29/11/08
Olhar dominical - 14

Bom domingo!
Davi Castiel Menda
Gosto de comer bem, apesar de vegetariano. Sempre estou procurando novidades, mesmo que essas estejam escondidas em botecos de terceira ou de categoria indefinida. Por esses dias, com pressa, entrei num restaurante semipopular, administrado por uma grande organização. Pelo menos, o preço era fixo; nada daquela nefanda, abominável e execrável balança. Eram mínimas as opções do buffet e senti que o almoço não seria dos melhores. Servi-me das poucas variedades de salada, uma concha de arroz e, salvação, lá adiante batatas fritas. Aproximei-me lépido e faceiro e no momento em que iria completar meu prato, uma atendente, intimidativa, num grito ameaçador avisou-me: “aqui é a seção de grelhados; se pegar alguma coisa é mais R$ 2,30.”
Expliquei a ela, numa boa, que meu intuito era somente servir-me de batatas fritas, não me interessava as carnes, de aspecto indefinido, mas que ela orgulhosamente chamava de grelhados. Para minha incredulidade e desespero (não pelos R$ 2,30 – mas pela classificação absurda, confundido um tubérculo com um tecido muscular, mais conhecido por carne), continuou classificando batata frita como grelhado.
Em matéria de gastronomia, morro e não vejo tudo.
____________________________________________________
No meu tempo de guri, os heróis eram, como classificar, assexuados?
Eram eternamente namorados, noivos, e respeitavam certos limires vitorianos. Não cresciam, não ficavam velhos, não casavam, não “ficavam”. Quem é do meu tempo – bota tempo nisso – deve lembrar-se do Fantasma e sua noiva Diana Palmer. Linda de morrer, mas o Fantasma, com aquela ridícula fantasia, preferia ficar perdido na selva com seus amigos pigmeus. Lembro do Mandrake e sua noiva (Narda?), rica, elegante, frequentadora das altas rodas da sociedade. E o Mandrake, na sua mansão Xanadu, às voltas com um negrão de dois metros de altura, o Lothar. Sem contar a amizade colorida entre Batman e Robin, o sorrelfa Super-Homem que ia e vinha e nada de faturar a Louis Lane, aquela repórter sonsa e sem graça, tanto nos quadrinhos como na tela. E os heróis de Disney, todos eles tios, ninguém queria saber de oficializar um comprometimento maior. Era o Tio Patinhas, Donald e seus sobrinhos, e as pobres Margarida e Minnie a ver navios, vendo seus amados brincar com o Pateta e Pluto.
E ontem fiquei surpreendido com a notícia do iminente beijo da Mônica e Cebolinha, heróis brasileiros do Maurício de Souza. Não é que os personagens da Turma da Mônica mudaram? A comilona Magali agora faz dieta; Cascão, para desespero dos ambientalistas que orientam a população a economizar água, agora resolveu tomar banho; e os eternos inimigos Mônica e Cebolinha, numa atitude que ainda vai provocar polêmica entre os moralistas de plantão, devem dar um beijo frontal, que esses (os moralistas) esperam que pelo menos não seja explícito demais que envolva o órgão muscular alongado, móvel, situado na cavidade bucal, que serve para a degustação e deglutição, que desempenha papel importante na articulação de sons e que, em algumas oportunidades, através de leve ou violenta sucção, pode concretizar um ósculo lascivo. Resumindo, o Maurício terá coragem de promover um beijo de língua entre os heróis dito infantis?
Em matéria de Histórias em Quadrinhos, morro e não vejo tudo.
Davi Castiel Menda
"Se você acredita que a tecnologia pode resolver seus problemas de segurança, então você não conhece os problemas e nem a tecnologia." - Bruce Schneier
O Titanic, em sua viagem inaugural, ao zarpar de seu porto de origem, ostentava o título de insubmergível, e era tanta a autoconfiança do engenho humano, que os jornais da época afirmaram que "Nem Deus poderia afundar esse navio". Bill Gates, o papa da informática, em 1981, nos brindou com a pérola "640 kb de memória é mais do que suficiente para qualquer um". Thomas Watson, presidente da IBM, em 1943: "Penso que há talvez no mundo um mercado para cinco computadores". Mas a campeã das afirmações estapafúrdias deva ser creditada a Charles Duell, Diretor do Departamento de Patentes dos Estados Unidos, em 1899: "Tudo que podia ser inventado, já o foi", propondo inclusive o fechamento dos escritórios que dirigia. Pelos exemplos, concluímos, já no início do artigo, de que afirmações exageradamente desmedidas tendem, com o passar do tempo, a mostrar-se equivocadas, quando não beirando ao ridículo.
