Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

31/1/07

Crônica para Ana Maria

Davi Castiel Menda

Hoje é um dia especial pra ti; é um dia especial pra nós. É um dia que podemos considerar como um dia de renascimento. Sei que não é fácil, mas temos que encarar pelo lado positivo: não é sempre que se nasce duas vezes.
 
E o acontecimento vem acrescido de pelo menos duas vantagens. A primeira é renascer com todo o cabedal de conhecimento que acumulaste ao longo dos anos. Não é por acaso que os espanhóis (e os peruanos) tem um ditado que adoro repetir: "El diablo sabe más por viejo do que por diablo". E a segunda, renascer na terceira idade é ser um bebê, enquanto nossas filhas e netas já estão crescidinhas ou em crescimento. É tentar correr para alcançá-las, é tentar crescer para acompanhar o seu viver, desfrutar das suas glórias, suas conquistas, suas fotos, o jardim da infância, o debutar, o vestibular, a formatura, o casamento. Vamos estar lá, em todos eles, pode acreditar.

Passamos por tantas e boas nesta corrida de obstáculos maluca que é a vida, e cujo prêmio é assistirmos, paradoxalmente, os nossos nos ultrapassando. Isto eles já fizeram, mas convenhamos, estamos ainda muito longe da chegada. E desistir agora seria um desencanto para todos aqueles que apostaram em ti, apostaram em nós. Os obstáculos se sucedem, uns maiores, outros menores, às vezes assustam, mas a torcida - que é grande - está lá para lembrar que, sem ti, o mundo perderia a graça.

E - segredo - por mais que te produzas, continuo vislumbrando somente aquela Aninha com trancinhas, exibidinha, cheia de si, que há mais de cinqüenta e seis anos me enfeitiçou.

Menina, dá um jeito na vida, acorda por que hoje é o dia de um novo nascer! 

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30/1/07

Como ganhar na Mega Sena

Davi Castiel Menda

"…com esta metodologia em prática, você sabe com antecipação, que independentemente dos números que forem sorteados, por mais estrambóticos que sejam, acertará as seis dezenas da mega sena."

O primeiro homem a chegar a conclusão que a seqüência correta seria "um, dois três…" e não "um, dois, muitos…", foi o primeiro matemático da história; o primeiro bruxo, o primeiro a dar o passo inicial à ciência que investiga relações entre entidades definidas, abstrata e logicamente.

Todos os que estão envolvidos, quer seja estudando, ensinando ou admirando esta prodigiosa ciência das grandezas, tem um preito de gratidão a Descartes, Pascal, Newton, Leibnitz, Euler, Lagrange, Comte, Laplace, Albert Einstein. Particularmente, adotei o Professor Júlio César de Mello e Souza como meu ícone, pela forma divertida com que procurava atrair seus alunos e leitores; foi editor da revista Al Karismi na década de 40. Meu ícone número dois foi Malba Tahan, autor de numerosos livros, sendo o mais conhecido O Homem que Calculava. Não por acaso, o Professor Mello e Souza e Malba Tahan eram a mesma pessoa.

A esta lista, a partir de agora, sou obrigados a acrescentar um contemporâneo nosso, Barry Waterhouse, inglês, matemático, que obteve seus 15 minutos de fama não por fórmulas que ficarão registradas nos anais da matemática, mas simplesmente por ter faturado R$ 21 milhões de reais numa das tantas loterias inglesas de números, juntamente com sete colegas de faculdade.

A revista Isto É publicou em novembro de 2006 uma reportagem com o título A matemática da sorte, demonstrando tintim por tintim todo o raciocínio da milagrosa fórmula milionária engendrada pelo britânico. Aliás, fórmula que nos anos 80 já era utilizada por vários apostadores que se reuniam diariamente na extinta lotérica Casa de Apostas, localizada em Porto Alegre, com resultados pouco satisfatórios. Digno de nota, que tanto o novo milionário, Waterhouse, e a ex-lotérica de Porto Alegre tenham em comum o mesmo vocábulo: Casa = House. Algum indício especial?

Pelo menos o matemático inglês foi sincero ao afirmar que: "Foi sorte. " E eu concordo com ele em gênero e número. Foi pura sorte! Acompanhem a sistemática utilizada (a mesma, mesmíssima que era usada em Porto Alegre), segundo a reportagem da Isto É: "Primeiro Barry escolheu uma loteria (semelhante à Mega-sena brasileira) que apresenta 49 números em sua cartela. A partir daí, os 49 números da loteria foram escritos em pedaços de papel e colocados numa caixa. Os oito participantes do bolão apanharam então seis números cada um, o que deixou um número sobrando na caixa. Esse que restou é usado para começar uma nova linha de seis números pelo próximo apostador, juntamente com os demais números que voltam para a caixa, e assim sucessivamente."

É claro que Barry Waterhouse nunca lerá este artigo e, se hipoteticamente o fizesse, se finaria de tanto rir (também pudera - com R$ 21 milhões no bolso), mas para aqueles que pretendem seguir o método, posso afirmar que se contratássemos um macaquinho ensinado, treinado para preencher volantes ao invés de catedráticos sortear papeizinhos, teríamos exata, exatamente a mesma chance dos oito felizardos ganhadores. Foi sorte! Foi sorte mesmo, Professor Barry!

