26/8/08
Livre ArbÃtrio - republicação
Davi Castiel Menda
“Se a vontade do homem é livre ou não? A questão ela mesma é imprópria: e é tão insignificante perguntar se a vontade do homem é livre quanto perguntar se seu sono é veloz, ou sua virtude quadrada: a liberdade sendo tão pouco aplicável à vontade, quanto a velocidade do movimento ao seu sono, ou a quadratura à virtude. Todo o mundo deve rir da absurdalidade de uma questão tão peculiar quanto essa: porque é óbvio que as modificações do movimento não pertencem ao sono, nem a diferença de figura à virtude; e quando se considera isso bem, penso que se percebe que a liberdade, a qual é apenas um poder, pertence apenas aos agentes, e não pode ser um atributo ou modificação da vontade, a qual também é apenas um poder.” - John Locke (filósofo britânico – Séc. XVII)
Um dos grandes enigmas da humanidade é responder à questão que vem intrigando há séculos, físicos, filósofos, humanistas, biólogos e sociólogos, além dos – indiscutivelmente - maiores interessados, teólogos e religiosos: o homem tem direito a escolhas ou sua vida, ao nascer, já está totalmente predeterminada?
O enigma dentro do enigma é a tentativa de explicar o inexplicável: o conflito da onisciência de Deus com o livre-arbítrio. Admitindo como dogmática a onissapiência divina, Ele saberia com antecipação tudo o que ocorreria no futuro, inclusive os nossas arbítrios, o que gera um paradoxo. O conhecimento eterno de Deus sobre as opções individuais do homem constrange a nossa apregoada e discutível liberdade de escolha. Se agirmos de forma diferenciada daquilo que Deus já sabia antecipadamente que aconteceria, nós O estaríamos surpreendendo, o que é uma incongruência - a onisciência cristaliza o futuro.
Aristóteles, filósofo grego que viveu 350 anos antes da era cristã, foi praticamente o pioneiro a plantar a semente da dúvida, sobre a existência ou não da liberdade metafísica, o direito do homem de escolher as suas alternativas. De lá para cá, várias correntes se formaram, todas gravitando em torno do tema: determinismo, incompatibilismo, indeterminismo, libertarismo, compatibilismo, que por sua vez também tiveram suas ramificações.
O teorema de Bell é o contraponto ao determinismo de Albert Einstein e sugere que Deus esteja jogando dados, numa metáfora exagerada à aleatoriedade da vida. Ou talvez Deus não jogue dados, mas apenas siga sua vontade, sendo a mesma não determinada por nada, nem mesmo por um objeto formal como o bem ou a verdade, tal como na teoria das verdades eternas de Descartes.
Aceitar ou não que o nosso destino já estava escrito antes mesmo do nosso nascimento é uma questão que todas as religiões tentam responder, algumas de forma pragmática. A maioria, com pequenas variações, doutrina o livre-arbítrio, e por extensão, que não devemos culpar a Deus ou ao destino pelos nossos atos – nós somos os responsáveis por tudo que fazemos. Se o destino fosse o responsável direto pelas coisas boas e ruins que acontecem, nós seríamos marionetes manipuladas por extensos cordéis etéreos. Em Sonhos e Pesadelos, crônica escrita anteriormente, abordei algo semelhante: “se em determinadas ocasiões, ao invés de sonhar, os deuses, por estarem acordados, se divertem manipulando, ao seu bel-prazer, suas minúsculas cobaias humanas, firmemente aprisionadas num imenso labirinto azul chamado Terra.”
Entre as exceções, destacamos o Islamismo - acredita que o destino de cada um é determinado ainda no embrião – Maktub - a teoria do estava escrito!; a Igreja Batista segue a mesma linha. O judaísmo aborda o assunto de forma ambilátera, afirmando que sim, existe um destino que predetermina o comportamento humano, mas simultaneamente é dada liberdade ao homem para alterar este destino se assim o queira. Ou seja, o homem deve ajudar o seu destino, não deixando que o destino o domine e aja independente e soberanamente. Na verdade, são duas coisas distintas: destino e livre-arbítrio – entretanto, não seria coerente deixar de reconhecer que os dois conceitos estão interligados.
Spinoza, filósofo holandês contemporâneo de Locke, compara a crença humana no livre-arbítrio a uma pedra “pensando” que escolhe o caminho que percorre enquanto cruza o ar até o local onde cai. Diz mais: “as decisões da mente são apenas desejos, os quais variam de acordo com várias disposições”; “não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é determinada por sua vez por outra causa, e essa por outra e assim ao infinito”; “os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar”.
Levanto outra questão pertinente: se haveria livre-arbítrio antes do limite zero, o exato momento em que o embrião começa a tomar forma? Deus teria nos consultado se queríamos realmente vir a esse mundo? Tivemos direito à escolha do nosso corpo, local de nascimento, a família que iria nos abrigar e dar educação? Se alguns filósofos crêem que o livre-arbítrio é equivalente a ter uma alma, teria a nossa, no momento da concepção, o direito àquelas escolhas?
Resta abordar a questão do livre-arbítrio encarado sob a ótica da responsabilidade moral, pois a sociedade considera os homens responsáveis pelos seus atos. Pessoas que se projetam por sua notabilidade são elogiadas; atos criminosos são reprimidos. Se o livre-arbítrio é real, verdadeiro, a imputação ao elogio ou à repressão estão absolutamente corretos, mas se formos induzidos pela visão determinista, onde todos os eventos são resultados necessários de causas prévias, e tudo o que acontece tem uma causa, estaríamos próximos do caos e da anarquia, tendo que perdoar a tudo e a todos, inclusive os responsáveis pelos crimes mais hediondos. Como podemos considerar alguém responsável por uma ação prevista desde o início dos tempos?
Cabe uma derradeira pergunta: tive eu o direito de escolher se escreveria este artigo ou Deus, na sua ubiqüidade e onisciência já sabia antecipadamente local, data e hora da sua feitura, dos meus erros e acertos, enfim, da possibilidade de exercer um poder sem outro motivo que não a existência mesma desse poder, o meu direito à liberdade de indiferença?
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Posfácio: quando da primeira publicação no blog, em dezembro/2006, este ensaio teve exatos 6.802 acessos, além de comentários interessantíssimos. Espero - para aqueles que ainda não o conheciam - que tenham apreciado. Comentários são bem-vindos.
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Comentário por Sérgio Vasconcellos — 27 27UTC agosto 27UTC 2008 @ 12:12
Davi,
Pelo que eu me lembro da igreja católica, o padre dizia que
Deus nos deu o livre arbÃtrio para que escolhessemos o que farÃamos ……. logicamente “se possÃvel” dentro dos preceitos da religião cristã. Agora, …… como contestar
Baruch Spinoza (sendo que este foi expulso da sinagoga holandesa ……… por saber demais)?
Comentário por Sérgio Vasconcellos — 27 27UTC agosto 27UTC 2008 @ 12:19
Davi,
Quem sabe, que, se você discorresse sobre a chamada
“Lei do Retorno”, observaria algo, que subsidiasse o estudo do livre arbÃtrio? Fica a sugestão. Sobre isso eu já vi vários casos concretos. E, acredito !