Implantada no Brasil em 1996, a votação eletrônica, segundo o TSE, baniu de vez a possibilidade de fraude eleitoral, com a afirmação dogmática de que o sistema é seguro, indevassável. Entretanto, estas condições até hoje são questionadas por estudiosos, programadores, os próprios partidos, e porque não, por boa parcela da população brasileira.
Alguns defensores das urnas eletrônicas, na ânsia de afirmar que o sistema é infalível, declaram com ares de ufanismo simplório que o Brasil, ao comercializá-las para outros países, está exportando democracia(!), embaralhando comércio e tecnologia com patriotada. Paulo Gustavo Sampaio Andrade, editor do site Jus Navigandi, traduz de forma muito simples e direta a opinião de quem põe em dúvida a assertiva governamental: "Se o sistema eletrônico eleitoral é imune a fraudes, considerada uma suposta perfeição técnica e a natureza biológica das pessoas envolvidas" - compara ele - "o sistema financeiro já teria adotado o projeto e contratado as pessoas que criaram e utilizam o sistema eleitoral eletrônico para pôr fim aos inúmeros golpes existentes, por exemplo, nos caixas eletrônicos e nos bancos via internet".
A desconfiança baseia-se em dois pontos cruciais. O primeiro, é saber se realmente o voto digitado a um determinado candidato é efetivamente computado e creditado a ele. O segundo questionamento é a probabilidade de violação da identidade do eleitor, a exemplo do acontecido em recente episódio no Senado, quando determinado grupo teve acesso a quem votou em quem.
O Eng. Amílcar Bruzano Filho, um especialista na área, compara a urna eletrônica à "uma máquina de votar inauditável, uma verdadeira caixa preta da qual nenhum partido político, fiscal ou auditor externo ao TSE, jamais teve acesso para conferir sua integridade". E complementa Bruzano: "o que o TSE chama de auditoria é colocar alguém em frente à urna. Isso não é o processo de exame de um sistema, mas um artifício. Um show".
O povo em geral - onde eu me insiro - pouco acesso tem ao assunto, mas pesquisando, toma-se conhecimento de que existem dois Sistemas Operacionais vigentes: o VirtuOs (que pertence a uma empresa privada) e o Windows CE, com mais de seis mil programas e dois milhões de linhas de código, tornando muito difícil a sua análise, se é que estão disponíveis. Esta falta de transparência é que compromete o primeiro pilar de um legítimo processo eleitoral: a votação. Os outros dois são a apuração e a fiscalização. A fase de apuração nos remete às eleições de 1982 no Rio de Janeiro e a famigerada Operação Proconsult, nome da empresa encarregada de proceder à apuração e que teve como objetivo "virar" os resultados de uma eleição já ganha por Leonel Brizola sobre o candidato do Governo federal na época, Moreira Franco. A sistemática consistia em sonegar os resultados da capital (dois terços do eleitorado), onde Brizola alcançara 70% dos votos, e só divulgar uma média da apuração no interior do estado, onde Moreira era majoritário. Não fosse a pronta intervenção de Brizola, exigindo falar à nação pela Rede Globo - que insistia em divulgar a vitória de Franco - a história seria diferente. Quanto à fiscalização, é totalmente inócua - se é que existe - fautor que provoca a incredulidade no sistema.
Existem n maneiras possíveis de fraude na votação, o TSE tem a obrigação de conhecê-las e toda a comunidade digital espera que as coíba com sucesso, mas nada impede de enumerá-las: clonagem de urnas; engravidamento da urna, com mesários em conluio na ausência de fiscais; fraude na apuração, já que o boletim de urna impresso quando do encerramento da eleição nem sempre é entregue ao fiscal; possibilidade de fraude no programa implantado na urna; adulteração dos programas originais implantados nas urnas; e por último, o maldito vírus - e por trás dele os crackers - que tanto mal tem causado em todas as áreas de atuação onde o computador está presente.
