Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

21/10/08

Como ganhar na Mega Sena

Davi Castiel Menda

"…com esta metodologia em prática - e com menos de R$ 20,00 - você sabe com antecipação, que independentemente dos números que forem sorteados, por mais estrambóticos que sejam, acertará as seis dezenas da mega sena."

O primeiro homem a chegar a conclusão que a seqüência correta seria "um, dois três…" e não "um, dois, muitos…", foi o primeiro matemático da história; o primeiro bruxo, o primeiro a dar o passo inicial à ciência que investiga relações entre entidades definidas, abstrata e logicamente.

Todos os que estão envolvidos, quer seja estudando, ensinando ou admirando esta prodigiosa ciência das grandezas, tem um preito de gratidão a Descartes, Pascal, Newton, Leibnitz, Euler, Lagrange, Comte, Laplace, Albert Einstein. Particularmente, adotei o Professor Júlio César de Mello e Souza como meu ícone, pela forma divertida com que procurava atrair seus alunos e leitores; foi editor da revista Al Karismi na década de 40. Meu ícone número dois foi Malba Tahan, autor de numerosos livros, sendo o mais conhecido O Homem que Calculava. Não por acaso, o Professor Mello e Souza e Malba Tahan eram a mesma pessoa.

A esta lista, a partir de agora, sou obrigado a acrescentar um contemporâneo nosso, Barry Waterhouse, inglês, matemático, que obteve seus 15 minutos de fama não por fórmulas que ficarão registradas nos anais da matemática, mas simplesmente por ter faturado R$ 21 milhões de reais numa das tantas loterias inglesas de números, juntamente com sete colegas de faculdade.

A revista Isto É publicou em novembro de 2006 uma reportagem com o título A matemática da sorte, demonstrando tintim por tintim todo o raciocínio da milagrosa fórmula milionária engendrada pelo britânico. Aliás, fórmula que nos anos 80 já era utilizada por vários apostadores que se reuniam diariamente na extinta lotérica Casa de Apostas, localizada em Porto Alegre, com resultados pouco satisfatórios. Digno de nota, que tanto o novo milionário, Waterhouse, e a ex-lotérica de Porto Alegre tenham em comum o mesmo vocábulo: Casa = House. Algum indício especial?

Pelo menos o matemático inglês foi sincero ao afirmar que: "Foi sorte. " E eu concordo com ele em gênero e número. Foi pura sorte! Acompanhem a sistemática utilizada (a mesma, mesmíssima que era usada em Porto Alegre), segundo a reportagem da Isto É: "Primeiro Barry escolheu uma loteria (semelhante à Mega-sena brasileira) que apresenta 49 números em sua cartela. A partir daí, os 49 números da loteria foram escritos em pedaços de papel e colocados numa caixa. Os oito participantes do bolão apanharam então seis números cada um, o que deixou um número sobrando na caixa. Esse que restou é usado para começar uma nova linha de seis números pelo próximo apostador, juntamente com os demais números que voltam para a caixa, e assim sucessivamente."

É claro que Barry Waterhouse nunca lerá este artigo e, se hipoteticamente o fizesse, se finaria de tanto rir (também pudera - com R$ 21 milhões no bolso), mas para aqueles que pretendem seguir o método, posso afirmar que se contratássemos um macaquinho ensinado, treinado para preencher volantes ao invés de catedráticos sortear papeizinhos, teríamos exata, exatamente a mesma chance dos oito felizardos ganhadores. Foi sorte! Foi sorte mesmo, Professor Barry!

Sob determinado ângulo, até que é um jogo interessante e eu, pessoalmente, durante algum tempo, me entusiasmei com a idéia; e é explicável. Se você utilizar o método adaptado à nossa mega-sena, estará apostando 10 volantes com seis dezenas, cobrindo todo o universo de 60 dezenas possíveis, e a um custo nada assustador.

O que é mais difícil numa aposta? É claro que acertar as seis bolinhas que saltarão randomicamente dos globos! E com esta metodologia em prática, você sabe com antecipação, que independentemente dos números que forem sorteados, por mais estrambóticos que sejam, que acertará as seis dezenas da mega sena. O problema todo é "torcer" desesperadamente para que as seis se concentrem no mesmo cartãozinho. É deveras problemático! 

A revista Isto É finalmente nos informa que "Barry cansou, após oito anos de tentativas frustradas, de simplesmente tentar a sorte arriscando números correspondentes a datas de aniversário de amigos e decidiu, aí sim, deixar de ser modesto e pôr em prática o seu raciocínio de professor catedrático de matemática da Bradford University and College." Ah, agora sim está explicado…

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20/10/08

Paralelo 30

Davi Castiel Menda

Prefácio:
Sempre que concluo um texto, uma dúvida atroz me deixa em estado de pânico: e se por uma coincidência sem precedentes, alguém já escreveu algum texto igual ao meu, e tragédia das tragédias, antes de mim? E se tivemos a mesma idéia simultaneamente? Lembro de que quando era o editor do jornalzinho 13 Pontos, publicamos uma charge um dia após o Grêmio ter sido derrotado pela Portuguesa (está aí – mais uma!) exatamente igual à publicada por Zero Hora. Uma era cópia fiel da outra, e sem a menor possibilidade da ocorrência de plágio.
Provavelmente, já foram escritos no mundo aproximadamente 144 bilhões de textos, mas acho muito pouco provável que algum deles tenha se ocupado da matéria que abordo no texto abaixo. Só por esse motivo, é um dos meus favoritos.

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Coquimbo no Chile, Porto Alegre no Brasil, Durban na África do Sul, Marree, Bourke e Grafton na Austrália: o que estas cidades tem em comum?

