21/1/07
Lei de Parkinson
Davi Castiel Menda
Uma das primeiras providências que um viajante toma ao hospedar-se num hotel, em viagem nacional ou internacional, é consultar a lista telefônica e ir direto à página onde consta seu sobrenome. Concordam comigo?
Sendo uma das minhas filhas psicóloga, e a outra, quase, acho que tenho o duplo direito de imiscuição no assunto, sem correr o risco de ser processado por exercício ilegal da profissão. Portanto, numa análise mais profunda, este ato ou efeito de situar-se demonstra um claro sintoma de desamparo: a visualização do nome de família num teórico e pseudo-parente, visivelmente, deixa-o mais tranqüilo, antevendo a possibilidade da ocorrência de um problema qualquer durante a sua estada. É uma tentativa - totalmente inócua, diga-se de passagem - de aproximação social e parenteira, pois ele, (des)motivado pela distância da pátria mãe (ou do estado natal), sente-se desarraigado do seu chão de costume, o que gera uma situação de abandono. Aqueles quase setuagenários, como eu, já devem estar vacinados contra tal fato.
Se você está incluído no rol desses viajantes, não seja inconveniente telefonando ao seu "parente" recém descoberto na lista, por dois motivos: 1) sendo você brasileiro, ele presumirá que você pretende um empréstimo, e o tratamento dispensado não será dos melhores; 2) parentes ricos não procuram parentes pobres - somente a recíproca é verdadeira - portanto, ele presumirá que você pretende um empréstimo, e o tratamento dispensado não será dos melhores.
Por ser um contumaz freqüentador de restaurantes, cheguei à conclusão que os habitués das casas de pasto assemelham-se muito a viajantes e, seus medos, mesmo inconscientemente, são perfeitamente constatáveis. O comportamento e as atitudes, via de regra, são tão previsíveis, que foram analisadas pelo professor C. Northcote Parkinson, o criador da Lei de Parkinson, que ao ser divulgada, causou um impacto no campo da Administração, pública e privada, e serviu de base para a fundação da "Escola do Absurdo", da qual continua, ainda, como clássico maior.
Os comensais, ao entrar, dirigem-se preferencialmente para o lado esquerdo do restaurante, tendência com conotações biológicas. O nosso coração está ao lado esquerdo do corpo e, primitivamente, o homem usava o escudo desse lado para proteger-se, enquanto a arma - normalmente uma espada - era segura pela mão direita; conseqüentemente, a bainha ficava do lado esquerdo. Desse modo, era inviável, para não dizer impossível, montar a cavalo pelo lado direito. Seguindo a lógica, se você tinha que, compulsoriamente, montar do lado esquerdo, a tendência também seria manter o cavalo no lado esquerdo da estrada, o que me faz imaginar que talvez a Inglaterra e outros quarenta e três países estejam certos ao conduzir seus carros pela esquerda, enquanto nós, dirigindo pela direita, posicionamo-nos totalmente contrários aos mais profundos instintos históricos.
Outro fato comprovado é que as pessoas preferem os lados direito e esquerdo ao centro do restaurante. As primeiras mesas a serem ocupadas são as localizadas à parede esquerda, em seguida as da direita e, com certa relutância, as do centro. A justificativa pela ojeriza às mesas centrais deriva de instintos pré-históricos. O troglodita, ao entrar na caverna de um estranho, não sabia como seria recebido e, se ficasse no centro, sentiria-se demasiadamente vulnerável. Então, andava de esguelha encostando-se pelas paredes, grunhindo e brandindo sua clava. Hoje o homem moderno, ao entrar num restaurante, toma atitude idêntica (só que, em vez da clava, manuseia e exibe-se com sua gravata multicolorida).
E a constatação mais surpreendente: se somente você e seus familiares estiverem no restaurante, e entrarem novas pessoas, a tendência será sentarem-se exatamente à mesa ao seu lado (por maior que seja o salão), tal qual um grupo de homens pré-históricos que, por necessidade, viviam em comunidade e intimamente juntos para sua sobrevivência - é atávico.
Creio ser desnecessário afirmar, principalmente aos estudiosos sobre o assunto, que a validade destas regras ficará comprometida se o assunto se tornar difundido demais. Portanto, o conteúdo deste texto, desde já, passa ser considerado confidencial e, estudantes ligados às Ciências Sociais devem conservar esses dados somente para uso próprio, evitando levá-los às mãos do público. Caso contrário, a Lei de Parkinson será revogada.
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