Mas afinal, o que é zerézima, presente no título deste artigo? É o neologismo criado pelos técnicos do TSE para indicar que cada candidato, no início do processo eleitoral, tem na verdade zero votos. É a garantia de que todos partem realmente do zero. Lamentavelmente, não é garantia nenhuma, já que qualquer programador, mesmo principiante, sabe perfeitamente que é possível digitar algo, a impressora reproduzir este algo, mas armazenar "o que se quer" na memória do computador. É uma pena que toda a garantia que o TSE nos ofereça seja apenas a zerézima, ou seja, zerézima garantia.
____________________________________________________
O presente artigo foi publicado originalmente no jornal Zero Hora de Porto Alegre, em 24.09.2006, como Tema para debate, causando grande impacto entre os leitores; a maioria se posicionando a favor da tese do autor. No dia seguinte, a esperada resposta do TRE-RS, criticando o artigo e autor. Nos últimos dois anos, pipocaram novas denúncias sobre a tão apregoada infabilidade das urnas e fato que merece destaque: representantes de vários paises vieram ao Brasil conhecer nossas urnas, e NENHUM a adotou…
Davi Castiel Menda
Ao escrever pela primeira vez essa palavra no meu artigo sobre as urnas eletrônicas, confesso que fiquei em dúvida: letra esse ou letra zê? O Aurélio seria o lugar mais indicado mas, por ser uma palavra nova, não constava nem uma, nem outra: permaneci na dúvida.
Evidentemente que meu Dictionnaire des racines des langues européennes não foi de muito proveito, pois imagino que na idade da pedra as eleições eram decididas na base do grunhido e da clava; os trogloditas da época (pois hoje continuam existindo) desconheciam inclusive o zero, o que dirá zeréz(s)ima!
Procurei usar da analogia, e as duas primeiras palavras que me vieram à mente foram enésimo (afinal, a minha área de atuação é matemática) e enzima (que nada tem a ver com o assunto). Estava ganhando a letra esse mas, por mais que eu insistisse, o Word98 do meu computador recusava-se terminantemente a aceitar zerésima com essa letra. A consulta seguinte foi ao Google: ganhou zerésima com 589 citações e zerézima estava lá com 381 (inclusive com texto do TRE paulista e de outros TREs brasileiros). No momento atual, a zerézima do meu artigo encabeça a lista de citações, no Google, da grafia com zê.
Pensando bem, meu tempo de colégio já passou, não estou prestando exame de português, e zerézima com zê me pareceu ser mais forte e muito mais chamativo que zerésima com esse. Até prova em contrário, fico com zerézima!
Nelson Menda
O Thanksgiving, ou Dia de Ação de Graças, é celebrado nos Estados Unidos na quarta quinta-feira de novembro, que este ano cai no dia 27. Rememora uma solenidade realizada, pela primeira vez, em 1621 na localidade de Plimouth, atual Estado de Massachusetts. Naquela ocasião, um grupo de colonos ingleses comemorou a primeira colheita um ano após ter chegado ao Novo Mundo. Tinha sido um período particularmente difícil para os pioneiros, pois metade do grupo original não conseguiu sobreviver aos rigores do inverno, às doenças e à fome, pela própria dificuldade em produzir alimentos no novo país.
Quem ajudou os chamados pilgrim-fathers, ou pais-peregrinos, foi uma tribo indígena local, que ensinou aos recém-chegados os segredos da pesca, o cultivo do milho e a maneira de abater e preparar uma espalhafatosa ave nativa, até então desconhecida dos europeus, o peru. Os colonos convidaram os índios para uma cerimônia conjunta de gratidão a Deus, dando origem, a partir dessa ocasião, ao Dia de Ação de Graças, que vem sendo comemorado, desde então, nos Estados Unidos. É a única ocasião em que todo o comércio, mas todo mesmo, fecha as portas, para reabrir no dia seguinte com uma tradicional e concorrida liquidação de queima de estoques.
