Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

30/10/08

Halloween

                                              

Nelson Menda

 

"Há meses que super-mercados, lojas de roupas e até mesmo grandes farmácias dedicam gôndolas e prateleiras inteiras para a exposição de objetos relacionados ao Halloween, que neste ano, apesar da crise, irá representar um gasto de 47 dólares por habitante, maior do que o PIB de muitos países."

 

Há alguns anos começaram a aparecer cartazes em muros e paredes de prédios cariocas combatendo o Halloween (pronuncia-se halouím, com o h aspirado), por tratar-se de uma festa alienígena, nada tendo a ver com a tradição popular brasileira. Como, pelo menos àquela época, eu não era muito chegado nem às festas populares brasileiras, quanto mais às estrangeiras, não me toquei. Aliás, minto. Sempre gostei da maneira como se comemoravam as festas juninas no meu tempo de Porto Alegre. A coincidência com a época dos pinhões e a indumentária de gaúchos e prendas me fascinavam.

Cheguei a fazer parte, na adolescência, de um grupo que dançava e cantava músicas folclóricas do Rio Grande do Sul, como Cana Verde, Chimarrita, Pezinho e tantas outras. Tinha até botas e bombachas e era assim, pilchado, que comparecia aos ensaios, na casa da Família Sena, em plena Vinte de Setembro, na Azenha. Depois, já no Rio, constatei que as festas juninas no restante do país eram bem diferentes daquelas comemoradas no Rio Grande. Ao invés de indumentária e canções que procuravam recordar o passado, como as nossas, eram festividades caipiras, que procuravam, através de fantasias um tanto quanto ridículas, criar situações engraçadas, que culminavam, inexoràvelmente, com o "Casamento na Roça", o ponto alto da festa. De comum, apenas a fogueira, com a diferença de que, no Sul, era a forma de aquecer as frias noites do inverno.

Mesmo com essas profundas diferenças regionais, poderíamos afirmar que as festas juninas e julinas, essas sim, podem ser consideradas autenticamente verde-amarelas, ao contrário do Halloween, que alguns brasileiros estariam tentando importar e nos enfiar goela abaixo. Por falar nisso, tenho de procurar uma máscara para o Baile de Halloween do próximo sábado, em Portland, Maine, a três horas da minha casa, localizada em Glastonbury, Connecticut, Estados Unidos. Como vim parar aqui e o que estou fazendo no site do Davi Menda, meu primo de Gravataí, são outros quinhentos, que pretendo ir revelando aos poucos.

Primeiro, é preciso localizar Glastonbury no mapa mental de cada um, para facilitar o entendimento do que será relatado. Todo mundo sabe que Nova Iorque fica na costa leste, ou Atlântica, dos Estados Unidos. Um pouco acima de Nova Iorque, também à beira do Atlântico, fica Boston, famosa por suas universidades. A meio caminho entre Nova Iorque e Boston está localizado o Estado de Connecticut, cuja capital, Hartford dista apenas 10 minutos de carro de Glastonbury. Fácil, não? Na realidade, não é bem assim, pois é Glastonbury, com seus 25.000 habitantes, que fica a 10 minutos de carro de Hartford, uma cidade bem maior em extensão e população. Connecticut, juntamente com outros cinco estados da região nordeste dos Estados Unidos, formam a assim chamada "New England" ou Nova Inglaterra, pois foi por aqui que a colonização do país, pelos ingleses, teve início. Daí a razão de grande parte de suas cidades e rios terem recebido o mesmíssimo nome de localidades e acidentes geográficos da velha Inglaterra.

Para dar alguns exemplos: a uma hora daqui temos o Rio Tâmisa, minha filha mais velha mora em Manchester e trabalha em New Britain, ambas pelas redondezas e a praia mais próxima se chama New London. Quanto ao sufixo bury, de Glastonbury, ainda não consegui decifrar muito bem seu significado, mesmo porque há uma quantidade enorme de localidades terminadas em bury, como Waterbury e Danbury, essa última considerada um dos maiores redutos de brasileiros dos Estados Unidos. Pelo dicionário bury pode ser traduzido como enterrar e começo a ficar em dúvida se, na verdade, eu não estaria enterrado em Glastonbury, uma cidade encantadora que se prepara, como o restante do país, a comemorar, ao anoitecer desta sexta-feira, o Dia das Bruxas, ou, como já dissemos, Halloween.

Meu neto de quatro anos já está com a fantasia de Batman tinindo, para sair pela vizinhança do condomínio onde mora ameaçando assustar as pessoas que se negarem a oferecer-lhe guloseimas. Na porta de suas casas os americanos exibem, há alguns meses, orgulhosamente, uma imensa abóbora, espécie desenvolvida com essa finalidade específica, pois não estraga ou apodrece com o passar do tempo. Alguns se dão ao trabalho de recortar olhos, nariz e boca em uma das superfícies do vegetal, iluminando seu interior com lamparinas ou velas. Outras pessoas decoram suas portas e janelas com máscaras de bruxas, caveiras e fantasmas. Até mesmo as lojas de artigos eróticos disponibilizam aos clientes deste mundo objetos e indumentárias fantasmagóricos do outro, apesar de eu ter minhas dúvidas se, na hora da onça beber água, tais apetrechos não acabem funcionando como verdadeiros anti-afrodisíacos.