É melhor começar do princípio, pois a teoria que submeteremos à sua crítica e apreciação, se realmente comprovada, possivelmente ocasionará um êxodo maciço de pessoas para o… Esqueça, a experiência nos indica que deveremos recomeçar mais aquém para um perfeito entendimento. Temos certeza que, partindo da proposição que nos serviu de base, ainda que de modo provisório, e cuja verdade seja inquestionável, enunciaremos com mais clareza a questão.

Imagine um carrossel, aquele aparelhinho que é atração em todas as feiras e parques de diversões. Quem não conhece um carrossel, um conjunto constituído de um rodízio que sustém uma viga vertical, à qual se prendem hastes horizontais em cujas extremidades estão presos cavalos de plástico, carrinhos, aviõezinhos ou outras figuras que giram com o eixo?

Prosseguindo com o nosso exercício de mentalização, posicionemos os cavalinhos na parte interna do carrossel, no círculo interior, distanciados 2 metros do eixo (na realidade, estes 2 metros representam o raio deste círculo); num segundo círculo, os carrinhos a 4 metros do eixo e, finalmente, na parte exterior do carrossel, os aviõezinhos a 6 metros do eixo.

É claro que todos devem lembrar da fórmula - 2.Pi.R - da circunferência, mas para facilitar, informamos que a dos cavalinhos (a interna) é igual a 12,56 metros; a segunda, a dos carrinhos é igual a 25,12 metros; e, finalmente, a externa, a dos aviões é igual a 37,68 metros. Concluída a construção – figuradamente - do carrossel, o passo seguinte é vender ingressos para a criançada: quem sabe R$ 1,00 com direito a dez voltas, com a duração de cinco minutos?

Lotação completa - vamos pôr em funcionamento o carrossel e dar as voltinhas prometidas. Pronto? Todos satisfeitos? Crianças se divertindo à beça, o gerente do parquinho exultante com o faturamento, pais orgulhosos de seus filhos, fotos coloridas de recordação. Parece que tudo está correndo às mil maravilhas; entretanto, não é bem assim: as crianças que andaram nos aviõezinhos obtiveram flagrante vantagem sobre as outras, quer seja na velocidade, quer seja na distância. Os “internos” subvencionaram o passeio dos “externos”!

Os pequenos jóqueis, os da “raia” interna, nas dez voltas realizadas, percorreram a distância de 125,6 metros, a uma velocidade de 1,5 km por hora. Os promissores e audazes pilotos de Fórmula 1, obtiveram um desempenho duas vezes melhor: nos mesmos cinco minutos, completaram 251,2 metros, a uma velocidade de 3 km por hora. Entretanto, os intrépidos pilotos dos aviõezinhos, bateram o recorde da garotada: nos mesmos cinco minutos, percorreram 376,8 metros, a uma velocidade de 4,5 km por hora.

Todas as crianças pagaram o mesmo valor, todas andaram dez voltas, todas permaneceram por cinco minutos divertindo-se no carrossel, mas as posicionadas na circunferência dos aviões passearam muito mais e numa velocidade mais acima que as do grupo dos carrinhos e estes, por sua vez, mais do que o pessoal dos cavalinhos. Afinal, não são as altas velocidades que produzem adrenalina?

O princípio de igualdade, assegurado constitucionalmente, foi arranhado, não houve isonomia. Se você não está convencido, imagine três carrosséis independentes, com dimensões diferentes. Seriam cobrados os mesmos valores? É evidente que não. Quanto maior a aparelhagem, mais material gasto, maiores investimentos, maior o consumo de energia, maior a expectativa de lucro; e os fins justificando os meios, mais divertimento para a criançada.

Um paradoxo de implicação material como esse, inédito, não tendo registro no nosso cérebro, vai gerar uma pequenina semente de dúvida. Vamos germiná-la fantasiando o problema em outra dimensão, numa escala muito, mas muito maior: a idéia é substituir o carrossel pela nossa velha e conhecida Terra, e projetar a circunferência dos cavalinhos lá no círculo Antártico, os carrinhos sobre a Latitude S-30 e, a linha do equador (Latitude 0) no lugar dos aviõezinhos. O princípio é o mesmo – a Terra não deixa de ser um carrossel de proporções gigantescas.

Os habitantes da linha do equador terrestre percorrem diariamente, acompanhando o movimento de rotação, uma distância de 40.000 km – a circunferência máxima da Terra - a uma velocidade de 1.666 km por hora (resultado obtido pela divisão de 40.000 por 24 horas), enquanto os habitantes do Paralelo 30 - Porto Alegre e as demais cidades na introdução relacionadas - “viajam somente” 34.600 km a 1.443 km por hora. Os que moram sobre a linha do equador e adjacências “passeiam” todos os dias muito mais e mais rápido que todos os outros terráqueos. Quanto mais próximo dos círculos Ártico e Antártico, mais se acentua a diferença. Nos levam alguma vantagem a exemplo do carrossel do parquinho? Empiricamente, “vivem mais celeremente” do que nós ou o efeito se dá ao contrário? A teoria da relatividade tem algo a ver com a tese apresentada? Os argumentos apresentados serão devaneios do autor?

Comentários a respeito serão muito bem-vindos.

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Posfácio:

Meus agradecimentos à Samantha Castiel-Menda pelo cálculo da circunferência na Latitude S-30. Este cálculo poderia ter sido feito através de coordenadas espaciais (x,y,z), porém ela apresentou-me uma fórmula mais enxuta, de solução rápida, sendo assim…

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19/10/08

Olhar dominical - 8

                   

                 

Bom domingo!

