20/8/08
Obituário
Davi Castiel Menda
Quando se atinge determinada idade, um pontinho na curva descendente (o herético que criou a expressão “melhor idade” deveria ser preso, condenado, enforcado, esquartejado e suas partes salgadas para evitar outra tolice deste jaez), a matéria que mais nos chama a atenção nos jornais é incontestavelmente a coluna dos obituários, convites para enterro, descobertas de matzeiva, necrológios e afins.
Atenção amigos, parentes, leitores solidários e bissextos deste blog, e mais aqueles que choram até em casamento da Barbie - não se preocupem (ah, ia esquecendo, inimigos – tremei!): minha cardiologista, Dra. Janete, em recente check-up a que fui submetido, me garantiu que meu órgão nobre (o coração, maledicentes…), vai muito bem obrigado e tenho vários anos ainda pela frente. A minha preocupação no momento é outra.
Acontece que por esses dias, ao enviar subsídios para um amigo jornalista - dos mais prestigiados - este cometeu um pequeno engano, e citou meu pai como se fora meu avô. Nada de mais, um errinho comum sem maiores conseqüências, mas o gérmen da dúvida começou a tomar forma, foi num crescendo, e aqui estou eu a repassar minha angústia a todos que me lêem.
Quem é fã de obituários, deveria saber que as redações de jornais possuem um banco de dados prontinho para ser usado, de pessoas famosas, cientistas, atores de cinema, galãs da Globo, benfeitores da humanidade, et cetera. Dizem até que de políticos e presidentes. Considerando que não estou incluído em nenhuma destas categorias mas, em contrapartida, por ter colaborado (e sendo notícia) durante décadas nos jornais gaúchos, principalmente Zero Hora e Jornal do Comércio, presumo que terei direito a um espaço “quando faltar” (outra expressão idiótica freqüentemente utilizada por agenciadores de seguro).
Meu maior medo é que, na feitura do meu obituário, seja cometido algum erro crasso e eu não possa corrigi-lo, por motivos óbvios! Já imaginaram, naquelas comoventes e educativas linhas onde todos são anjos de bondade, ser citado como colorado, ou jogador de bocha, ou freqüentador de desfiles de carnaval?… E daí, vou reclamar pra quem? Ou pior ainda, omitirem que neste ano de 2008 fui sete vezes campeão de torneios de Poker ou que em 1957, vice-campeão juvenil porto-alegrense pelo Grêmio, em torneio de tênis de mesa promovido pela Folha Esportiva (naquela época os chineses ainda nem sabiam o que era tênis de mesa) - aliás, façanha que por mais que eu procure, não encontro citação nem no Museu e nem no site do Grêmio.
Se entregarem a tarefa da execução ao meu irmão, o escritor/jornalista da família, que escreve uma coluna humorística no Diário Gaúcho, tremo ao pensar que talvez ele siga a mesma linha de humor e os leitores fiquem confusos, achando que a matéria foi inserida em lugar errado (mas que seria divertido, seria). Se o encargo recair a uma das minhas filhas, talvez ela me transforme num super-homem, o que na verdade nunca fui. Enfim, qual a solução?
Quero ter o direito de escrever meu obituário (talvez vocês, depois desta exposição, também se sintam inclinados a acompanhar-me nesta cruzada), pois somente nós nos conhecemos perfeitamente, sabemos dos nossos erros e dos nossos acertos. Prometo que – no meu caso - não vou exagerar e nem ultrapassar 2.400 caracteres ou 40 linhas de 60 espaços.
O que é que vocês me dizem?
criado por projetosnumericos
14:38 — Arquivado em: 

Comentário por susana menda — 20 20UTC agosto 20UTC 2008 @ 18:53
A ideia me parece tao familiar quanto eu estrear semana que vem dancando a Odete do lago dos Cisnes, no American Ballet Theater .
Comentário por Ester Menda — 20 20UTC agosto 20UTC 2008 @ 19:43
Queria antes parabenizar a confecção do texto, bem elaborado e até com um toque de bom humor, o que é atrativo à leitura.
Infelizmente, somos aquilo que os outros dizem de nós, mesmo que vejamos como aberrações, salvo certas informações que deveriam ser precisas.
Falar da morte é da ordem do impossÃvel, também de si é difÃcil. Não somos donos da nossa biografia. Mas a idéia é interessante, um exercÃcio para vermos se conseguimos.
Comentário por Sergio Pinto de Vasconcellos — 20 20UTC agosto 20UTC 2008 @ 20:57
Davi, Passado o susto ao ser convidado a ler coisa desse tipo, observo o seguinte:
Parabéns, o seu coração está funcionando a contento ….. porém lembre-se, e, é bom, que, a coisa funciona +- como irrigar um jardim. É importante também que as mangueiras estejam funcionando. Sacou? (artérias não estejam entupidas ou trombóticas)
Preocupe-se em viver o dia de hoje e ………. o resto será
problema para quem fica.
Você já viu defunto preocupado? Abraços
Comentário por Nelson Menda — 21 21UTC agosto 21UTC 2008 @ 11:58
Davizinho. Além da proposta original, o texto é um primor de bom gosto. Millor, VerÃssimo e Fraga que se cuidem, pois “um valor mais alto se alevanta”. Quanto à melhor idade, tenho uma notÃcia realmente preocupante para você e os demais colegas sexa e septuagenários. Estamos condenados a viver duas décadas a mais do que nossos pais e avós. Culpa dos médicos e da indústria farmacêutica, ao não permitir que o coração, as artérias, os ossos e a própria cuca cumpram sua sagrada tarefa de nos enviar dessa para uma outra melhor (ou pior, pois além da Tia Jóia pouca gente sabe o que existe do lado de lá). Portanto, pode ir redigindo o obituário sem pressa, com o cuidado de reservar bastante espaço para relatar os feitos e realizações das próximas décadas. Um abração e parabéns por mais uma idéia brilhante. Nelson
Comentário por SÉRGIO PINTO DE VASCONCELLOS — 24 24UTC agosto 24UTC 2008 @ 22:39
Já que se fala em nomes a sua Doutora JANETE pode ser confundida com Dr. JATENE. ????????
Há muito, faço uma pergunta que nInguém respondeu, até
agora ………(falta perguntar a um japonês.)
Porque a antiga capital do Japão era KYOTO e a tual é
TOKYO ? Qual a origem da inversão das sÃlabas?