No Thanksgiving as pessoas se reúnem ao redor de uma farta mesa e depois das orações de agradecimento saboreiam pratos especialmente preparados para a festividade, com destaque para o peru assado ou recheado acompanhado por um molho agridoce de cranberry, uma espécie de uva nativa, purê de batatas com caldo de carne que os americanos chamam de gravy e o tradicional pumpkin-pie, um pastelão de abóbora.
Pouca gente sabe, mas há exatos sessenta e um anos uma comemoração de Thanksgiving ajudou a mudar a face do mundo. Foi durante a Primeira Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque, sob a Presidência do brasileiro Oswaldo Aranha. Corria o ano de 1947 e as cinzas da Segunda Guerra ainda fumegavam no ar. A então Palestina, sob Mandato Britânico desde a derrocada do Império Otomano na guerra de 14 -18, havia servido de refúgio para milhares de judeus sobreviventes do Holocausto, que vieram se juntar aos seus irmãos que habitavam a Terra Santa desde os tempos bíblicos. Ao lado dos judeus, a Palestina abrigava também uma população árabe constituída por cristãos e muçulmanos. Era preciso, além de criar dois países, um para os judeus e outro para os árabes, delimitar suas fronteiras. Londres entregou a delicada questão, uma autêntica batata-quente inglesa, para o plenário da recém criada organização decidir.
Aranha era o homem certo para essa difícil missão. Enviou uma delegação da ONU para examinar in-loco a situação da região. A delegação retornou do Oriente Médio com uma proposta concreta de Partilha da Palestina, que deveria ser discutida, votada e aprovada por 2/3 do plenário. Como seria de se esperar, os debates foram acalorados e não fosse a enorme experiência parlamentar de Oswaldo Aranha teria sido muito difícil chegar a um consenso. O primeiro dia de discussões coincidiu com a véspera de Thanksgiving e ainda havia muito o que deliberar. Aranha tinha sido Embaixador do Brasil nos Estados Unidos e sabia da importância do Dia de Ação de Graças para os norte-americanos.
Em respeito aos funcionários americanos da ONU, suspendeu os trabalhos por um dia, para que todos pudessem comemorar o Thanksgiving em casa, com suas famílias. Para os diplomatas estrangeiros, porém, foi um dia de intensas negociações, que permitiram a formação de um consenso sobre a necessidade de aprovação do parecer do comitê que havia estado no Oriente Médio. No dia seguinte, um histórico 29 de novembro de 1947, a Assembléia Geral da ONU discutiu, votou e aprovou pela ampla maioria de 2/3 dos votos a Partilha da Palestina, criando condições, no ano seguinte, para a criação do Estado de Israel.
Se a decisão da ONU após aquele memorável Dia de Ação de Graças tivesse sido acatada em sua plenitude, certamente o Oriente Médio estaria vivendo hoje uma fase bem mais tranquila. Quem sabe neste Thanksgiving de 2008, com um novo mandatário às vésperas de tomar posse no governo dos Estados Unidos e com eleições à vista também em Israel e na Autoridade Palestina, ao invés do peru, um animal ruidoso e desajeitado, uma outra ave, dessa feita uma elegante pomba, venha simbolizar o acatamento da sábia decisão da Assembléia Geral da ONU de novembro de 1947.
Davi Castiel Menda
Reza o inciso IV do artigo 3º da Constituição Federal que:
"Art. 3º - Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
IV — promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação".
Em minha vida já sofri toda espécie de discriminação e empresto toda a minha solidariedade e apoio às minorias que sofrem este tipo de crime. Sei que dói, dói muito, é humilhante. Fui discriminado por motivos religiosos, por não ser alto, por não ser rico, por não ter curso superior. No momento atual brasileiro, a discriminação da vez é a da cultura. Quem acompanha a história universal deve lembrar da polêmica revolução cultural empreendida por Mao Tse-Tung com o apoio de sua esposa Jiang Qing, em que milhões de chineses foram ridicularizados, apedrejados, torturados, mortos, pelo simples motivo de serem professores, escritores, artistas, enfim: cultos.
