17/11/08
Uma nova espécie de chatos
Nelson Menda
Muito se escreveu sobre os chatos e suas diferentes modalidades de atuação, mas creio ter identificado uma nova espécie, que exerce sua nefanda atividade em lojas, supermercados e outros estabelecimentos comerciais.
Julgando ser a única vítima dessa forma específica de chatice, nunca havia comentado sobre o fato até que, há poucos dias, tomei coragem e troquei emails sobre o assunto com uma pessoa a quem estimo muito e, para minha surpresa, constatei que ela também havia passado por situações semelhantes e, para minha surpresa, em mais de um país e por mais de uma vez. Portanto, é bastante provável que os leitores do Blog também tenham vivenciado o que irei relatar.
Há muitos anos meu amigo e colega Adolfo Wasserstein, ainda ao tempo em que ambos morávamos em Santa Maria, RS, revelou uma didática classificação dos chatos elaborada por um intelectual seu conhecido. Segundo ele, os chatos poderiam ser divididos em duas categorias. A primeira, formada pelos discursadores, aqueles chatos que falam sem parar, não permitindo ao interlocutor a menor possibilidade de concordar ou discordar de seus pontos de vista. Nesse grupo poderíamos incluir a variante dos chatos que, para suprema infelicidade, costumam cuspir enquanto falam, o que torna seus intermináveis monólogos ainda mais perturbadores.
A segunda seria dos chatos perguntantes, bem mais desagradável do que a primeira, pois ficariam perturbando o interlocutor com indagações inteiramente fora de propósito. Alguns chatos desse segundo grupo teriam a agravante de associar, à cada pergunta, uma respectiva cutucada, agregando ao desconforto psíquico de suas incontáveis indagações uma perturbação física nada agradável. Ainda segundo o autor dessa sábia classificação, o menos chato dos chatos seria o pertencente ao grupo dos discursadores, pois permitiria à vítima, claro que depois de um certo treinamento, fingir estar interessada em sua interminável falação, deixando o pensamento voar livremente. Mas a variedade por mim descoberta - e faço questão de, como pioneiro na identificação e divulgação dessa nova espécie, dos merecidos louros - não pertence a nenhum dos grupos mencionados. Esses neo-chatos não falam, não cuspem, não perguntam e, sobretudo, não cutucam. Costumam agir em total silêncio, e essa é uma de suas principais características, mas sua ação consegue ser mais predatória e nociva do que a de seus colegas discursadore e perguntativos.
Tudo se passou no dia quatro deste mês de novembro, em que Barack Obama ganhou a eleição presidencial nos Estados Unidos. É preciso esclarecer que, ao contrário do Brasil, esse dia não é feriado nacional e, com exceção das escolas onde estão instaladas as secções eleitorais, tudo o mais funciona normalmente. Era a primeira vez que eu presenciava, in-loco, uma eleição nos Estados Unidos - e que eleição - com a agravante de não poder exercer o sagrado direito do voto. Não me dei por vencido e fiz questão de visitar, como prêmio consolação, um posto eleitoral e solicitar ao seu presidente uma explicação sobre o processo de votação. Ele, solícito, exibiu a cédula, física, de papel, enorme, do tamanho de uma página de um jornal tablóide. Naquela localidade cada eleitor teria de sufragar, entre candidatos à Presidência, Deputados e Senadores federais e locais, questões constitucionais estaduais e municipais, em um total de dez opções, a última das quais bastante prosaica, sobre a autorização à Prefeitura para alienar um determinado terreno.
Uma vez preenchida a imensa cédula, ela deveria ser introduzida em uma espécie de scanner e a votação concluída. Isso explicaria a demora do processo, comparada à simplicidade da nossa eficiente urna eletrônica verde-amarela. Saciada a curiosidade, decidi dedicar o restante do dia a uma das atividades, pelo menos para mim, bastante estressante, que é a aquisição de um par de calçados.
