30/8/08
Olhar dominical - 1

Bom domingo!
Davi Castiel Menda

Uma das historinhas mais interessantes que conheço é a do machadinho. Diz a lenda que lá pelo ano de 1900, determinada família almoçava num daqueles grandes casarões quando o patriarca pediu à filha mais velha, gestante, que fosse à adega e trouxesse uma garrafa de vinho. Passado algum tempo, como a filha não retornasse, mandou que a outra filha verificasse o que estava acontecendo. A segunda, ao chegar à adega, encontrou a irmã chorando e perguntou-lhe o motivo. A primeira respondeu: “Está vendo aquele machadinho na parede? Estou imaginando nosso pai, daqui alguns anos, pedir ao meu filho (que ainda está por nascer), que venha aqui na adega buscar uma garrafa de vinho e, o menino, ao chegar aqui, poderá se acidentar com o machadinho caindo na sua cabeça”. É claro que a irmã, compungida com a situação, também começou a chorar. E pelo restante da refeição e dia afora, novos parentes foram chegando à adega, tomando conhecimento da tragédia que poderia ocorrer, e ficando por lá, todos unidos no choro pelo drama que se desenhava iminente…
Cento e sete anos depois da história do machadinho, em fevereiro de 2007, escrevi uma crônica intitulada “Todo mundo rico” (por favor, a leia para melhor entendimento da crônica de hoje). Na verdade, um exercício ficcionista onde imaginei um político gerando uma situação utópica de venda da Amazônia e, com os recursos entrando aos borbotões no país e distribuídos equanimemente entre a população brasileira, todos se tornariam ricos. Para não atingir mais ainda a classe política, tão atormentada na época por denúncias de toda ordem, na última hora, troquei a figura do político pela de um assessor de uma empresa multinacional, algo mais impessoal, sem alterar o sentido da crônica, aliás, assustadoramente premonitória, considerando os fatos recentes.
Primeiro: a história do machadinho. Segundo: se trocarmos o título de “Todo mundo rico” por “Todo mundo menos pobre”. Terceiro: o bilhete premiado do pré-sal. Está formada a trilogia perfeita.
Pelo que se lê e se ouve da camada pré-sal, são reservas de petróleo estimadas em 50 bilhões de barris. Considerando o preço do barril em torno de 120 dólares, chegaríamos a nada desprezível soma de seis trilhões de dólares ou, para os mais impressionáveis com números: U$ 6,000,000,000,000.00. É muito dinheiro! Paga 30 dívidas externas do país. Só tem um probleminha: entre esse petróleo e, conseqüentemente toda essa dinheirama, sete mil metros de profundidade nos separam. Ele está muito bem enterrado e protegido. Em linha reta não é muita coisa, mas cavar esta distância é metro que não acaba mais.
Desconheço (como vocês provavelmente também não sabiam) absolutamente nada de pré-sal. De petróleo só sei que é transformado em gasolina e que essa transmutação me ajuda na locomoção diária. De sal, que sem ele a comida fica insossa. Mas cavar um buraquinho de sete quilômetros para extrair petróleo, ninguém até hoje conseguiu; quando muito a metade desta distância. E pior, não é na terra – a “moleza” com que a natureza beneficiou os árabes – é no mar!
É evidente que, se for criada uma nova empresa, a Petrosal ou Salpetro, muita gente vai começar a ganhar dinheiro hoje mesmo: diretores, conselheiros, consultores além dos chuchadores de plantão. E quem vai pagar esta conta antecipadamente? Um doce para quem acertar. Sem a menor possibilidade de se retirar uma gota sequer de todo esse manancial, por enquanto hipotético, político daqui do estado já se perfilava ontem, junto ao Presidente (e descobridor da mina), pedindo verbas por conta do petróleo para os Cieps. Por favor, isso é gozação e uma afronta à nossa inteligência.