Sob determinado ângulo, até que é um jogo interessante e eu, pessoalmente, durante algum tempo, me entusiasmei com a idéia; e é explicável. Se você utilizar o método adaptado à nossa mega-sena, estará apostando 10 volantes com seis dezenas, cobrindo todo o universo de 60 dezenas possíveis, e a um custo nada assustador.

O que é mais difícil numa aposta? É claro que acertar as seis bolinhas que saltarão randomicamente dos globos! E com esta metodologia em prática, você sabe com antecipação, que independentemente dos números que forem sorteados, por mais estrambóticos que sejam, que acertará as seis dezenas da mega sena. O problema todo é "torcer" desesperadamente para que as seis se concentrem no mesmo cartãozinho. É deveras problemático!

A tendência é que, em 49% das vezes, você acertará duas dezenas num volante, e as quatro dezenas restantes em outros quatro cartões. Resultado um pouco melhor, três dezenas num volante, mas que ainda não paga prêmio, em 2,5% das vezes. A partir daí, as coisas se tornam mais e mais difíceis e a cada 230 tentativas - 2.300 volantes apostados no total - a tendência é faturar uma quadra.

A revista Isto É finalmente nos informa que "Barry cansou, após oito anos de tentativas frustradas, de simplesmente tentar a sorte arriscando números correspondentes a datas de aniversário de amigos e decidiu, aí sim, deixar de ser modesto e pôr em prática o seu raciocínio de professor catedrático de matemática da Bradford University and College." Ah, agora sim está explicado… 

criado por projetosnumericos    10:48 — Arquivado em: Jogos & Loterias

26/1/07

O sagrado direito de opinião

Davi Castiel Menda

"O Tribunal Superior Eleitoral confirmou, nesta segunda-feira, a ocorrência de uma falha em um lote de urnas eletrônicas utilizadas nas últimas eleições para governador de Alagoas. Denunciado pelo candidato derrotado, deputado João Lyra, do PTB, o problema, no entanto, não teria influenciado no resultado final. Segundo a assessoria do Tribunal, algumas urnas mais antigas não eram compatíveis com o programa adotado nas ultimas eleições. Isso acarretou erros na impressão do relatório que é entregue aos partidos".

Em 24.09.2006, o jornal Zero Hora publicou em destaque (Tema para debate), matéria posteriormente divulgada neste blog, sob o título As urnas eletrônicas e a zerézima, que vislumbrava a possibilidade das urnas eletrônicas serem fraudadas. O que me influenciou a externar essa opinião foi a insistência do TSE, avocando a todos brasileiros de patrão em suas propagandas televisivas, o que me daria, em princípio, certas regalias e direitos. Aliás, pensando bem, esta condição me deixou em estado de dúvida até os dias de hoje: se o vocábulo patrão estava sendo usado como se todos nós fôssemos (segundo o Aurélio) chefes de escritório, de uma repartição (no caso o próprio Tribunal Superior Eleitoral); se das Câmaras (alta, dos senadores ou baixa, dos deputados); tratamento simplesmente carinhoso e afetuosamente irônico ou retórica pura dos descompromissados marqueteiros.

Dois dias depois, Zero Hora divulgou diversas mensagens de leitores - em resposta ao debate proposto - favoráveis (a maioria) e desfavoráveis às opiniões emitidas no artigo, afinal vivemos numa democracia.

Em 28.09.2006, o mesmo jornal publicou escrito de autoria do Secretário de Tecnologia da Informação do TRE/RS, em resposta ao nosso artigo do dia 24, sob o título Zerésimas de conhecimento, tentando de todas as formas desqualificá-lo.

 Em 01.10.2006, o jornal O Sul editou em suas páginas - caderno colunistas - matéria do insigne desembargador aposentado Ilton Carlos Dellandréa sob o título A urna eletrônica é confiável?, que pode ser lida neste blog, também se posicionando ao lado da tese exposta em As urnas eletrônicas e a zerézima, ou seja, admitindo a possibilidade de ocorrência de fraude neste tipo de votação. Cumpre ressaltar que o desembargador Dellandréa exerceu o cargo de juiz eleitoral em Irai, Espumoso, Novo Hamburgo e Porto Alegre, e foi taxativo ao afirmar (Zero Hora, 26.09.2006) que a "urna eletrônica a ser usada nas próximas eleições é fraudável e torna possível a identificação dos votos dos eleitores". E mais, "que a inexpugnabilidade é um tabu que o TSE tenta impingir à sociedade brasileira".

A Rádio Guaíba, em seu noticiário do dia 22.01.2007, às 22.00 horas, divulgou a seguinte matéria: "O Tribunal Superior Eleitoral confirmou, nesta segunda-feira, a ocorrência de uma falha em um lote de urnas eletrônicas utilizadas nas últimas eleições para governador de Alagoas. Denunciado pelo candidato derrotado, deputado João Lyra, do PTB, o problema, no entanto, não teria influenciado no resultado final. Segundo a assessoria do Tribunal, algumas urnas mais antigas não eram compatíveis com o programa adotado nas ultimas eleições. Isso acarretou erros na impressão do relatório que é entregue aos partidos".

Nada como um dia depois do outro.

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Posfácio: Zerézima ou zerésima?