Adquirir sapatos, para mim, sempre foi um tormento. Primeiro, porque o tamanho dos meus pés corresponde a um meio-número, um quarenta e meio, inexistente no Brasil. Segundo, porque um dos meus pés é ligeiramente diferente do outro, o que me obriga a provar uma infinidade de modelos até encontrar, se tiver paciência e tempo, o que me agrade. Tenho de aproveitar, portanto, sempre que venho aos Estados Unidos, para adquirir sapatos. Neste país, além de oferecer os sonhados meios-números, as lojas especializadas apresentam uma outra vantagem, que é a de não possuir vendedores, categoria profissional especializada, desculpem a franqueza, em iludir os clientes. Se o sapato está folgado, eles afirmam que, com o tempo, irá encolher. Se, ao contrário, está apertado, asseguram exatamente o contrário, garantindo que, com o próprio uso, ele irá se expandir, como se isso fosse fisicamente possível.
Nas grande lojas de calçados norte-americanas o cliente tem inteira liberdade para examinar e provar os diferentes modelos expostos, sem nenhum vendedor para dar palpites nem a obrigação de adquiri-los. Ainda goza do inalienável direito de, mesmo depois de tê-los comprado e utilizado, mudar de idéia, devolvê-los à loja e receber, integralmente, seu dinheiro de volta. Todavia, só depois de algumas horas de busca é que consigo, quando tenho sorte, encontrar um par de calçados que alie à satisfação visual o indispensável conforto para os pés. Daí a vantagem do quatro de novembro, quando imaginei que a imensa loja estaria repleta de sapatos e vazia de clientes. E estava mesmo.
Fui direto para as prateleiras do tipo de calçado que procurava, na verdade um simples par de chinelos, e comecei a selecionar e provar, com calma, os diferentes modelos. Aí aconteceu o inesperado. Vindas do outro lado da loja, como que atraídas por algum ferormônio, duas senhoras de meia-idade se dirigiram à mesma prateleira onde estavam expostos os chinelos e sandálias correspondentes ao meu número. Começaram a remexer nos mesmos produtos que eu já havia experimentado ou pretendia fazê-lo. Pensei comigo mesmo: ora, os tamanhos e modelos de calçados masculinos e femininos são inteiramente diferentes e ninguém adquire sapatos sem experimentar. Portanto, essas duas chatas vieram aqui só para me azucrinar. Fiz de conta que elas não existiam, mudei de secção para ocupar o tempo e esperei que elas tivessem ido embora para retornar ao local onde poderia encontrar o que buscava. Foi nesse momento que me dei conta de que já havia passado por situação semelhante em outros estabelecimentos comerciais. E também lembrei que, observando atentamente o comportamento desses chatos de loja, eles não tem a menor intenção de adquirir qualquer mercadoria, pois costumavam sair dos estabelecimentos de mãos abanando.
Eles frequentam as lojas, talvez até sem se dar conta disso, com o único objetivo de encher a paciência dos verdadeiros clientes. Com sua atuação, além de interferir no ciclo natural de venda das mercadorias, prejudicam não só o consumidor real como o próprio estabelecimento, afetando um dos pilares básicos do capitalismo, que é a liberdade de compra. Comecei a me questionar, a partir dali, sobre a atitude correta a tomar em tais situações. Se devemos fingir que não é conosco e nos afastarmos para retornar depois que o chato ou a chata resolver atuar em outra freguesia ou simplesmente ir embora sem adquirir nada. Ou se devemos reagir, olhando feio para o(a) importunador(a) ou até mesmo enfrentá-lo(a) verbalmente. Confesso que ainda não decidi o que fazer na próxima vez que, a partir dessa importante descoberta e da existência de outros casos, tenho a certeza voltará a acontecer e gostaria de compartilhar minha indecisão com os demais leitores do Blog. Se já passaram por isso e qual, a seu ver, a melhor atitude a tomar nesses casos.