Laurence Peter e Raymond Hull, escritores ingleses, lançaram no ano de 1969 um primor de obra que deveria ser o livro de cabeceira de qualquer pessoa que um dia pretenda trabalhar (ou seja, a humanidade em geral, exceto o príncipe Charles, herdeiro eterno do trono inglês): Todo Mundo é Incompetente – Inclusive Você (The Peter Principle). O livro é extremamente agradável e recomendo lê-lo inúmeras vezes pela forma satírica e irônica, sutileza, ambigüidade e criatividade com que os autores abordam a incompetência nas empresas privadas, nas obras públicas, na política, na arte, nos esportes, enfim, em todos e nos mais remotos campos da atividade humana.
Um dos capítulos mais interessantes e diretamente ligado ao nosso tema é o da Esfoliação Hierarquial, onde além de inventivas explicações, é apresentada uma curva representando os vários tipos de hierarquias, partindo daquela que é inferior a tudo o mais – o sujeito superincompetente – passando pelo incompetente, moderadamente competente, competente e finalmente, lá no topo, o supercompetente. Segundo os autores, a supercompetência, em muitos casos, é ainda “mais condenável” que a incompetência. A explicação do paradoxo é que estes sofrem as piores discriminações, seja por medo ou inveja de chefetes receosos de perder sua posição na escala hierárquica, seja por ter sua autoridade colocada em xeque por alguém com um intelecto superior.
Hoje, no Brasil, num contra caminho da igualdade e em nome de um protecionismo/paternalismo que beira as raias da idiotia, tenta-se implantar um sistema de cotas nas universidades que é totalmente contrário ao inciso IV do art. 3º da Lei Suprema, descrita bem no início do texto. Aliás, atitude muito semelhante aos recém falidos sistemas socialistas e seus hábitos nefastos, onde para tudo havia cotas, inclusive alimentação e educação. Russos e cubanos que o digam!
A criação de cotas, além de provocar um estremecimento racial fantasmagoricamente ressuscitado, na teoria e na prática atendem somente às conveniências individuais (filosoficamente falando, é o fim em si), sendo puramente demagógico, discriminando o ser culto, o discípulo competente, o jovem que estudou, enfim - o que sabe (não interessa se aprendeu em colégio pago ou público, se em casa, se é rico, pobre ou remediado ou até se nasceu sabendo).
Se esse estudante residir no Brasil e, apesar da sapiência, pertencer à raça branca, e um índio ou afrodescendente a ele se igualar em notas num vestibular, o branco será preterido e ficará marcando passo. Esse procedimento se encaixa claramente no conceito de racismo, ou seja, a tendência ou modo de pensar em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas.
Quem acompanha o atletismo mundial, sabe que nos dias de hoje, a proporção de atletas entre os 20 melhores do mundo está assim distribuída aproximadamente: 12% são europeus, 85% de africanos; os demais totalizam 3%. Dentre os 85% de africanos, 56% são de quenianos, que tomaram conta da mais comentada e célebre prova brasileira: a São Silvestre. O leitor já imaginou se, por um decreto, o governo implantasse cotas: os atletas brancos teriam direito a vencer em 50% das vezes? Na hipótese bastante provável de um queniano vencer em 2008, pela nova regulamentação, esse seria desclassificado, subindo ao pódio um atleta branco. Haveria um clamor mundial, o país sofreria sanções e seguramente seria pedida a eliminação pura e simples do Brasil do Comitê Olímpico Internacional, além de outras represálias presumíveis. Você que me lê: mas não é exatamente o que está acontecendo na implantação de cotas nas universidades?
Segundo Ives Gandra da Silva (renomado professor emérito das universidades Mackenzie e UNIFMU e da Escola de Comando e Estado do Exército e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo), “em igualdade de condições, o branco está sendo considerado um cidadão inferior e discriminado, cada vez com menos espaço, nesta terra de castas e privilégios, apesar da Lei Maior.”
O governo, com raras exceções, é formado por políticos medíocres, sem líderes de projeção e com pouquíssima representatividade, preocupados exclusivamente com a eternização no poder, o apadrinhamento, a maracutaia, o mensalão, o empreguismo e o nepotismo. Com a implantação do sistema de cotas nas universidades, aparentemente tentam adotar como princípio constitucional a mediocridade como cavalo de batalha. É a isonomia da falta de inteligência, da falta de competência, da parvoíce, da asnice, da estupidez, da burriquice.