Resumindo, o dono do bilhete premiado está esquecendo de avisar a população que o bilhete na verdade é pré-datado e vai depender de tecnologia ainda a ser criada para chegarmos lá e tomarmos posse do ouro negro. Quanto tempo vai demorar isso? Cinco, dez anos? Na verdade, gostaria que fosse amanhã. Tenho ganas de sair gritando pelas ruas “O pré-sal é nosso!” pois analisando bem, seis trilhões de dólares divididos por 180 milhões de brasileiros proporcionariam a cada um de nós algo em torno de U$ 33,000.00. Considerando o valor da minha aposentadoria, idade avançada e dados atuariais e estatísticos sobre expectativa de vida - somando prós e contras - repasso a parte que me cabe por dez mil dólares. Alguém se habilita?
No dia em que os meus dois blogs (Al Karismi e Prognósticos Matemáticos) somados, atingem 30.000 acessos, meus agradecimentos a todos que me deram o prazer de sua visita.
Leitores que se divertiram, choraram, gostaram, discordaram, analisaram, elogiaram, xingaram ou comentaram os textos. Cada acesso, contabilizado diariamente, é o melhor prêmio ao esforço (duplo) despendido diariamente.
Minha homenagem a todos eles, representados por aqueles que de alguma forma comentaram, colaboraram ou citaram Al Karismi e Prognósticos Matemáticos:
* Adroaldo Guerra Filho * Alex Bolsoni * Amílcar Bruzano Filho * Camilo Aparecido Almeida * David Menda Magrisso * Eli Magrisso * Eliezer Castiel Menda * Emílio * Ester Miriam Menda * Florence C. Rosa * Gilson * Ilton C. Dellandréa * Isaac Magrisso * Joice de Brito e Cunha * José Francisco * José Stelle * Keila * Leamartine Pinheiro de Sousa * Luiz Cordioli * Luiz Figueiredo * Lydio Costa Reis Filho * Maycon Francisco Pereira * Nelson Menda * Paulo Castelani * Pedro Lynn * Pedro W. * Roberto Santos * Robson Leonel * Roger Chadel * Rogério Kirschbaum * Rubem Ygua * Sérgio Pinto de Vasconcellos * Shmuel (Rabino) * Solon Magrisso * Susana Menda * Walter Del Pichia * Zemane
Paul comprou um apartamento, no começo dos anos 90, por 300.000 dólares, financiado em 30 anos. Em 2006, o apartamento de Paul passou a valer 1.100.000 de dólares. Um dos tantos bancos americanos, sequioso por aplicar o dinheiro de seus investidores, perguntou para Paul se esse não gostaria de um valor emprestado, dando seu apartamento como garantia. Paul aceitou o empréstimo, fez uma nova hipoteca e viu agregada à sua conta 800.000 dólares.
Com essa dinheirama no bolso, Paul, vendo que os imóveis não paravam de valorizar, comprou três casas em construção, dando como entrada algo como 400.000 dólares. A diferença, 400.000 dólares, Paul comprometeu da seguinte forma: comprou um carro novo (alemão) pra ele, deu um carro (japonês) para cada filho e com o resto do dinheiro comprou uma tv de plasma de 636 polegadas , 43 notebooks, 1.634 cuecas. Tudo financiado, tudo a crédito. A esposa de Paul, sentindo-se rica, sentou o dedo no cartão de crédito.
Em agosto de 2007, começaram a correr boatos que os preços dos imóveis estavam caindo. As casas onde Paul havia investido 50% do seu capital e que estavam em construção, caíram vertiginosamente de preço e passaram a ter liquidez zero.
O negócio que parecia fácil e rendoso - refinanciar a própria casa e usar o dinheiro para comprar outras casas e revender com lucro – virou pesadelo. Todo mundo tivera a mesma idéia ao mesmo tempo. É o eterno e cíclico vai-e-vem das correntes: quando vão aprender que só os primeiros ganham? As taxas, que num primeiro momento eram desprezíveis, e que Paul pagava para o Banco, começaram a subir (eram pós fixadas) e Paul percebeu que seu investimento em imóveis se transformara num desastre.
Considerando que milhões tiveram a mesma idéia do Paul, havia casas para vender como nunca na história imobiliária americana.
Paul foi agüentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as das três casas que ele comprara para revender (a exemplo de milhões de compatriotas), mais as prestações dos carros, as das cuecas, dos notebooks, da tv de plasma e do cartão de crédito da patroa.