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David Nelson Menda, o autor do texto, é colaborador permanente do blog acumulando as funções de correspondente nos Estados Unidos.
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Comentário por Sérgio Vasconcellos — 17 17UTC novembro 17UTC 2008 @ 19:43
Nelson,
Se fossem só estes os problemas que acontecem no mundo atual, estaríamos todos salvos.
Você tem razão e acredite que um dos meus sonhos, até recentemente, era fazer compras em um Supermercado
fechado, exclusivamente, só para mim. Não desejava atrapalhar os outros compradores, mas, iria lá depois do expediente ou ….. antes. Dizem que um cartor famoso faz isso. Para responder o que você solicita, acho que você ganharia muito mais, evitando as pessoas que no caso, incomodam você. Eu experimentei isso em todos os
lugares e tenho me dado bem. Eu não entendia porque algumas pessoas eram tão gentis…… e depois descobri que elas estavam exercitando a melhor maneira de se livrar dos chatos. Experimente, Nelson, e depois me diga. Os chatos não merecem a sua adrenalina percorrendo o seu corpo e danificando os seus órgãos. Você já viu essas pessoas que estão sempre sorrindo e se esquivando dos outros? …… são essas a que eu me refiro !
Comentário por Cecilia — 18 18UTC novembro 18UTC 2008 @ 23:19
Olá, Nelson:
Uma variante para o tipo de chatos que você descreve: aqueles que, mesmo num lugar vazio vêm justamente se sentar do seu lado. Exemplifico: meio de tarde, cinema vazio e eu lá, toda feliz. Aí entra uma senhora com dois pré-adolescentes e vem se sentar do meu lado. O cinema VAZIO!!!! Mudei de lugar acintosamente! Outro exemplo: Cheguei com minha cunhada a um restaurante, cedo, justamente por causa de tranqüilidade (daqui a pouco não vou poder usar meus amados tremas - já imaginou lingüiça sem trema? “Linguiça” - que coisa mais sem graça!). O restaurante vazio (claro que depois chegou mais gente). Um pouco depois de nós entra um casal e se senta justamente à mesa atrás de nós. E a moça tinha daquelas vozes estridentes. Um terror! Dessa vez não mudei de lugar, já tinha feito pedido, fiquei meio sem-graça. Como poderíamos classificar esses chatos? Chatos gregários?
Abraço da Cecilia.
Comentário por Davi Castiel Menda — 19 19UTC novembro 19UTC 2008 @ 2:30
Prezada Cecília:
“E a constatação mais surpreendente: se somente você e seus familiares estiverem no restaurante, e entrarem novas pessoas, a tendência será sentarem-se exatamente à mesa ao seu lado (por maior que seja o salão), tal qual um grupo de homens pré-históricos que, por necessidade, viviam em comunidade e intimamente juntos para sua sobrevivência é atávico.”
Trecho da crônica “Lei de Mendel” do blog. Obrigado pela visita.
Comentário por Fraga — 19 19UTC novembro 19UTC 2008 @ 8:16
Nelson, deve ser por essas e outras que centopéias não freqüentam sapatarias… Tenho um amigo que usa a mesma marca e mesmo modelo de calçado há décadas, em compras de meia dúzia. Taí um método invulgar para sossegar pares ímpares de pés e mentes singulares como a tua. Abraçãozão. (E a saudade só aumenta, meu querido.)
Comentário por Sérgio Vasconcellos — 19 19UTC novembro 19UTC 2008 @ 11:19
Nelson,
Já falei sobre os chatos. Agora sobre os seus pés.
Os seus são chatos? Os meus são altos e sofro da mesma maneira. Dizem que o pé esquerdo é sempre ligeiramente maior que o direito, tanto que se deve experimentar um sapato começando com o pé esquerdo.
Coincidentemente, quando voce nos relatou o problema, apareceu uma nota em Coluna Social do “Globo” de domingo passado. Dizia que estão reformulando os tamanhos aqui no Brasil. Quando eu morava em Copacabana, havia algumas lojas que faziam sapatos sob medida e eram muito confortáveis, se bem que mais caros né? Mas valeu a pena. A idéia do Sr. Fraga também é boa.