Ao escrever pela primeira vez essa palavra no meu artigo sobre as urnas eletrônicas, confesso que fiquei em dúvida: letra esse ou letra zê? O Aurélio seria o lugar mais indicado mas, por ser uma palavra nova, não constava nem uma, nem outra: permaneci na dúvida.

 Evidentemente que meu Dictionnaire des racines des langues européennes não foi de muito proveito, pois imagino que na idade da pedra as eleições eram decididas na base do grunhido e da clava; os trogloditas da época (pois hoje continuam existindo) desconheciam inclusive o zero, o que dirá zeréz(s)ima!

 Procurei usar da analogia, e as duas primeiras palavras que me vieram à mente foram enésimo (afinal, a minha área de atuação é matemática) e enzima (que nada tem a ver com o assunto). Estava ganhando a letra esse mas, por mais que eu insistisse, o Word98 do meu computador recusava-se terminantemente a aceitar zerésima com essa letra. A consulta seguinte foi ao Google: ganhou zerésima com 589 citações e zerézima estava lá com 381 (inclusive com texto do TRE paulista e de outros TREs brasileiros). No  momento atual, a  zerézima do meu artigo encabeça a lista de citações, no Google, da grafia com zê.

Pensando bem, meu tempo de colégio já passou, não estou prestando exame de português, e zerézima com zê me pareceu ser mais forte e muito mais chamativo que zerésima com esse. Até prova em contrário, fico com zerézima!

E se permitem me repetir, nada como um dia depois do outro.

criado por projetosnumericos    5:05 — Arquivado em: Opinião, Política

25/1/07

Historinhas curtas

Davi Castiel Menda

Nos primórdios da Loteria Esportiva, os volantes eram nominais, obrigando o apostador a preencher o nome em cada volante apostado. Ao longo do tempo, essa regulamentação caiu por terra; entretanto, pela inexperiência de uns, ou criatividade exagerada de outros, ficaram agregadas ao folclore da Loteca situações tragicômicas e surrealistas. Os relatos abaixo são genuinamente verídicos.

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Certo apostador sonhou com sua mãe, falecida recentemente, indicando-lhe no sonho, com a mais absoluta precisão, quais seriam os treze ganhadores. Excitadíssimo com a possibilidade de equilibrar-se financeiramente, marcou um volantezinho e, em homenagem à falecida, subscreveu seu nome no volante. Aguardou com impaciência a chegada do final de semana e, sábado e domingo acompanhou com o maior interesse os jogos pelas emissoras de rádio. Coincidência ou não, acertou todos os jogos!
Lamentavelmente, teve que dividir o prêmio com seus quatro irmãos, já que o cartão premiado, no nome da mãe (falecida), entrou em inventário, com inteira justiça.

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O padre de certa paróquia do interior, fanático por futebol e assíduo da Loteca, arriscava semanalmente um cartãozinho, sempre pensando em aumentar os recursos financeiros da sua igreja. Para não ficar mal com os fiéis ou com sua Diocese, caso acertasse, sempre preenchia o volante em nome do sacristão.
Certo dia: treze pontos! Feliz da vida, comunicou o fato ao sacristão, que se mostrou surpreso pelo uso indevido do seu nome, exigindo como compensação, para receber o prêmio, uma comissão de dez por cento.
O padre, indignado, alegando que o prêmio seria integralmente revertido para os pobres, ofendeu o sacristão, chamando-o de ladrão e outros epítetos censuráveis. Estava criado o impasse: um tinha o cartão - o padre - mas em nome de outrem - o sacristão. A essas alturas, toda a paróquia era sabedora dos mínimos detalhes do ocorrido, tendo sido criada uma comissão, entre os paroquianos, afim de convencer o sacristão a abrir mão da percentagem exigida. Esse, furioso por ter sido ofendido pelo padre, afirmou que, para receber o prêmio, o valor tinha sido reajustado para vinte por cento!!
- Ladrão, ladrão! - exclamava o padre cada vez mais possesso.
Para encurtar a história, depois de idas e vindas, ofensas e contra-ofensas, o prêmio foi finalmente cobrado, cabendo 50% para os pobres da paróquia e 50% para o "ofendido" sacristão, pelos irreversíveis danos morais sofridos, e uso indevido do seu nome …

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Um colega meu de empresa, leigo de carteirinha em matéria de futebol e incapaz de apostar um centavo, era assediado semanalmente por vizinho de rua, tentando convencê-lo a apostar na esportiva. Tanto insistiu que, o meu colega, certa semana, cedeu e … milagre dos milagres: acertou (ou acertaram?) os treze pontos; e o melhor, por terem ocorrido algumas "zebras", o teste (naquele tempo não era concurso, era teste mesmo) encontrou apenas três ganhadores, rateando um prêmio compensador, algo assim em torno de 300 mil dólares.
Encerrados os jogos, lá pelas seis ou sete da tarde, tudo era festa, comemoração, caipirinha, tapinha nas costas, e nada do vizinho-sócio (o dos palpites, já que quem "bancou" integralmente o valor da aposta foi o meu colega) ir embora. Pela meia-noite conseguiram despachá-lo.
E não é que na manhã seguinte, nem bem o dia tinha raiado, e o "dono dos palpites" bate na casa do ganhador, acompanhado de um advogado, com um documento datilografado (sou do tempo do datilografado…) dividindo o prêmio, destinando 50% a cada um. O meu colega, previsivelmente, deu um "corridão" nos dois e o assunto foi o tema dominante por várias semanas na cidadezinha de São Leopoldo, Rio Grande do Sul.
Após a intervenção de amigos comuns - e até da imprensa - o meu colega (que jura que daria a metade ao palpiteiro, não fosse o episódio do advogado), após ter a capota do seu carro conversível totalmente furada por quimbas de cigarro, concordou em ceder 20% do prêmio para o vizinho.

