13/12/06
BBB Zero
Davi Castiel Menda
A rede do plim-plim anuncia um novo BBB…
Meu pai, para quem não o conheceu - Aron Menda - tinha um acervo de mais de cinco mil livros, quase todos doados quando do seu falecimento. Morávamos bem próximo ao Centro, em Porto Alegre, num apartamento pequeno; meu irmão e eu compartilhávamos o quarto com as estantes que abrigavam a biblioteca.
Não li todos estes livros, mas os ligados à história, judaísmo, ladino, enciclopédias e poesia foram devidamente devassados. Os outros, ou boa parte deles, não incluídos nos assuntos relacionados, provavelmente tenham sido absorvidos durante a noite, por osmose! Hoje, agradeço pela vizinhança - eu da biblioteca - que quando criança, julgava incômoda de tão próxima.
Recordo-me de uma série, composta de uns dez livros quando muito, cujos títulos eram Maravilhas do Conto Francês, Conto Americano, Conto Inglês, e outros, além daquele objeto desta crônica: Maravilhas do Conto Russo.
Uma das suas histórias ficou perambulando pelo meu subconsciente e lembrada de tempos em tempos - lamento e me penitencio por não recordar o título e nem o autor, afinal já se passaram mais de 50 anos - e faço questão de transmiti-la a vocês resumidamente. A narrativa passa-se no final do século XIX.
Um grupo da alta aristocracia russa reunia-se regularmente em banquetes pantagruélicos, aos quais eram convidados artistas, escritores, pintores, músicos e poetas, com o intuito de abrilhantá-los culturalmente. Numa destas ocasiões, em que o tema de discussão girava em torno da liberdade, duas pessoas se sobressaíram: um intelectual, rapaz jovem, inteligente e de origem modesta, e um banqueiro, homem riquíssimo. Após algumas boas horas de batalha verbal, pairava a seguinte dúvida no ar: a liberdade tinha preço? O banqueiro, numa derradeira tentativa de encerrar a discussão, a seu favor é claro, propôs o seguinte: o seu interlocutor deveria se isolar numa casa durante dez anos; lhe seria franqueado saborear os pratos mais sofisticados, livros à sua escolha e em quantidade ilimitada, sendo vedado falar ou se comunicar com quem quer que seja, e muito menos sair da casa. Dez longos anos! Se vencesse o desafio, o banqueiro lhe recompensaria com um milhão de rublos, uma fortuna na época. Este era o preço, arbitrado pelo banqueiro, pela perda da liberdade durante dez anos.
A história é belíssima e tem um final surpreendente. Se você não a leu, terá a oportunidade de assistir algo parecido (!) pela televisão, já que as trombetas anunciam o lançamento de um novo Big Brother Brasil.
Mas atenção: assistir ao BBB é uma opção, não é compulsório! Você pode mudar de canal ou desligar a TV, afinal, nós somos dotados de livre arbítrio.
Bem, constatado que Lavoisier continua, mais uma vez, com a razão - "Nada se cria, tudo se transforma" - quem sabe o pessoal da TV, que "bolou com ineditismo" mais este sensacional show de bons costumes, beleza, civilidade e cultura, não nos presta o prazenteiro favor de exigir que alguns cricris ambulantes a serem confinados na próxima casa, também permaneçam por lá durante os próximos dez anos, fornecendo a eles os livros prometidos pelo banqueiro russo, pra ver se aprendem alguma coisa?
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