 

 

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17/10/08

Milagre! Milagre!

Davi Castiel Menda

Baseado em fatos reais.
Dias atrás, enquanto o sono não vinha, me deliciava do segundo melhor esporte noturno que existe: girar o dial do rádio ininterruptamente, dando-me ao luxo de desfrutar vários assuntos simultaneamente. O que mais me despertou interesse no momento, foi a arenga de um pregador milagreiro. Fantástica as suas curas. Desde bicho de pé e frieiras até doentes em estado terminal eram curados com a simples força da fé, além, é claro, de uma pequena ajudinha: comprando um CD que tinha qualquer coisa parecida com a palavra "milagre" no seu título.

Em reconhecimento aos seus feitos extraordinários, o programa era recheado com telefonemas espontâneos de ouvintes que corroboravam com seu testemunho a tão invejável virtude do pastor de produzir milagres ao seu bel-prazer.

Liga uma senhora de Canoas - Rio Grande do Sul, aos prantos, agradecida ao pregador por mais uma graça alcançada, e é convidada a relatar aos outros irmãos o seu ca(u)so:
- Pastor, muito obrigada. Obrigada mesmo. (Choro). Na semana passada estava desesperada, tinha que adquirir alguns remédios e material escolar para o meu filho (mais choro - afinal mãe é mãe), e necessitava urgentemente de duzentos reais, e só tinha R$ 100,00 no banco (na verdade, na verdade, pra não falar só mal do pastor e da sua consulente, manter qualquer valor - positivo - depositado em banco, e não estar no cheque especial, já pode e deve ser rotulado como um milagre). Uma vizinha - sempre é invocada a presença impessoal de uma amiga e/ou de uma vizinha, que servem para dar força à história, além de pertencer ao rol de personagens que normalmente perambulam no limbo do anonimato - me comentou sobre o senhor e do seu CD. Eu o comprei, e à noite, antes de me deitar, coloquei o cartão do banco em cima do CD. Pastor, o senhor não vai acreditar - glória ao Senhor - de manhã, quando fui ao banco, ao invés dos R$ 100,00 na minha conta, tinha os R$ 200,00 que eu tanto precisava! Milagre! (Crise histérica de choro, duplo - da mulher, pelo milagre - e meu, por estar escutando esse tipo de programação).

Presumo que a tal senhora canoense deva ter resolvido seus problemas de ordem financeira, tendo em vista que o milagre atendeu plenamente aos seus anseios. Mas a pergunta que não quer calar: não seria muito melhor e mais interessante, financeiramente falando, continuar noite após noite, deixando o cartão sobre o CD, ao invés de retirar o valor do banco? Já imaginaram? Dobrando o capital diariamente: 100 - 200 - 400 - 800 - 1.600 - 3.200 e assim por diante, rumo ao infinito, e só de vez em quando dar uma sacadinha para pagar as contas?

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16/10/08

Política, Matemática & Amenidades

Davi Castiel Menda

Passei o fim de semana acamado e uma das formas de driblar o tempo foi girando o dial do meu antigo e fiel portátil até cansar e, finalmente, estacionar numa rádio especializada em futebol. Deixo de dar o nome, mas que me lembra Fernão Dias Paes Leme, ah me lembra… Um repórter, ao anunciar determinada matéria, se saiu com a seguinte manchete: Cabral descobriu o Brasil - Colombo descobriu a América - Graham Bell descobriu o telefone!

Fiquei curioso em saber de que forma Graham Bell teria “descoberto” o telefone? Em alguma escavação próxima às pirâmides do Egito? Quem sabe utilizando o periscópio de Monte Palomar e apontando para a Lua? Em alguma camada do pré-sal em território brasileiro?

Por favor, jovens da imprensa: jornalismo não é só escrever ou falar frases bonitinhas ou de efeito. Tem que saber história, geografia, economia, religião, futebol, política, matemática, et cetera. E que, apesar de “descobrir” ser um remoto sinônimo de “inventar”, Graham Bell não descobriu o telefone: Graham Bell INVENTOU o telefone!

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Trinta dias antes da eleição para o primeiro turno, conversava com a minha filha caçula, e apesar do choque de gerações, onde um diz branco, e o outro contrapõe com preto, finalmente nos amoldamos a uma tese análoga em relação à totalmente atípica eleição para prefeito em Porto Alegre com oito candidatos: homens contra mulheres – quatro de cada lado. Os homens, praticamente de direita ou centro-direita, prudentemente tentando apresentar seus projetos; as mulheres, de esquerda, brigando palmo a palmo entre si para garantir uma vaga ao segundo turno. A nossa premissa: o campeão de votos do sexo que totalizasse o maior número de sufrágios seria o eleito para prefeito em 2008.

O sexo masculino, neste primeiro turno, totalizou 52% - o mais votado foi José Fogaça do PMDB; o percentual das mulheres somou 48% - a mais votada: Maria do Rosário do PT. Praticamente empate técnico, o que tornaria temerária uma previsão de vencedor para o segundo turno, a não ser por palpite ou torcida para este ou aquele candidato.

