da vida real e social do usuário. O internauta “morre” por algum tempo na vida real e muda seu aspecto terreno assumindo uma nova forma, identidade, profissão e até sexo nesse mundo virtual. O Second Life pode ser encarado como um jogo, quem sabe um simulador de vidas ou talvez um comércio virtual.
Na verdade, é a transposição de pessoas insatisfeitas com a sua vida real (Real Life ou primeira vida), gerando uma vida paralela em situações totalmente imaginárias, de acordo com os anseios de cada um. Essa perigosa brincadeira que joga com os sentimentos humanos, transforma seus participantes em escritores de folhetim ou talvez, exageradamente, em deuses - pela possibilidade de criação de personagens, mesmo que irreais. A comunidade do Second Life vem crescendo de forma exponencial e seus partícipes recriam uma nova rede social, uma nova ir-“realidade”, e passam a conviver com ela.
Conheço poucas pessoas que transitam diariamente pela Second Life e, pelo conjunto de conhecimentos acumulados ao longo de uma existência, chego a conclusão de que – num estudo preliminar desses raros criadores de avatares que me brindaram com sua entusiasmada opinião a respeito - não assumem uma segunda vida; que perdoem minha opinião, na verdade confundem a vida real com o mundo da fantasia, com o mundo dos desejos. A vida, que deveria ser a real, passa a ser a irrreal e vice-versa, gerando uma situação que se caracteriza pelo aparecimento de ambições e de suspeitas, evoluindo para delírios persecutórios e de grandeza.
Para fortalecer meu juízo a respeito da Second Life, cito o ocorrido recentemente na Inglaterra, onde traição cometida naquele mundo virtual, por homem que mantinha avatar como amante, terminou em divórcio na vida real. Aos leigos, para um melhor entendimento, em informática, avatar é a representação gráfica de um utilizador em realidade virtual (de acordo com a tecnologia, pode variar desde uma simples imagem até um sofisticado modelo 3D).
O caso inglês tem características surrealistas, com total desprezo pelas construções refletidas ou dos encadeamentos lógicos e pela ativação sistemática do inconsciente e do irracional. Amy Taylor e David Pollard, após quatro anos de vida em comum, separaram-se depois que Amy, com a ajuda de um detetive cibernético, descobriu que o alter ego de seu marido a traia com outra mulher. Só que “a outra” era um avatar, uma representação gráfica, um personagem irreal, enfim, em linguagem simples, um mero desenho, sem vida, sem consistência, sem alma, só existindo na tela de um computador, morrendo a cada vez que esse fosse desligado.
- Doeu muito. Não pude acreditar no que ele fez. Para mim foi infidelidade – comentou Amy. É uma situação inusitada e o homem (no presente caso, Amy, a esposa “traída”) toma atitudes inesperadas frente a uma situação nova e fico a pensar na essência de seus pensamentos e avaliação sobre o caso. A jovem esposa, imaginando a rival com que seu marido mantinha relações extraconjugais, eternamente jovem, sempre com as mesmas feições e características, a versão cibernética da fonte da juventude. Deve ter sido fantástico o conjunto dessas ilações!
A novela se torna mais dramática e assume ares de comédia e escárnio pelo grotesco, ao se tomar conhecimento de que o ex-marido David, após a separação, já tem uma nova noiva virtual (qual teria sido o motivo de ter abandonado a amante avatar causadora da destruição do seu lar?) e afirma que não vê a hora de com ela casar na vida real. Repetindo, para que não haja dúvidas: a notícia informa que David Pollard já tem uma nova noiva virtual e afirma que não vê a hora de com ela casar na vida real!
A que ponto chegamos! Loucura por loucura, prefiro ficar falando com meus cachorros e com os passarinhos que fazem ninho praticamente dentro de minha casa. Pelo menos eles são reais.
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2:07 — Arquivado em: 

Comentário por Thymonthy — 19 19UTC novembro 19UTC 2008 @ 7:29
Oi.
Olha, eu não acho isto muito estranho não.
Haja visto homens que se apaixonam por suas “Bonecas infláveis”. Até na TV, tivemos o “Bambam” do Big Brother que se apaixonou por aquela mulher de lata, que ele fez.