A mim não me importa se meu médico, meu advogado ou político em quem votei, seja afro, mulato, índio, branco, homossexual, peruano, mulher, chinês, verde ou o que quer que seja; mas exijo que sejam os mais competentes, os mais cultos, os mais sábios, os mais estudiosos, os mais inteligentes, enfim, os melhores, pois em suma, minha saúde, minha vida e meu futuro, da minha família e de toda a população brasileira, depende deles num futuro próximo.
________________________________________________________
Posfácio:
“Escrever com ironia é um pouco como escrever em código: a comunicação só funciona se na outra ponta houver um decodificador. Quem se mete a escrever irônica ou satiricamente precisa saber que nem todos têm o decodificador. Não se trata de o leitor ser mais ou menos perspicaz. Ele às vezes simplesmente não tem a informação que o emissor pressupõe que ele tem, ou não tem tempo nem saco para ficar decifrando mensagens crípticas que querem dizer o contrário e só recebe ruído.” – Luiz Fernando Veríssimo
A aleatoriedade - representada pelas loterias - nenhum dos homens é capaz de domar. Ela bendiz os homens num momento; em outros amaldiçoa… - Davi Castiel Menda
Esta história, me contada como verdadeira, ocorreu na cidade de Cachoeira do Sul, interior do Rio Grande, onde morei por dois anos. Um viajante, vendedor de tecidos, miudezas e atavios femininos, dirigiu-se a um dos tantos hotéis da cidade, preencheu a ficha de hóspedes e, levando em conta que toda a rede hoteleira estava com sua lotação esgotada, devido à festa que anualmente lá se realizava, foi alojado junto a outro hóspede, que residia permanentemente no hotel. Duas pessoas distintas, idosas, honestas, camas separadas é claro.
O viajante, herói da nossa história, deixou dois de seus trajes (considerando-se que a história ocorreu por volta dos anos 50, juro que fiquei tentado a usar “duas de suas fatiotas”…) pendurados no único armário do quarto, e rumou para o interior do município, procedimento freqüentemente adotado pelos viajantes. Por três ou quatro dias enfrentou todo o tipo de estrada, mas o sacrifício foi compensado pelo bom índice de vendas junto aos bolicheiros locais.
De volta à sede do município, qual não foi sua surpresa, ao tomar conhecimento que seu companheiro de quarto falecera e, mais surpreso ainda, ao constatar que uma das suas fatio… roupas – a melhor, o terno azul-marinho – fora usada para vestir o defunto na sua derradeira viagem!
Refeito da invulgar situação, superou o fato rápida e cavalheirescamente, sem queixas. Jantou, saboreou seu cafezinho, e dirigiu-se à sala onde se reuniam os viajantes para conversar, trocar idéias, contar causos.
Nem bem sentara, surgiu conhecido vendedor de bilhetes que, sem muita conversa, dirigiu-se – todo sorridente - ao nosso viajante, cumprimentando-o: “Doutor, meus parabéns; avisei, quando lhe ofereci o bilhete, assim que o senhor chegou à cidade, que eu estava lhe vendendo a sorte grande. Estou lhe procurando desde ontem para dar a boa notícia!”
O viajante teve que se refazer de mais um susto, o terceiro do dia. Lembrava de ter comprado um bilhete, mais para ajudar o vendedor, pois sinceramente, não acreditava que a sorte lhe sorrisse algum dia. Nem imaginava o número do bilhete e, se o rapaz não lhe procurasse, provavelmente o jogaria fora sem ao menos se dar ao trabalho de conferi-lo.
Todos os outros viajantes, hóspedes, o proprietário do hotel, a camareira, e até o porteiro, se deslocaram em comitiva ao quarto do felizardo para conferir o bilhete. O viajante, com passos decididos e mais rápidos do que o normal, chave do quarto na mão, abria o séquito; logo a seguir, o bilheteiro, lista oficial da loteria a tiracolo, evidentemente excitado e nervoso com a perspectiva de uma boa gratificação e, fechando o cortejo, aquele povaréu ansioso para testemunhar algo de diferente, que espantasse a mesmice de todas as noites.