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Os três casos acima envolveram jogadores bissextos, sem a menor experiência lúdica. Tragédia maior aconteceu com um apostador que se considerava um verdadeiro profissional e mais, com fama de malandro. Seu casamento, estando por um fio, inclusive com data marcada para a separação definitiva, e com medo de acertar na Esportiva e ter que dividir o prêmio com a esposa, preenchia invariavelmente os volantes apostados em nome da amante.
O final é previsível: acertou os treze pontos e, para gáudio das leitoras, ficou sem a mulher, sem a amante, e sem o dinheiro do prêmio.

criado por projetosnumericos    4:39 — Arquivado em: Jogos & Loterias

21/1/07

Lei de Parkinson

Davi Castiel Menda

Uma das primeiras providências que um viajante toma ao hospedar-se num hotel, em viagem nacional ou internacional, é consultar a lista telefônica e ir direto à página onde consta seu sobrenome. Concordam comigo?

Sendo uma das minhas filhas psicóloga, e a outra, quase, acho que tenho o duplo direito de imiscuição no assunto, sem correr o risco de ser processado por exercício ilegal da profissão. Portanto, numa análise mais profunda, este ato ou efeito de situar-se demonstra um claro sintoma de desamparo: a visualização do nome de família num teórico e pseudo-parente, visivelmente, deixa-o mais tranqüilo, antevendo a possibilidade da ocorrência de um problema qualquer durante a sua estada. É uma tentativa - totalmente inócua, diga-se de passagem - de aproximação social e parenteira, pois ele, (des)motivado pela distância da pátria mãe (ou do estado natal), sente-se desarraigado do seu chão de costume, o que gera uma situação de abandono. Aqueles quase setuagenários, como eu, já devem estar vacinados contra tal fato.

Se você está incluído no rol desses viajantes, não seja inconveniente telefonando ao seu "parente" recém descoberto na lista, por dois motivos: 1) sendo você brasileiro, ele presumirá que você pretende um empréstimo, e o tratamento dispensado não será dos melhores; 2) parentes ricos não procuram parentes pobres - somente a recíproca é verdadeira - portanto, ele presumirá que você pretende um empréstimo, e o tratamento dispensado não será dos melhores.

Por ser um contumaz freqüentador de restaurantes, cheguei à conclusão que os habitués das casas de pasto assemelham-se muito a viajantes e, seus medos, mesmo inconscientemente, são perfeitamente constatáveis. O comportamento e as atitudes, via de regra, são tão previsíveis, que foram analisadas pelo professor C. Northcote Parkinson, o criador da Lei de Parkinson, que ao ser divulgada, causou um impacto no campo da Administração, pública e privada, e serviu de base para a fundação da "Escola do Absurdo", da qual continua, ainda, como clássico maior.

Os comensais, ao entrar, dirigem-se preferencialmente para o lado esquerdo do restaurante, tendência com conotações biológicas. O nosso coração está ao lado esquerdo do corpo e, primitivamente, o homem usava o escudo desse lado para proteger-se, enquanto a arma - normalmente uma espada - era segura pela mão direita; conseqüentemente, a bainha ficava do lado esquerdo. Desse modo, era inviável, para não dizer impossível, montar a cavalo pelo lado direito. Seguindo a lógica, se você tinha que, compulsoriamente, montar do lado esquerdo, a tendência também seria manter o cavalo no lado esquerdo da estrada, o que me faz imaginar que talvez a Inglaterra e outros quarenta e  três países estejam certos ao conduzir seus carros pela esquerda, enquanto nós, dirigindo pela direita, posicionamo-nos totalmente contrários aos mais profundos instintos históricos.

Outro fato comprovado é que as pessoas preferem os lados direito e esquerdo ao centro do restaurante. As primeiras mesas a serem ocupadas são as localizadas à parede esquerda, em seguida as da direita e, com certa relutância, as do centro. A justificativa pela ojeriza às mesas centrais deriva de instintos pré-históricos. O troglodita, ao entrar na caverna de um estranho, não sabia como seria recebido e, se ficasse no centro, sentiria-se demasiadamente vulnerável. Então, andava de esguelha encostando-se pelas paredes, grunhindo e brandindo sua clava. Hoje o homem moderno, ao entrar num restaurante, toma atitude idêntica (só que, em vez da clava, manuseia e exibe-se com sua gravata multicolorida).

E a constatação mais surpreendente: se somente você e seus familiares estiverem no restaurante, e entrarem novas pessoas, a tendência será sentarem-se exatamente à mesa ao seu lado (por maior que seja o salão), tal qual um grupo de homens pré-históricos que, por necessidade, viviam em comunidade e intimamente juntos para sua sobrevivência - é atávico.

