4/9/08
Homens de pouca fé
Davi Castiel Menda
Dizem que quando a Terra era habitada por um número reduzidíssimo de pessoas – segundo a Bíblia, apenas dois, Adão e Eva – os homens (para ser mais preciso, um homem e uma mulher) podiam se dar ao luxo de conversar diretamente com o Criador, formular suas reivindicações e, na maioria das vezes, ser atendidos; afinal de contas, eram só dois mesmo.
Quando Eva comeu do fruto proibido, um episódio até hoje não muito bem esclarecido, Deus teve que tomar uma atitude para a qual não estava preparado: expulsar os dois do Paraíso (abrindo um parêntese: na semana passada, durante a convenção democrata nos Estados Unidos, foi proibida a entrada de maçãs – algo a ver?). Para Ele, imbuído de toda bondade do mundo, não foi fácil, e até devem ter lhe faltado as palavras apropriadas. Provavelmente, usando da sua onipotência, consultou o Google Future(*), digitou a palavra “expulsão” e dentre os milhares de verbetes disponíveis, aproveitou as expressões utilizadas por Donald Trump ao eliminar seus candidatos no seu célebre programa televisivo.
Os dois banidos seguiram à risca o “crescei e multiplicai-vos” e aqui estamos nós, beirando os oito bilhões de habitantes, todos cheios de problemas, uns maiores, outros menores.
As religiões se encarregaram de divulgar a existência deste Ser supremo com poder absoluto e infinito. E, o homem, sempre que se vê em situação difícil, lembra da Sua existência e tenta resolver seus problemas existenciais e principalmente materiais com orações e pedidos, todos crentes que as suas pendências são as mais importantes e que devem ser priorizadas com a ficha um nos atendimentos divinos. Para uns, o paraíso seria dispor de um prato de comida diária, um só que fosse; para outros, divisar seus milhões de inimigos mortos numa guerra – questão de ponto de vista, de educação ou de criação.
Com esse desmedido crescimento populacional, o Criador delegou poderes aos anjos para analisar os pedidos de toda essa massa humana. Não deve ser fácil. Tente acompanhar um bem comum: o “seu” Antonio deseja ganhar 30 mil reais para comprar um carro. O que são 30 mil reais para um anjo? Absolutamente nada, zero. Respeitadas as proporções, é como se um mendigo nos pedisse dez centavos - e quantas vezes recusamos míseros centavos a um esmoleiro?
Lá em cima, o negócio não funciona como o órgão que julga a apelação das multas de trânsito aqui na Terra: o anjo tem que prestar contas ao Chefe e não pode simplesmente dizer não; tudo tem que ser muito bem analisado e justificado. Todas as variáveis têm que ser minuciosamente programadas. O futuro é jogado numa tela tridimensional e aquilo que parecia simples ao pedinte, pode se transformar num drama: um mês após o carro adquirido – se o pedido fosse atendido - o “seu” Antonio se veria envolvido num terrível acidente de trânsito. Os custos de hospitalização seriam elevados. Processos, cassação de carteira, traumas, tudo decorrente do ganho extra, não previsto no livro da vida quando ele nasceu. É claro que as variáveis são infinitas e em escala geométrica, e essa é só uma amostra do que poderia ocorrer. O anjo, pesando os prós e contras, apõe o seu carimbo no processo – Indeferido!
O “seu” Antonio, triste por não ser atendido nas suas súplicas diárias e constantes, passa a se lamuriar e até troca de religião. Que injustiça com o anjo que lhe salvou de poucas e boas…
Apesar da imparcialidade divina com relação a esses e a todos os pedidos, dizem que só há um caso em que o Chefe faz plena questão que não seja atendido de forma alguma. Quando alguém pede para ganhar na loteria, na Mega Sena acumulada, por exemplo, o anjo encarregado de analisar o processo deve contar quantos volantes o pedinchão apostou: se for mais de um, é sinal que é um homem de pouca fé. Indeferido nele!
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(*) Posfácio: é claro que o termo Google Future é uma brincadeira, mas como sei de fonte segura que o Bill Gates lê esse blog eventualmente, não se espante se ele aproveitar a idéia e lançar o MS Future. Aliás, considerando que os nossos vizinhos ricos da América já investiram em segredo dezenas de bilhões de dólares – secretamente – em pesquisas para prospectar petróleo no passado (!!!), quando ele acabar no presente, nada vindo deles pode me (nos) surpreender.
criado por projetosnumericos
13:54 — Arquivado em: 

Comentário por SÉRGIO PINTO DE VASCONCELLOS — 5 05UTC setembro 05UTC 2008 @ 18:44
Tendo sido eleito pelo mestre “um crÃtico no bom sentido” agora fico livre para perguntar o que eu queira.
Davi, fiquei muito satisfeito de conhecer você ai no Rio Grande, e, eu, e o meu também amigo, Coutinho, sempre debatemos os seus feitos. Continue.!
A propósito do que você escreveu acima eu só pergunto 2 coisas:
Toda essa comunicação de ambos os lados e com a inter-
vençao de anjos …… é feita em que lÃngua terrena?
Aqueles julgamentos angelicais (anjos terceirizados?) tem a ver com o ” Livre AbÃtrio” que você esplanou tão bem em
“post” anterior?
Abraços
Comentário por SÉRGIO PINTO DE VASCONCELLOS — 5 05UTC setembro 05UTC 2008 @ 18:55
Davi
A repeito das expressões “Google Future” e “MS Future” o que você está esperando para registrar?
Quem sabe você vai fazer com o Bill Gates o que ele fez com a IBM?
* na verdade não entendo de registros, se pode ou não pode, mas já houve casos e você sabe, que no inÃcio, teve gente registrando domÃnios importantes e depois os titulares antigos (parece que) tiveram de pagar para reverter a propriedade.