Entretanto, realizada a primeira pesquisa do Ibope, o candidato Fogaça somou 56% dos votos válidos contra 44% de Maria do Rosário. Esses valores foram suficientes para que alguns jornalistas, além do próprio PT – em propaganda no horário eleitoral - afirmassem categoricamente que Maria do Rosário crescera 100% sobre a votação do primeiro turno (22,73%), distorcendo a lógica. Salvo melhor juízo e apelando para a velha matemática, se nos basearmos na tese proposta - homens versus mulheres ou direita versus esquerda - na realidade Maria do Rosário caiu 10%. A esquerda, representada por Maria do Rosário, que teoricamente deveria totalizar 48%, pendeu ao patamar de 44%, segundo o Ibope. Fogaça comeu uma fatia das esquerdas e, pelo menos por enquanto, navega em mar calmo com sua política de apresentar realizações e projetos, não atacando opositores; enquanto isso, sua adversária Maria do Rosário, se lamuria com o abandono imposto por Lula à sua candidatura, fato dia a dia mais constrangedor. Não sou marqueteiro, mas um lembrete: apoio de Lula não significa garantia de votos. Em recente pesquisa na cidade natal do presidente, Garanhuns, onde ele é adorado, numa prévia para as eleições presidenciais de 2010, José Serra ganhou de goleada de Dilma Rousseff, a candidata de Lula. E para completar, faltando duas semanas para a reta final, o PT ainda não chegou à conclusão sobre quem é a candidata do partido à Prefeitura de Porto Alegre: se Maria, se Rosário, se Maria do Rosário…
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Três dias antes do Grenal, inexplicavelmente, Zero Hora publicou uma entrevista com o caipirão Milton Neves, figura não grata entre os torcedores tricolores pelas suas antipáticas e conhecidas atitudes anti-gremistas. Não entendi mesmo! Matéria de cronista de rede concorrente, na semana do Grenal, e ainda elogiando um dos participantes em detrimento do outro?

Mais uma vez, com o claro objetivo de destilar fel contra o Grêmio, afirmou que o Internacional era o melhor time do campeonato, e que a partir daquela data, que o mundo se preparasse: o Inter arrasaria (estamos aguardando ansiosos pela oracular previsão).

Eu e mais cento e noventa milhões de brasileiros apreciariam, sinceramente, entender a prestidigitação que faz com que um clube que ocupa a décima posição no Campeonato Brasileiro, consiga ser superior aos líderes (ao primeiro colocado, ao segundo, ao terceiro e assim por diante).

Preparem-se: se o Grêmio for campeão, ele, Milton Neves - qual Cleópatra – consegue emprestada uma áspide no Butantã e dá um jeitinho de ser mordido. O perigo – atenção Ibama! - é a pobre cobra morrer envenenada!

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Assisti ao primeiro debate entre Kassab e Martha Suplicy. O atual prefeito e candidato à reeleição, inicialmente nervoso, depois se recuperou; a senhora, despreparada e desesperada, atacando gratuitamente o candidato que implorava insistentemente por um choque de idéias, de projetos. Martha perdeu fragorosamente e, no dia seguinte, tentando reverter o quadro, “partiu para a ignorância total”, acusando seu adversário de homossexual, através de propaganda sub-reptícia do seu partido na TV. Não sei não, mas o PT vai se especializando ao longo do tempo em trapalhadas-político-sexuais: é o “relaxa e goza”, é o Presidente insinuando sobre a preferência sexual de moradores de Pelotas, é o Mauro Aurélio “top top top” Garcia, e agora mais esta…

Martha Suplicy, a tão badalada e festejada madrinha do GLBT, escorregou feio e pôs em risco uma eleição que se desenhava parelha e fundamental aos propósitos do PT em 2010, na eleição presidencial.

Usando um jargão turfístico, Kassab só perde caso “se atire do cavalo”.

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Esta crônica estava prontinha, quando tomei conhecimento de mais uma indecência cometida contra um clube gaúcho. Mais uma, já que em 2005 o STJD anulou 11 jogos do Campeonato, por “suspeita de contaminação”, numa gaiatice de matizes inéditas no futebol mundial, com o claro objetivo de beneficiar o Corinthians e prejudicar o Internacional. A parcialidade na época foi tão gritante que até torcedores gremistas (e simultaneamente anticolorados) saíram em defesa do Internacional.

Hoje o assalto foi perpetrado contra o Grêmio, líder do campeonato, com três jogadores suspensos (além do Tcheco) com penas desproporcionais aos deslizes cometidos, com o objetivo de desestabilizá-lo da liderança do Campeonato Brasileiro, fato já denunciado anteriormente. Pelo feedback negativo da situação, tenho certeza que até a governadora do estado vai interferir. Recomendo a leitura da coluna de Paulo Santana em Zero Hora (16.10.08), a mais dura e agressiva em quase quatro décadas de atuação do polêmico cronista. Cito alguns dos adjetivos mais “carinhosos” atribuídos aos juízes do STJD na sua coluna intitulada “Grêmio roubado!”: “astúcia misturada com má fé; miseráveis; malditos sejam por todos os tempos seus assaltantes da esperança; olhem-se nos espelhos e se envergonhem para sempre do que fizeram; aborteiros; conjunto solerte de filibusteiros; valhacouto de pérfidos julgadores; esta sem-vergonhice aparatosa de poder discricionário; estes bunodontes de focinhos cartilaginosos; sujeira; basta desta cáfila de salteadores”!

Achei sensacional os “bunodontes de focinhos cartilaginosos”! Se o circo já estava pegando fogo, na economia, na política e no futebol (quosque tandem abutere Dunga et CBF patientia nostra), agora jogaram gasolina para apagá-lo! Não vão faltar notícias para os próximos dias.

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14/10/08

Aposto no Fim do Mundo!

Davi Castiel Menda

Das pessoas que conheci em minha vida, uma das mais exuberantes chamava-se Jorge Rolla. Sempre elegantemente vestido, deixava seus interlocutores em êxtase ao comentar fatos passados, principalmente pelas suas fantásticas e extraordinárias histórias, geralmente versando sobre apostas.

