Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

28/8/08

A crise da economia americana

Paul comprou um apartamento, no começo dos anos 90, por 300.000 dólares, financiado em 30 anos. Em 2006, o apartamento de Paul passou a valer 1.100.000 de dólares. Um dos tantos bancos americanos, sequioso por aplicar o dinheiro de seus investidores, perguntou para Paul se esse não gostaria de um valor emprestado, dando seu apartamento como garantia. Paul aceitou o empréstimo, fez uma nova hipoteca e viu agregada à sua conta 800.000 dólares.

Com essa dinheirama no bolso, Paul, vendo que os imóveis não paravam de valorizar, comprou três casas em construção, dando como entrada algo como 400.000 dólares. A diferença, 400.000 dólares, Paul comprometeu da seguinte forma: comprou um carro novo (alemão) pra ele, deu um carro (japonês) para cada filho e com o resto do dinheiro comprou uma tv de plasma de 636 polegadas , 43 notebooks, 1.634 cuecas. Tudo financiado, tudo a crédito. A esposa de Paul, sentindo-se rica, sentou o dedo no cartão de crédito.

Em agosto de 2007, começaram a correr boatos que os preços dos imóveis estavam caindo. As casas onde Paul havia investido 50% do seu capital e que estavam em construção, caíram vertiginosamente de preço e passaram a ter liquidez zero.

O negócio que parecia fácil e rendoso - refinanciar a própria casa e usar o dinheiro para comprar outras casas e revender com lucro – virou pesadelo. Todo mundo tivera a mesma idéia ao mesmo tempo. É o eterno e cíclico vai-e-vem das correntes: quando vão aprender que só os primeiros ganham? As taxas, que num primeiro momento eram desprezíveis, e que Paul pagava para o Banco, começaram a subir (eram pós fixadas) e  Paul percebeu que seu investimento em imóveis se transformara num desastre.

Considerando que milhões tiveram a mesma idéia do Paul, havia casas para vender como nunca na história imobiliária americana.
Paul foi agüentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as das três casas que ele comprara para revender (a exemplo de milhões de compatriotas), mais as prestações dos carros, as das cuecas, dos notebooks, da tv de plasma e do cartão de crédito da patroa.

No momento em que as casas que Paul adquirira para revender ficassem prontas, conforme cláusula contratual, ele passaria a pagar parcelas mais elevadas já que Paul – e o banco - esperavam que a essas alturas as três casas já teriam sido revendidas. Com excesso de oferta, ou não havia compradores ou os interessados só propunham um preço muito inferior ao que Paul havia investido. Paul literalmente quebrou. Deixou de pagar aos bancos, as hipotecas da casa que morava, além das três casas onde havia investido. Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores que tiveram a mesma e (in)feliz idéia de Paul.

Para sua sobrevivência e da família, Paul tentou renegociar com os bancos que, nessa hora, como era de se esperar, recusaram qualquer acordo (você imaginava outra atitude?). Paul entregou aos bancos as três casas onde investira, perdendo 100%. Ele e sua família pararam, evidentemente, de consumir.

Milhões de Pauls deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito calcados nos preços dos imóveis. Os bancos haviam transformado os empréstimos de milhões de Pauls em títulos negociáveis. Esses títulos passaram a ser negociados com valor de face. Com a inadimplência dos Pauls esses títulos passaram a valer pó. Considerando que esses títulos estavam disseminados por todo o mercado, bilhões e bilhões de títulos passaram a nada valer. Para complicar mais ainda a situação, sabe-se que os mercados europeus e asiáticos são fortes investidores nos EEUU e, em conseqüência, estes também foram violentamente afetados.

Imóveis avaliados em 500.000 dólares, de repente, passaram a valer 300.000 dólares e, mesmo assim, não encontravam compradores.
Os preços dos imóveis eram uma “bolha”, um ciclo que não se sustentava, como os esquemas de pirâmide: especulação pura. A inadimplência dos milhões de Pauls atingiu fortemente os bancos americanos que perderam centenas de bilhões de dólares. A farra do crédito fácil, um dia acaba. Acabou.