Creio ser desnecessário afirmar, principalmente aos estudiosos sobre o assunto, que a validade destas regras ficará comprometida se o assunto se tornar difundido demais. Portanto, o conteúdo deste texto, desde já, passa ser considerado confidencial e, estudantes ligados às Ciências Sociais devem conservar esses dados somente para uso próprio, evitando levá-los às mãos do público. Caso contrário, a Lei de Parkinson será revogada.

criado por projetosnumericos    16:09 — Arquivado em: Humor

20/1/07

Piro e outras manias

Davi Castiel Menda

Advertência: o presente artigo descreve cenas chocantes que podem melindrar e ferir suscetibilidades. O objetivo é apontar, através de alguns poucos - mas fortes - exemplos documentais, a que ponto pode chegar a crueldade, o menosprezo pelo ser humano (e porque não, também aos animais), por seres que, lamentavelmente, por convenção, gozam da qualificação imerecida de racionais. Este tipo de atitude, fora dos padrões éticos, nos persegue desde tempos imemoriais e é hora de uma tomada de atitude diretamente proporcional à dimensão desses crimes, cometidos por ditos humanos; a pena, de continuarmos acomodados, é permanecer eternamente sob o signo do medo. E o pior, sentirmos vergonha de pertencer à raça humana…

piro- (Do grego - pyro) - Elemento de composição - fogo.
-mania [Do grego - manía] - Elemento de composição - loucura, mania; tendência ou inclinação para; que apresenta certa mania, tendência mórbida ou patológica.

O Dicionário Aurélio relaciona aproximadamente duzentos vocábulos que etimologicamente estão ligados a alguma espécie de obsessão ou idéia fixa doentia. Alguns parecem ser inócuos e irrelevantes: bailomania (paixão por bailes, por danças); outros pesados e aterrorizantes cujo exemplo máximo seria a demonomania (mania dos loucos que se julgam possessos pelo Demônio); entre os divertidos e exclusivos do sexo masculino, destaque para o donjuanismo (mania de bancar Don Juan, tipo espanhol de galanteador, de conquistar todas as mulheres); o conhecidíssimo e restrito ao sexo frágil - ninfomania (tendência, nas mulheres, para o abuso de relações sexuais, a qual às vezes assume caráter patológico); e outros tantos.

No exato momento em que um raio caiu sobre um punhado de arbustos, gerando uma pequena fogueira (o fautor realimentação do efeito borboleta), inicialmente assustando a um grupo de hominídeos - porém causa imediata e determinante do progresso através da inovação - estava plantada a semente da piromania, a mania pelo fogo e suas terríveis conseqüências.

O primeiro piromaníaco conhecido foi Eróstrato, responsável confesso (ressalte-se, mediante tortura) pelo incêndio do templo de Diana em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo antigo, no ano 356 antes da era cristã. Seu único objetivo era obter fama a qualquer preço e, ao ser descoberta sua intenção, proibiu-se pronunciar e registrar seu nome para sempre, sob pena de morte para a desobediência. A ameaça não foi suficiente: seu feito e nome sobreviveram até os nossos dias.

Cabe a Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus o galardão, no mau sentido, de ser o piromaníaco mais famoso, acusado de ter provocado o incêndio que destruiu praticamente dois terços da cidade de Roma no ano 64 - quem já não assistiu esta cena nos incontáveis filmes sobre o tema? Entretanto, estudos atuais põem em dúvida a veracidade desta acusação. Para Massimo Fini, as calúnias foram inventadas por Tácito, Suetônio e historiadores cristãos.

- continua -

criado por projetosnumericos    13:16 — Arquivado em: Crônica, Opinião

Piro e outras manias . Parte II

Davi Castiel Menda

Advertência: leia advertência na Parte I deste artigo.

- continuação -

Em estudos realizados em indivíduos com o transtorno da piromania, chegou-se a conclusão de que existe para eles uma fascinação, um interesse, curiosidade e atração pelo fogo e seus contextos situacionais. São espectadores regulares de incêndios, sentem prazer em acionar alarmes falsos, são vistos freqüentemente próximos ao corpo de bombeiros e - até mesmo - aspiram tornar-se um deles! A satisfação é sentida ao provocar incêndio, ao testemunhar seus efeitos ou participar de seu combate. Normalmente não envolve ganhos monetários e estão mais ligados a expressar uma ideologia sócio-política, uma atividade criminosa, expressar raiva ou vingança ou uma resposta a delírio ou alucinação.

A distância temporal do crime de Eróstrato e o pseudo-envolvimento de Nero no incêndio de Roma, somados às características diagnósticas dos indivíduos com piromania, ainda não são suficientes para nos sensibilizar. A medida em que avançamos no texto e no tempo, aí sim, os fatos ficam mais e mais chocantes pela proximidade, e vamos nos dando conta da realidade nada dignificante da doença.

Em 1233 o Papa Gregório IX editou duas bulas que marcaram o início da Inquisição, que perseguiu, torturou e matou vários dos seus inimigos, ou quem ela entendesse como inimigo, acusando-os de hereges ou bruxaria. Os réus poderiam ser torturados (inclusive crianças e velhos), presos, enviados para galeras ou levados à fogueira. Se durante o processo o preso viesse a falecer, a Inquisição mandava queimar os restos mortais do herege e jogar suas cinzas ao vento. Era comum também a execução em efígie, onde era queimada a imagem do condenado, quando este fugia e não era encontrado. Livros eram levados à fogueira (nada de ineditismo - era praticamente o primeiro ato insano cometido por invasores ao dominar uma cidade, a queima de bibliotecas, numa tentativa ridícula e bárbara de varrer do mapa a cultura do povo dominado).

