Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

13/1/07

Coincidências

Davi Castiel Menda

Imagine duas pessoas com nomes idênticos, mesmo primeiro sobrenome e idem segundo sobrenome. Até aí nada de mais: se você consultar qualquer lista telefônica nas páginas com os sobrenomes Silva, Santos, Rosa, etc., encontrará dezenas dessas situações.

Para excitar mais a sua curiosidade, os dois nasceram no mesmo dia, mês e ano. Cor, tanto de um como do outro: branca. Os nomes e sobrenomes dos pais também eram rigorosamente idênticos, e para completar o ciclo de simultaneidades dos acontecimentos, ambos estavam trabalhando na mesma empresa. Ou eram gêmeos - e os pais batizaram as crianças com o mesmo nome - ou estávamos diante de uma monumental coincidência, ou tudo que foi narrado até o momento é pura ficção.

Não, não eram gêmeos e não se trata de ficção. Pessoalmente, conheci as duas pessoas em 1981 e…

____________________ Pausa ________________________

Faço parte do grupo que não acredita em coincidências, pelo menos não da forma com que o termo foi banalizado. Se prestarmos bem atenção, é uma das palavras mais em voga nas conversas do dia a dia. É coincidência pra cá, coincidência pra lá; a palavra foi vulgarizada a ponto de qualquer pequena justaposição de fatos se transformar em coincidência.

É claro que situações coincidentes existem: quem não conhece, pelo menos de nome, o político brasiliense Íris Rezende? Entretanto, tenho quase absoluta certeza que você desconhece o nome de sua esposa: chama-se… Íris Rezende. Já imaginaram a situação do filho de ambos, respondendo a um questionário? Qual o nome do seu pai?  "Íris Rezende". Qual o nome da sua mãe? "Íris Rezende"!

Na minha infância residi na Rua Cel. Fernando Machado, antiga Rua do Arvoredo. Bem próximo onde eu morava, só que em outros tempos, meados do século XIX, estava localizado o açougue (de triste fama) que comercializava a melhor lingüiça de Porto Alegre (e que mais tarde tomou-se conhecimento que era fabricada com carne humana). Nome do açougueiro (que usava da beleza e sensualidade da sua mulher Catarina para atrair os homens que serviam de matéria prima para o petisco, disputadíssimo na época): José Ramos. Onde moro atualmente, por ser um local onde predominam sítios, é cercado por belos e abundantes arvoredos e, a uns cem metros da minha residência, está localizado o açougue da vila - nome do açougueiro: José Ramos. Localização: Rua Santa Catarina. E a lingüiça, é de primeira!

Os dois fatos acima narrados, por serem totalmente atípicos e não previstos pela desordem ordenada do caos, merecem ser rotulados como coincidência, ao contrário dos acasos perfeitamente previstos pelo princípio fundamental que estabelece que tudo que acontece no universo, apesar da aleatoriedade, segue uma determinada ordem.

Você comumente vai a um shopping center e encontra um amigo ou parente e ambos exclamam: "Que coincidência"! Não há coincidência alguma. A ida ao shopping é uma rotina da vida moderna e coincidência seria se você não encontrasse nenhum conhecido durante o seu passeio. Cito outro exemplo, interessantíssimo, na área das estatísticas lotéricas: na extração no. 1382 da Loteria Federal, o bilhete sorteado no primeiro prêmio foi 22.255. Na extração seguinte, o primeiro prêmio coube ao bilhete 56.255. Como podem notar, a centena premiada foi a mesma: 255. O leigo exclamaria com vibrante entusiasmo: "Vejam só, que coincidência". Nada disso, a probabilidade desse fato acontecer é de uma chance a cada mil extrações. Considerando que até o momento a Caixa promoveu 4.100 extrações e este acontecimento (idêntica centena em duas extrações seguidas) ocorreu em quatro oportunidades - o fato está inserido rigorosamente dentro do previsto. Muito antes da Loteria Federal ser criada, muito antes de se pensar em loterias, muito antes do homem surgir na terra, a Lei das Probabilidades já prognosticara todos esses acontecimentos, e aquilo que foi matemática e antecipadamente previsto, não pode ser rotulado de coincidência.