O ser humano é carente por natureza, e pode facilmente se apegar a estes artifÃcios, inclusive virtuais.
Geralmente, quem escreve contos eróticos, narra uma relação sua com um personagem que existe apenas em sua cabeça.
E a vida continua, cada um com sua “loucura” rsrsrsrsr
Abraços
Comentário por Fraga — 19 19UTC novembro 19UTC 2008 @ 8:09
Davi, sonhar acordado com um royal street flash também é escapismo, né? Como não nasci dotado para blefar impassÃvel, meu pôquer - e talvez uma outra espécie de second life - é com livros escapistas (FC, policial, terror). Como já publiquei uma vez: cada louco com a sua mania e cada mania com seus milhões de doidos. Abraçãozão.
Comentário por Sérgio Vasconcellos — 19 19UTC novembro 19UTC 2008 @ 9:42
Davi,
O dia em que conseguirem definir o que é “realidade” talvez possamos deslindar toda a narrativa que você nos propôs. Acho que Second Life é uma realidade que as pessoas vivem, mesmo sendo algumas, muito estranhas.
O que dizer das fantasias sexuais?
Vou ler um pouco de Steve Pinker para tentar dar mais sentido, para mim, nas suas colocações. Que me perdoe a Malu, mas vou comparar o seu estilo ao de Yrvin D. Yalon. O seu raciocÃnio é muito rápido e a massa de conhecimentos muito grande. Permita-me, referenciar-me à Malu pois concordo com ela, quando faz uma ligação do homem com o animal em relação ao enfrentamento e fuga diante de um perigo. Second Life para mim é real e talvez um mecanismo cerebral que procura trazer o cérebro de uma pessoa ao equilÃbrio, no qual a natureza se pauta.
Quando não consegue, vê-se tudo aquilo que a História nos mostrou, e, se, não descobrirmos a verdadeira causa disso tudo, jamais descobriremos uma solução, se é que a procuramos.
Todos vivemos uma Second Life!
Comentário por Joice — 19 19UTC novembro 19UTC 2008 @ 11:18
Concordo com a Malu, quando ela diz que “a mente emocional nos impulsiona à luta ou à fuga….” Acho que o Second Life é outro joguinho que possibilita as pessoas a “brincarem” de serem outra pessoa, como possuirem o que não possuem no mundo real, atingirem o que nunca atingiriam nessa vida. Afinal, é bom brincar, não? Quando coordeno uma oficina de teatro para desenvolver a expressão de pessoas que não querem necessáriamente serem atores, eu sempre digo : “Aqui se brinca”… e eles experimentam a possibilidade de serem outra pessoas, descobrem outra faceta de si mesmos, ou do que poderiam ser, usando a mágica palavra de Stanislawski: “se”. Se eu fosse Julieta, como seria a minha Julieta. Se eu fosse Romeu, como seria o meu Romeu. E assim experimentam ser por vezes alguém que nunca seriam, ou até que gostariam de ser. Pois, é é isso aÃ. As pessoas querem brincar, estão precisando brincar.
Comentário por Davi Castiel Menda — 20 20UTC novembro 20UTC 2008 @ 7:08
Joice (minha amiga de 50 anos): desculpa por revelar tua idade aproximada - Nada contra brincar, nada contra criar, nada contra imaginar, nada contra sonhar…Mas desde que seja dentro de um ambiente de realidade real (perdoa-me a redundância), com pessoas de carne e osso, com alma. E parabéns pelo teu trabalho no teatro que acompanho a distância.
Fraga (meu primo de 50 anos): pra ti não peço desculpas pois és um dinossauro, no bom sentido - do humor gaúcho. Claro que eu sonho em fazer um Royal Straight Flush (já consegui dois nos últimos seis anos), da mesma forma que você deseja ganhar o Prêmio Cabot (Maria Moors Cabot Prize). O que seria de nós se não sonhássemos.
Malu, Thymonthy, José Antonio e Sérgio:
Grato pera força. Neste exato momento o texto atingiu 400 acessos e vocês são meus “cúmplices” na proeza.