23/10/08
Reforma em Cadeia
Fraga
Mesmo que os alarmes não soassem tanto com fugas e rebeliões corriqueiras, a situação dos presídios gaúchos alarma. Pra deixar o inferno mais infernal, o diabo tem se inspirado nas cadeias do estado. Como chegamos a essa indignidade? Aposto numa tese: a qualidade dos presos decaiu muito. Não tem ninguém digno atrás das grades. Lá dentro está lotado de gente insensível, sem modos, uns brutamontes. Capazes de tudo naquele ambiente de matar ou morrer.
A solução que agora se discute, de ampliar as penitenciárias, será paliativa – por mais espaçosas, confortáveis e bem decoradas que fiquem. É só pra caber mais do mesmo. Em pouco tempo a depredação material e a deterioração moral tomam conta das ´novas e melhores´ condições.
Na minha desinteressada opinião, a verdadeira reforma nos presídios tem que ser ousada: qualificar o quadro de presos. Chega de dar preferência a gente pobre e analfabetos, ladrões de ocasião e assaltantes contumazes, assassinos passionais e traficantes menores. Assim o nível das cadeias jamais subirá! Esses ambientes precisam receber criminosos melhores, que sirvam de exemplo aos criminosos piores.
Uma boa medida inicial seria encher as cadeias dos autores de crimes do colarinho branco. Um simples detalhe de vestuário já mudaria a feição da multidão, tão mal vestida e rota. Esses profissionais do ganho escuso têm requisitos para influir no cotidiano prisional: são educados, estudaram, têm classe e postura, sabem se comportar diante das autoridades, não gritam nem apelam à força bruta. Aos poucos, com boas maneiras, refinamento de linguagem e visão ampla do mundo do crime sofisticado, influenciariam os demais presos. Discípulos de suas bem-sucedidas carreiras.
Pensem em milhares de assassinos, estupradores, assaltantes e seqüestradores largando seus hábitos grosseiros e métodos violentos para se dedicar à corrupção, às fraudes, aos escândalos financeiros! Tudo isso são ações criminosas, sim, mas sempre pacíficas e ordeiras, que apenas escandalizam, não causam horror e morte às vítimas.
O convívio interno melhoraria muito: ninguém mata com uma falsificação na goela de outro encarcerado, ninguém enforca um colega com um fio de argumento golpista. Como os colarinhos brancos só utilizam celulares de última geração, dirigiriam seus comparsas de dentro das prisões, com alcance até Brasília (sem a interrupção do fluxo de capital que tanto promove a riqueza nacional). Por tabela, os comandos do tráfico ficariam enfraquecidos pela nova liderança e perderiam a capacidade de mobilizar asseclas cá fora. Haveria menos ameaças à sociedade.
Essa nova população carcerária beneficiaria ainda a profissão advocatícia. Afinal, com mais gente importante trancafiada, mais hábeas corpus para todos nesse entra-e-sai, e a conseqüente elevação dos honorários.
Outros respeitáveis personagens, por mais modestos e discretos que sejam em sua atuação ilegal, poderiam contribuir com sua boa conduta entre muros correcionais para a qualificação em cadeia: sonegadores fiscais, atravessadores e intermediários inescrupulosos, juízes e autoridades e políticos e administradores públicos comprovadamente corruptos. Enfim, toda uma elite que engrandeceria a imagem das penitenciárias. Como agem por todo o país, o abastecimento está garantido.
Por extensão, as melhorias nas penitenciárias atingiriam, além das dependências bem conservadas, com infra-estrutura hoteleira, a harmonia da vida ilícita dentro da lei e a eliminação dos choques com a vigilância através de subornos com cartão de crédito!
Pena que não levam humoristas a sério.
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Posfácio:
O texto acima é do José Fraga (www.coletiva.net), um dos mais brilhantes humoristas do RS, publicado em 17.10.08; não resisti – tive que transcrevê-lo. Considerando que não pedi autorização, provavelmente serei processado, condenado e preso. Só espero que a cadeia já tenha passado pelas reformas previstas na sua satírica crônica. Prometo que para ajudar no visual, vestirei meu Armani ao jantar, principalmente se meu colega de mesa for o Cacciola. Fraga, me perdoa. Um abração.
criado por projetosnumericos
10:26 — Arquivado em: 

Comentário por Fraga — 23 23UTC outubro 23UTC 2008 @ 13:07
Davi, estou duplamente preso: à gratidão, por esta gentil transcrição, e cativo das promessas de um almoço (não nos atuais refeitórios das penitenciárias, hehehe). Abraçãozão. Inté ao vivo!
Comentário por Sérgio Vasconcellos — 24 24UTC outubro 24UTC 2008 @ 10:08
Outro dia li comentário sobre a maneira mais fácil de saber as verdades dos acontecimentos. Sugeriam que se perguntasse as dúvidas a três categorias de trabalhadores: Um taxista, um engraxate e um barbeiro.
Esqueceram-se do humorista. Este é, realmente, o arauto das verdades escamoteadas em qualquer Corte. Sem desmerecer o valor dos 3 indicados incialmente, emquanto os primeiros atendem a uma pessoa o humorista pode atingir o Mundo. Parabéns Fraga e Parabéns Davi por suscitar o assunto em seu Blog. Agora ……. se todos vamos ser presos não sei. Vamos aguardar.
Comentário por Sérgio Vasconcellos — 24 24UTC outubro 24UTC 2008 @ 10:29
Abaixo, falei em taxista e me lembrei de um episódio ocorrido no Rio de Jneiro há uns 20 ou 30 anos.
De vez em quando aparecia no Rio um visitante ilustre e sempre acontecia ser muito bem recebido pela sociedade local. Mas, ……. não estavam imunes às gozações que os cariocas gostam de fazer. Lá pelas tantas aprarece o Barão Andreas von Thurn und Taxis, alemão, e, hoje falecido.
Não deu outra, a turma o recepcionou muito bem, com todas as honras merecidas mas implicou com o TAXIS. E, começaram as insinuações sobre o “TAXIS”. Como iam deixar passar isto? TAXIS pra lá e TAXIS pra lá, e, acabaram perguntando ao Barão porque os automóveis de aluguel se chamam Táxis, no mundo inteiro. Vejam o quadro superior com a resposta do Barão:
Comentário por Sérgio Vasconcellos — 24 24UTC outubro 24UTC 2008 @ 10:40
POR FAVOR LEIAM PRIMEIRO O COMENTÁRIO DO QUADRO ABAIXO: DEPOIS VOLTEM.
Esta estava fácil para o Barão. Respondeu elegantemente:
Realmente a palavra Táxi vem de nossa família. ……..
“Somos Banqueiros tradicionais na Alemanha e, durante séculos, os nossos funcionários percorriam a Europa levando as correspondências relativas aos negócios contratados pelo Banco. E, todos aguardavam com ansiedade a chegada dos Táxis. ………………..
Todos ficaram de queixo caído!
Em tempo, nos visitou também o Barão von Opel que ao chegar na areia da praia de Ipanema com uma loura estonteante ……………… “parou a praia”.