_______________________________

Mas voltando aos dois "xarás" do início do artigo: estava eu prestando assessoria numa obra e chovia torrencialmente. Não tendo o que fazer devido ao mau tempo, repassava as fichas funcionais dos quarenta e tantos operários, com o objetivo de gravar seus nomes, quando deparei com a homonímia e a quantidade de pontos coincidentes entre dois deles. Era um fato surpreendente e raro e, com a concordância do chefe do Departamento Pessoal, solicitei a um funcionário que chamasse os dois ao escritório para conhecê-los. No momento em que entraram na sala, desconfiados com o duplo chamado, ambos estampavam um semblante de culpa que até uma criancinha de berço notaria; o enigma começou a ser decifrado e, a coincidência, ruiu qual um castelo de cartas soprado pelo vento.

Um era branco e o outro de cor negra (as fichas pessoais indicavam que os dois eram brancos) e antes que eu formulasse qualquer pergunta, recebi a explicação, óbvia, mas inesperada: os dois eram amigos de infância e, um deles - o rapaz negro - fora assaltado alguns anos antes, perdendo todos seus documentos. O branco providenciou fotocópias dos seus e "emprestou" ao amigo, que a partir daquela data, passou a ostentar nome, sobrenome e todas as características físicas e raciais do seu benfeitor. E quis o destino que se encontrassem na mesma obra… Coincidências, coincidências…

criado por projetosnumericos    13:31 — Arquivado em: Crônica

2 Comentários »

  1. Comentário por SÉRGIO PINTO DE VASCONCELLOS — 19 19UTC janeiro 19UTC 2007 @ 11:49

    ILUSTRE DAVI,

    HOJE MESMO COM A RETIRADA DE UM CORPO DO BURACO DO METRÔ
    FIQUEI PASMO COM O NOME DO INFELIZ. MÁRCIO ALAMBERT, 31 ANOS, EU CONHECI NO RIO UM RAPAZ COM ESTE NOME. A DIFERENÇA É QUE ELE DEVE TER 34 ANOS (A MESMA DO MEU FILHO) E NÃO 31 ANOS. ACHO QUE VOCÊ PODERIA FALAR MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO. AFINAL FICOU UMA DÚVIDA. EXISTE COINCIDÊNCIA OU NÃO? SERÁ DESTINO JÁ TRAÇADO? SERÁ FRUTO DE ALGUMA SINTONIA SUPERIOR A NÓS? ENFIM SERÁ QUE EXISTE ALGO MAIS PARA EXPLICAR TUDO ISTO QUE ACONTECE? AS COINCIDÊNCIAS LOTÉRICAS EXISTEM MESMO. O QUE ME INTRIGA
    É O INDIVÍDUO SENTIR QUE VAI DAR TAL NÚMERO OU COMBINAÇÃO.
    CREIO QUE EXISTE A INTUIÇÃO. EU TENHO MUITAS. MAS ELAS SE
    ANINHAM NUMA PARTE DO CÉREBRO DE MANEIRA QUE EU A SINTO E
    NÃO CONSIGO TRANSFERI-LAS PARA UMA PARTE OPERACIONAL. ISTO É - NÃO CONSIGO MUITAS VEZES ACREDITAR QUE A INTUIÇÃO É VERDADEIRA.

  2. Comentário por Davi Castiel Menda — 20 20UTC janeiro 20UTC 2007 @ 3:18

    Prezado Sérgio:
    O cientista inglês Clement V. Durell, em seu livro Readable Relativity (Relatividade Legível) declara: “Todos os acontecimentos passados, presentes e futuros, como lhes chamamos, estão presentes em nosso contínuo espaço-tempo quatridimensional, um universo sem passado, nem presente, tão estático quanto uma pilha de filmes que podem ser unidos num só rolo para se projetar”. Isto explicaria o que chamamos de premonição, que na verdade seria um acontecimento já ocorrido no passado e que irá ocorrer ainda enésimas vezes no futuro. O nosso subconsciente guarda estes acontecimentos e eles estão lá “desesperados” para aflorar. Uns conseguem…

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