Com a inadimplência dos milhões de Pauls, os bancos pararam de emprestar por medo de não receber. Os Pauls pararam de consumir porque não tinham crédito. Mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha crédito não queria dinheiro emprestado.

O medo de perder o emprego fez a economia travar. Recessão é sentimento, é medo. Mesmo quem pode, pára de consumir. O que começou com o Paul hoje afeta o mundo inteiro. A coisa pode estar apenas começando. Só o tempo dirá.

criado por projetosnumericos    9:25 — Arquivado em: Crônica

6 Comentários »

  1. Comentário por Nelson Menda — 28 28UTC agosto 28UTC 2008 @ 10:34

    Davi. Muito bom o texto sobre a crise imobiliária norte-americana, que conseguiu, de forma didática e compreensível para os não especialistas, explicar os mecanismos que a desencadearam. Além dos fatores que você, com bastante propriedade, mencionou, existem alguns aspectos peculiares ao mercado de imóveis nos Estados Unidos. Assim, por exemplo, se o seu Paul não tivesse comprovação de renda para assumir um empréstimo de U$ 300,000.00 teria a opção de contratar os serviços (e pagar por eles) de um consultor financeiro. Esse consultor faria das tripas coração para provar o improvável, até que o empréstimo fosse concedido. Como o Paul não irá dispor de verba para remunerar seus serviços, esse valor será agregado ao do empréstimo, acrescido dos respectivos juros. Da mesma forma, todo imóvel financiado por um banco precisa passar por uma inspeção técnica, que irá verificar se as instalações hidráulicas e elétricas, assim como as demais condições gerais da propriedade, estão em perfeitas condições ou necessitam de algum tipo de reparo. Essa inspeção também tem custo, que deve ser assumido pelo promitente comprador. Como ele não dispõe de recursos para pagar o inspetor, será mais uma despesa a se somar ao bolo que, a essas alturas, mesmo sem fermento, já terá crescido bastante. No próximo comentário irei tecer mais algumas considerações pertinentes ao tema.

  2. Comentário por Nelson Menda — 28 28UTC agosto 28UTC 2008 @ 11:01

    Dividi o comentário em duas partes, para não passar pelo dissabor te tê-lo rejeitado por ser excessivamente extenso, como já aconteceu comigo na crônica sobre o Biden, em que precisei amputar o final do texto para conseguir enviá-lo. Aproveitei para sugerir ao Ombudsman do Terra que os comentaristas sejam informados, previamente, dessa limitação de espaço, para que evitem desperdiçar seu tempo e paciência. Voltemos ao personagem Paul, ainda às voltas com a crise imobiliária norte-americana. Você mencionou que ele havia adquirido um apartamento por U$ 300,000.00. Nos Estados Unidos, pelos menos no aprazível Estado de Connecticut, onde estou no momento, é impossível adquirir um “apartment”. Você pode comprar um terreno, uma casa ou uma unidade em um condomínio, “condo” em inglês, mas a expressão “apartment” é reservada aos imóveis destinados exclusivamente à locação. Os prédios podem ser exatamente iguais, mas a designação “apartment” não se refere ao tipo de construção, mas sim à finalidade comercial do imóvel, se destinado à venda ou locação. Eu, por exemplo, que estou morando em um apartamento, no sentido que emprestamos à palavra no Brasil, tenho de tomar cuidado para ser entendido pelos interlocutores locais, informando que resido em uma “unit” (unidade) de um “condo” e não em um “apartment”. Mais comentários no bloco seguinte.

  3. Comentário por Nelson Menda — 28 28UTC agosto 28UTC 2008 @ 11:17

    Em continuidade, é importante informar que a crise imobiliária norte-americana não atinge todos os setores da construção civil. A compra e venda de unidades em condomínios continua aquecida e a pleno vapor. Na região onde estou residindo houve até uma pequena elevação de preços nos últimos meses, com o mercado favorecendo os proprietários interessados em vender seus imóveis. O mesmo é possível observar nos grandes complexos imobiliários destinados à locação, os chamados “apartments”, que geralmente pertencem a investidores individuais ou grandes grupos, que estão felizes da vida. Talvez até, quem sabe, aquecidos pelos Pauls da vida, que compraram casas enormes - e caras - e por não conseguirem quitar suas hipotecas, precisaram se mudar para esses conjuntos, alguns até bastante simpáticos e com uma gama de serviços incluída no preço da locação. Assim, um locatário de um “apartment” ou “condo” ou um proprietário de uma “unit” em um “condo” não precisa se preocupar com as goteiras do telhado, em podar as árvores na primavera, aparar a grama no verão, recolher as folhas no outono e, suprema desgraça, limpar a neve no rigor do inverno. No próximo comentário irei analisar a aquisição dos carrões pelo Paul e sua família, pois não acredito que se possa atribuir a eles as razões para a crise por que passa o personagem e a própria sociedade norte-americana.