No momento em que as casas que Paul adquirira para revender ficassem prontas, conforme cláusula contratual, ele passaria a pagar parcelas mais elevadas já que Paul – e o banco - esperavam que a essas alturas as três casas já teriam sido revendidas. Com excesso de oferta, ou não havia compradores ou os interessados só propunham um preço muito inferior ao que Paul havia investido. Paul literalmente quebrou. Deixou de pagar aos bancos, as hipotecas da casa que morava, além das três casas onde havia investido. Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores que tiveram a mesma e (in)feliz idéia de Paul.
Para sua sobrevivência e da família, Paul tentou renegociar com os bancos que, nessa hora, como era de se esperar, recusaram qualquer acordo (você imaginava outra atitude?). Paul entregou aos bancos as três casas onde investira, perdendo 100%. Ele e sua família pararam, evidentemente, de consumir.
Milhões de Pauls deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito calcados nos preços dos imóveis. Os bancos haviam transformado os empréstimos de milhões de Pauls em títulos negociáveis. Esses títulos passaram a ser negociados com valor de face. Com a inadimplência dos Pauls esses títulos passaram a valer pó. Considerando que esses títulos estavam disseminados por todo o mercado, bilhões e bilhões de títulos passaram a nada valer. Para complicar mais ainda a situação, sabe-se que os mercados europeus e asiáticos são fortes investidores nos EEUU e, em conseqüência, estes também foram violentamente afetados.
Imóveis avaliados em 500.000 dólares, de repente, passaram a valer 300.000 dólares e, mesmo assim, não encontravam compradores.
Os preços dos imóveis eram uma “bolha”, um ciclo que não se sustentava, como os esquemas de pirâmide: especulação pura. A inadimplência dos milhões de Pauls atingiu fortemente os bancos americanos que perderam centenas de bilhões de dólares. A farra do crédito fácil, um dia acaba. Acabou.
Com a inadimplência dos milhões de Pauls, os bancos pararam de emprestar por medo de não receber. Os Pauls pararam de consumir porque não tinham crédito. Mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha crédito não queria dinheiro emprestado.
O medo de perder o emprego fez a economia travar. Recessão é sentimento, é medo. Mesmo quem pode, pára de consumir. O que começou com o Paul hoje afeta o mundo inteiro. A coisa pode estar apenas começando. Só o tempo dirá.
Davi Castiel Menda
“Se a vontade do homem é livre ou não? A questão ela mesma é imprópria: e é tão insignificante perguntar se a vontade do homem é livre quanto perguntar se seu sono é veloz, ou sua virtude quadrada: a liberdade sendo tão pouco aplicável à vontade, quanto a velocidade do movimento ao seu sono, ou a quadratura à virtude. Todo o mundo deve rir da absurdalidade de uma questão tão peculiar quanto essa: porque é óbvio que as modificações do movimento não pertencem ao sono, nem a diferença de figura à virtude; e quando se considera isso bem, penso que se percebe que a liberdade, a qual é apenas um poder, pertence apenas aos agentes, e não pode ser um atributo ou modificação da vontade, a qual também é apenas um poder.” - John Locke (filósofo britânico – Séc. XVII)
Um dos grandes enigmas da humanidade é responder à questão que vem intrigando há séculos, físicos, filósofos, humanistas, biólogos e sociólogos, além dos – indiscutivelmente - maiores interessados, teólogos e religiosos: o homem tem direito a escolhas ou sua vida, ao nascer, já está totalmente predeterminada?
O enigma dentro do enigma é a tentativa de explicar o inexplicável: o conflito da onisciência de Deus com o livre-arbítrio. Admitindo como dogmática a onissapiência divina, Ele saberia com antecipação tudo o que ocorreria no futuro, inclusive os nossas arbítrios, o que gera um paradoxo. O conhecimento eterno de Deus sobre as opções individuais do homem constrange a nossa apregoada e discutível liberdade de escolha. Se agirmos de forma diferenciada daquilo que Deus já sabia antecipadamente que aconteceria, nós O estaríamos surpreendendo, o que é uma incongruência - a onisciência cristaliza o futuro.