Há meses que super-mercados, lojas de roupas e até mesmo grandes farmácias dedicam gôndolas e prateleiras inteiras para a exposição de objetos relacionados ao Halloween, que neste ano, apesar da crise, irá representar um gasto de 47 dólares por habitante, maior do que o PIB de muitos países. Na realidade, apesar de já ter vindo aos Estados Unidos uma porção de vezes, eu só conhecia o Halloween pelos filmes e TV e esta será a primeira vez em que estarei vendo e participando ao vivo de uma festa inteiramente exótica para os padrões brasileiros, que costumam curtir muito mais a vida do que a morte. 

 

 

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Al Karismi com gente nova

Davi Castiel Menda

 

A partir de amanhã o blog Al Karismi passa a contar com um colaborador de peso, que qualquer blog ou jornal do país gostaria, e eu tive a honra e capacidade de conseguir - e que por coincidência é meu xará: David Nelson Menda. Aliás, ele talvez nem lembre, mas foi quem redigiu a descrição do blog em 2006: “Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.”

O Nelson, médico de profissão, foi quem “bolou” e lançou no país o Nutricálcio, remédio à base de ostras, que devolveu a vontade de viver a milhares de pessoas – principalmente mulheres – vítimas da osteoporose. Além disso, é um pesquisador nato e realizou trabalhos belíssimos, entre eles a vida do Jacob do Bandolim; os hábitos judaicos incorporados ao dia-a-dia dos brasileiros, que causou um grande impacto, tendo sido vertido para o francês pelo correspondente do “Le Monde” no Brasil que o espalhou pelo mundo. Descobriu os irmãos Joel e Samuel Sequerra, luso-brasileiros, já falecidos - que salvaram mais judeus durante a Segunda Guerra que o próprio Schindler – escrevendo um texto muito interessante sobre eles, e que foi publicado no livro Homens de Valor; etc etc etc

Ao agregar o Nelson Menda ao Al Karismi, por estar ele residindo nos Estados Unidos, os leitores e eu ganhamos duplamente: não é qualquer blog que pode se ufanar de ter um correspondente nos States - exclusivo. Mas que fique bem claro – e que os leitores do Al Karismi sejam testemunhas no futuro – que o Nelson assume o compromisso de abrir mão de qualquer remuneração, mesmo que o material seja publicado e/ou comercializado pelo blog junto a outros órgãos de divulgação.

Aliás, procedimento adotado pelo Globo On-line que criou uma seção para os leitores-repórteres, com o objetivo de divulgar material enviado por pessoas como você, eu e um monte de gente que gosta de escrever graciosamente. Ou seja, acabaram de abolir a Lei Áurea no país, com a recriação do trabalho escravo, com a agravante de que, antes de 1888, o dono da senzala precisava alimentar e vestir seus servos, ao passo que agora os custos do trabalho com o computador, eletricidade e provedor são de responsabilidade do próprio “burro de carga”.

Nelson - seja bem-vindo e aguardamos com expectativa teu texto amanhã. Dia 31 de outubro, você morando nos EEUU: é imaginável e previsível…

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29/10/08

A Incrível e Fantástica História do Pavão

Davi Castiel Menda

“Quando você tiver certeza absoluta de alguma coisa – vá em frente, aproveite. Não é sempre que você pode tripudiar seus adversários.”

Quando no ano de 2000 mudei-me para um sítio na zona rural, o sonho de uma vida, herdei do proprietário anterior um lote de 50 galinhas (que doei na primeira meia hora), meia dúzia de gansos, quatro patos, um filhotinho de pastor belga (o Buster, que esta semana completou nove anos), além de uma belíssima cisne negra, a Black Star. Como vocês já devem estar pressentindo, na semana seguinte, todos esses animais foram devidamente batizados. Tinha até uma gansa com o artístico nome de Demi Moore. Além de toda essa fauna, o sítio possuía um galinheiro de material, que de tão bonito e tão espaçoso, a bicharada ficava constrangida de usá-lo, dormindo invariavelmente na grama, mesmo que chovesse a cântaros.

Pouco tempo depois, a esses foi agregado um casal de pavões; ao passar por uma loja especializada em agropecuária, vi aqueles dois engaiolados num espaço mais destinado a passarinhos do que aqueles enormes fasianídeos, me senti penalizado e os comprei. O macho imediatamente recebeu o nome de Mauríce de minha parte, em homenagem ao grande cantor-ator Maurice Chevalier; minha esposa preferia chamá-lo de pavão mesmo, acentuando o “a” nasalado e arrastando o “o” final.

O Mauríce era um espetáculo a parte. Além de aderir ao movimento dos bichos de não dormir no galinheiro, ele e a cara-metade se adonaram do telhado do galinheiro! Era para lá que eles voavam assim que o sol se punha e por lá passavam a noite. Aos domingos, quando se acentuava o número de citadinos em busca da paz no campo (e em contrapartida infernizando a nossa pacata vidinha), ele pressentia o público, levantava sua crista azul e verde e abria suas plumas caudais, com aquelas fantásticas manchas oculares iridescentes, num grande leque, obrigando os carros a pararem.