O seu Rolla – como era mais conhecido – apostava qualquer coisa, qualquer coisa mesmo: resultado de eleições, futebol, corrida de cavalos, previsão do tempo, par ou ímpar nas placas de automóvel, etc, etc. Imagine, hipoteticamente, esta situação invulgar: alguém tinha palpite que o Íbis (autoconsiderado o pior time de futebol do Brasil) ganharia do Real Madrid (um dos melhores da Espanha), numa hipotética partida entre os dois, por 16×0 – era só procurar pelo seu Rolla. Ele arbitrava a cotação, tal qual a Bolsa de apostas londrina, e respondia na hora: pago 40.000 por 1 - ou seja, se o Íbis ganhasse do Real Madrid exatamente de 16×0, o apostador receberia R$ 40.000,00; caso contrário o seu Rolla ganharia R$ 1,00. Resumindo, pura diversão para o apostador - mesmo considerando-se a relação custo/benefício - mas para o seu Rolla, a aposta era encarada com a maior seriedade.

É claro que apostas esdrúxulas semelhantes a essa eram invariavelmente ganhas por ele, mas um dia a casa caiu, através de uma aposta inteligente, que merece ser escrita e contada, antes que se perca no tempo. O seu Rolla foi procurado por um comerciante, homem de muitas posses, que lhe propôs esta singular proposição: ele afirmava que o sol continuaria a nascer diariamente, durante os próximos 365 dias. À primeira vista, uma obviedade; nas entrelinhas, o proponente jogava a responsabilidade ao seu Rolla de apostar no fim do mundo. Entretanto, considerando-se que à época, me parece que em 1961, assistíamos com preocupação aos lances da guerra-fria entre Estados Unidos e Rússia, não seria um evento tão inesperado como poderia parecer.

Mas afinal, qual a cotação para o caso do não nascimento do sol e conseqüentemente a ocorrência do fim do mundo? Esta a indagação que deixou a todos curiosos. Fiel ao lema de não recusar uma aposta e com sua honra de apostador em xeque, o seu Rolla pediu prazo de um dia para dar a resposta, e comentam que até fórmulas e livros de Laplace, um dos pioneiros em cálculo de probabilidades, foram consultados. Conforme combinado, no dia seguinte, com um público recorde em volta, quase todos sócios do tradicional Clube do Comércio, informou a cotação: “considerando os hábitos regulares do sol no passado, a chance dele não nascer é de uma para 2.103.495”. Isto significava que, se o sol não nascesse, em qualquer dia do próximo ano, ele receberia do apostador R$ 2.103.495,00 – caso contrário teria que desembolsar durante um ano, R$ 1,00 diariamente. O sujeito topou e um aperto de mão selou a aposta.

Passado aquele momento natural de perplexidade em que todos falam com todos ao mesmo tempo, os amigos mais chegados se questionavam: o autor da aposta gerara um paradoxo, uma verdadeira armadilha em que somente ele se beneficiaria. Se o sol continuasse nascendo diariamente, o que era infinitamente o mais provável, ele, o apostador, receberia um total de R$ 365,00. Caso o fim do mundo se tornasse uma realidade, ou seja, o sol parasse de nascer, o apostador, teoricamente, teria que pagar mais de dois milhões, que o seu Rolla nunca chegaria a receber. Qual a vantagem em aceitar uma aposta dessas?

Saboreiem a genial resposta do seu Rolla:
- Em primeiro lugar, se eu recusasse esta aposta, aquilo pelo qual eu lutei durante toda a vida, a seriedade e a palavra no jogo, o fio-de-bigode, cairiam por terra e eu nunca mais poderia pensar em apostar, sequer grãos de feijão. Em segundo lugar, espero pagar com a maior satisfação R$ 1,00 diariamente, sinal de que todos nós conseguimos ultrapassar a barreira de mais um dia, vivos. Mas, se o impensável acontecer, e o sol não nascer, tenho a mais absoluta certeza de que, pelo menos no último milionésimo de segundo antes do fim, eu ainda terei tempo para pensar, e por que não, vibrar: ganhei dois milhões!

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Posfácio:

Jorge Rolla era chamado pelos mais íntimos por Foguinho, mesmo apelido do Irmão, o não menos famoso Osvaldo Rolla, treinador do Grêmio e Cruzeiro e mais tarde cronista desportivo. Jorge Rolla foi um dos grandes ganhadores da Loteria Esportiva nas décadas de 70 e 80, sendo inclusive objeto de reportagem da revista Veja por esse motivo. Faleceu em oito de julho de 2004 e foi um dos meus maiores amigos. Essa crônica é em sua homenagem.

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13/10/08

A Dona Nair e o Presidente

Davi Castiel Menda

A dona Nair era a empregada dos sonhos! Trabalhou na casa dos meus pais durante 14, 16 ou 18 anos. Não vem ao caso, lembro que foi durante muito tempo (interessante: quando se atinge a idade da curva descendente é que a Teoria da Relatividade se manifesta de forma clara e eficaz – um ano na nossa juventude dura uma eternidade; agora, que diferença faz: 14, 16 ou 18 anos?). Imagine todas as qualidades que uma empregada doméstica deveria ter: ela tinha! Imagine todos os defeitos: ela não tinha nenhum! A dona Nair era uma pessoa que adorava seus patrões e a recíproca era verdadeira. Meu irmão e eu chegamos a criar uma musiquinha para recebê-la pela manhã – ela sempre reclamava, mas lá no fundo, tinha espasmos de contentamento.