Aristóteles, filósofo grego que viveu 350 anos antes da era cristã, foi praticamente o pioneiro a plantar a semente da dúvida, sobre a existência ou não da liberdade metafísica, o direito do homem de escolher as suas alternativas. De lá para cá, várias correntes se formaram, todas gravitando em torno do tema: determinismo, incompatibilismo, indeterminismo, libertarismo, compatibilismo, que por sua vez também tiveram suas ramificações.
O teorema de Bell é o contraponto ao determinismo de Albert Einstein e sugere que Deus esteja jogando dados, numa metáfora exagerada à aleatoriedade da vida. Ou talvez Deus não jogue dados, mas apenas siga sua vontade, sendo a mesma não determinada por nada, nem mesmo por um objeto formal como o bem ou a verdade, tal como na teoria das verdades eternas de Descartes.
Aceitar ou não que o nosso destino já estava escrito antes mesmo do nosso nascimento é uma questão que todas as religiões tentam responder, algumas de forma pragmática. A maioria, com pequenas variações, doutrina o livre-arbítrio, e por extensão, que não devemos culpar a Deus ou ao destino pelos nossos atos – nós somos os responsáveis por tudo que fazemos. Se o destino fosse o responsável direto pelas coisas boas e ruins que acontecem, nós seríamos marionetes manipuladas por extensos cordéis etéreos. Em Sonhos e Pesadelos, crônica escrita anteriormente, abordei algo semelhante: “se em determinadas ocasiões, ao invés de sonhar, os deuses, por estarem acordados, se divertem manipulando, ao seu bel-prazer, suas minúsculas cobaias humanas, firmemente aprisionadas num imenso labirinto azul chamado Terra.”
Entre as exceções, destacamos o Islamismo - acredita que o destino de cada um é determinado ainda no embrião – Maktub - a teoria do estava escrito!; a Igreja Batista segue a mesma linha. O judaísmo aborda o assunto de forma ambilátera, afirmando que sim, existe um destino que predetermina o comportamento humano, mas simultaneamente é dada liberdade ao homem para alterar este destino se assim o queira. Ou seja, o homem deve ajudar o seu destino, não deixando que o destino o domine e aja independente e soberanamente. Na verdade, são duas coisas distintas: destino e livre-arbítrio – entretanto, não seria coerente deixar de reconhecer que os dois conceitos estão interligados.
Spinoza, filósofo holandês contemporâneo de Locke, compara a crença humana no livre-arbítrio a uma pedra “pensando” que escolhe o caminho que percorre enquanto cruza o ar até o local onde cai. Diz mais: “as decisões da mente são apenas desejos, os quais variam de acordo com várias disposições”; “não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é determinada por sua vez por outra causa, e essa por outra e assim ao infinito”; “os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar”.
Levanto outra questão pertinente: se haveria livre-arbítrio antes do limite zero, o exato momento em que o embrião começa a tomar forma? Deus teria nos consultado se queríamos realmente vir a esse mundo? Tivemos direito à escolha do nosso corpo, local de nascimento, a família que iria nos abrigar e dar educação? Se alguns filósofos crêem que o livre-arbítrio é equivalente a ter uma alma, teria a nossa, no momento da concepção, o direito àquelas escolhas?
Resta abordar a questão do livre-arbítrio encarado sob a ótica da responsabilidade moral, pois a sociedade considera os homens responsáveis pelos seus atos. Pessoas que se projetam por sua notabilidade são elogiadas; atos criminosos são reprimidos. Se o livre-arbítrio é real, verdadeiro, a imputação ao elogio ou à repressão estão absolutamente corretos, mas se formos induzidos pela visão determinista, onde todos os eventos são resultados necessários de causas prévias, e tudo o que acontece tem uma causa, estaríamos próximos do caos e da anarquia, tendo que perdoar a tudo e a todos, inclusive os responsáveis pelos crimes mais hediondos. Como podemos considerar alguém responsável por uma ação prevista desde o início dos tempos?