E num caso especial a ser estudado pela psicologia, pois normalmente o animal tende a incorporar o comportamento humano, com o pavão é exatamente o contrário: ele transmite ao seu proprietário o seu exibicionismo característico. Notei essa tendência quando me dei conta de que eu também desfrutava prazerosamente de todos aqueles carros parando em frente à minha casa, tentando, pelas frestas da cerca, admirar o pavão.

Num belo dia, recebi a visita do meu primo e xará David Nelson Menda para conhecer o sítio e descansar das suas infindáveis viagens pelo mundo. Depois de muita conversa, levei-o da área social da casa para a parte rural; foi quando dei falta do pavão. Uns dias antes a fêmea tinha sido morta por um gambá - agora perder o pavão era um duplo baque. Mas por mais que eu procurasse, não o encontrei e fiquei realmente muito aborrecido. É claro que o Mauríce tinha sido roubado; era de se duvidar que ele abandonasse aquela boa vida que levava.

Convidei o Nelson para visitar duas agropecuárias localizadas na estrada na tentativa de achá-lo; se alguém o roubara, fatalmente teria colocado à venda numa delas. Na primeira não havia nenhum; na segunda exatamente doze. Fiquei olhando atentamente para a grande gaiola montada na frente da loja e, lá no fundo, cabisbaixo, triste, estava o Mauríce.

Você, a essas alturas, deve estar se perguntando: de que forma, entre doze pavões, todos rigorosamente iguais, eu poderia identificar o meu pavão? Devo lembrar-lhe que quando atuava como cronista de turfe no Hipódromo do Cristal, eu e uma dezena de colegas, identificávamos pelo menos uns mil cavalos pelo nome, só de olhá-los na raia galopando. E ainda nos dávamos ao luxo de citar a sua filiação e em muitos casos o proprietário. É claro que aquele era o “meu” pavão!!!

Para tirar a prova dos nove chamei a minha esposa e enquanto eu e o Nelson olhávamos atentamente ela gritou: Pavããããôôô! Na mesma hora o pavão por mim identificado deu um pulo (só ele) e ficou nos olhando admirado. Ali estava a comprovação que eu precisava. Na hora, o sangue ferveu; eu queria ligar para a Polícia, para a Brigada, o esquadrão anti-seqüestro e anti-bombas, convocar a imprensa escrita, falada e televisada, o Correio de Gravataí, a Zero Hora, a Fátima Bernardes, o Datena, que abraçaria a causa imediatamente, chamando aqueles seqüestradores da fauna brasileira de canalhas, e pregando a pena de morte assim que fossem capturados.

Em consideração ao meu visitante, acalmei-me e resolvi dar uma oportunidade ao acaso. Consultei o Nelson, um sujeito moderado e, seguindo seu conselho, resolvi comprar “aquele” pavão e ao chegar no sítio, soltá-lo. Se à noite ele se abancasse no telhado do galinheiro, no dia seguinte eu faria o maior banzé. Processaria o dono da loja por receptação e faria com que a Polícia descobrisse o autor do furto. Os culpados pagariam caro por aquele rapto ignominioso.

Voei para casa no intuito de buscar o dinheiro. No exato momento que cheguei, outro carro estacionou paralelamente ao meu e reconheci ao volante um dos meus vizinhos. Apesar de não ser um bom momento, educadamente o recebi, fiz as apresentações, mas ele entrou direto no assunto: perguntou se eu não dera falta do meu pavão. Respondi afirmativamente e ele continuou: -“Tenho uma notícia triste pra te dar. O teu pavão voou para o meu terreno, possivelmente atrás das galinhas (não se conformou com a monotonia causada pela viuvez recente) e meus cachorros o pegaram. Ele está aqui num saco, mas se achares conveniente, o meu caseiro o enterra”.

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Que essa história sirva de lição para todos aqueles que garantem 100% de certeza em tantas situações, em tantos testemunhos. E quando você tiver certeza absoluta de alguma coisa – vá em frente, aproveite. Não é sempre que você pode tripudiar seus adversários. Mas lembre-se, você poderá estar cometendo uma grande injustiça!

criado por projetosnumericos    10:51 — Arquivado em: Crônica

28/10/08

De Médico e de Louco…

Davi Castiel Menda

O fato narrado a seguir, aconteceu num Clube Comercial do interior do Rio Grande, lá por volta de 1962, envolvendo pessoas conhecidas e de famílias tradicionais; em face do exposto, mantemos o anonimato dos personagens.

