19/12/06
Trinca de Reis
Davi Castiel Menda
Pois o Dr. Netinho é uma das figuras mais respeitadas na cidade onde mora. Não tem hora para trabalhar, mas quando o relógio marca 20 horas, ele se dirige religiosamente para o clube, a fim de jogar o seu poquerzinho com os outros luminares do lugar. O jogo, a tostões, vai sistemática até as 22 horas, quando então é processada a contabilidade e apurado o prejuízo ou lucro de cada um. Ouvi falar que, o recorde, numa noite, foi obtido pelo escrivão local, que ganhou R$ 8 reais - isso que conseguiu a façanha de fechar um Royal Straight Flush!
Mas em 1943, o Netinho (naquela época era estudante, ainda não era doutor) viera cursar a faculdade na capital, e morava numa pensão, como todo o estudante do interior, recebendo do pai o equivalente a dois salários mínimos para sobreviver.
Numa de suas andanças noturnas, descobriu, por acaso, que num dos mais tradicionais clubes da capital, se jogava pôquer, "esporte" que ele adorava. Aliás, pôquer pra gente grande, pois as apostas eram de meter medo. O Netinho ficou boquiaberto com a quantidade de fichas na mesa, e mais apavorado ainda ao ser informado que o cacife para entrar no jogo era o equivalente a dez salários mínimos.
Apesar de ainda jovem, era uma pessoa determinada, de personalidade forte, e quando cismava com alguma coisa… Prometeu a si mesmo que, algum dia, ainda entraria naquele jogo, custasse o que custasse. Da mesada que recebia, passou a economizar a metade. Privou-se de muita coisa, chegando inclusive a passar fome, mas depois de dez longos meses, completou o tão almejado valor para entrar no joguinho do tal clube.
Tomou um banho caprichadíssimo, colocou sua melhor roupa, contou e recontou o dinheiro e lá se foi em direção ao clube, com pinta de milionário, com o intuito de multiplicar o capital, juntado com tanto sacrifício.
Deu sorte, o jogo recém iniciara e havia somente uma vaga, justamente ao lado de um proeminente político. Distribuídas as cartas para a rodada inicial, o Netinho, não tendo nem um só parzinho, não foi na parada, jogando fora suas cartas. Permaneceram no jogo somente um senhor que fumava um charuto imenso e seu vizinho da direita - o político, lembram-se?
As apostas começaram a crescer rapidamente e, o Netinho, se deliciava só em admirar os dois contendores se digladiando além do prazer ser aceito por tão honoráveis e respeitáveis parceiros. Era o seu debut na sociedade. Repentinamente, o político se viu acuado pelo oponente, e era obrigado a pagar a parada ou perder tudo que já tinha apostado. Furtivamente, mostrou ao Netinho suas cartas - uma trinca de reis - e, sem o menor constrangimento, "pediu emprestado" todas as suas fichas para continuar no jogo.
O Netinho pego de surpresa, ficou encantado com tanta deferência, poder emprestar por alguns instantes - como alegara o político - suas fichas a tão eminente personalidade. Não é todos os dias que se tem este privilégio!
Apostas encerradas, o homem do charuto apresentou na mesa cinco cartas do mesmo naipe - flush - evidentemente ganhando da trinca de reis, do político. O Netinho viu se evaporarem suas fichas antes de jogar uma só parada, o que não deixa de ser um feito memorável?!
E, a bem da verdade, em 1977, trinta e quatro anos depois, quando o Dr. Netinho esteve em Brasília tratando de uma pendência jurídica, e em visita ao Congresso, conseguiu receber o "empréstimo", sem juros naturalmente!
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Posfácio:
É claro que o enredo da historinha acima e todos os seus personagens são fictícios, do título ao ponto exclamativo final. Ela foi publicada pela primeira vez em setembro de 1997 no semanário 13 Pontos, e qual a minha surpresa ao receber um telefonema de um dos mais assíduos leitores, o Dr. Luiz (este não é fictício), que me confessou ter sido amigo do Dr. Netinho na sua juventude; sabia por alto da historinha esta do pôquer e ficara satisfeito em tomar conhecimento de detalhes que desconhecia. Não é fantástico? É indiscutivelmente o melhor elogio - para quem escreve - que se pode receber.
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