Cabe uma derradeira pergunta: tive eu o direito de escolher se escreveria este artigo ou Deus, na sua ubiqüidade e onisciência já sabia antecipadamente local, data e hora da sua feitura, dos meus erros e acertos, enfim, da possibilidade de exercer um poder sem outro motivo que não a existência mesma desse poder, o meu direito à liberdade de indiferença?
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Posfácio: quando da primeira publicação no blog, em dezembro/2006, este ensaio teve exatos 6.802 acessos, além de comentários interessantíssimos. Espero - para aqueles que ainda não o conheciam - que tenham apreciado. Comentários são bem-vindos.
Em se plantando dá… Escrevi um artigo despretensioso sobre as eleições americanas, mas que rendeu seus frutos. O Nelson Menda, lá dos States (o que comprova a internacionalidade do Al Karismi) mandou um belo comentário sobre o nome Biden. O Sérgio Vasconcellos, mineiro da gema, lançou um intrigante desafio sobre o nome da capital japonesa. O Desembargador Ilton C. Dellandréa, titular absoluto do blog Jus Sperniandi, lembou-me que escrevera uma crônica a respeito de nomes bizarros em 2007. Vale a pena lê-la, logo aí abaixo, e conhecer o seu blog. Mas por favor, após desfrutar do Jus Sperniandi, não me abandone…
Publicado no blog JUS SPERNIANDI em 20/04/2007
MEU NOME É LÉGOLAS
Ilton C. Dellandréa

Um casal paranaense obteve judicialmente o direito de registrar seu filho com o nome de Lehgolaz (pronuncia-se Légolas), personagem da trilogia O Senhor dos Anéis.
Os pais, quando dão nomes aos filhos, não lembram que um dia eles serão adultos e poderão não gostar. Tive uma colega de trabalho na Telesc, em Florianópolis, que se chamava Maria das Graças mas torcia o nariz se não a chamássemos de Grace.
Há o caso, que dizem verídico, de um pai que queria o primeiro filho homem. Nasceram-lhe três mulheres em seguida e ele vingou-se chamando-as de Merdolézia, Mijolina e Bucetildes. O último é o que soa melhor.
A lei permite que, ao atingir a capacidade civil, o descontente altere o nome dado pelos pais se achar que ele o põe em situações vexaminosas ou ridículas. Meu filho diz que teria feito isto se o tivéssemos batizado como Tito Lívio, minha intenção inicial, sem o apoio da Ieda. Nada de querer compará-lo ao tribuno romano, mas apenas porque meu apelido familiar é Tito e sou assim tratado por meus irmãos até hoje. Afinal o registramos como Francisco Fernando Fernandes Dellandréa, que reúne os nomes e sobrenomes dos avôs. Ele reduziu, oficiosamente, para Francisco Dellandréa, o nome de meu pai.
A lei também admite que a pessoa agregue ao seu nome alcunha pelo qual é conhecido, mediante procedimento judicial, e parece não cogitar se essa inclusão coloca ou não o postulante no ridículo. Vejam o caso de Luiz Inácio da Silva. É um nome simples, que soa bem. Seu titular obteve o direito de agregar-lhe o nome de um cefalópode finório e liso e agora se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Quebrou-se a harmonia e o ritmo do nome, mas dizem que é por isto que ele foi eleito (ainda não acredito) presidente do Brasil.
A mãe do Légolas diz que escolheu o nome porque o personagem é representado no filme pelo ator mais bonito, Orlando Bloom, e pelo significado do nome: “o grande protetor”. É claro que o garoto não tem condições de avaliar essas justificativas, muito menos de se manifestar a respeito. Também é cedo para dizer se ele será igualmente bonito ou, em qualquer campo da atividade humana, um grande protetor.
É possível que o Légolas adulto aprecie o nome não profundamente escolhido por seus pais. Mas terá que passar pelo crivo dos colégolas, digo, dos colegas da escola, assim que entrar nela e, principalmente, um pouco mais tarde, de seus amigos adolescentes. Tanto estes quanto as crianças são cruéis quando querem demonstrar desapreço ou mesmo simplesmente gozar de seus semelhantes.