Certo fazendeiro, apreciador do jogo carteado, sofrendo de pressão alta, problemas no coração, artrite, e outras doenças características da terceira idade, durante um joguinho de pif-paf - nada amistoso por sinal, considerando-se que o dinheiro circulante numa única parada seria o suficiente para adquirir um automóvel O km - ao receber suas nove cartas, ficou petrificado: levantara “pifado” (para os não iniciados, dependia de somente uma carta para ganhar). Bem, o “pife” não era lá estas coisas - a única carta que lhe servia para “bater a parada” era o quatro de ouros - mas convenhamos, levantar “pifado” é uma vantagem nada desprezível, principalmente levando-se em conta que vários jogadores habilitaram-se àquela partida. Ah, íamos esquecendo uma outra vantagem adicional: por serem dois baralhos no pif-paf, conseqüentemente a chance era dupla, pois existiam dois quatro de ouros em jogo.

Pela situação incomum e levando em conta seu histórico de problemas cardiovasculares, mesmo antes da parada iniciar, nosso amigo fazendeiro começou a suar frio e tremer, indicando claramente aos seus parceiros que suas cartas, sem dúvida, eram boas. Ao chegar sua vez de comprar a carta a que tinha direito, foi ao baralho, chuleou lentamente e, pela banda da carta, viu que era um … quatro … quatro vermelho … puxou a carta de sopetão e…, que pena, era o quatro de copas! Mais tremores, mais suores, mais frio. Jogou fora o quatro que não lhe servia e continuou na expectativa. Cada jogada dos outros parceiros parecia-lhe que durava um século. Felizmente, para sua satisfação, ninguém “bateu”, e sua vez de jogar chegou novamente: ele comprou a carta e … replay da jogada anterior: o outro quatro de copas! Nosso jogador se sentiu na pele de um imaginário personagem bonzinho das novelas da Globo, daqueles que são perseguidos do início até o último capítulo.

Num espaço de tempo que lhe pareceu uma eternidade, mas que na verdade não durou mais do que um segundo, ele sentiu o mundo girar, não resistiu e desmaiou, sob o olhar atônito e preocupado dos demais participantes. Um médico que estava presente e, coincidentemente, “peruando” o jogo do desfalecido, imediatamente foi convidado a reanimá-lo. O médico, um tremendo gozador, e sabendo que o desmaio não teria maiores conseqüências, abriu sua maleta, tirou o receituário e, sem mesmo conferir as condições do jogador, lascou aquela que seria a sua receita mais invulgar (e genial - do ponto de vista lúdico) de toda sua carreira, e que, na sua concepção, curaria o desmaiado: “Quatro de ouros, de meia em meia hora”!

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Minha homenagem a todos os médicos que vem me tratando dos mesmos problemas do fazendeiro "azarado": pressão alta, problemas no coração, artrite, psoríase-reumatóide e outras doenças características da terceira idade; em especial à Dra. Janete.

criado por projetosnumericos    7:42 — Arquivado em: Humor, Jogos & Loterias

27/10/08

Futebol, Cachorreiros & Política

Davi Castiel Menda

Sou do tempo em que futebol era jogado no campo, decidido no campo. Sou do tempo em que, terminada uma partida, os torcedores subiam no mesmo bonde (é, também sou do tempo do bonde), sentavam lado a lado, comentavam a partida lado a lado, tocavam flauta lado a lado, e ninguém morria por ser torcedor…

Até onde minha memória pode alcançar, lembro-me de ser gremista, aquele de paixão, que não subia em ônibus se por acaso despontasse uma flâmula de determinado “co-irmão” próxima ao motorista.

Mas falando em futebol, lembrei-me de um craque e uma das primeiras demonstrações de que as torcidas estavam mudando: Ortunho, num Grenal, foi atingido covardemente por uma garrafa e voltou com a cabeça enfaixada, faixa que nos minutos seguintes assumiu a cor do adversário pelo sangue que a tingiu. Aqueles que não tinham um herói, como eu, passaram a ter: Jorge Carneiro, Ortunho, foi craque, foi herói, foi um símbolo do Grêmio, e aquela partida é uma das tantas partidas que ficaram gravadas na calçada da fama da minha memória.

Passados alguns anos, a paixão pelo futebol e pelos campos já diminuída, meu lazer dominical era passear com minha mulher e a Susie, um de meus cachorros, no Parque Farroupilha. Num desses passeios, noto aquela figura gigante aproximando-se de nós, e qual a minha surpresa, quando o Ortunho, em carne e osso – imagine, o herói vindo de encontro ao torcedor – dirigiu-se a nós. Cumprimentou-nos e contou, a mim e a Ana Maria, que também tivera uma cadelinha poodle, muito parecida com a nossa, que a havia perdido, e saudoso que estava, aproximava-se sempre dos cachorreiros para trocar uma palavra, consolar-se. Conversa vai, conversa vem, diz o Ortunho para nós:
- Vocês são muito jovens (mal imaginava ele a nossa idade…) e não devem me conhecer! Eu joguei por muito tempo no Grêmio, meu nome é Ortunho.

Bem, aí o surpreso ficou ele quando eu recitei automática e instantaneamente:
- Arlindo ou Alberto, Altemir, Airton, Áureo e Ortunho. Ou quem sabe: Sérgio, Airton e Ortunho; Figueiró, Elton e Enio Rodrigues; Hercílio, Gessy, Juarez, Milton e Vieira.

