29/8/08
Vem aà a bolsa-petróleo
Davi Castiel Menda

Uma das historinhas mais interessantes que conheço é a do machadinho. Diz a lenda que lá pelo ano de 1900, determinada família almoçava num daqueles grandes casarões quando o patriarca pediu à filha mais velha, gestante, que fosse à adega e trouxesse uma garrafa de vinho. Passado algum tempo, como a filha não retornasse, mandou que a outra filha verificasse o que estava acontecendo. A segunda, ao chegar à adega, encontrou a irmã chorando e perguntou-lhe o motivo. A primeira respondeu: “Está vendo aquele machadinho na parede? Estou imaginando nosso pai, daqui alguns anos, pedir ao meu filho (que ainda está por nascer), que venha aqui na adega buscar uma garrafa de vinho e, o menino, ao chegar aqui, poderá se acidentar com o machadinho caindo na sua cabeça”. É claro que a irmã, compungida com a situação, também começou a chorar. E pelo restante da refeição e dia afora, novos parentes foram chegando à adega, tomando conhecimento da tragédia que poderia ocorrer, e ficando por lá, todos unidos no choro pelo drama que se desenhava iminente…
Cento e sete anos depois da história do machadinho, em fevereiro de 2007, escrevi uma crônica intitulada “Todo mundo rico” (por favor, a leia para melhor entendimento da crônica de hoje). Na verdade, um exercício ficcionista onde imaginei um político gerando uma situação utópica de venda da Amazônia e, com os recursos entrando aos borbotões no país e distribuídos equanimemente entre a população brasileira, todos se tornariam ricos. Para não atingir mais ainda a classe política, tão atormentada na época por denúncias de toda ordem, na última hora, troquei a figura do político pela de um assessor de uma empresa multinacional, algo mais impessoal, sem alterar o sentido da crônica, aliás, assustadoramente premonitória, considerando os fatos recentes.
Primeiro: a história do machadinho. Segundo: se trocarmos o título de “Todo mundo rico” por “Todo mundo menos pobre”. Terceiro: o bilhete premiado do pré-sal. Está formada a trilogia perfeita.
Pelo que se lê e se ouve da camada pré-sal, são reservas de petróleo estimadas em 50 bilhões de barris. Considerando o preço do barril em torno de 120 dólares, chegaríamos a nada desprezível soma de seis trilhões de dólares ou, para os mais impressionáveis com números: U$ 6,000,000,000,000.00. É muito dinheiro! Paga 30 dívidas externas do país. Só tem um probleminha: entre esse petróleo e, conseqüentemente toda essa dinheirama, sete mil metros de profundidade nos separam. Ele está muito bem enterrado e protegido. Em linha reta não é muita coisa, mas cavar esta distância é metro que não acaba mais.
Desconheço (como vocês provavelmente também não sabiam) absolutamente nada de pré-sal. De petróleo só sei que é transformado em gasolina e que essa transmutação me ajuda na locomoção diária. De sal, que sem ele a comida fica insossa. Mas cavar um buraquinho de sete quilômetros para extrair petróleo, ninguém até hoje conseguiu; quando muito a metade desta distância. E pior, não é na terra – a “moleza” com que a natureza beneficiou os árabes – é no mar!
É evidente que, se for criada uma nova empresa, a Petrosal ou Salpetro, muita gente vai começar a ganhar dinheiro hoje mesmo: diretores, conselheiros, consultores além dos chuchadores de plantão. E quem vai pagar esta conta antecipadamente? Um doce para quem acertar. Sem a menor possibilidade de se retirar uma gota sequer de todo esse manancial, por enquanto hipotético, político daqui do estado já se perfilava ontem, junto ao Presidente (e descobridor da mina), pedindo verbas por conta do petróleo para os Cieps. Por favor, isso é gozação e uma afronta à nossa inteligência.
Resumindo, o dono do bilhete premiado está esquecendo de avisar a população que o bilhete na verdade é pré-datado e vai depender de tecnologia ainda a ser criada para chegarmos lá e tomarmos posse do ouro negro. Quanto tempo vai demorar isso? Cinco, dez anos? Na verdade, gostaria que fosse amanhã. Tenho ganas de sair gritando pelas ruas “O pré-sal é nosso!” pois analisando bem, seis trilhões de dólares divididos por 180 milhões de brasileiros proporcionariam a cada um de nós algo em torno de U$ 33,000.00. Considerando o valor da minha aposentadoria, idade avançada e dados atuariais e estatísticos sobre expectativa de vida - somando prós e contras - repasso a parte que me cabe por dez mil dólares. Alguém se habilita?
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