Se, por exemplo, ele não for muito atilado e tiver dificuldades na aprendizagem, será logo chamado de Lelégolas. Se engordar, fatalmente será o Lébolas. Mas se for um bom jogador de futebol, poderá ser o Pelégolas ou Pelébolas. Não sei.
A única coisa que sei que ele terá que, muitas vezes, quando for preencher alguma ficha, se inscrever em concurso ou competição, ou falar no telefone, repetir e soletrar seu nome e isto é irritante até para quem tem nomes mais simples. Eu, por exemplo, antes que me perguntem já vou dizendo: Ilton, sem “h” e com “n” no final. Nunca escapei disto.
Já contei neste blog o caso corrente nos meios jurídicos de João Bosta, que quis trocar de nome porque o detestava. Foi falar com o Promotor – naquele tempo os promotores podiam ajuizar certos tipos de ação – e expôs a situação. Anotados os fatos para justificar o pedido, o promotor perguntou qual nome João Bosta queria adotar. Ele foi rápido: Pedro Bosta.

Davi Castiel Menda
Ninguém tem culpa do nome que carrega. Se alguma culpa cabe por um nome estapafúrdio, muitas vezes homenageando alguma doença ou até nome de remédio, credite-se essa aos pais da criança ou ao despreparo do oficial que a registrou. Tenho uma coleção de nomes próprios que são verdadeiras preciosidades e que mostram a (in)capacidade e inventividade de certos pais (e a passividade e tolerância de certos oficiais do registro civil) ao escolher o nome de seu filho, esquecendo que esse terá de carregá-lo para o todo e sempre. Falam mal (em tom de blague) dos nossos irmãos portugueses, mas eles, nesse aspecto, nos dão uma lição: em Portugal ninguém consegue registrar uma criança com um nome que poderá envergonhá-lo mais tarde, ou com erros, ou mal grafados. Dúvida de algum nome para o tabelião? Consulta-se um determinado órgão e alguns dias após vem a resposta. Sendo negativa, passa a fazer parte de um index (banco de dados), e a partir daí aquele nome está condenado. Boa idéia para o nosso Ministro da Desburocratização (ainda existe?).
Mas nosso tema é a eleição nos Estados Unidos e aparentemente estávamos nos desviando do assunto. Quando surgiu nos noticiários o nome do democrata Barack Obama para presidente, poucos no Brasil o conheciam. À medida que a mídia começou a endeusá-lo, quando da luta pela indicação contra Miss Clinton, as críticas dos adversários surgiram a galope. A principal delas: Obama seria muçulmano, como se crime fosse ser muçulmano (crime é, sim, utilizar da religião como pretexto para atos terroristas).
Ultrapassado o obstáculo Hillary Clinton, um setor (comprometido?) da imprensa já dava como certa a vitória de Obama contra John McCain, usando o argumento de que esse conquistara as minorias e, a elegante mulher de Obama, nas fotos, já posava de primeira-dama. E eu, aqui em Gravataí, ligeiramente afastado de Washington, centro de toda essa atividade, ficava me questionando se a maioria branca não seria superior ao somatório das minorias; se o fato de Obama ser negro não pesaria contra sua candidatura; se a acusação de ser muçulmano, e ter sido fotografado como tal, não seria um fator preponderante – negativamente - e de forte influência na hora da escolha pelo eleitorado; e, finalmente, se a descoberta de um meio irmão vivendo em estado de penúria não seria explorado até as últimas conseqüências.
Consultando os diversos sites de apostas, um excelente indicativo pois esse pessoal não se engana tão facilmente, fiquei realmente surpreendido ao constatar que o candidato republicano John McCain estava pagando três por um em caso de vitória. Considerando-se que são apenas dois candidatos (as chances percentuais dos cinqüenta e tantos demais candidatos folclóricos que sempre aparecem são muito próximas de zero), este rateio era despropositado. Após a última pesquisa, a cotação de John McCain baixara para 2,75 por um.
E eis que surge um fato novo. Foi escolhido o nome do candidato a vice-presidente, que fará parte da chapa de Obama: Joseph Biden que, pela sua biografia, trata-se de pessoa de bem, político tradicional, pesando contra si, pelo menos por enquanto, o fato de ser famoso pelas suas "mancadas" e sofrer de verborragia.