Ele ficou me olhando, num misto de espanto, orgulho e emoção, e se testemunhas tivessem presenciado a cena, o que ficariam imaginando, assistindo a um poodle abanando a cola sem parar, e três adultos com lágrimas nos olhos?

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O Al Karismi, nas suas previsões políticas, tem sido só acertos. Lamentavelmente, nas eleições americanas, vai errar não só na preferência pessoal como também no resultado. Deve ganhar Obama e eu jogava todas minhas fichas em McCain. Ontem descobri que o meu candidato tem nada menos, nada mais, do que 24 bichos de estimação entre cães e gatos; Obama não tem nenhum. Não sei, presidente americano sem um pet. Pensando bem, não sei se errei mesmo…

criado por projetosnumericos    6:26 — Arquivado em: Crônica

25/10/08

Olhar dominical - 9

                                

Bom domingo!

criado por projetosnumericos    20:23 — Arquivado em: Olhar dominical

24/10/08

Lei da Conservação da Inteligência - 1a. Parte

Davi Castiel Menda

“O hominídeo da espécie Homo neanderthalensis, mais conhecido como Homem de Neanderthal, tinha um QI muito superior ao homem dos nossos dias, maior talvez do que Da Vinci ou Einstein. Não esqueça que ele sobreviveu por dezenas de milhares de anos, num mundo totalmente hostil, ao passo que nós – ao que tudo indica - podemos estar caminhando para a extinção”.

Segundo a Lei de Conservação da Inteligência (LCI), o somatório da inteligência humana é constante e imutável. Sei que não é fácil, assim à primeira vista, assimilar rapidamente essa informação que foge um pouco a toda nossa experiência de vida; encare então sob outro prisma: a LCI assevera que a soma da inteligência dos sete bilhões de habitantes da terra é estática e, quando dentro de quatro décadas a população da Terra atingir 15 bilhões de habitantes, o somatório da Inteligência de todos esses homens, continuará inalterável. Na teoria, a cada criança que nasce, nossa inteligência diminui um micro-ponto nessa escala de avaliação abstrata e estanque. Na prática, nossa inteligência é socializada - temos que dividi-la equanimemente com o restante da população.

Partindo da suposição que esta premissa seja verdadeira, e considerando o crescimento da população em progressão exponencial - dobrando a cada 35 anos – deduzimos que o homem cada vez mais e mais está regredindo na sua capacidade de resolver situações novas mediante reestruturação dos dados perceptivos, que em suma é o que convencionamos chamar de inteligência. Entretanto, compensado pelo avanço tecnológico, numa escala sem precedentes desde que o homem é homem, este declínio praticamente não é notado, propiciando então um duvidoso equilíbrio que mascara a deficiência da apreensão, percepção e intelectualidade em benefício da tecnologia.

Afirmam os compêndios que o homem só utiliza 10% da sua inteligência, mas em tempos idos, quando a tecnologia era praticamente nula, provavelmente este índice deveria ser próximo dos 100%. São questionáveis os motivos pelos quais o homem padeça desse bloqueio repressivo no processo de utilização de toda sua potencialidade e intelecto. Seria em decorrência da explosão demográfica incontrolável? Ou este paupérrimo índice de 10% deva ser atribuído por ser o homem mais emotivo do que racional, num contraponto ao avanço tecnológico-cultural?

O pensador José Stelle, em troca de correspondência sobre o assunto, foi taxativo sobre a questão: “A razão disso é que poucos se dão ao trabalho de pensar, não só sobre coisas materiais, como também sobre os fundamentos da vida, que são transcendentais. A ignorância, as crenças e as ideologias violentas progridem e imperam no seio de um suposto mundo científico e racional; a sensatez e o conhecimento são mínimos ou rejeitados”.

Um deslocamento pelo túnel do tempo ao passado, nos conduz às conquistas humanas em épocas desprovidas de quaisquer recursos, indicativos que os povos que viveram séculos antes de nós, eram infinitamente mais criativos e mais inteligentes.

Eram incontáveis as dificuldades vividas e enfrentadas pelos antigos: ausência total de bibliografia e fontes de consulta; falta de divulgação e discussão dos seus trabalhos; incompreensão dos contemporâneos e, sobretudo, nos continentes europeu e americano, o temor de que as novas teorias não se entrechocassem com as diretrizes da Igreja (seja ela Católica ou Protestante), que dominou boa parcela do mundo e subjugou o pensamento do homem por mil anos, fator que contribuiu para uma estagnação sem precedentes.

 

- segue abaixo -

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Lei da Conservação da Inteligência - 2a. Parte

2a. parte

Na matemática, a ciência das ciências, perdemos por larga margem. Quem dos leitores, com todo o seu conhecimento e cultura, mesmo o autor o liberando a utilizar seu computador pessoal, bibliografia ou até mesmo o Google, teria condições de demonstrar como chegar ao valor de pi (o tão conhecido 3,1416 - valor que aparentemente herdamos ao nascer)? Lembro que em 1983, numa palestra versando sobre Informática, com público estimado em 300 alunos, prometi um computador de prêmio ao primeiro que resolvesse a questão. Mesmo todos conhecendo de antemão a resposta ao problema, nenhum dos presentes se candidatou ao brinde. Os professores, sabiamente, se consideraram impedidos… Entretanto, a história nos revela que muitos séculos antes da era cristã, vários povos já dominavam e usavam a constante pi em seus cálculos, com uma precisão admirável levando em conta a época.

