Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

15/12/06

Sonhos e Pesadelos

Davi Castiel Menda

O jornalista Júlio Mariani, no seu artigo Prisioneiros dos Deuses (Zero Hora - 14.08.98), comentou com muita propriedade: “sábios orientais já se perguntaram se o universo não seria apenas um sonho simultâneo de deuses e seres humanos. Um grande deus adormecido estaria sonhando com este mundo e esta vida, e nós, personagens do sonho divino, estaríamos por nossa vez sonhando outros pequenos sonhos inseridos dentro do sonho maior, e assim por diante.”

O sonho é uma seqüência de fenômenos psíquicos que involuntariamente ocorrem durante o sono. Entretanto, podemos sonhar acordados, e nossos sonhos passam a ser dirigidos através de pensamentos, de idéias vagas, normalmente agradáveis, muitas vezes incoerentes, às quais o espírito se entrega em estado de vigília, fantasiando, geralmente para fugir à realidade.

Quem não imaginou algum dia ser o presumível herdeiro de uma herança multimilionária, advinda de um parente distante e desconhecido? Quem não gostaria de ganhar uma bolada numa loteria, que muitas vezes, acumulada por vários sorteios, atinge dezenas de milhões de reais, nem que fosse para ter o prazer de, no dia seguinte, mandar o chefe às favas. Não são sonhos, são quimeras; poucos em vida terão a oportunidade de concretizar estes desejos incontidos.

Um cálculo nada complicado, empregando uma simples regra de três, ajudaria os sonhadores-lotéricos a retornar ao mundo real, onde os princípios da estatística substituem com vantagem os antigos oráculos: se alguém comprar um bilhete da Loteria Federal (que de longe é a mais fácil – aliás, a menos difícil - de acerto entre todas as loterias), duas vezes por semana que é a periodicidade dos sorteios, teria essa pessoa, probabilisticamente falando, o seu bilhete sorteado no primeiro prêmio uma vez a cada 700 anos. Porém, toda regra tem suas exceções: desde 15.09.1962, data da primeira extração sob a administração da Caixa, há bilhetes que se destacaram, incrivelmente sorteados no primeiro prêmio em três oportunidades. É muito provável que seus detentores, em todos os três sorteios, tenham sido as mesmas pessoas!

Normalmente o argumento usado pelos sonhadores é invariavelmente o mesmo: é difícil, mas alguém tem que ganhar! Concordo, figuradamente seria como soltar milhares de pessoas num celeiro, procurando por uma agulha escondida num palheiro; um, somente um será o descobridor. E é nesse exato momento que esse pobre coitado passa efetivamente a conhecer seu inferno astral, pelos pedidos de empréstimos e doações, propostas de negócios mirabolantes, o receio de voltar ao status quo anterior, enfim, centenas de variáveis, quase todas elas, infelizmente, negativas.

Situação mais trágica é quando o sonho de atingir o inatingível – um primeiro prêmio - se concretiza, mas por um motivo qualquer, a bolada tão sonhada não chega às mãos do ganhador. Conta-se às centenas as histórias de bilhetes perdidos, jogados no lixo inadvertidamente, usados para fins escatológicos, tragados por cachorros, enfim, o que era para ser o pontapé inicial para uma vida de folgança, transforma-se no primeiro ato de uma tragédia, normalmente uma espiral sem fim.

Danilo A., durante muito tempo foi apostador habitual de uma agência lotérica localizada numa das grandes avenidas de Porto Alegre. Segundo notícia publicada pelo jornal Zero Hora de 16 de agosto de 1998, Danilo iria receber desta lotérica a importância de R$ 300 mil que coube ao bilhete no. 00.939 da Loteria Federal, mais correção monetária. A decisão foi tomada pelo 2o. Grupo Cível do Tribunal de Justiça do Estado, presidido pelo desembargador Alfredo Guilherme Englert.

Danilo A. alegou que, havia mais de dois anos, firmara um acordo verbal com a agência para que esta lhe reservasse permanentemente o bilhete 00.939. E durante todo esse tempo o pacto funcionou a contento. A agência mantinha a guarda dos bilhetes para as extrações de quarta-feira e sábado; na terça-feira seguinte o cliente passava na lotérica e acertava a conta.

No sorteio de sete de setembro de 1996, o bilhete 00.939 foi sorteado no primeiro prêmio, valor de R$ 300 mil. Logo que soube do resultado, Danilo A. entrou imediatamente em contato com a lotérica e lhe foi dito que o bilhete fora vendido em pedacinhos para várias pessoas. Inconformado com a situação, investigou e descobriu que a própria dona da agência recebera o prêmio. O sonho se transformara em pesadelo.

Danilo A. encaminhou ação judicial contra a lotérica alegando má-fé. A juíza Judith dos Santos Mottecy, da 6a. Vara Cível de Porto Alegre acolheu o pedido de indenização, condenando a agência a ressarcir o apostador. Houve apelação, um novo recurso, e finalmente o 2o. Grupo Cível, seguindo o voto do relator desembargador Luiz Ari Azambuja Ramos, manteve a sentença por sete votos a um, determinando o pagamento dos R$ 300 mil – corrigidos – ao apostador.

Afim de que esse artigo não ficasse incompleto e os leitores no desconhecimento, fomos a campo e, através de duas fontes fidedignas, tomamos conhecimento de que, lamentavelmente, o senhor Danilo A., até o dia de hoje, decorridos dez anos do sorteio, não recebeu um centavo sequer do valor do seu prêmio.

São situações incomuns como esta que nos levam a pensar, voltando ao texto de Júlio Mariani, se em determinadas ocasiões, ao invés de sonhar, os deuses, por estarem acordados, se divertem manipulando, ao seu bel-prazer, suas minúsculas cobaias ”humanas”, firmemente aprisionadas num imenso labirinto azul chamado Terra.

criado por projetosnumericos    9:54 — Arquivado em: Crônica

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