Agora, a razão do primeiro parágrafo: ninguém é culpado pela escolha do seu nome próprio mas, gerar uma situação, uma conjunção de nomes que lembra instantaneamente o nome Osama bin Laden – o maior inimigo declarado dos Estados Unidos, odiado por 99 entre cada cem americanos é de uma insensibilidade preocupante. É impossível não associar o somatório dos nomes democratas, presidente + vice, ao mais procurado terrorista internacional da atualidade. Será que a equipe de Obama não pesou essa situação? Que Obama mais Biden lembra Osama bin Laden? Já imaginaram um comício em Los Angeles? Obama + Biden + LA? É de se conjeturar que o pessoal do Obama está “desafiando os astros” e empinando o nariz antes da hora.
Barack Obama pode até ganhar – pessoalmente acho complicado e difícil – e, se perder, podem creditar parcela da culpa a quem escolheu Joseph Biden (nada contra a pessoa) para vice.
Davi Castiel Menda
Quando se atinge determinada idade, um pontinho na curva descendente (o herético que criou a expressão “melhor idade” deveria ser preso, condenado, enforcado, esquartejado e suas partes salgadas para evitar outra tolice deste jaez), a matéria que mais nos chama a atenção nos jornais é incontestavelmente a coluna dos obituários, convites para enterro, descobertas de matzeiva, necrológios e afins.
Atenção amigos, parentes, leitores solidários e bissextos deste blog, e mais aqueles que choram até em casamento da Barbie - não se preocupem (ah, ia esquecendo, inimigos – tremei!): minha cardiologista, Dra. Janete, em recente check-up a que fui submetido, me garantiu que meu órgão nobre (o coração, maledicentes…), vai muito bem obrigado e tenho vários anos ainda pela frente. A minha preocupação no momento é outra.
Acontece que por esses dias, ao enviar subsídios para um amigo jornalista - dos mais prestigiados - este cometeu um pequeno engano, e citou meu pai como se fora meu avô. Nada de mais, um errinho comum sem maiores conseqüências, mas o gérmen da dúvida começou a tomar forma, foi num crescendo, e aqui estou eu a repassar minha angústia a todos que me lêem.
Quem é fã de obituários, deveria saber que as redações de jornais possuem um banco de dados prontinho para ser usado, de pessoas famosas, cientistas, atores de cinema, galãs da Globo, benfeitores da humanidade, et cetera. Dizem até que de políticos e presidentes. Considerando que não estou incluído em nenhuma destas categorias mas, em contrapartida, por ter colaborado (e sendo notícia) durante décadas nos jornais gaúchos, principalmente Zero Hora e Jornal do Comércio, presumo que terei direito a um espaço “quando faltar” (outra expressão idiótica freqüentemente utilizada por agenciadores de seguro).
Meu maior medo é que, na feitura do meu obituário, seja cometido algum erro crasso e eu não possa corrigi-lo, por motivos óbvios! Já imaginaram, naquelas comoventes e educativas linhas onde todos são anjos de bondade, ser citado como colorado, ou jogador de bocha, ou freqüentador de desfiles de carnaval?… E daí, vou reclamar pra quem? Ou pior ainda, omitirem que neste ano de 2008 fui sete vezes campeão de torneios de Poker ou que em 1957, vice-campeão juvenil porto-alegrense pelo Grêmio, em torneio de tênis de mesa promovido pela Folha Esportiva (naquela época os chineses ainda nem sabiam o que era tênis de mesa) - aliás, façanha que por mais que eu procure, não encontro citação nem no Museu e nem no site do Grêmio.
Se entregarem a tarefa da execução ao meu irmão, o escritor/jornalista da família, que escreve uma coluna humorística no Diário Gaúcho, tremo ao pensar que talvez ele siga a mesma linha de humor e os leitores fiquem confusos, achando que a matéria foi inserida em lugar errado (mas que seria divertido, seria). Se o encargo recair a uma das minhas filhas, talvez ela me transforme num super-homem, o que na verdade nunca fui. Enfim, qual a solução?