A Astronomia é outro exemplo fabuloso. Desprovidos de telescópios, sem tábuas logarítmicas, sem réguas de cálculo, computadores ou Internet nem pensar, os antigos sem dúvida deram um espetáculo à parte (excetuando-se uma meia dúzia de astrônomos que isoladamente pregavam a teoria geocêntrica), prevendo eclipses, calculando distâncias e órbitas dos planetas e cometas, identificando constelações, estabelecendo o valor das epactas.

No Xadrez, hobby em que os bons resultados são diretamente proporcionais à inteligência de quem o pratica, nunca obteremos jogadores superiores – no conjunto – aos que viveram na segunda metade do século 19, como no futuro não teremos tão bons jogadores como os de hoje, e assim sucessivamente, mesmo sendo cada vez maior o número de simpatizantes. Cresce a população, aumenta em proporção o número de jogadores, mas paradoxalmente diminuem os grandes mestres e suas jogadas geniais! Nomes como Lowenthal, Steinitz, Tchigorin, Tarrasch, Lasker, Maroczy, Rubinstein, e mais recente Capablanca, viveram numa época privilegiada, quando quantitativamente o número de habitantes da Terra era impressionantemente menor do que o atual.

Onde estão presentemente os cérebros capazes de realizar a proeza de enfrentar até 50 adversários simultaneamente, às cegas, como Philidor, Morphy, Pillsbury, Tartacover e Breyer? Comparando partidas clássicas disputadas nos fins do século 19 - quando para diversos analistas o Xadrez atingiu o seu apogeu – com as melhores do século 20, nos posicionamos ao lado dos analistas! E, lamentavelmente, a preocupação primordial no presente não é gerar bons enxadristas e, sim, cada vez mais, melhorar o desempenho de computadores especificamente produzidos na tentativa de derrotar grandes mestres. A máquina é movida pela lógica do cálculo perfeito. O homem tem o poder de fazer julgamentos. Tudo parece muito caótico, mas é a forma sub-reptícia do homem e da natureza manter o equilíbrio: menos inteligência = mais tecnologia.

A LCI, do princípio ao fim, é um tema polêmico, abstrato e inexiste literatura sobre o assunto. Poderíamos nos dedicar a escrever um compêndio de situações que demonstram serem os povos antigos infinitamente superiores a nós no quesito inteligência, a não ser que tencionemos dar crédito à teoria, exaustivamente propagada pelos escritores Erich von Däniken (Eram os Deuses Astronautas?) e Peter Kolosimo (Não é Terrestre) que tentaram demonstrar que a “sabedoria” dos povos antigos era proveniente de ensinamentos ministrados por habitantes oriundos de outros planetas, o que é discutível.

É fácil aceitarmos, respeitosamente, a sabedoria de nossos pais e avós, mais pela experiência e vivência, afirmação espirituosamente fundamentada pelo conhecido ditado espanhol “El diablo sabe más por viejo do que por diablo” - não é o caso; estamos falando de inteligência, e inconscientemente, com o nosso orgulho ferido pela afirmação aparentemente esdrúxula sobre a diminuição progressiva da inteligência humana, nos posicionamos na defensiva. O enunciado da Lei não envolve somente ascendentes próximos – é muito mais amplo e extenso - e fica difícil que reconheçamos, em qualquer época ou situação, que o homem que viveu há 200, 1.000 ou 10.000 anos fosse mais inteligente do que nós: a negativa pura e simples resolve o imbróglio e os nossos brios permanecem intactos e preservados!

Entretanto, por mais que você relute, é uma realidade irretorquível: o hominídeo da espécie Homo neanderthalensis, mais conhecido como Homem de Neanderthal, tinha um QI muito superior ao homem dos nossos dias, maior talvez do que Da Vinci ou Einstein. Não esqueça que ele sobreviveu por dezenas de milhares de anos, num mundo totalmente hostil, ao passo que nós – ao que tudo indica - podemos estar caminhando para a extinção.

 

criado por projetosnumericos    6:59 — Arquivado em: Ensaio

23/10/08

Reforma em Cadeia

Fraga

Mesmo que os alarmes não soassem tanto com fugas e rebeliões corriqueiras, a situação dos presídios gaúchos alarma. Pra deixar o inferno mais infernal, o diabo tem se inspirado nas cadeias do estado. Como chegamos a essa indignidade? Aposto numa tese: a qualidade dos presos decaiu muito. Não tem ninguém digno atrás das grades. Lá dentro está lotado de gente insensível, sem modos, uns brutamontes. Capazes de tudo naquele ambiente de matar ou morrer.


A solução que agora se discute, de ampliar as penitenciárias, será paliativa – por mais espaçosas, confortáveis e bem decoradas que fiquem. É só pra caber mais do mesmo. Em pouco tempo a depredação material e a deterioração moral tomam conta das ´novas e melhores´ condições.

