Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

12/11/08

I.N.R.I - Parte I

Davi Castiel Menda

“O homem primitivo, sentindo-se indefeso diante do mundo hostil que o rodeia e que desconhece, a tudo teme. Apavoram-no os fenômenos da natureza, tais como as tempestades, os trovões, os relâmpagos e tantos outros os quais julga serem a manifestação digna de um Ser Supremo, muito poderoso e desconhecido. Então, na sua impotência para controlar a natureza, e não encontrando explicações razoáveis para os acontecimentos, volta-se o nosso homem para aquele Ser Poderoso que imagina comandar o mundo. Submisso e suplicante implora-lhe perdão pelas faltas cometidas, simula preces e oferece-lhe sacrifícios. Com isso, supõe aplacar a ira dos deuses e ganhar-lhes sua benevolência para dias vindouros, Está, assim, lançada a semente da religião que no decorrer do tempo irá ganhando novas formas e sofrerá modificações, de acordo com o próprio homem, suas necessidades e aspirações.” - La Sagesse

Jesus - um dos personagens mais marcantes e polêmicos da história da humanidade; tão polêmico que alguns autores já escreveram incontáveis artigos e livros tentando provar que ele jamais teria existido. Um dos textos mais conhecidos sobre o tema é de autoria de La Sagesse que procura, através da citação de inúmeros documentos, das escrituras, dos evangelhos e suas incongruências, atestar que Jesus teria sido uma invenção da Igreja. Ele não usa de meias palavras e seu texto é um ataque a tudo e a todos: aos católicos, aos judeus, às Igrejas cristãs, enfim, a Deus. Ninguém escapa. Outro livro recente sobre o mesmo tema é do médico e escritor Emílio Bossi, ferrenho partidário da teoria da não existência de Jesus.

As principais fontes de informação sobre a vida de Jesus e seus ensinamentos são os evangelhos, especialmente os evangelhos sinóticos: Mateus, Marcos e Lucas. O papiro P52, escrito em grego e paleograficamente datado como tendo sido escrito por volta do ano 125 d.C., é atualmente reconhecido como o mais antigo documento sobre Jesus. Contém um fragmento de João 18:31-33 no recto (frente) e João 18:37-38 no verso. Essa distância de mais de um século entre o período em que Jesus viveu - teoricamente seu nascimento teria ocorrido entre os anos 3 a.C. a 1 d.C. – até o escrito do papiro, é que suscita duas grandes questões. Se Jesus era tão importante assim (a ponto de ter sido crucificado como “rei dos judeus”) e segundo as igrejas cristãs o fundador do cristianismo, por quê somente um século após a sua morte uma citação sobre ele? Teria Jesus realmente existido?

Particulamente, por tudo que li – e posso garantir que não foi pouco - e pelas intermináveis, polêmicas e agradabilíssimas conversas com teólogos, padres, pastores e rabinos sobre o assunto, acredito que Jesus realmente tenha existido. Acadêmicos bíblicos e historiadores aceitam a existência histórica de Jesus - portanto, ponto final sobre essa primeira dúvida. Descarto definitivamente a hipótese apresentada por La Sagesse, Emílio Bossi e tantos outros.

A segunda grande questão: a deidade de Jesus. Ao contrário dos textos sobre a não existência de Jesus, de raríssima aceitação entre as comunidades teológicas e científicas, que mais os leva para o lado folclórico, a cristandade/deidade de Jesus, esta sim é posta em dúvida, principalmente entre os judeus. Afinal, Jesus era judeu de nascimento, era um rabi (rabi = rabino, sacerdote do culto judaico - um dos inúmeros epítetos por quais era conhecido), morreu como judeu (quem não conhece a inscrição INRI, afixada nas centenas de milhões de crucifixos espalhados pelo mundo, cujo significado é Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum - Jesus Nazareno Rei dos Judeus - mesmo que colocada no topo da cruz de forma sarcástica pelos romanos), além de ter sido enterrado dentro das tradições e no rito judaico. Portanto, cabe a dúvida, teria sido mesmo Jesus o fundador do cristianismo? E se Jesus realmente era o filho de Deus – o principal argumento do cristianismo - como justificar que um Pai (no presente caso, Deus), principalmente o Senhor de tudo e de todos, pudesse admitir que seu filho morresse de forma tão cruel? A idéia de um sacrifício pela humanidade tão difundida pela Igreja contraria todos os princípios da paternidade.

No judaismo, a idéia de Jesus ser um Deus, ou mesmo parte de uma trindade, é considerada heresia. A religião judaica igualmente sustenta que Jesus não poderia ser o tão esperado Messias, sob o argumento que ele não teria cumprido as profecias messiânicas, principalmente no tocante à eliminação das guerras entre os homens. O Mishneh Torá, escrito por Maimônides, uma das obras mais importantes da lei judaica, afirma que a deificação de Jesus faz com que "a maioria do mundo erre para servir a uma divindade além de Deus". Alguns movimentos modernos, messiânicos-reformistas, tentam conciliar o cristianismo atual às tradições judaicas, criando uma confusão sem limites entre seus seguidores. O judaísmo conservador jamais aceitará entre o seu seio esses reformistas sob a alegação de que alguém que afirma que Jesus é seu salvador já não é um judeu (ou nunca foi), e sim um apóstata.

É interessente também analisar o pensamento do islamismo com relação a Jesus. Ele é conhecido, em árabe, como Isa ibn Maryam - Jesus, filho de Maria - e é um dos principais Profetas do Islã. Ao contrário do cristianismo e seguindo idêntica orientação judaica, não é considerado um ser divino. O Alcorão rejeita a trindade e se refere a Jesus como “Verbo de Deus”, mas não o filho dele.

- continua  -

criado por projetosnumericos    14:00 — Arquivado em: Ensaio

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