11/12/06
Quebrar a Banca . Parte I
Davi Castiel Menda
"Os primeiros noventa por cento do tempo que você permanece no cassino, tomam noventa por cento do que você possui na carteira. Os últimos dez por cento do tempo tomam os cem por cento do limite do seu cartão de crédito."
O jogo de cassino mais conhecido, mais charmoso, e que oferece as melhores oportunidades de ganho aos apostadores é, indiscutivelmente, a roleta. A sua invenção é atribuída a um sacerdote francês, padre Roulet que, ao concebê-la, por volta de 1760, imaginou estar criando um jogo em que pudesse, posteriormente, obter lucro fácil. Enganou-se visceralmente; ele, juntamente com Madame Pompadour, transformaram-se nos maiores perdedores (e viciados) dos chiques salões franceses, os cassinos da época.
Curiosamente, por ter sido o seu criador um homem ligado à Igreja, a soma dos trinta e sete números da roleta - do zero ao trinta e seis - corresponde, na Numerologia, exatamente ao número que simboliza a besta, o diabo - 666.
O percentual de lucro da banca é de 2,7% a cada jogada - moderado se comparado ao das corridas de cavalos (5 a 12% nos Estados Unidos e de 25 a 55% no Brasil), às loterias exploradas pela Caixa (71%), e o clandestino, tradicional e imortal jogo do bicho (40 a 80% dependendo da região e do tipo de aposta).
A banca, na roleta, leva basicamente duas vantagens sobre o apostador: a primeira - é a sucessão rápida de jogadas, que transforma o inocente e teórico 2,7% num somatório que proporciona normalmente um lucro final em torno de 25% sobre o volume total de dinheiro apostado, o que dependendo da localização, projeção, nome do cassino ou estação do ano, pode representar alguns milhões de dólares a cada mês. A segunda - quando a bolinha se aloja no setor representado pelo zero. Neste caso, perdem todos que apostaram nos outros números e possibilidades, só faturando mesmo aqueles que depositaram suas fichas exclusivamente no zero.
"Se você entrar num cassino com esperanças de ganhar - você perderá; se pretender passar o tempo e só empatar - você perderá; se pretender perder mesmo, nem se fala…"
A expressão "quebrar a banca" foi concebida em Mônaco, no início do século XX, com o objetivo de atrair milionários ávidos por emoções fortes. Levando em conta que a freqüência ao Cassino de Monte Carlo não vinha correspondendo ao esperado em determinada temporada, a direção inovou: cada mesa de roleta disporia de um cacife altíssimo de fichas, não havendo reposição em caso de perda. Se porventura algum jogador mais arrojado e sortudo(!) conseguisse apoderar-se de todas essas fichas, "quebraria a banca" e, um pano preto - numa inequívoca simbologia funérea, de ruína, de pseudoderrota do Cassino - seria disposto sobre a mesa fatídica, para glória e júbilo do ganhador, além de transformar-se em assunto obrigatório nos elegantes salões em que se reunia a elite européia, em plena belle époque.
A idéia alcançou um sucesso estrondoso: os milionários afluíram em massa a Mônaco, na tentativa de "quebrar a banca", probabilidade, diga-se de passagem, remotíssima. Alguns conseguiram a proeza, na verdade mais retórica do que financeira; a pujança da família Grimaldi, cada vez mais firme e mais rica no comando do minúsculo principado é a prova cabal disto. Em contrapartida, àquela mesma época, o número de suicídios de milionários (leia-se ex-milionários) aumentou consideravelmente e, pressionados pelas autoridades francesas, os banqueiros tiveram que renunciar a genial (e enganosa) idéia, mas a expressão perdura até os nossos dias. Os intelectuais, daquele início de século, sem televisão para assistir à noite, discutiam aberta e acaloradamente nos cafés - quem teria cometido hybris: os suicidas ou os banqueiros?
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- continua -
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