Gostava de conversar, com meus pais, com meu irmão, comigo, ou se não tivesse ninguém, consigo mesma. Era uma figura. Morava numa casa boa na Rua Veiga em Porto Alegre e depositava todos seus ganhos na poupança, que seriam utilizados, segundo ela, no caso de uma emergência. Depois de aposentada, fui visitá-la algumas vezes. Na última dessas visitas, ela estava bastante debilitada e muito doente; sua irmã me pediu que intercedesse junto a ela para que usasse a sua poupança, comprando alguns remédios, que minorassem seu sofrimento. Dona Nair foi categórica: “não posso, esse dinheiro é para uma emergência”. Pouco tempo depois ela faleceu – sem usar o dinheiro da poupança.

Tenho certeza que a dona Nair e o Presidente Lula se dariam bem. Apesar da sua aparente humildade, a dona Nair, de origem popular, tal qual o Presidente, facilmente se adaptaria às exigências do Planalto ou da Granja do Torto. Imagino ela falando sem parar, ao pé do Presidente, enquanto serviria cafezinho aos Ministros. Claro que ela daria palpites acerca de qualquer assunto, até sobre a política econômico-financeira do governo. E o Presidente, popular e populista, torcedor do Corinthians, idealizador do Forró da Granja do Torto, grande apreciador de buchada de bode, não deixaria a dona Nair sem resposta. Seria um papo de igual para igual. Uma coisa é certa, os dois teriam a mesma opinião sobre a crise internacional. A crise não chegaria aqui no Brasil, por um motivo muito singelo: pessoas populares são puras por natureza e não vislumbram emergência em nada – o mundo pra eles é cor-de-rosa (mais ainda se embalado por uma garrafa de Romané-Conti e tragadas de um legítimo havana).

As bolsas de valores, principalmente a de São Paulo, termômetros da economia, diariamente sofrem baixas apavorantes. O pregão a todo o instante é interrompido, fato incomum e gravíssimo. As grandes empresas brasileiras tiveram seu valor de mercado diminuído consideravelmente nos últimos dias - a soma deste prejuízo atinge bilhões de reais. Brasileiros, de classe média e alta, aos milhares, suspenderam suas viagens programadas devido à alta do dólar. Os clubes de futebol começam a prever retração na venda de seus craques – o diferencial que mantêm as contas dos clubes em dia – só não sendo pior o estrago pois boa parte dos compradores têm seus recursos oriundos em caixa dois, solidamente guardados em colchões. Aplicadores da bolsa sentem que o mundo vai acabar com as suas blue-chips despencando (“o mercado está nervoso” segundo os âncoras da TV). O crescimento em 2009 está irremediavelmente comprometido.

Enfim, a crise internacional se aprofunda dia a dia e o gigantismo do Brasil impede que nos protejamos sob uma redoma, igualzinha a que cobre Brasília, onde a crise e as notícias ruins não entram.

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11/10/08

Olhar dominical - 7

                            

Bom domingo!

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9/10/08

O Mundo Quebrou? - Parte II

Davi Castiel Menda

 

“A política de juros altos é tanto mais eficaz quanto maior o dano que puder causar.” (Fernando Cardim de Carvalho)

Afinal, qual a origem da sinistrose financeira que está abalando o mundo nos últimos dias? É improvável, por mais que se tente, por mais que se explique, que se consiga determinar o momento exato do início da tragédia. Tantos dão palpite hoje em dia, que me sinto no direito de expor a minha teoria: o dia D ocorreu quando um homem, muito tempo antes da era cristã, premido pelas circunstâncias, recorreu a uma operação que se convencionou chamar de crédito, oferecendo ou sendo obrigado a pagar uma “multa” ou algum tipo de cálculo primário de juros.

O homem primitivo era uma pessoa que exercia as mais variadas indústrias e se ocupava em múltiplos misteres, e onde a natureza era a responsável por todas as suas necessidades. Os homens viviam em comunidades muito restritas e normalmente inimigas entre si. Porém, aos poucos, com o início de um incipiente artesanato e agricultura, as trocas começaram a se tornar necessárias: estava criado o escambo, a troca direta, sem intervenção de uma moeda.

O mais interessante é que, muitas vezes, esse escambo era realizado entre comunidades que mantinham relações hostis: uma das partes interessada depositava num lugar previamente determinado, aquilo que pretendia trocar. No dia seguinte, encontrava ao lado do seu material, o produto proposto pelo outro parceiro. Considerada a troca conveniente, a mercadoria era levada, caso contrário, o material ali permanecia e voltavam no dia seguinte na esperança de uma melhor oferta. Essa operação poderia durar vários dias, ou mesmo não ocorrer quando não havia entendimento entre as partes.

É evidente que todos os homens tinham que trabalhar, produzir, era uma questão de sobrevivência. O mundo não dava espaço para indolentes (leia-se sem subterfúgios: investidores) e, provável e lamentavelmente, aos doentes e velhos. Era um mundo em que o homem tinha que ser Homem para sobreviver! Ele tinha que caçar, plantar, brigar e prover a segurança da sua comunidade.

Apesar de ser um processo em que o homem-trabalhador-guerreiro era extremamente valorizado, essa prática era um estorvo e aos poucos alguns deles (os ancestrais dos atuais economistas) começaram a imaginar uma unidade-escambo. A primeira dessas unidades foi criada na Grécia pré-helênica, aliás, uma unidade literalmente de peso: o boi ou, para agradar às pessoas que tratam das questões econômicas e no seu linguajar tecnicista-economês: o boi-padrão. Daí pra frente, vieram as derivações: nas ilhas do Pacífico, os colares de pérolas; no Egito, os metais, em formato de pepitas, palhetas, lingotes ou anéis.

