20/10/08
Paralelo 30
Davi Castiel Menda
Prefácio:
Sempre que concluo um texto, uma dúvida atroz me deixa em estado de pânico: e se por uma coincidência sem precedentes, alguém já escreveu algum texto igual ao meu, e tragédia das tragédias, antes de mim? E se tivemos a mesma idéia simultaneamente? Lembro de que quando era o editor do jornalzinho 13 Pontos, publicamos uma charge um dia após o Grêmio ter sido derrotado pela Portuguesa (está aí – mais uma!) exatamente igual à publicada por Zero Hora. Uma era cópia fiel da outra, e sem a menor possibilidade da ocorrência de plágio.
Provavelmente, já foram escritos no mundo aproximadamente 144 bilhões de textos, mas acho muito pouco provável que algum deles tenha se ocupado da matéria que abordo no texto abaixo. Só por esse motivo, é um dos meus favoritos.
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Coquimbo no Chile, Porto Alegre no Brasil, Durban na África do Sul, Marree, Bourke e Grafton na Austrália: o que estas cidades tem em comum?
É melhor começar do princípio, pois a teoria que submeteremos à sua crítica e apreciação, se realmente comprovada, possivelmente ocasionará um êxodo maciço de pessoas para o… Esqueça, a experiência nos indica que deveremos recomeçar mais aquém para um perfeito entendimento. Temos certeza que, partindo da proposição que nos serviu de base, ainda que de modo provisório, e cuja verdade seja inquestionável, enunciaremos com mais clareza a questão.
Imagine um carrossel, aquele aparelhinho que é atração em todas as feiras e parques de diversões. Quem não conhece um carrossel, um conjunto constituído de um rodízio que sustém uma viga vertical, à qual se prendem hastes horizontais em cujas extremidades estão presos cavalos de plástico, carrinhos, aviõezinhos ou outras figuras que giram com o eixo?
Prosseguindo com o nosso exercício de mentalização, posicionemos os cavalinhos na parte interna do carrossel, no círculo interior, distanciados 2 metros do eixo (na realidade, estes 2 metros representam o raio deste círculo); num segundo círculo, os carrinhos a 4 metros do eixo e, finalmente, na parte exterior do carrossel, os aviõezinhos a 6 metros do eixo.
É claro que todos devem lembrar da fórmula - 2.Pi.R - da circunferência, mas para facilitar, informamos que a dos cavalinhos (a interna) é igual a 12,56 metros; a segunda, a dos carrinhos é igual a 25,12 metros; e, finalmente, a externa, a dos aviões é igual a 37,68 metros. Concluída a construção – figuradamente - do carrossel, o passo seguinte é vender ingressos para a criançada: quem sabe R$ 1,00 com direito a dez voltas, com a duração de cinco minutos?
Lotação completa - vamos pôr em funcionamento o carrossel e dar as voltinhas prometidas. Pronto? Todos satisfeitos? Crianças se divertindo à beça, o gerente do parquinho exultante com o faturamento, pais orgulhosos de seus filhos, fotos coloridas de recordação. Parece que tudo está correndo às mil maravilhas; entretanto, não é bem assim: as crianças que andaram nos aviõezinhos obtiveram flagrante vantagem sobre as outras, quer seja na velocidade, quer seja na distância. Os “internos” subvencionaram o passeio dos “externos”!
Os pequenos jóqueis, os da “raia” interna, nas dez voltas realizadas, percorreram a distância de 125,6 metros, a uma velocidade de 1,5 km por hora. Os promissores e audazes pilotos de Fórmula 1, obtiveram um desempenho duas vezes melhor: nos mesmos cinco minutos, completaram 251,2 metros, a uma velocidade de 3 km por hora. Entretanto, os intrépidos pilotos dos aviõezinhos, bateram o recorde da garotada: nos mesmos cinco minutos, percorreram 376,8 metros, a uma velocidade de 4,5 km por hora.
Todas as crianças pagaram o mesmo valor, todas andaram dez voltas, todas permaneceram por cinco minutos divertindo-se no carrossel, mas as posicionadas na circunferência dos aviões passearam muito mais e numa velocidade mais acima que as do grupo dos carrinhos e estes, por sua vez, mais do que o pessoal dos cavalinhos. Afinal, não são as altas velocidades que produzem adrenalina?
