30/10/08
Halloween

Nelson Menda
"Há meses que super-mercados, lojas de roupas e até mesmo grandes farmácias dedicam gôndolas e prateleiras inteiras para a exposição de objetos relacionados ao Halloween, que neste ano, apesar da crise, irá representar um gasto de 47 dólares por habitante, maior do que o PIB de muitos países."
Há alguns anos começaram a aparecer cartazes em muros e paredes de prédios cariocas combatendo o Halloween (pronuncia-se halouím, com o h aspirado), por tratar-se de uma festa alienígena, nada tendo a ver com a tradição popular brasileira. Como, pelo menos àquela época, eu não era muito chegado nem às festas populares brasileiras, quanto mais às estrangeiras, não me toquei. Aliás, minto. Sempre gostei da maneira como se comemoravam as festas juninas no meu tempo de Porto Alegre. A coincidência com a época dos pinhões e a indumentária de gaúchos e prendas me fascinavam.
Cheguei a fazer parte, na adolescência, de um grupo que dançava e cantava músicas folclóricas do Rio Grande do Sul, como Cana Verde, Chimarrita, Pezinho e tantas outras. Tinha até botas e bombachas e era assim, pilchado, que comparecia aos ensaios, na casa da Família Sena, em plena Vinte de Setembro, na Azenha. Depois, já no Rio, constatei que as festas juninas no restante do país eram bem diferentes daquelas comemoradas no Rio Grande. Ao invés de indumentária e canções que procuravam recordar o passado, como as nossas, eram festividades caipiras, que procuravam, através de fantasias um tanto quanto ridículas, criar situações engraçadas, que culminavam, inexoràvelmente, com o "Casamento na Roça", o ponto alto da festa. De comum, apenas a fogueira, com a diferença de que, no Sul, era a forma de aquecer as frias noites do inverno.
Mesmo com essas profundas diferenças regionais, poderíamos afirmar que as festas juninas e julinas, essas sim, podem ser consideradas autenticamente verde-amarelas, ao contrário do Halloween, que alguns brasileiros estariam tentando importar e nos enfiar goela abaixo. Por falar nisso, tenho de procurar uma máscara para o Baile de Halloween do próximo sábado, em Portland, Maine, a três horas da minha casa, localizada em Glastonbury, Connecticut, Estados Unidos. Como vim parar aqui e o que estou fazendo no site do Davi Menda, meu primo de Gravataí, são outros quinhentos, que pretendo ir revelando aos poucos.
Primeiro, é preciso localizar Glastonbury no mapa mental de cada um, para facilitar o entendimento do que será relatado. Todo mundo sabe que Nova Iorque fica na costa leste, ou Atlântica, dos Estados Unidos. Um pouco acima de Nova Iorque, também à beira do Atlântico, fica Boston, famosa por suas universidades. A meio caminho entre Nova Iorque e Boston está localizado o Estado de Connecticut, cuja capital, Hartford dista apenas 10 minutos de carro de Glastonbury. Fácil, não? Na realidade, não é bem assim, pois é Glastonbury, com seus 25.000 habitantes, que fica a 10 minutos de carro de Hartford, uma cidade bem maior em extensão e população. Connecticut, juntamente com outros cinco estados da região nordeste dos Estados Unidos, formam a assim chamada "New England" ou Nova Inglaterra, pois foi por aqui que a colonização do país, pelos ingleses, teve início. Daí a razão de grande parte de suas cidades e rios terem recebido o mesmíssimo nome de localidades e acidentes geográficos da velha Inglaterra.
Para dar alguns exemplos: a uma hora daqui temos o Rio Tâmisa, minha filha mais velha mora em Manchester e trabalha em New Britain, ambas pelas redondezas e a praia mais próxima se chama New London. Quanto ao sufixo bury, de Glastonbury, ainda não consegui decifrar muito bem seu significado, mesmo porque há uma quantidade enorme de localidades terminadas em bury, como Waterbury e Danbury, essa última considerada um dos maiores redutos de brasileiros dos Estados Unidos. Pelo dicionário bury pode ser traduzido como enterrar e começo a ficar em dúvida se, na verdade, eu não estaria enterrado em Glastonbury, uma cidade encantadora que se prepara, como o restante do país, a comemorar, ao anoitecer desta sexta-feira, o Dia das Bruxas, ou, como já dissemos, Halloween.
Meu neto de quatro anos já está com a fantasia de Batman tinindo, para sair pela vizinhança do condomínio onde mora ameaçando assustar as pessoas que se negarem a oferecer-lhe guloseimas. Na porta de suas casas os americanos exibem, há alguns meses, orgulhosamente, uma imensa abóbora, espécie desenvolvida com essa finalidade específica, pois não estraga ou apodrece com o passar do tempo. Alguns se dão ao trabalho de recortar olhos, nariz e boca em uma das superfícies do vegetal, iluminando seu interior com lamparinas ou velas. Outras pessoas decoram suas portas e janelas com máscaras de bruxas, caveiras e fantasmas. Até mesmo as lojas de artigos eróticos disponibilizam aos clientes deste mundo objetos e indumentárias fantasmagóricos do outro, apesar de eu ter minhas dúvidas se, na hora da onça beber água, tais apetrechos não acabem funcionando como verdadeiros anti-afrodisíacos.
Há meses que super-mercados, lojas de roupas e até mesmo grandes farmácias dedicam gôndolas e prateleiras inteiras para a exposição de objetos relacionados ao Halloween, que neste ano, apesar da crise, irá representar um gasto de 47 dólares por habitante, maior do que o PIB de muitos países. Na realidade, apesar de já ter vindo aos Estados Unidos uma porção de vezes, eu só conhecia o Halloween pelos filmes e TV e esta será a primeira vez em que estarei vendo e participando ao vivo de uma festa inteiramente exótica para os padrões brasileiros, que costumam curtir muito mais a vida do que a morte.
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