O grande problema do homem em todo esse processo foi, repetindo o dito no primeiro parágrafo, a criação dos juros: o dinheiro trabalhando (?) pelo dinheiro. O que é um Banco de Investimentos? Um grupo de pessoas que não gera absolutamente nada, nenhum bem, não planta, não cria; além disso, não contentes em nada produzir, saem a cata de outras pessoas com dinheiro disponível (apavorados com a possibilidade de ver suas economias depreciadas) tentando convencê-los a emprestar essas economias a pessoas ou empresas carentes de capital. A explicação teorizada pelos investidores é que com o dinheiro deles, os tomadores do empréstimo trabalham e geram riquezas. Tenho minhas dúvidas.

É uma rotina de difícil entendimento: admitindo que o meio circulante fosse estático, como justificar que um empréstimo de R$ 100,00 a 5% de juros - por exemplo - teria que ser pago com R$ 105,00? Multipliquem-se os milhares de empréstimos vigentes no mercado, com juros de até 429% a.a. (já entrando no mercado interno), e não há economista que me convença da normalidade desse processo. Sobra promissória e sobra papel - falta moeda! E, se algum se habilitar a me contradizer, olhe em volta o que está acontecendo a nível mundial: o tsunami-financeiro responde a tudo e a todos. Perdão, menos ao pessoal de Brasília, que por estar bem no centro do país, afastado da costa, só espera por uma marolinha…

A sociedade moderna capitalista valorizou o ter em relação ao ser, e violenta-se diariamente no consumo desenfreado, comprometendo ganhos futuros, pagando juros no cheque especial, num mês, mais do que o dobro do que rende a poupança num ano. Graças (?) a essa abertura de crédito sem paralelo na história mundial, os brasileiros já devem 20,7 bilhões em cartões ou no cheque especial. Insisto - dever é o de menos - o problema são os juros.

O Brasil tem hoje a mais elevada taxa de juros reais do mundo – do mundo – do mundo (a repetição é proposital). Juro real é a medida da taxa de juros básica da Economia (no Brasil, representada pela taxa Selic), descontada a expectativa de inflação. O nosso Banco Central vive aterrorizado com um monstro chamado inflação e sob a égide de metas inflacionárias, aumenta a todo o momento as taxas de juros, tentando conter a demanda, ou seja, querem que paremos de comprar. Expliquem isso aos comerciantes e aos industriais!

E o mais incrível nessa história, é que metade da dívida pública do Governo Federal é indexada à taxa Selic. Cada vez que a taxa de juros é elevada, o governo está dando um tiro no próprio pé (que a essas alturas, pelo histórico de elevações, deveria estar gangrenado). São investimentos de menos em escolas, em habitação, segurança, hospitais e em infra-estrutura. Esses juros altos atraem investidores do mundo inteiro, na ânsia de fazer dinheiro com dinheiro, realizar ganhos rápidos e cair fora. Claro que esse processo afeta nossa taxa de câmbio, impactando nossa balança comercial, que vai se refletir na balança de pagamentos.

A tal taxa Selic, até ontem mantinha-se em 13,75% ao ano. Pergunta-se: qual o motivo desse dinheiro chegar tão “caro” para nós consumidores? É a praga das pragas: o “spread bancário”, a multa, o bônus, o prêmio cobrado pelo credor para remunerar o seu custo, pagar os impostos (nós pagamos o nosso e o dos bancos), e o lucro. Provavelmente a composição do spread atinja ganhos da ordem de 40%. Se o pessoal do narcotráfico desconfia disso, provavelmente abandonaria seu lucrativo comércio e criaria um mais lucrativo ainda: Bancos. É muito mais negócio, e é legal…

 

 E para encerrar, e não saírem por aí dizendo que só falo mal do Brasil, duas notícias sobre economia internacional que envolvem zeros até onde a nossa imaginação não alcança. A primeira, sobre o reloginho instalado na famosa 6ª. Avenue, bem próximo de Times Square, e que registra a dívida interna americana: estourou sua capacidade que era de 9,999 trilhões. Hoje está batendo em 11 trilhões de dólares, o que significa que cada americano, pobre ou rico, deve (simbolicamente) U$ 36,666.00 (pouco mais de trinta e seis mil dólares). A segunda, sobre a inflação do Zimbábue: chegou aos 231.000.000% em julho. A persistir esta evolução, projetamos  algo parecido com 14 quatrilhões por cento (14.000.000.000.000.000%)  ao término de 2008.

No final das contas, nós (brasileiros) somos felizes e não sabíamos! Devemos menos que os americanos e nossa inflação é menor que a do Zimbábue. Podemos dormir tranqüilos.

criado por projetosnumericos    23:28 — Arquivado em: Ensaio

8/10/08

O Mundo Quebrou?

Davi Castiel Menda

"Por vontade de um prego, perdeu-se uma ferradura;
Por vontade de uma ferradura, perdeu-se um cavalo;
Por vontade de um cavalo, perdeu-se um cavaleiro;
Por vontade de um cavaleiro, perdeu-se uma batalha;
Por vontade uma batalha, perdeu-se um reino."

Nas mitologias e cosmogonias pré-filosóficas, o caos seria o vazio obscuro e ilimitado que precedeu a geração do mundo. Ele teria sido interrompido pelo big-bang, modelo atualmente aceito para explicar a evolução cósmica. Decorridos milhões de anos, o homem descobriu a entropia, medida da quantidade de desordem num sistema e que conduziria o universo inexoravelmente ao caos. Na verdade, foi uma redescoberta, pois o caos nunca deixou de existir. A realimentação que ilustra o início deste artigo, com suas origens na sabedoria popular, é um exemplo admirável de que o caos está permanentemente à nossa volta.

