Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

29/10/08

A Incrível e Fantástica História do Pavão

Davi Castiel Menda

“Quando você tiver certeza absoluta de alguma coisa – vá em frente, aproveite. Não é sempre que você pode tripudiar seus adversários.”

Quando no ano de 2000 mudei-me para um sítio na zona rural, o sonho de uma vida, herdei do proprietário anterior um lote de 50 galinhas (que doei na primeira meia hora), meia dúzia de gansos, quatro patos, um filhotinho de pastor belga (o Buster, que esta semana completou nove anos), além de uma belíssima cisne negra, a Black Star. Como vocês já devem estar pressentindo, na semana seguinte, todos esses animais foram devidamente batizados. Tinha até uma gansa com o artístico nome de Demi Moore. Além de toda essa fauna, o sítio possuía um galinheiro de material, que de tão bonito e tão espaçoso, a bicharada ficava constrangida de usá-lo, dormindo invariavelmente na grama, mesmo que chovesse a cântaros.

Pouco tempo depois, a esses foi agregado um casal de pavões; ao passar por uma loja especializada em agropecuária, vi aqueles dois engaiolados num espaço mais destinado a passarinhos do que aqueles enormes fasianídeos, me senti penalizado e os comprei. O macho imediatamente recebeu o nome de Mauríce de minha parte, em homenagem ao grande cantor-ator Maurice Chevalier; minha esposa preferia chamá-lo de pavão mesmo, acentuando o “a” nasalado e arrastando o “o” final.

O Mauríce era um espetáculo a parte. Além de aderir ao movimento dos bichos de não dormir no galinheiro, ele e a cara-metade se adonaram do telhado do galinheiro! Era para lá que eles voavam assim que o sol se punha e por lá passavam a noite. Aos domingos, quando se acentuava o número de citadinos em busca da paz no campo (e em contrapartida infernizando a nossa pacata vidinha), ele pressentia o público, levantava sua crista azul e verde e abria suas plumas caudais, com aquelas fantásticas manchas oculares iridescentes, num grande leque, obrigando os carros a pararem.

E num caso especial a ser estudado pela psicologia, pois normalmente o animal tende a incorporar o comportamento humano, com o pavão é exatamente o contrário: ele transmite ao seu proprietário o seu exibicionismo característico. Notei essa tendência quando me dei conta de que eu também desfrutava prazerosamente de todos aqueles carros parando em frente à minha casa, tentando, pelas frestas da cerca, admirar o pavão.

Num belo dia, recebi a visita do meu primo e xará David Nelson Menda para conhecer o sítio e descansar das suas infindáveis viagens pelo mundo. Depois de muita conversa, levei-o da área social da casa para a parte rural; foi quando dei falta do pavão. Uns dias antes a fêmea tinha sido morta por um gambá - agora perder o pavão era um duplo baque. Mas por mais que eu procurasse, não o encontrei e fiquei realmente muito aborrecido. É claro que o Mauríce tinha sido roubado; era de se duvidar que ele abandonasse aquela boa vida que levava.

Convidei o Nelson para visitar duas agropecuárias localizadas na estrada na tentativa de achá-lo; se alguém o roubara, fatalmente teria colocado à venda numa delas. Na primeira não havia nenhum; na segunda exatamente doze. Fiquei olhando atentamente para a grande gaiola montada na frente da loja e, lá no fundo, cabisbaixo, triste, estava o Mauríce.

Você, a essas alturas, deve estar se perguntando: de que forma, entre doze pavões, todos rigorosamente iguais, eu poderia identificar o meu pavão? Devo lembrar-lhe que quando atuava como cronista de turfe no Hipódromo do Cristal, eu e uma dezena de colegas, identificávamos pelo menos uns mil cavalos pelo nome, só de olhá-los na raia galopando. E ainda nos dávamos ao luxo de citar a sua filiação e em muitos casos o proprietário. É claro que aquele era o “meu” pavão!!!

Para tirar a prova dos nove chamei a minha esposa e enquanto eu e o Nelson olhávamos atentamente ela gritou: Pavããããôôô! Na mesma hora o pavão por mim identificado deu um pulo (só ele) e ficou nos olhando admirado. Ali estava a comprovação que eu precisava. Na hora, o sangue ferveu; eu queria ligar para a Polícia, para a Brigada, o esquadrão anti-seqüestro e anti-bombas, convocar a imprensa escrita, falada e televisada, o Correio de Gravataí, a Zero Hora, a Fátima Bernardes, o Datena, que abraçaria a causa imediatamente, chamando aqueles seqüestradores da fauna brasileira de canalhas, e pregando a pena de morte assim que fossem capturados.

Em consideração ao meu visitante, acalmei-me e resolvi dar uma oportunidade ao acaso. Consultei o Nelson, um sujeito moderado e, seguindo seu conselho, resolvi comprar “aquele” pavão e ao chegar no sítio, soltá-lo. Se à noite ele se abancasse no telhado do galinheiro, no dia seguinte eu faria o maior banzé. Processaria o dono da loja por receptação e faria com que a Polícia descobrisse o autor do furto. Os culpados pagariam caro por aquele rapto ignominioso.

Voei para casa no intuito de buscar o dinheiro. No exato momento que cheguei, outro carro estacionou paralelamente ao meu e reconheci ao volante um dos meus vizinhos. Apesar de não ser um bom momento, educadamente o recebi, fiz as apresentações, mas ele entrou direto no assunto: perguntou se eu não dera falta do meu pavão. Respondi afirmativamente e ele continuou: -“Tenho uma notícia triste pra te dar. O teu pavão voou para o meu terreno, possivelmente atrás das galinhas (não se conformou com a monotonia causada pela viuvez recente) e meus cachorros o pegaram. Ele está aqui num saco, mas se achares conveniente, o meu caseiro o enterra”.

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Que essa história sirva de lição para todos aqueles que garantem 100% de certeza em tantas situações, em tantos testemunhos. E quando você tiver certeza absoluta de alguma coisa – vá em frente, aproveite. Não é sempre que você pode tripudiar seus adversários. Mas lembre-se, você poderá estar cometendo uma grande injustiça!

criado por projetosnumericos    10:51 — Arquivado em: Crônica

1 Comentário »

  1. Comentário por Sérgio Vasconcellos — 31 31UTC outubro 31UTC 2008 @ 21:08

    Davi,
    Você não sacou que o pavão era o mais esperto do grupo. Talvez os outros o chamavam de “chefe”. Ele queria era ir para a sua casa e comer um milho fácil.
    Animal é assim, tenho um gato que pensa que eu sou o cozinheiro dele ou garçon. Quando eu saio na varanda ele vem me agradar e logo depois olha para a tijela de ração e leite na esperença de eu ter trazido comida.
    Para se evitar esses enganos sugiro lerem o livro:
    “NÃO ACREDITE EM TUDO 0 QUE VOCÊ PENSA”
    THOMAS KIDA - EDITORA CAMPUS - ELSEVIER
    - OS 6 ERROS BÁSICOS QUE COMETEMOS QUANDO
    PENSAMOS -

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