Procuraram o bilhete na mala, nas gavetas, no armário, e… de repente, a lembrança terrível: o bilhete fora guardado justamente num dos bolsos do paletó, da roupa azul-marinho, aquela mesma usada para vestir o hóspede falecido!!!
Davi Castiel Menda
O artigo que estava pautado para publicação nesta segunda-feira, a respeito dos crimes e imbróglios envolvendo ganhadores da mega sena, foi amplamente divulgado na noite de ontem no programa Fantástico da Rede Globo. Por esse motivo o substituímos, acredito que com vantagem para os leitores do blog, pelo texto abaixo.
___________________________________________________
Prepare-se para tomar conhecimento de uma notícia que irá realmente lhe surpreender: desde 2003, os apostadores das loterias da Caixa desprezaram R$ 236.000,00 em prêmios – diariamente!
Este o valor médio dos R$ 516 milhões (meio bilhão de reais) acumulados nas oito loterias da Caixa e que prescreveram nos últimos seis anos. São cartões (ou bilhetes da Federal) mal conferidos ou esquecidos nos bolsos que, se recebidos, poderiam fazer a alegria de milhares de pessoas. Após três meses da extração, esses bilhetes premiados prescreveram e, segundo a Caixa, seu destino foi o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior, programa do Governo Federal que colabora com cerca de meio milhão de alunos a cursar a faculdade. Menos mal…
A grande campeã em bilhetes prescritos, só neste ano de 2008, é a Mega Sena com R$ 25.320.000,00 não reclamados; em segundo lugar na relação, a Loto Fácil com R$ 24.210.000,00.
Os apostadores deveriam lembrar que, ao adquirir um cartão de qualquer loteria ou bilhete, na verdade estão realizando um negócio, um investimento. Se a aposta for de apenas um volante e não um bolão – a relação custo/benefício é excelente, mesmo considerando as chances mínimas de acerto. Esse volante é uma aplicação e tem juridicamente o valor de um contrato entre você e a Caixa, com a intermediação do agente lotérico, cujo valor deixa de ser o praticamente simbólico R$ 1,00, e assume a importância do prêmio que poderá atingir milhões de reais. Então, se você - que incluo no universo de apostadores em geral - tem na mão um contrato que eventualmente poderá valer milhões, deveria tomar mais cuidado ao guardá-lo e principalmente conferi-lo.
Deixar mais de R$ 200 mil em prêmios todos os dias prescrever – mesmo que o destino seja meritório – é um ato condenável! Pessoal - vamos prestar mais atenção: ou vocês se “profissionalizam”, ou deixem de apostar.
Davi Castiel Menda
Neste segundo artigo, por ser um sábado, fim de semana, vamos procurar tratar do tema de uma maneira mais light. Nos primórdios da Loteria Esportiva, lá pela década de 60, os volantes eram nominais, obrigando o apostador a preencher o nome em cada volante apostado. Ao longo do tempo, essa regulamentação caiu por terra; entretanto, pela inexperiência de uns, ou criatividade exagerada de outros, ficaram agregadas ao folclore da Loteca situações tragicômicas e surrealistas. Antes de iniciar a leitura lembre-se de que naquela época eram 13 jogos (hoje são 14). Os relatos abaixo são genuinamente verídicos.
_____________________________
Certo apostador sonhou com sua mãe, falecida recentemente, indicando-lhe no sonho, com a mais absoluta precisão, quais seriam os treze ganhadores na Loteria Esportiva. Excitadíssimo com a possibilidade de equilibrar-se financeiramente, marcou um volantezinho e, em homenagem à falecida, subscreveu seu nome no volante. Aguardou com impaciência a chegada do final de semana e, sábado e domingo acompanhou com o maior interesse os jogos pelas emissoras de rádio. Coincidência ou não, acertou todos os jogos!
Teve que dividir o prêmio com seus quatro irmãos já que o cartão premiado, no nome da mãe (falecida), entrou em inventário, com inteira justiça.
____________________________
O padre de certa paróquia do interior, fanático por futebol e assíduo na Loteria, arriscava semanalmente um cartãozinho, sempre pensando em aumentar os recursos financeiros da sua igreja. Para não ficar mal com os fiéis e rotulado como jogador, sempre preenchia o volante em nome do sacristão, sem que esse soubesse.