Quero ter o direito de escrever meu obituário (talvez vocês, depois desta exposição, também se sintam inclinados a acompanhar-me nesta cruzada), pois somente nós nos conhecemos perfeitamente, sabemos dos nossos erros e dos nossos acertos. Prometo que – no meu caso - não vou exagerar e nem ultrapassar 2.400 caracteres ou 40 linhas de 60 espaços.
O que é que vocês me dizem?
Davi Castiel Menda
Se alguém me perguntasse, ontem, antes do resultado da extração, quantos acertadores teria a Loto Fácil, vendidos em torno de 13.960.000 cartões – que é a quantidade provável de bilhetes que concorriam no Concurso 349 - eu responderia sem exitar: em torno de 4 acertadores para 15 dezenas e aproximadamente 640 para 14 dezenas, aliás, cálculo que serve para qualquer extração com aquela quantidade de bilhetes vendidos. Acertei?
Errado! Abro a minha Internet e às 5,30 hs da manhã tenho o primeiro susto do dia (dos tantos que me aguardam): 32 cravaram as 15 dezenas e 27.396 tiveram a felicidade de ganhar pouco mais de míseros 18 reais ao acertarem 14 dezenas, cuja dificuldade de acerto é de uma possibilidade em 21.791!!
Viajando no tempo e no espaço, regresso aos anos 80 (século passado…) e lembro de conversa com psiquiatra que afirmava que o sucesso dos jogos da Caixa ocorria pelo fato de ser uma das raras oportunidades em que o pobre, o trabalhador, o assalariado, tinha a chance de dar palpite – mandar - em alguma coisa. E mais, que a monotonia (sempre o mesmo ônibus, sempre um chefe a ditar as mesmas ordens, a rotina do arroz e feijão, do futebol aos domingos, o eterno torcer para o mesmo time, os terríveis programas televisivos dominicais) conseguia ser quebrada num simples marcar de algumas dezenas num cartãozinho da Loto: ele, naquele instante de glória, era o chefe, podia escolher a vontade as cinco, seis ou oito dezenas ao seu bel-prazer - ele, naquele momento, podia impor a sua vontade, ele era o todo-poderoso. Certo?
Errado! O homem moderno, seja pobre ou seja rico, na sua grande maioria, prefere não pensar - quer as coisas prontas. Exemplo maior, para quem não lembra: o concurso 308 da Mega Sena, em 27.10.2001 teve sorteadas as seguintes dezenas: 04-11-25-29-39-55. Até aí nada demais. Entretanto, no concurso 309, quatro dias depois, foram sorteadas as dezenas 04-11-25-39-50-55, ou seja, das seis dezenas, cinco foram coincidentes. Sabem o que aconteceu? A quina – pasmem! – teve 3.001 acertadores contra 2.997 acertadores da quadra. Quem acertou quatro dezenas recebeu mais de quem acertou cinco dezenas!!! A explicação: provavelmente aquelas 3.001 almas chegaram na lotérica para apostar no concurso 309 e para não ter que pensar, palpitar, lembrar de datas de nascimento (ugh!!!) simplesmente copiaram para o seu volante as dezenas premiadas no concurso anterior. Já imaginaram se repetem as seis dezenas – três mil acertadores na mega?
Volta para 2008.
E o resultado do concurso 349 da Loto Fácil, novamente veio de encontro à tese acima: considerando que repetiram 14 dezenas do concurso 348, das 15 sorteadas, a maioria daqueles 27 mil que faturaram o prêmio de 14 acertos, simplesmente transpôs para o seu volante o resultado exposto nos painéis das lotéricas do concurso anterior.
É evidente que a quase totalidade deles não acredita em matemática, em estatística, em lógica, e muitos nunca ouviram falar em probabilidades; acho até que a linha de raciocínico destes felizardos(!) talvez esteja correta, caso contrário mudariam de calçada ao passar por uma lotérica, se imaginassem que a chance de repetir as 15 dezenas de um concurso para outro da Loto Fácil é superior a três milhões e pico, ou que a chance de acertar na mega sena é de uma em 50 milhões!
Sorte deles. Certo?