Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

19/1/07

Coincidências III

Davi Castiel Menda

A história que vocês lerão a seguir é tão incrível e surpreendente que  sinto-me na obrigação de retransmiti-la a todos.  É uma coincidência tão fantástica, que se não fosse a pessoa que deu o aval sobre sua veracidade, eu não acreditaria: o  presidente da Academia de Ciências Forenses dos Estados Unidos (AAFS), Dan Harper Mills, que assombrou centenas de pessoas reunidas para o jantar anual da Academia, em San Diego, em 1987, ao contar tão estranho e bizarro acontecimento:

"No dia 23 de março de 1984, um médico legista examinou o corpo de Ronald Opus e concluiu que havia morrido por causa de um tiro disparado contra sua cabeça. O falecido havia pulado do décimo andar de um prédio, tentando se suicidar (ele havia deixado uma carta indicando seu desânimo com a vida). Durante a queda, porém, ao passar pelo nono andar, sua vida foi interrompida por uma bala vinda de uma janela, matando-o instantaneamente."
"Entretanto, nem quem atirou, e nem o próprio suicida, sabiam que havia uma rede esticada na altura do oitavo andar, para proteger os lavadores de janela, e que de qualquer forma, Ronald Opus não conseguiria se suicidar por causa da rede."
"Em geral - continuou o Dr. Mills - uma pessoa que se prepara para cometer um suicídio acaba tendo sucesso, mesmo que às vezes o mecanismo não tenha sido o planejado. O fato de Opus ter sido baleado a caminho de uma morte certa, nove andares abaixo, provavelmente não mudaria sua morte de suicídio para homicídio. Mas o fato de que a tentativa de suicídio não iria ter sucesso, fez o médico legista sentir que tinha um homicídio em suas mãos. E começou a investigar."
"O apartamento do nono andar, de onde o tiro saiu, era habitado por um casal de idosos. Eles estavam discutindo e ele ameaçava a esposa com um revólver. O marido estava tão irritado que, ao puxar o gatilho, perdeu completamente de mira a sua esposa e a bala atravessou a janela, indo acertar Opus. Se alguém pretende matar o sujeito A, mas acaba matando um sujeito B, ele é culpado do assassinato de B!"
"Quando confrontado com a acusação, o casal se mostrou irredutível sobre o fato de que nenhum dos dois sabia que a arma estava carregada. O velho homem afirmou que era um hábito antigo seu ameaçar a esposa com o revólver descarregado. Ele não tinha intenção de matá-la, portanto a morte de Opus parecia ter sido um acidente. Ou seja, a arma havia sido carregada por terceiros."
"Com a continuação das investigações, apareceram duas testemunhas que afirmaram ter visto o filho daquele casal carregando o revólver, cerca de seis semanas antes do incidente fatal. Descobriu-se, também, que a velha senhora havia cortado sua ajuda financeira ao filho e este, sabendo da propensão do pai em ameaçar a mãe com o revólver, carregou a arma esperando que o pai atirasse nela. O caso agora havia virado assassinato, por parte do filho do casal, pela morte de Ronald Opus."
"Houve, porém, um raro agravante. O desenrolar das investigações revelou que o filho do casal, um tal de Ronald Opus, tinha se tornado cada vez mais deprimido pela falha no seu plano de matar a mãe. Isto o levou a saltar do décimo andar de um prédio no dia 23 de março, quando acabou sendo morto por um tiro disparado do nono andar! Na impossibilidade de enquadrar Ronald Opus como assassino (mesmo indiretamente) pela morte de Ronald Opus (não se trata de homonímia, trata-se da mesma pessoa), o legista encerrou o caso como suicídio."

Em 1994, quando tomei conhecimento da história, e impressionado com aquela sobreposição e simultaneidade de acontecimentos fantásticos, procurei entrar em contato com o Dr. Mills, através da AAFS. Ele gentilmente respondeu-me, e informou-me que eu havia sido a 463a. pessoa a pedir informações.

criado por projetosnumericos    9:50 — Arquivado em: Crônica

2 Comentários »

  1. Comentário por Sérgio Vasconcellos — 19 19UTC janeiro 19UTC 2007 @ 11:31

    Ilustre Davi,

    Em se tratando de balas perdidas acredito que qualquer possibilidade de coincidência se torna possível. E, se a bala fosse realmente perdida, e, não fosse achada, nunca, seria ótimo. O problema é quando ela é achada.
    No Natal, na casa da minha vizinha, um dos participantes da festa teve o tênis perfurado por uma dessas. Foi um
    assombro e estragou a festa da vizinha que é muito festeira. Alguém, comemorando a chegada do Papai Noel,
    deve ter disparado para o alto e a bala chegou até o pé
    do participante da festa.
    Portanto, acredito piamente na sua estória de coincidências. Há até uma piada no Rio - dizem que esse assunto de bala perdida …… entra por um ouvido e sai pelo outro.

  2. Comentário por Davi Menda — 20 20UTC janeiro 20UTC 2007 @ 3:37

    Caríssimo Sérgio:
    Sempre que leio ou ouço sobre balas perdidas durante os festejos do Natal, fico a pensar sobre esses “heróicos” e anônimos atiradores e as possibilidades:
    1o - queriam acertar o Papai Noel (pelos gastos exagerados);
    2o - a arma foi comprada para “liquidar” assaltantes, mas considerando que as cidades estão seguras e livres deles, resolvem testar a arma de vez em quando;
    3o - pensam que a bala irá subir, subir e subir, até atingir o infinito, esquecendo uma das leis fundamentais do universo: tudo que sobe, desce…
    No caso da coincidência narrada no post, nem Kafka conseguiu imaginar enredo semelhante!
    Continue mandando seus comentários.

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