22/10/08
A Loteria da Babilônia
Davi Castiel Menda
“Sou de um país vertiginoso onde a loteria é a parte principal da realidade: até o dia de hoje, pensei tão pouco nela como na conduta dos deuses indecifráveis ou do meu coração”. – José Luis Borges – A Loteria da Babilônia.
Interessante, o Brasil é um país de contrastes esquisitos. A nossa legislação reza que os jogos de azar são proibidos, mas diariamente, podemos tentar a sorte - sorte e azar são gêmeos siameses, inseparáveis - nos mais variados tipos de loterias de números que se possa imaginar, corrida de cavalos, raspadinhas e a tão ex-popular Loteria Esportiva. E para agravar mais ainda a inconstitucionalidade de certos jogos ditos oficiais, há uma leizinha (se ela foi revogada, me penitencio) que proíbe terminantemente apostas em qualquer atividade que envolva esforço humano. Evidentemente, um sábio legislador quis preservar aos apostadores das tretas factíveis através de combinação prévia, permitindo somente jogos em que a sucessão de fatos e de causas independentes que convencionamos chamar de sorte, fado ou destino, fosse realmente a responsável pela indicação de felizardos ganhadores.
Na antiga Roma, os imperadores, para garantir a sustentação no poder, providenciavam para que nunca faltasse ao povo pão e circo. Mesmo com o agravamento da situação econômica de Roma, motivada pela corrupção generalizada e pela inflação, o povo pouco se preocupava: recebia através da generosidade pública o pão, alimento essencial da época, enquanto a diversão – o circo - funcionava ininterruptamente: gladiadores em lutas mortais, leões devorando os seguidores da nova seita (cristianismo), corridas de bigas ou quadrigas.
Se no parágrafo anterior trocássemos a Roma antiga pelo Brasil de hoje, além de alguns simbolismos, não faria muita diferença. O povo - beneficiário da bolsa-família, bolsa-alimentação, bolsa-gás, bolsa-colégio, bolsa-qualquer-coisa; alienado pelo sonho eterno de ser campeão, bi, penta, hepta, decacampeão (o infinito é o limite) no Campeonato do Mundo de Futebol, com o auxílio dos meios de comunicação que, motivados pelos altos faturamentos, ajudam a fomentar a esperança; e as eternas acumuladas milionárias da Mega Sena alimentando o sonho irreal da fortuna rápida - deixa para um segundo ou terceiro plano as verdadeiras questões e reais problemas que afligem a sociedade brasileira.
José Luis Borges, em 1941, lançou um conto chamado A Loteria da Babilônia. É um texto pesado, crítico, repleto de simbolismos, onde o autor consegue prender a atenção do leitor pela sucessão de regras que vão sendo adicionadas a uma loteria criada na Babilônia: “Meu pai contava que antigamente – questão de séculos, de anos? – a loteria na Babilônia era um jogo de caráter plebeu. Referia (ignoro se com verdade) que os barbeiros trocavam por moedas de cobre, retângulos de osso ou pergaminho adornados de símbolos. Em pleno dia verifica-se um sorteio: os contemplados recebiam, sem outra confirmação da sorte, moedas cunhadas de prata. O procedimento era elementar, como os senhores vêem”.
O tempo faz com que a esperança de ganho seja substituída pelo tédio; para atrair novos apostadores, são inseridos bilhetes aziagos, ou seja, o sorteado com aqueles números, ao invés de ganhar, teria que pagar uma multa. Era a equanimidade - a igualdade de ânimo tanto na desgraça quanto na prosperidade – introduzida na loteria pela Companhia, a administradora dos sorteios.
“Por inverossímil que seja, ninguém tentara até então uma teoria geral dos jogos. O babilônio é pouco especulativo. Acata os ditames do acaso, entrega-lhes a vida, a esperança, o terror pânico, mas não lhe ocorre investigar as suas leis labirínticas, nem as esferas giratórias que o revelam. Não obstante, a declaração oficiosa que mencionei instigou muitas discussões de caráter jurídico-matemático. De uma delas nasceu a seguinte conjectura: Se a loteria é uma intensificação do acaso, uma periódica infusão do caos no cosmos, não conviria que a casualidade interviesse em todas as fases do sorteio e não apenas numa?”
Aos poucos, novas e novas regras são introduzidas, permitindo aos ganhadores o acesso a cargos públicos ou a elevação ao concílio dos magos, a detenção de inimigos através da delação, o encontro nas pacíficas trevas de um quarto com a mulher dos sonhos; aos portadores dos bilhetes adversos, a mutilação, a infâmia, a prisão, a morte. Os mais humildes se revoltam por não poder participar da loteria, por motivos financeiros - a Companhia adota a liberalidade de franqueá-la a todos, indistintamente; ela passa a ser compulsória.
A história brinca com a teoria da predestinação e de que não temos controle algum sobre o futuro; é como se o universo fosse uma simulação dentro de um grande contexto, ou até de um simples programa de computador. Talvez uma grande brincadeira do autor, inventando um deus ex-machina, a exemplo de Kafka. O parágrafo final é de uma beleza assustadora, em que o próprio autor, talvez arrependido da sua maquinação, da assombrosa e perversa engrenagem administrada pela Companhia, admite a possibilidade de nada daquilo existir.
Não sei se cometo um pecado literário ao invocar Borges, traçando um paralelo entre o universo por ele criado na sua Loteria da Babilônia e as loterias no Brasil. Valho-me de um trecho de crônica de Roberto Pompeu de Toledo, sobre o mesmo tema, para justificar minha ação:
“Um deles é que há milhares de anos, na Babilônia, como hoje no Brasil (e no resto do mundo), identifica-se um caráter misterioso no giro de um punhado de bolinhas, esta com um número, aquela com outro, até que uma prevalece. Quem o determina, com que poderes secretos, e por que razões inalcançáveis? As pessoas ainda hoje se agarram à crença de que há nisso uma predeterminação, quando não uma lógica. Alguns se inspiram em sonhos, para penetrá-las, como se sonhos fossem canais condutores aos mistérios últimos da vida e da morte. Isso prova que, aqui como na Babilônia, a loteria é vista como algo que tem parte com o sagrado.”
Borges se martirizava por não ter tido idéias geniais e de ser um mau poeta. Antes de morrer afirmou: “Me arrependo de tudo que escrevi”. Por favor, José Luis Borges, onde quer que esteja, se arrependa de tudo, dos seus devaneios, dos seus contos, dos seus poemas, exceto d´A Loteria da Babilônia.
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Comentário por Sérgio Vasconcellos — 22 22UTC outubro 22UTC 2008 @ 19:00
Davi,
Os romanos, naturalmente, depois dos babilônios, utilizavam dados com materiais da época e a estes dados davam o nome latino de “aleator”. O horóscopo já existe há 5 mil anos e parece que nasceu lá mesmo na Babilônia. Não seria de se estranhar que os jogadores de todas épocas usassem isto tudo para seus palpites. Até hoje, toda espécie de jogadores usa infinitas maneiras e crendices para realizar as suas apostas. Já ouvi muitas maneiras que o apostador usa para os seus palpites. Agora, o que ainda não ouvi é uma definição clara de “SORTE”, como também ninguém consegue definir o “AMOR”. A palavra amor suscita poesia, e poesia suscita LuÃs Borges. Agora, a pior coisa é estar sem inspiração para falar sobre tudo isso e estar preocupado com as apostas da Lotofácil que realizará o concurso 369 amanhã. Já me defini, Boa Noite e obrigado pela atenção de todos os meus amigos, colegas,
apostadores e interessados. Boa Sorte a todos.
Até mais.