Na minha desinteressada opinião, a verdadeira reforma nos presídios tem que ser ousada: qualificar o quadro de presos. Chega de dar preferência a gente pobre e analfabetos, ladrões de ocasião e assaltantes contumazes, assassinos passionais e traficantes menores. Assim o nível das cadeias jamais subirá! Esses ambientes precisam receber criminosos melhores, que sirvam de exemplo aos criminosos piores.

Uma boa medida inicial seria encher as cadeias dos autores de crimes do colarinho branco. Um simples detalhe de vestuário já mudaria a feição da multidão, tão mal vestida e rota. Esses profissionais do ganho escuso têm requisitos para influir no cotidiano prisional: são educados, estudaram, têm classe e postura, sabem se comportar diante das autoridades, não gritam nem apelam à força bruta. Aos poucos, com boas maneiras, refinamento de linguagem e visão ampla do mundo do crime sofisticado, influenciariam os demais presos. Discípulos de suas bem-sucedidas carreiras.

Pensem em milhares de assassinos, estupradores, assaltantes e seqüestradores largando seus hábitos grosseiros e métodos violentos para se dedicar à corrupção, às fraudes, aos escândalos financeiros! Tudo isso são ações criminosas, sim, mas sempre pacíficas e ordeiras, que apenas escandalizam, não causam horror e morte às vítimas.

O convívio interno melhoraria muito: ninguém mata com uma falsificação na goela de outro encarcerado, ninguém enforca um colega com um fio de argumento golpista. Como os colarinhos brancos só utilizam celulares de última geração, dirigiriam seus comparsas de dentro das prisões, com alcance até Brasília (sem a interrupção do fluxo de capital que tanto promove a riqueza nacional). Por tabela, os comandos do tráfico ficariam enfraquecidos pela nova liderança e perderiam a capacidade de mobilizar asseclas cá fora. Haveria menos ameaças à sociedade.

Essa nova população carcerária beneficiaria ainda a profissão advocatícia. Afinal, com mais gente importante trancafiada, mais hábeas corpus para todos nesse entra-e-sai, e a conseqüente elevação dos honorários.

Outros respeitáveis personagens, por mais modestos e discretos que sejam em sua atuação ilegal, poderiam contribuir com sua boa conduta entre muros correcionais para a qualificação em cadeia: sonegadores fiscais, atravessadores e intermediários inescrupulosos, juízes e autoridades e políticos e administradores públicos comprovadamente corruptos. Enfim, toda uma elite que engrandeceria a imagem das penitenciárias. Como agem por todo o país, o abastecimento está garantido.

Por extensão, as melhorias nas penitenciárias atingiriam, além das dependências bem conservadas, com infra-estrutura hoteleira, a harmonia da vida ilícita dentro da lei e a eliminação dos choques com a vigilância através de subornos com cartão de crédito!

Pena que não levam humoristas a sério.
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Posfácio:
O texto acima é do José Fraga (www.coletiva.net), um dos mais brilhantes humoristas do RS,  publicado em 17.10.08;  não resisti – tive que transcrevê-lo. Considerando que  não pedi autorização, provavelmente serei processado, condenado e preso. Só espero que a cadeia já tenha passado pelas reformas previstas na sua satírica crônica. Prometo que para ajudar no visual, vestirei meu Armani ao jantar, principalmente se meu colega de mesa for o Cacciola. Fraga, me perdoa. Um abração.

criado por projetosnumericos    10:26 — Arquivado em: Crônica

22/10/08

A Loteria da Babilônia

Davi Castiel Menda

“Sou de um país vertiginoso onde a loteria é a parte principal da realidade: até o dia de hoje, pensei tão pouco nela como na conduta dos deuses indecifráveis ou do meu coração”. – José Luis Borges – A Loteria da Babilônia.

Interessante, o Brasil é um país de contrastes esquisitos. A nossa legislação reza que os jogos de azar são proibidos, mas diariamente, podemos tentar a sorte - sorte e azar são gêmeos siameses, inseparáveis - nos mais variados tipos de loterias de números que se possa imaginar, corrida de cavalos, raspadinhas e a tão ex-popular Loteria Esportiva. E para agravar mais ainda a inconstitucionalidade de certos jogos ditos oficiais, há uma leizinha (se ela foi revogada, me penitencio) que proíbe terminantemente apostas em qualquer atividade que envolva esforço humano. Evidentemente, um sábio legislador quis preservar aos apostadores das tretas factíveis através de combinação prévia, permitindo somente jogos em que a sucessão de fatos e de causas independentes que convencionamos chamar de sorte, fado ou destino, fosse realmente a responsável pela indicação de felizardos ganhadores.

Na antiga Roma, os imperadores, para garantir a sustentação no poder, providenciavam para que nunca faltasse ao povo pão e circo. Mesmo com o agravamento da situação econômica de Roma, motivada pela corrupção generalizada e pela inflação, o povo pouco se preocupava: recebia através da generosidade pública o pão, alimento essencial da época, enquanto a diversão – o circo - funcionava ininterruptamente: gladiadores em lutas mortais, leões devorando os seguidores da nova seita (cristianismo), corridas de bigas ou quadrigas.