Interessante as disparidades. Quando eu morava em Campinas e sentia frio nos pés, pois os sapatos estavam finos, namorei um sapato numa vitrine e comprei-o da seguinte forma:(o sapato custava 600) dei duzentos no primeiro mês, depois, mais duzentos (e o sapato lá guardado) e por fim o restante e a alegria, da glória, de ter comprado um sapato novo. E, toda vez que compro um novo, hoje em dia, a alegria é total. Bom, para quem comprou uma calça de lã na loja “Ezequiel” para pagar em diversas vezes, isso não é novidade. Até o Sr. Ezequiel se espantou de eu comprar uma simples calça em vários pagamentos. A japona de lã comprei dando dois cheques.
Corria o ano de 1964. Vou concluir com o ditado que bem você conhece. ” Eu reclamava de não ter sapatos e, um dia, na rua, vi um homem que não tinha pés!”
Fique tranquilo! (Agora sem trema)
Comentário por Nelson Menda — 19 19UTC novembro 19UTC 2008 @ 14:53
Em relação ao comentário da Cecilia, poderíamos criar uma divisão exclusiva para os “chatos do cinema”. Desde os que resolvem sentar exatamente na poltrona à nossa frente, apesar da sala estar vazia, até os que atendem - e falam - ao celular durante a exibição do filme. Sem falar nas senhorinhas ao lado que abrem as bolsas e de lá retiram imensos e nauseabundos leques de sândalo e resolvem se abanar. Um terror!
Comentário por Sérgio Vasconcellos — 19 19UTC novembro 19UTC 2008 @ 19:48
Davi,
Permita-me observar a saudade que a Cecília vai sentir do trema na palavra linguiça. Cecília, eu ainda não analisei a última reforma, da língua portuguesa, oriunda de acordo firmado com Portugal e ex-colónias (com agudo). Cecília, o objetivo de uma língua é a comunicação, com exceção de algumas que são ou eram sagradas. Daí, que, hoje em dia, com a correria que o ser humano se impôs, quanto mais se simplifica, melhor é. Você já deve ter visto como é meio estranha a comunicação da era digital. O que eu quero salientar aqui é que a língua portuguesa, especialmente a falada no Brasil, é a que mais se atualizou nos últimos tempos. Saímos da aparecência com o espanhol e hoje é difícil para eles nos entenderem e, quem estudou português arcaico, os entende. Já presenciei, se não me engano, umas 4 ou 5 atualizações da língua. Nem o inglês se atualizou tanto. Se, do inglês científico você fizer algumas simplificações, nós brasileiros o entenderemos muito mais. Na Alemanha os tradicionalistas não aprovaram reforma da língua. A Finlândia fala uma língua “inventada” pelos alemães. O holandês tem aquela duplicação de vogais que acredito desnecessária. Maarteen não é igual a Martim? A Torre de Babel originou essa confusão. Cecília, fique também tranquila. Nesse ponto, também, estamos progredindo. Se “tu” queres ler como os Reis portugueses se comunicavam, por favor leia “A Arte de Furtar” e veja o debate acerca da luta com os espanhóis,
pelo trono de Portugal, na época pouco anterior ao Reino Unido de Portugal e Algarves. (Ih! contei o final do filme). Abraços.
Comentário por Cecilia — 21 21UTC novembro 21UTC 2008 @ 9:19
Para o Sérgio Vasconcellos:
Pois é, Sérgio, e o Filipe II da Espanha, conseguiu - não é? - unir as duas coroas. E o Brasil nessa: de 1580 a 1640 fomos espanhóis.