Voltando à prática da execução na fogueira, se essa fosse suficientemente grande, a inspiração do monóxido de carbono seria um alívio(!) para o condenado, pois o deixaria inconsciente e causaria uma morte não tão dolorosa quando as chamas atingissem o corpo. Caso contrário, uma fogueira pequena, manteria a vítima lúcida e em grande agonia por muitos minutos (no caso, uma eternidade), sendo progressivamente queimada e morrendo devido à perda de sangue ou ataque cardíaco. A literatura registra casos em que eram acrescentadas pequenas porções de pólvora ao condenado, transformando a execução numa autêntica sessão pirotécnica. O objetivo era "humanizar" a execução, já que boa parte da pólvora era colocada próxima à cabeça da vítima, que morria rapidamente devido à explosão quando o fogo a atingisse. A execução na fogueira subsiste até hoje em alguns países como a India e Quênia.

Se você acha as touradas espanholas e a farra do boi espetáculos desprezíveis, é porque não conhece os "touros de fogo", realizados periodicamente na Catalunha: o touro é atado pelos cornos, arrastado pelo povo com grande violência e conduzido até um pilar onde lhe atam a cabeça, as patas e lhe tiram o rabo. Na sua cabeça são introduzidos artigos metálicos com grandes bolas de material inflamável que são acesos antes de soltar o pobre animal, que fica envolto cada vez mais pelo fogo com suas constantes cabeçadas tentando se desvencilhar do seu tormento. Das bolas de fogo respinga um líquido incandescente que salpica nos seus olhos e nariz. A brutalidade destes espetáculos provoca profundos sofrimentos físicos e psíquicos aos animais, e contrasta com a idéia que a Catalunha (onde são realizados) quer dar ao mundo de país civilizado e europeizado. Cabe salientar que o espetáculo (aqui empregado no sentido de cena escandalosa), é assistido por milhares de pessoas que vibram enlouquecidas como se estivessem num campo de futebol (a TV Bandeirantes apresentou estas cenas recentemente num dos Vídeos Incríveis: é simplesmente repugnante e nojoso; um pouco de auto-censura seria recomendável a todas nossas emissoras). E provavelmente, pouco depois, já que a representação é à noite, os espectadores devem dormir o sono dos "justos", certamente sem o mínimo remorso, e atingindo orgasmos de satisfação e prazer bestial, sonhando com os "touros de fogo".

A auto-imolação às margens do Ganges, pelas viúvas dos recém falecidos, o suicídio por fogo e os protestos de diversos grupos minoritários, ateando fogo às próprias vestes, também devem ser lembrados, cada um deles com seus motivos específicos e peculiares. Perto de tudo que se viu, são gestos isolados e pessoais que atingem somente os agentes causadores, não prejudicando a terceiros (pelo menos fisicamente).

E finalmente chegamos ao ponto culminante e crucial do artigo, e que atinge a todos nós diretamente: o atear fogo a índios, mendigos e ônibus; no caso do último, impedindo covardemente a saída dos passageiros. Na tentativa de chantagear as autoridades ligadas à segurança, são sacrificados inocentes que morrem estupidamente porque um grupo de fascínoras presos assim determinou, e um bando de idiotas assim cumpriu. Índios e mendigos, pela sua natural passividade são presas fáceis de celerados "que só queriam brincar um pouco"; e que posteriormente, ao serem descobertos e presos, choram hipocritamente, lamentando a morte das suas vítimas.

Até quando pessoas e animais serão vítimas indefesas de piromaníacos, desequilibrados emocionais, que normalmente agem acobertados pelo anonimato? Até quando índios e mendigos serão queimados por covardes que agem em bandos, contra seres indefesos e pegos de surpresa? Até quando autoridades pusilânimes aceitarão serem ridicularizadas por inimigos que estão sob a sua guarda, presos, numa atitude de deboche sem precedentes.

criado por projetosnumericos    13:13 — Arquivado em: Crônica, Opinião

19/1/07

Coincidências III

Davi Castiel Menda

A história que vocês lerão a seguir é tão incrível e surpreendente que  sinto-me na obrigação de retransmiti-la a todos.  É uma coincidência tão fantástica, que se não fosse a pessoa que deu o aval sobre sua veracidade, eu não acreditaria: o  presidente da Academia de Ciências Forenses dos Estados Unidos (AAFS), Dan Harper Mills, que assombrou centenas de pessoas reunidas para o jantar anual da Academia, em San Diego, em 1987, ao contar tão estranho e bizarro acontecimento:

"No dia 23 de março de 1984, um médico legista examinou o corpo de Ronald Opus e concluiu que havia morrido por causa de um tiro disparado contra sua cabeça. O falecido havia pulado do décimo andar de um prédio, tentando se suicidar (ele havia deixado uma carta indicando seu desânimo com a vida). Durante a queda, porém, ao passar pelo nono andar, sua vida foi interrompida por uma bala vinda de uma janela, matando-o instantaneamente."
"Entretanto, nem quem atirou, e nem o próprio suicida, sabiam que havia uma rede esticada na altura do oitavo andar, para proteger os lavadores de janela, e que de qualquer forma, Ronald Opus não conseguiria se suicidar por causa da rede."
"Em geral - continuou o Dr. Mills - uma pessoa que se prepara para cometer um suicídio acaba tendo sucesso, mesmo que às vezes o mecanismo não tenha sido o planejado. O fato de Opus ter sido baleado a caminho de uma morte certa, nove andares abaixo, provavelmente não mudaria sua morte de suicídio para homicídio. Mas o fato de que a tentativa de suicídio não iria ter sucesso, fez o médico legista sentir que tinha um homicídio em suas mãos. E começou a investigar."
"O apartamento do nono andar, de onde o tiro saiu, era habitado por um casal de idosos. Eles estavam discutindo e ele ameaçava a esposa com um revólver. O marido estava tão irritado que, ao puxar o gatilho, perdeu completamente de mira a sua esposa e a bala atravessou a janela, indo acertar Opus. Se alguém pretende matar o sujeito A, mas acaba matando um sujeito B, ele é culpado do assassinato de B!"
"Quando confrontado com a acusação, o casal se mostrou irredutível sobre o fato de que nenhum dos dois sabia que a arma estava carregada. O velho homem afirmou que era um hábito antigo seu ameaçar a esposa com o revólver descarregado. Ele não tinha intenção de matá-la, portanto a morte de Opus parecia ter sido um acidente. Ou seja, a arma havia sido carregada por terceiros."
"Com a continuação das investigações, apareceram duas testemunhas que afirmaram ter visto o filho daquele casal carregando o revólver, cerca de seis semanas antes do incidente fatal. Descobriu-se, também, que a velha senhora havia cortado sua ajuda financeira ao filho e este, sabendo da propensão do pai em ameaçar a mãe com o revólver, carregou a arma esperando que o pai atirasse nela. O caso agora havia virado assassinato, por parte do filho do casal, pela morte de Ronald Opus."
"Houve, porém, um raro agravante. O desenrolar das investigações revelou que o filho do casal, um tal de Ronald Opus, tinha se tornado cada vez mais deprimido pela falha no seu plano de matar a mãe. Isto o levou a saltar do décimo andar de um prédio no dia 23 de março, quando acabou sendo morto por um tiro disparado do nono andar! Na impossibilidade de enquadrar Ronald Opus como assassino (mesmo indiretamente) pela morte de Ronald Opus (não se trata de homonímia, trata-se da mesma pessoa), o legista encerrou o caso como suicídio."

Em 1994, quando tomei conhecimento da história, e impressionado com aquela sobreposição e simultaneidade de acontecimentos fantásticos, procurei entrar em contato com o Dr. Mills, através da AAFS. Ele gentilmente respondeu-me, e informou-me que eu havia sido a 463a. pessoa a pedir informações.

criado por projetosnumericos    9:50 — Arquivado em: Crônica

15/1/07

Coincidências II

Davi Castiel Menda

O acontecimento que pode ser caracterizado como o mais insólito na história das coincidências, foi publicado pela imprensa inglesa há alguns anos: um homem morreu atropelado por um táxi. Exatamente um ano depois (mesmo dia e mês), o irmão dele foi atropelado - e morreu - pelo mesmo táxi, mesmo motorista, na mesma rua, no mesmo local, mesmo horário e, com o mesmo passageiro…

Entretanto, pela conjunção de fatos, o assassinato dos presidentes americanos John Fitzgerald Kennedy e Abraham Lincoln supera toda e qualquer expectativa na lista das grandes coincidências da história.

Abraham Lincoln foi eleito para o Congresso em 1846.
John Kennedy foi eleito para o Congresso em 1946.

Abraham Lincoln foi eleito Presidente em 1860.
John Kennedy foi eleito Presidente em 1960.

O sobrenome de ambos - Lincoln e Kennedy - tem sete letras.
Ambos estavam comprometidos na defesa dos direitos civis.

As esposas de Lincoln e Kennedy perderam filhos enquanto viviam na Casa Branca.

Ambos os presidentes foram assassinados por sulistas.

Os sucessores de Lincoln e de Kennedy chamavam-se Johnson.
André Johnson, que sucedeu a Lincoln, nasceu em 1808.
Lyndon Johnson, que sucedeu a Kennedy, nasceu em 1908.

O sobrenome da secretária de Lincoln era Kennedy.
O sobrenome da secretária de Kennedy era Lincoln.

John Wilkes Booth, que assassinou Lincoln, nasceu em 1839.
Lee Harvey Oswald, que assassinou Kennedy, nasceu em 1939.
O nome de ambos os assassinos tem 15 letras.

Lincoln foi assassinado dentro de um teatro de nome Ford.
Kennedy foi assassinado num carro Ford modelo Lincoln.

Booth saiu correndo de um teatro e foi apanhado em um depósito.
Oswald saiu correndo de um depósito e foi apanhado num teatro.

Booth e Oswald foram assassinados antes de seu julgamento.

E a coincidência mais interessante:
Uma semana antes de Lincoln ser morto, estava em Monroe, Maryland.
Uma semana antes de Kennedy ser morto, estava em Monroe, Marilyn…

criado por projetosnumericos    21:33 — Arquivado em: Crônica

13/1/07

Coincidências

Davi Castiel Menda

Imagine duas pessoas com nomes idênticos, mesmo primeiro sobrenome e idem segundo sobrenome. Até aí nada de mais: se você consultar qualquer lista telefônica nas páginas com os sobrenomes Silva, Santos, Rosa, etc., encontrará dezenas dessas situações.