O princípio de igualdade, assegurado constitucionalmente, foi arranhado, não houve isonomia. Se você não está convencido, imagine três carrosséis independentes, com dimensões diferentes. Seriam cobrados os mesmos valores? É evidente que não. Quanto maior a aparelhagem, mais material gasto, maiores investimentos, maior o consumo de energia, maior a expectativa de lucro; e os fins justificando os meios, mais divertimento para a criançada.
Um paradoxo de implicação material como esse, inédito, não tendo registro no nosso cérebro, vai gerar uma pequenina semente de dúvida. Vamos germiná-la fantasiando o problema em outra dimensão, numa escala muito, mas muito maior: a idéia é substituir o carrossel pela nossa velha e conhecida Terra, e projetar a circunferência dos cavalinhos lá no círculo Antártico, os carrinhos sobre a Latitude S-30 e, a linha do equador (Latitude 0) no lugar dos aviõezinhos. O princípio é o mesmo – a Terra não deixa de ser um carrossel de proporções gigantescas.
Os habitantes da linha do equador terrestre percorrem diariamente, acompanhando o movimento de rotação, uma distância de 40.000 km – a circunferência máxima da Terra - a uma velocidade de 1.666 km por hora (resultado obtido pela divisão de 40.000 por 24 horas), enquanto os habitantes do Paralelo 30 - Porto Alegre e as demais cidades na introdução relacionadas - “viajam somente” 34.600 km a 1.443 km por hora. Os que moram sobre a linha do equador e adjacências “passeiam” todos os dias muito mais e mais rápido que todos os outros terráqueos. Quanto mais próximo dos círculos Ártico e Antártico, mais se acentua a diferença. Nos levam alguma vantagem a exemplo do carrossel do parquinho? Empiricamente, “vivem mais celeremente” do que nós ou o efeito se dá ao contrário? A teoria da relatividade tem algo a ver com a tese apresentada? Os argumentos apresentados serão devaneios do autor?
Comentários a respeito serão muito bem-vindos.
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Posfácio:
Meus agradecimentos à Samantha Castiel-Menda pelo cálculo da circunferência na Latitude S-30. Este cálculo poderia ter sido feito através de coordenadas espaciais (x,y,z), porém ela apresentou-me uma fórmula mais enxuta, de solução rápida, sendo assim…
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Comentário por Sérgio Vasconcellos — 20 20UTC outubro 20UTC 2008 @ 10:43
Davi, Fiquei intrigado com a sua preocupação de haver texto ou idéia igual ou parecida com a sua. Não fique preocupado porque o mais importante é que você traz sempre boas novidades e acrescenta conhecimentos, além de nos dar prazer de ler os seus escritos. Já houve pesquisas sobre o fato de que por alguma maneira as pessoas descobrem coisas simultaneamente e até macacos isolados em ilhas da Indonésia assimilaram cultura de outros em ilhas próximas. Mas, algo me preocupou no assunto discorrido. E, se por acaso, em um qualquer paÃs do mundo, baseado em seus cálculos o governo local resolve cobrar algum imposto baseado nessa andança espacial? Não sei se falo isso pela minha mania de sempre pensar nos recolhimentos de impostos que incidem sobre transações comerciais e financeiras. As pessoas nas proximidades dos polos pagariam bem menos. Não me culpe se isto acontecer!
Comentário por Sérgio Vasconcellos — 20 20UTC outubro 20UTC 2008 @ 11:01
Davi, Engraçado, que o seu texto me suscitou uma outra observação. Adianto que não quero ensinar o padre a rezar missa porque vou falar de duas coisas que os gaúchos entendem muito bem: GADO BOVINO E UVAS
Acredito que muita gente não sabe mas aqui em Minas não comemos gado bovino. Nestas paragens o que se come é carne de gado zebuÃno e talvez bubalino. Isso porque o bovino, se adapta muito bem na região entre os trópicos e os polos. Aqui poucas pessoas já devem ter visto um Pitangueiras, Charolês, Aberdeen Angus, Hereford e também não se fala em Cabañas. Dentro da minha ignorância e com fome de saber, será que essa explicação do carrossel não é o mesmo caso do gado?
E, também o caso das uvas que se desenvolvem melhor em sua qualidade em regiões especÃficas? (aliás essas regiões já estão afetadas pela falada mudança climática em que vivemos atualmente. Certamente o seu ensaio tocou num ponto interessante. * O Sr, Amyr Klink já fez uma viagem de volta ao mundo só circundando a Antártida.