O que quero perguntar é se você já leu um livro (eu o acho espetacular) chamado “Desmundo”, da Ana Miranda, todo escrito em português arcaico. Dele fizeram um filme (ai, estou sem adjetivos) espetacularíssimo, com o mesmo nome. O livro é de 1996, editado pela Companhia das Letras. O filme é de 2003. O diretor se chama Alain Fresnot, com trilha sonora do John Neschling. Os atores tiveram de falar em português arcaico. O filme tem legendas, para que se possa compreender o que eles falam. No Festival de Brasília, ele teve prêmios de melhor trilha sonora, melhor atriz coadjuvante (Berta Zemel). Desses prêmios me lembro bem, porque estava lá. Mas em outros festivais houve prêmio para melhor atriz (Simone Spoladore), melhor ator coadjuvante ( o Caco Ciocler) e melhor atriz coadjuvante (a Segall).
Vale a pena ler e ver. O ano em que se desenrola a trama é 1570.
Tudo isso por causa do chato do Nelson (uau - fiz um trocadilho sem querer). Nelson, você não é chato, não, é até bem redondinho!
Abraço da Cecilia.
Comentário por Sergio — 21 21UTC novembro 21UTC 2008 @ 20:42
Davi e Cecília,
Oi gente! Quero confessar que este Blog me alegra muito.
A revista Época desta semana diz que há 324 milhões de Blogs no mundo inteiro. Mas este é especial p/mim.
Quando Davi escreveu um Post em que se reportava à Lei de Boyle eu reclamei da não inclusão do Mariotti, pois sabia que ambos haviam descoberto uma lei que tomou o nome dos dois. Para ser sincero, nem sei se a lei citada teve a participação do Mariotti, mas o importante é a feitura de uma lei por duas pessoas. Falo isso porque apesar de hoje em as coisas serem inventadas por vários cientistas, vem reforçar que a troca de informações por duas ou mais pessoas é importante. Assim, gostei da sua resposta à minha observação, e, também, demais, da indicação do Livro e do filme falado em português arcaico.
Vou procurar. Sabe, tenho um sonho (dentre vários) que é, ir aos Montes Grisões, na fronteira da Suíça, para escutar pessoas que ainda falam o Latim. Mesmo tendo ouvido missa em Latin, já imaginou a sensação de ouvir pessoas se comunicando nesta língua? Outro dia, vi o filme A Paixão de Cristo, que é falado em Aramaico ou será Hebraico Davi? Como havia muita violência fiquei mais ouvindo os sons e e prestava a atenção nos debates inteligentes. Cecília, você já viu alguma coisa em Gelego? Fiquei horrorizado, porque dá para entender, mas dá a sensação de um Português estranho. E, no Norte de Portugal, falam o Galego porque o meu ex-sogro falava ” A minha mai” - mai = mãe. Pode?
Acrescento que a Cia. das Letras e a Elsevier(Campus) tem ótimas publicações. Aconselho você a ler o livro
“Os Judeus, O Dinheiro e o Mundo” escrito por um judeu francês que descreve desde Abrahão, até hoje, e, mais adiante. Ninguém pode deixar de ler este fascinante livro.
(Campus Elsevier). Até mais Cecília!
Comentário por Cecilia — 22 22UTC novembro 22UTC 2008 @ 9:06
Sérgio
Imagina só que outro dia fiquei com a mão coçando a carteira, pensando se comprava ou não esse livro que você me indicou. Mas é que estou com muitos na lista de espera para leitura (meu filho me abastece de livros sobre judeus, marranos, Gramática Histórica, Idade Média - prova de que ele está sempre pensando em mim…). Quanto ao galego, que é uma das quatro línguas oficiais da Espanha, é bom você se lembrar que o português saiu dele. Em galego-português foram escritas as Cantigas de Santa Maria, na época do Alfonso X, el Sabio. Em 1999 fui a um Congresso de Onomástica em Santiago de Compostela e aproveitei para conhecer toda a Galicia. No total fiquei uns dez dias, entre Congresso e passeios. Resolvi testar algo que já tinha em mente há algum tempo: falar português com sotaque português de Portugal. E deu certo. Pensavam que eu sabia falar galego. Claro que é preciso saber umas coisas básicas: Obrigado é “graciñas”, mas com sotaque, hein? E tudo o que é gi, ge é xi, xe: filoloxia, etc. etc. Creio que se diz Miña nai, não mai. E há os poemas lindíssimos de Rosalía de Castro, que escreveu tanto em galego, quanto em espanhol, e cujo marido foi o primeiro presidente da Academia Gallega de Letras. Lembrar também que a conquista muçulmana não chegou lá, e que há muitas judiarias ou juderias. Ôxe, falar em certos assuntos me torna verborrágica. Chega para uma manhã de sábado!