  4. Comentário por Nelson Menda — 28 28UTC agosto 28UTC 2008 @ 11:38

    Com exceção de meia-dúzia de cidades, que oferecem bons serviços de transporte coletivo, é impossível viver e trabalhar nos Estados Unidos sem contar com um carro. O preço dos automóveis, comparando com as mesmas marcas e modelos dos disponíveis no Brasil, é muito menor. A grosso modo, eu diria que correspondem a 25% do que custariam em nosso país. Talvez até pela excessiva carga tributária que os produtos fabricados no Brasil estejam sujeitos e deixo aos reencarnacionistas a ilusão de que isso vá mudar um dia, pois eu já perdi a esperança. Os carros também são financiados, mas os juros, asim como os da aquisição da casa própria e outros bens de consumo, são excessivamente camaradas, ao redor de 6% ao ano. E não são pós-fixados, como na história do infeliz Paul. São pré-fixados, em patamares infinitamente mais baixos do que as escorchantes taxas impostas aos infelizes tomadores de empréstimos bancários no Brasil. Além disso, caso ocorra uma redução após a assinatura do contrato, o tomador poderá solicitar uma diminuição no percentual de juros cobrados dali para a frente. Ou seja, a legislação protege o comprador, tanto de carros quanto de imóveis ou outros artigos. Concordo com você quando afirma que a atual crise foi desencadeada por pura especulação, tanto de compradores quanto de instituições financeiras, que contaram com o ovo quando ainda estava, como se diz aí no Rio Grande, na “sambiqueira” da galinha. E quebraram, previsivelmente, a cara.

  5. Comentário por Nelson Menda — 28 28UTC agosto 28UTC 2008 @ 11:57

    Os comentários inseridos nesse Blog devem ser lidos segundo a máxima bíblica de que “os últimos serão os primeiros”, pois são publicados, sabe-se lá o porquê, de trás para a frente. Para serem entendidos pelos leitores, sugiro, mais uma vez, uma pequena tarefa ao nobre e incansável Ombudsman do Terra, no sentido de passarem a ser inseridos, no futuro, seguindo a mesma ordem em que forem redigidos e enviados. Como acho pouco provável que essa importante modificação seja implementada, fica a sugestão ao leitor de pular para o último dos comentários enviados por mim e, com o providencial auxílio do mouse, ir retroagindo, um a um, até chegar ao último (ou o primeiro, como queiram) para facilitar o entendimento do que foi exposto sobre a crise imobiliária norte-americana.

  6. Comentário por Sergio Pinto de Vasconcellos — 8 08UTC outubro 08UTC 2008 @ 22:05

    OCORREU UMA BOLHA IMOBILIÁRIA E NÃO SE SABE QUEM PATROCINOU ………. OS BANCOS FINANCIARAM PROPRIETÁRIOS QUE DAVAM COMO GARANTIA OS IMÓVEIS. ERA UMA BOLSA DE VALORES PARALELA E DE REPENTE A BOLHA ESTOUROU. O CASTELO RUIU.
    BANCOS ESTRANGEIROS ENTRARAM NESSA E PERGUNTO: OS BANCOS DAQUI ( EU IA DIZER OS NOSSOS BANCOS - MAS NÃO SOMOS BANQUEIROS) TAMBÉM ENTRARAM NESSA? (FILIAIS DOS BANCOS NO EXTERIOR DAQUI PODEM TER ENTRADO E COM A ECONOMIA GLOBALIZADA -> TUDO PODE ACONTECER.
    É ISSO? DAVI?

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