Se no parágrafo anterior trocássemos a Roma antiga pelo Brasil de hoje, além de alguns simbolismos, não faria muita diferença. O povo - beneficiário da bolsa-família, bolsa-alimentação, bolsa-gás, bolsa-colégio, bolsa-qualquer-coisa; alienado pelo sonho eterno de ser campeão, bi, penta, hepta, decacampeão (o infinito é o limite) no Campeonato do Mundo de Futebol, com o auxílio dos meios de comunicação que, motivados pelos altos faturamentos, ajudam a fomentar a esperança; e as eternas acumuladas milionárias da Mega Sena alimentando o sonho irreal da fortuna rápida - deixa para um segundo ou terceiro plano as verdadeiras questões e reais problemas que afligem a sociedade brasileira.

José Luis Borges, em 1941, lançou um conto chamado A Loteria da Babilônia. É um texto pesado, crítico, repleto de simbolismos, onde o autor consegue prender a atenção do leitor pela sucessão de regras que vão sendo adicionadas a uma loteria criada na Babilônia: “Meu pai contava que antigamente – questão de séculos, de anos? – a loteria na Babilônia era um jogo de caráter plebeu. Referia (ignoro se com verdade) que os barbeiros trocavam por moedas de cobre, retângulos de osso ou pergaminho adornados de símbolos. Em pleno dia verifica-se um sorteio: os contemplados recebiam, sem outra confirmação da sorte, moedas cunhadas de prata. O procedimento era elementar, como os senhores vêem”.

O tempo faz com que a esperança de ganho seja substituída pelo tédio; para atrair novos apostadores, são inseridos bilhetes aziagos, ou seja, o sorteado com aqueles números, ao invés de ganhar, teria que pagar uma multa. Era a equanimidade - a igualdade de ânimo tanto na desgraça quanto na prosperidade – introduzida na loteria pela Companhia, a administradora dos sorteios.

“Por inverossímil que seja, ninguém tentara até então uma teoria geral dos jogos. O babilônio é pouco especulativo. Acata os ditames do acaso, entrega-lhes a vida, a esperança, o terror pânico, mas não lhe ocorre investigar as suas leis labirínticas, nem as esferas giratórias que o revelam. Não obstante, a declaração oficiosa que mencionei instigou muitas discussões de caráter jurídico-matemático. De uma delas nasceu a seguinte conjectura: Se a loteria é uma intensificação do acaso, uma periódica infusão do caos no cosmos, não conviria que a casualidade interviesse em todas as fases do sorteio e não apenas numa?”

Aos poucos, novas e novas regras são introduzidas, permitindo aos ganhadores o acesso a cargos públicos ou a elevação ao concílio dos magos, a detenção de inimigos através da delação, o encontro nas pacíficas trevas de um quarto com a mulher dos sonhos; aos portadores dos bilhetes adversos, a mutilação, a infâmia, a prisão, a morte. Os mais humildes se revoltam por não poder participar da loteria, por motivos financeiros - a Companhia adota a liberalidade de franqueá-la a todos, indistintamente; ela passa a ser compulsória.

A história brinca com a teoria da predestinação e de que não temos controle algum sobre o futuro; é como se o universo fosse uma simulação dentro de um grande contexto, ou até de um simples programa de computador. Talvez uma grande brincadeira do autor, inventando um deus ex-machina, a exemplo de Kafka. O parágrafo final é de uma beleza assustadora, em que o próprio autor, talvez arrependido da sua maquinação, da assombrosa e perversa engrenagem administrada pela Companhia, admite a possibilidade de nada daquilo existir.

Não sei se cometo um pecado literário ao invocar Borges, traçando um paralelo entre o universo por ele criado na sua Loteria da Babilônia e as loterias no Brasil. Valho-me de um trecho de crônica de Roberto Pompeu de Toledo, sobre o mesmo tema, para justificar minha ação:
“Um deles é que há milhares de anos, na Babilônia, como hoje no Brasil (e no resto do mundo), identifica-se um caráter misterioso no giro de um punhado de bolinhas, esta com um número, aquela com outro, até que uma prevalece. Quem o determina, com que poderes secretos, e por que razões inalcançáveis? As pessoas ainda hoje se agarram à crença de que há nisso uma predeterminação, quando não uma lógica. Alguns se inspiram em sonhos, para penetrá-las, como se sonhos fossem canais condutores aos mistérios últimos da vida e da morte. Isso prova que, aqui como na Babilônia, a loteria é vista como algo que tem parte com o sagrado.”

 

Borges se martirizava por não ter tido idéias geniais e de ser um mau poeta. Antes de morrer afirmou: “Me arrependo de tudo que escrevi”. Por favor, José Luis Borges, onde quer que esteja, se arrependa de tudo, dos seus devaneios, dos seus contos, dos seus poemas, exceto d´A Loteria da Babilônia.

criado por projetosnumericos    11:39 — Arquivado em: Ensaio
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