Um abraço da Cecilia.
Comentário por Sergio — 22 22UTC novembro 22UTC 2008 @ 20:08
Nelson e Malu,
Foi com prazer que li um poema indicado pela Cecília.
E, creio, que todos os implicados no assunto, inclusive o Nelson e o Davi ficaram satisfeitos. Estamos atingindo o objetivo do Blog, que nada mais é, que a síntese dos conhecimentos adquiridos por pessoas que nem se conhecem, e, que chegam a um foro de discussão e debate. Não se acanhe Malu, de colocar as suas idéias e adendos junto a nossa luta de conhecer novas abordagens e informações. Viu Nelson, o seu Post susci-tou novos conceitos. E, assim é a vida, uma coisa ruim, a chatura daquelas pessoas que você indicou, originou, creio eu, momentos de satisfação a todos.
Comentário por Sergio — 22 22UTC novembro 22UTC 2008 @ 20:46
Nelson, Davi, Cecília e Malu
Cecília, você viu que maravilha a contribuição da Malu?
Acredito que as 4 línguas oficiais da Espanha sejam, o próprio Espanhol, O Galego, Catalão e o Basco. Estou certo? E ainda houve o Ladino né?
Meu sobrenome é Vasconcellos (com 2 eles) que nada mais é que “Basconcellos”, relativo aos Bascos. Minha mãe é portuguesa de Lisboa. A família de meu pai é Pinto de Vasconcellos. E, me lembro do meu pai ter falado que nossa família era próxima dos Pinto Coelho.
Bom, onde fui criado, infelizmente, quando se queria menosprezar um português, o chamavam de galego.
Isso, para explicar, talvez, o interesse por estas línguas
primas entre si. Cecília você falou em Idade Média? Conhece um dicionário de Idade Média publicado pela Zahar Editora? Se você lê essa época deveria ter esse livro. Tem muita coisa interessante.
Falamos, falamos e não citamos uma língua que foi muito importante no oriente e ocidente, tem forte presença no Português, e poucos a entendem. O Grego! Eu tenho cópias, em folhas, tiradas de um CD, que é um comentário sob o enfoque Espírita de todo o Novo Testamento. É interessante que entendemos frases quase que inteiramente quando escritas em caracteres romanos pela parecença com o Português.
Dizem que uma pequena vírgula pode desencadear uma guerra, pois, o que se viu, é que, um pequeno trema de uma improvável linguiça gerou toda esta conversação.
A propósito do livro “quase comprado”, digo, que quem não o leu, e, que não tenha conhecimento do seu conteúdo, não poderá entender nada da nossa Civilização.
Comentário por Cecilia — 23 23UTC novembro 23UTC 2008 @ 10:01
Malu:
Sua mensagem só fez enriquecer nosso colóquio.
Rosalía teve uma vida muito difícil e dolorosa. Morreu jovem (48 anos), de câncer uterino. Escreveu em galego e em espanhol e se converteu num verdadeiro símbolo do renascimento do galego.
Olha só este poema:
Dicen que no hablan las plantas, ni las fuentes, ni los pájaros,
ni el onda con sus rumores, ni con el brillo de los astros:
lo dicen, pero no es cierto, pues siempre cuando yo paso
de mí murmuran y exclaman: - Ahí va la loca, soñando
con la eterna primavera de la vida y de los campos,
y ya bien pronto, bien pronto, tendrá los cabellos canos,
y ve temblando, aterida, que cubre la escarcha el prado.