O Dicionário Aurélio é irrepreensível ao conceituar o caos: "Comportamento praticamente imprevisível exibido em sistemas regidos por leis deterministas, e que se deve ao fato de as equações não-lineares que regem a evolução desses sistemas serem extremamente sensíveis a variações, em suas condições iniciais; assim, uma pequena alteração no valor de um parâmetro pode gerar grandes mudanças no estado do sistema, à medida que este tem uma evolução temporal."

A Teoria do Caos faz jus ao nome pelo contraditório. O princípio fundamental estabelece que tudo que acontece no universo, apesar da aleatoriedade, segue uma determinada ordem. Aos nossos olhos, essa quantidade imensurável de ocorrências, com possibilidades que tendem ao infinito, apresentam-se como simples acontecimentos ao acaso. Entretanto, para - principalmente - matemáticos, físicos, economistas e meteorologistas, esses comportamentos casuais podem ser previstos através de fórmulas e dentro de margens estatísticas confiáveis; isto seria algo inconcebível ao leigo - a previsão do acaso! O segundo caminho, diametralmente em oposição ao primeiro, nos demonstra a dificuldade em alcançar resultados satisfatórios, motivados pela confusão e desorganização - o caos propriamente dito, cujo exemplo maior é a economia.

O mundo vive hoje uma catastrófica situação de caos financeiro, aliás, perfeitamente previsível. Isto é cíclico e economistas renomados já esperavam por esse momento. A ciranda financeira com todos ganhando é não só improvável: é realmente impossível. É uma lei que até o mais inculto dos ignorantes é sabedor: se alguém ganha – outrem perde. Quando um grande banco americano de investimentos, para um dólar de capital, chegou a ter 33 dólares emprestados, era de se prever que algo estava errado: bastaria que apenas um desses 33 não fossem pagos para que a liquidez do banco se tornasse periclitante; no presente caso, todos os 33 se transformaram em créditos podres. Um plano desconexo (o primeiro) de auxílio de 700 bilhões de dólares foi proposto ao Congresso americano, com toda a nação pagando pelas loucuras do mercado (leia-se diretores de instituições financeiras irresponsáveis - só um deles recebeu 300 milhões de dólares nos últimos anos a título de salários e bônus pelo bom desempenho(!?)).

O nosso presidente, com suas bravatas características, criticou a “roleta” internacional, declarando-nos isentos do caos. EEUU e Europa apavorados com o "fim do mundo" e o grande Brasil assistindo de camarote à hecatombe?  É muita pavonada! O que dizer do nosso Banco Central que vem especulando durante os últimos anos, com as mesmas práticas dos cassinos financeiros (e diga-se de passagem – perdendo), manipulando a nossa inflação artificialmente, numa política cambial totalmente desastrosa? Empresários perdiam com o valor baixo do dólar nas exportações, mas ganhavam do BC na especulação. Era o caos institucionalizado – e evidentemente com o dinheiro do povo vilipendidado. O que dizer das grandes empresas brasileiras  que fizeram empréstimos de vulto em dólar? Ontem, ontem era R$ 1.60; hoje R$ 2.35. Uma das maiores empresas daqui do Sul – Caldas Jr. – sucumbiu num passado recente numa agonia lenta e dolorosa devido a semelhante processo. Quantas resistirão?

Economistas e políticos procuram uma explicação: onde estaria a origem da gota d`água causadora deste caos? A resposta está em estabelecer que uma desprezível ocorrência, em determinado ponto de um sistema dinâmico, pode acarretar conseqüências de proporções inimagináveis. Edward Lorenz, em 1963, teorizou através da simbologia de um simples bater de asas de uma borboleta em um lugar qualquer do mundo. O ar produzido poderia ser o limite diferencial entre um simples vento e uma perturbação passageira ou uma tempestade tropical, desencadeando uma alteração no comportamento da atmosfera terrestre em localidades e tempos distantes, num processo denominado realimentação. Sintetizando a idéia de Lorenz: uma borboleta bate asas na China e causa um furacão na América - o chamado efeito borboleta. Isto nos leva a afirmar que todos os pequenos eventos que ocorrem instante a instante são na verdade incontáveis efeitos borboleta, cujos somatórios se transformam em grandes mudanças universais.

Segundo Laplace, que formulou o desenvolvimento e os princípios da Teoria das Probabilidades (a mater inspiradora da Teoria do Caos), "uma inteligência conhecendo todas essas variáveis em determinado momento, poderia compor numa só fórmula matemática a unificação de todos os movimentos do universo. Conseqüentemente, deixariam de existir para esta inteligência o passado e o futuro, pois aos seus olhos todos os eventos seriam resultantes do momento presente".

A dúvida que fica no ar: se essa inteligência descrita por Laplace, ou um grupo, ou uma nação, disponibilizasse supermentes operando supercomputadores - tipo um Earth Simulator (japonês) que atinge a velocidade de 35,86 teraflops  - com o intuito de controlar matematicamente os pequenos eventos que se transformam em grandes conseqüências, teria o poder de dominar, através desta manipulação, o destino de toda ou boa parcela da humanidade? Isso já não teria sido tentado? Não estará neste exato momento em plena execução?

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Posfácio

Você tem agora as seguintes opções:
1) Desligar o computador, deitar, e ter pesadelos com o texto;
2) Conhecer um pouco mais sobre o assunto, clicando aqui, e ler A Crise da Economia Americana, escrita em 28.08.08;
3) Migrar para o blog Jus Sperniandi (Ilton C. Dellandréa) e, de uma maneira divertida e didática, Entender a Crise Americana .

Sugiro as duas últimas.

criado por projetosnumericos    7:11 — Arquivado em: Ensaio
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