15/9/08
Deus, Computador e o Homem
Davi Castiel Menda
Quanto você acha que vale comercialmente falando? Certamente, para sua família e amigos, você é inestimável; entretanto, numa conotação tecnológica entre você e uma calculadorazinha de R$ 1,99 – seguramente a sua cotação é bem inferior a da máquina, exceção aos inclusos entre os 0,000001% da população que possuem a faculdade de extrair uma raiz quadrada mentalmente, operação que a calculadora realiza num piscar de olhos.
Você poderá contra-argumentar que quem criou a calculadora foi o homem e, uma máquina, seja ela uma régua de cálculo, uma simples calculadora, um robô ou o supercomputador japonês Earth Simulator – que alcança 35,86 teraflops, ou seja, um trilhão de cálculos por segundo – é como um livro. Na condição de livro, ela sabe as respostas. Mas só aquelas que nós já sabemos. Fomos nós que demos essas respostas a ela. A máquina, como o livro, não cria absolutamente nada – ambos são produtos de cérebros criativos.
O sonho de avanço tecnológico nunca teve limites e o homem sempre especula além. Pesquisadores – e principalmente governos - levam extremamente a sério e ao pé da letra o ditado profético de Francis Bacon no século XVII: conhecer é poder. Inteligência artificial está além do “saber” da máquina, é muito mais do que puro conhecimento e, partindo desse pressuposto, a pesquisa nesse terreno cresce em escala exponencial.
A Bíblia nos ensina que Deus teria criado o homem - figuradamente através de Adão e Eva - à sua imagem e semelhança. A partir daí, duas teorias se entrechocam: a teoria vitalista, que afirma que o ser humano é inconfundível por ser dotado de uma centelha vital (daí o nome) – que alguns chamam de alma; em contrapartida, a filosofia do mecanismo sugere que o homem é composto de nada mais que átomos, controlado por idênticas leis da física que regem a matéria inorgânica (nesta segunda hipótese, o livre arbítrio, tão prezado pelo homem que abomina o determinismo do “maktub” - estava escrito - não passaria de um mito).
Não estaria a humanidade, nesse estágio avançadíssimo de tecnologia, tentando conceber o contraponto: a criação de um “deus” à imagem do homem? A teoria vitalista (o homem) se sobrepondo à filosofia do mecanismo (inteligência artifical/computador), talvez até adequando a situação a um tríplice circuito que mexe com princípios de moral e religiosidade? Deus, computador e ele próprio?
Na introdução de um conto de John Brunner (1934/1995), extraímos a citação de que sempre que se pensa em Deus, as características que associamos a Ele são de onipotência e onisciência. Sempre que se pensa num poder e num conhecimento tão definitivos, o espírito inevitavelmente salta da idéia de Deus para os computadores.
O tema do computador como entidade divina já forneceu o ponto de partida para uma infinidade de histórias. Trata-se de uma noção tão antiga quanto o teatro grego, onde o deus ex machina, ou “divindade que surge por meios mecânicos” muitas vezes descia ao palco, mediante o auxílio de roldanas, para resolver os dilemas que os pobres mortais não eram capazes de enfrentar. A arte premonitória dos gregos estava dois milênios à nossa frente, a frente da atual tecnologia, conceitos e princípios de informática.
O escritor que melhor explorou o tema foi o gênio da ficção científica Isaac Asimov (1920/1992), criador das três leis da robótica e um dos primeiros a escrever sobre inteligência artificial. Não seria um devaneio afirmar que o elo entre o ficcionismo e a realidade foi O Homem Bicentenário, escrito em 1976. Trata-se de um conto fantástico, criativo, que mexe profundamente com o nosso lado emocional, e um dos seus maiores êxitos literários. Nele, Asimov conta a trajetória de um robô que ,após duzentos anos de existência e adquirir personalidade própria, tenta o caminho inverso: a saga em busca da liberdade e sua luta desesperada para abandonar a condição de máquina e – simplesmente ser homem! Lamentavelmente, o conto foi absorvido por Hollywood e o trio Robin Williams (intérprete do robô Andrew), Nicholas Kazan (roteirista) e Chris Columbus (diretor) se encarregou de, desleixadamente, degradar e até ridicularizar a história mais marcante de Asimov; apesar de tudo, o filme mereceu uma indicação ao Oscar… Quem somente assistiu ao filme e não leu o livro, deve ter associado a imagem de inteligência artificial à melo-comédia.
Os computadores modificaram o nosso sistema de vida. São a essência da civilização de hoje! Imaginem tirá-los de circulação; voltaríamos a uma espécie de mundo que nem imaginamos mais como funciona. Estamos atravessando o mesmo dilema de nossos longínquos ancestrais: o que seria do homem das cavernas se tivesse acontecido uma catástrofe e não pudesse mais usar o fogo – ou o vapor no século XIX ou a eletricidade no século XX – respeitadas as proporções, seria o caos!
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Um artigo com esse título - Deus, Computador e o Homem - não estaria completo se não fizéssemos uma referência toda especial à história relâmpago Resposta, escrita em 1954 por Frederic Brown (1906/1972). Aliás, melhor do que uma simples referência é reproduzir a síntese da história, com um final previsível, mas que dá o que pensar.
“O Superintendente de todos os planetas habitados do Universo – noventa e seis bilhões de planetas para ser mais preciso – preparou-se para ligar a chave que acionaria os supercircuitos, que por sua vez, conectariam todos eles a uma hipercalculadora, máquina cibernética capaz de combinar o conhecimento integral de todas as galáxias.
Ele ligou a chave e ouviu-se um zumbido fortíssimo, o surto de energia proveniente dos quase 100 bilhões de planetas. Por unanimidade, o Superintendente fora incumbido e teria a honra de formular a primeira pergunta à máquina que agora comandaria tudo.
Respirou fundo, e informou aos trilhões de espectadores que lhe assistiam por uma rede especialmente criada para a ocasião, que seria uma pergunta que nenhuma máquina fora capaz de responder até hoje. Virou-se para o computador e perguntou:
- Deus existe?
A voz, qual mil trovões, respondeu sem hesitação, sem se ouvir o estalo de um único relé:
- Sim, agora Deus existe.
O rosto do Superintendente ficou tomado de súbito pavor. Saltou para desligar a chave, mas um raio fulminante, caído de um céu sem nuvens o acertou em cheio, e deixou a chave ligada para sempre.”
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