- Hay canas en mi cabeza, hay en los prados escarcha;
mas yo prosigo soñando, pobre, incurable sonámbula,
con la eterna primavera de la vida que se apaga
y la perenne frescura de los campos y las almas,
aunque los unos se agostan y aunque las otras se abrasan.
Astros y fuentes y flores, no murmuréis de mis sueños;
sin ellos, ?cómo admiraros, ni cómo vivir sin ellos?
Não é lindo? Você sabe como se faz a interrogação ao contrário? Eu sabia, tentei agora, mas não consegui.
Manhã de domingo enevoada no Rio. A Galicia é assim.
Acho que o Nelson não se chateia, não, com as nossas divagações. Deve é estar adorando. E o Davi, algum problema?
Abraço da Cecilia.
Comentário por Cecilia — 23 23UTC novembro 23UTC 2008 @ 10:18
Sérgio:
Sobre o ladino, você pode ler um artigo meu publicado no boletim da ASA (Associação Sholem Aleichem) , daqui do Rio. Está em: http://www.asa.org.br/boletim/108/108_h5.htm
Sobre o Vasconcellos, dei uma olhadinha no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, do Prof. Antenor Nascentes (meu mestre). Além do que você disse, ele informa que “Na província de Burgos há um lugar chamado Basconcillos para o qual houve uma imigração basca em 474 e outra em 499″.
Sobre a questão da nossa civilização, há um livro muito interessante, chamado Como os Irlandeses salvaram a Civilização, de Thomas Cahill, editado pela Objetiva. Esse, meu filho me deu quando eu andava fascinada por tudo o que se referia aos celtas. Para o Natal, quando ele me perguntar o que vou querer de presente, já sei o que vai ser: o livro que você recomendou.
Um abraço dominical enevoado da Cecilia.
Comentário por SERGIO — 23 23UTC novembro 23UTC 2008 @ 18:15
CECÍLIA,
O seu Boletim 108 é uma verdadeira aula sobre assunto que aprecio demais. “Valerosa” contribuiçao ao estudo e preservação do Ladino. Você não vai acreditar, quando eu morava na Gávea, e subia a Rua São Clemente de “frescão”, passava em frente à ASA.
Eu ficava intrigado pois não sabia o que era, mas, sentia que alguma força interna minha, me impelia para lá. Não fui, talvez, achando que fosse uma escola alemã, entre as demais daquela região. Várias vezes tive o impulso de saltar e ir lá. Cecília, eu não posso entrar em livraria, pois, só saio de lá, com pelo menos um livro. E, quando não vou, encomendo pelo telefone. Amanhã , p.ex., encomendarei “Desmundo”, “Como os Irlandeses Salvaram a Civilização”, “Español Através de Textos” e talvez , se encontrar, “O Linguajar Carioca” de Antenor Nascentes. Em 1959, um professor meu mantinha correspondência com ele, a respeito da NNGB.
Vou suavizar a minha declaração sobre o livro que você ganhará no Natal. Na empolgação, pareceu-me que eu desprezei outras civilizações. Não foi isso; quis apenas enfatizar a grande influência do assunto do livro, em grandes acontecimentos. Acho que você me dará razão ao le-lo. Depois comento as poesias.
A névoa deve ter passado, pois névoa nenhuma resiste ao Rio de janeiro. Sou carioca e conheço.
Abraços.
Comentário por Edson Cerqueira Garcia de Freitas — 19 19UTC julho 19UTC 2009 @ 11:27
Muito bom te encontrar aqui Menda.
Saudações osteometabólicas
Comentário por Edson Cerqueira Garcia de Freitas — 19 19UTC julho 19UTC 2009 @ 11:28
Muito bom te encontra aqui Menda.
Saudações osteometabólicas