Para excitar mais a sua curiosidade, os dois nasceram no mesmo dia, mês e ano. Cor, tanto de um como do outro: branca. Os nomes e sobrenomes dos pais também eram rigorosamente idênticos, e para completar o ciclo de simultaneidades dos acontecimentos, ambos estavam trabalhando na mesma empresa. Ou eram gêmeos - e os pais batizaram as crianças com o mesmo nome - ou estávamos diante de uma monumental coincidência, ou tudo que foi narrado até o momento é pura ficção.

Não, não eram gêmeos e não se trata de ficção. Pessoalmente, conheci as duas pessoas em 1981 e…

____________________ Pausa ________________________

Faço parte do grupo que não acredita em coincidências, pelo menos não da forma com que o termo foi banalizado. Se prestarmos bem atenção, é uma das palavras mais em voga nas conversas do dia a dia. É coincidência pra cá, coincidência pra lá; a palavra foi vulgarizada a ponto de qualquer pequena justaposição de fatos se transformar em coincidência.

É claro que situações coincidentes existem: quem não conhece, pelo menos de nome, o político brasiliense Íris Rezende? Entretanto, tenho quase absoluta certeza que você desconhece o nome de sua esposa: chama-se… Íris Rezende. Já imaginaram a situação do filho de ambos, respondendo a um questionário? Qual o nome do seu pai?  "Íris Rezende". Qual o nome da sua mãe? "Íris Rezende"!

Na minha infância residi na Rua Cel. Fernando Machado, antiga Rua do Arvoredo. Bem próximo onde eu morava, só que em outros tempos, meados do século XIX, estava localizado o açougue (de triste fama) que comercializava a melhor lingüiça de Porto Alegre (e que mais tarde tomou-se conhecimento que era fabricada com carne humana). Nome do açougueiro (que usava da beleza e sensualidade da sua mulher Catarina para atrair os homens que serviam de matéria prima para o petisco, disputadíssimo na época): José Ramos. Onde moro atualmente, por ser um local onde predominam sítios, é cercado por belos e abundantes arvoredos e, a uns cem metros da minha residência, está localizado o açougue da vila - nome do açougueiro: José Ramos. Localização: Rua Santa Catarina. E a lingüiça, é de primeira!

Os dois fatos acima narrados, por serem totalmente atípicos e não previstos pela desordem ordenada do caos, merecem ser rotulados como coincidência, ao contrário dos acasos perfeitamente previstos pelo princípio fundamental que estabelece que tudo que acontece no universo, apesar da aleatoriedade, segue uma determinada ordem.

Você comumente vai a um shopping center e encontra um amigo ou parente e ambos exclamam: "Que coincidência"! Não há coincidência alguma. A ida ao shopping é uma rotina da vida moderna e coincidência seria se você não encontrasse nenhum conhecido durante o seu passeio. Cito outro exemplo, interessantíssimo, na área das estatísticas lotéricas: na extração no. 1382 da Loteria Federal, o bilhete sorteado no primeiro prêmio foi 22.255. Na extração seguinte, o primeiro prêmio coube ao bilhete 56.255. Como podem notar, a centena premiada foi a mesma: 255. O leigo exclamaria com vibrante entusiasmo: "Vejam só, que coincidência". Nada disso, a probabilidade desse fato acontecer é de uma chance a cada mil extrações. Considerando que até o momento a Caixa promoveu 4.100 extrações e este acontecimento (idêntica centena em duas extrações seguidas) ocorreu em quatro oportunidades - o fato está inserido rigorosamente dentro do previsto. Muito antes da Loteria Federal ser criada, muito antes de se pensar em loterias, muito antes do homem surgir na terra, a Lei das Probabilidades já prognosticara todos esses acontecimentos, e aquilo que foi matemática e antecipadamente previsto, não pode ser rotulado de coincidência.

_______________________________

Mas voltando aos dois "xarás" do início do artigo: estava eu prestando assessoria numa obra e chovia torrencialmente. Não tendo o que fazer devido ao mau tempo, repassava as fichas funcionais dos quarenta e tantos operários, com o objetivo de gravar seus nomes, quando deparei com a homonímia e a quantidade de pontos coincidentes entre dois deles. Era um fato surpreendente e raro e, com a concordância do chefe do Departamento Pessoal, solicitei a um funcionário que chamasse os dois ao escritório para conhecê-los. No momento em que entraram na sala, desconfiados com o duplo chamado, ambos estampavam um semblante de culpa que até uma criancinha de berço notaria; o enigma começou a ser decifrado e, a coincidência, ruiu qual um castelo de cartas soprado pelo vento.

Um era branco e o outro de cor negra (as fichas pessoais indicavam que os dois eram brancos) e antes que eu formulasse qualquer pergunta, recebi a explicação, óbvia, mas inesperada: os dois eram amigos de infância e, um deles - o rapaz negro - fora assaltado alguns anos antes, perdendo todos seus documentos. O branco providenciou fotocópias dos seus e "emprestou" ao amigo, que a partir daquela data, passou a ostentar nome, sobrenome e todas as características físicas e raciais do seu benfeitor. E quis o destino que se encontrassem na mesma obra… Coincidências, coincidências…

criado por projetosnumericos    13:31 — Arquivado em: Crônica
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