Certo dia não deu outra: treze pontos! Feliz da vida, comunicou o fato ao sacristão que se mostrou surpreso pelo uso indevido do seu nome, exigindo como compensação, para receber o prêmio, uma comissão de dez por cento. O padre, indignado, alegando que o prêmio seria integralmente revertido para os pobres, ofendeu o sacristão, chamando-o de ladrão e outros epítetos censuráveis. Estava criado o impasse: um tinha o cartão - o padre - mas em nome de outrem – o sacristão.
A essas alturas, toda a população da cidadezinha já tomara conhecimento dos mínimos detalhes do imbróglio, tendo sido criada uma comissão, entre os paroquianos com o objetivo de convencer o sacristão a abrir mão da percentagem exigida. Esse, furioso por ter sido ofendido pelo padre, afirmou que, para receber o prêmio, o valor tinha sido reajustado para vinte por cento! O padre, mais indignado, possesso, chamou de ladrão por inúmeras vezes o sacristão. E esse cada vez mais furioso pelas ofensas.
Para encurtar a história, depois de idas e vindas, ultrajes, injúrias e afrontas, finalmente o prêmio foi cobrado, cabendo 50% para os pobres da paróquia e 50% para o “ofendido” sacristão, pelos irreversíveis danos morais sofridos, e uso indevido do seu nome.
______________________________
Um colega meu de empresa, leigo de carteirinha em matéria de futebol e incapaz de apostar um centavo, era assediado semanalmente por vizinho de rua, tentando convencê-lo a apostar na Loteria Esportiva. Tanto insistiu que, o meu colega, certa semana, cedeu e milagre dos milagres: acertou (ou acertaram?) os treze pontos; e o melhor, por terem ocorrido algumas “zebras”, o teste (naquele tempo não era concurso, era teste mesmo) encontrou apenas três ganhadores, rateando um prêmio compensador, algo assim em torno de 300 mil dólares.
Encerrados os jogos, lá pelas seis ou sete da tarde, tudo era festa, comemoração, caipirinha, tapinha nas costas, e nada do vizinho-sócio (o dos palpites, já que quem “bancou” integralmente o valor da aposta foi o meu colega) ir embora. Pela meia-noite conseguiram despachá-lo.
E não é que na manhã seguinte, nem bem o dia tinha raiado, e o “dono dos palpites” bateu na casa do ganhador, acompanhado de um advogado, com um documento datilografado (sou do tempo da máquina de escrever) dividindo o prêmio, destinando 50% a cada um. O meu colega, previsivelmente, deu um “corridão” nos dois e o assunto foi o tema dominante por várias semanas na cidadezinha de São Leopoldo, Rio Grande do Sul.
Após a intervenção de amigos comuns – e até da imprensa – o meu colega (que jura que daria a metade ao palpiteiro, não fosse o episódio do advogado), após ter a capota do seu carro conversível totalmente danificada por quimbas de cigarro, concordou em ceder 20% do prêmio ao vizinho palpiteiro.
______________________________
Os três casos acima envolveram jogadores bissextos, sem a menor experiência lúdica. Tragédia maior aconteceu com um apostador que se considerava um verdadeiro profissional e mais, com fama de malandro. Seu casamento, estando por um fio, inclusive com data marcada para a separação definitiva, e com receio de acertar na Esportiva e ter que dividir o prêmio com a esposa preenchia invariavelmente os volantes apostados em nome da amante.
O final é previsível: acertou os treze pontos e, para gáudio das leitoras, ficou sem a mulher, sem a amante, e sem o dinheiro do prêmio.
_______________________________________________________
Posfácio:
Com relação ao comentário do Sérgio Vasconcellos sobre a escolha do título, é claro que ele é importante e o fiel da balança na decisão do leitor se irá lê-lo ou não. A manchete mais célebre na imprensa sensacionalista brasileira ocorreu na década de 60: "Cachorro fez mal à moça". Não tire ilações precipitadas - estudante comprou um cachorro-quente na saída do colégio e por estar a salsicha provavelmente estragada, provovou-lhe um problema estomacal. Mas o objetivo do jornal, que era a venda, foi atingido plenamente.