Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

31/12/06

Desagravo aa cigarra

Davi Castiel Menda

Considerando que o título original desta crônica seria Desagravo à cigarra; considerando que meu blog se recusa a aceitar determinados caracteres alfa-numéricos (crase por exemplo) no título;  considerando que me recuso a trocar de título; Desagravo aa cigarra foi a forma que encontrei para contemporizar os três considerandos…

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 "Um calor asfixiante caía sobre as pobres formigas que trabalhavam incansavelmente para poder passar um inverno seguro. Todas elas levavam a carga de alimentos nas suas costas. Enquanto isto, à sombra de uma árvore, a cigarra cantava suas alegres e afinadas canções, sem se preocupar com as agruras do inverno próximo" - A cigarra e a formiga.

É o trecho inicial de uma das mais conhecidas fábulas de Jean de La Fontaine, francês nascido em 1621 na região de Champagne. Chegou a formar-se em direito, pensou em ser padre, mas sua sensibilidade - e o apoio de um mecenas - o direcionaram para a literatura.

O leão e o rato, O corvo e a raposa, A cigarra e a formiga, entre outras. Quem não conhece estas fábulas de La Fontaine, escritor que dava vida e o verbo aos animais ao contar histórias inesquecíveis, que se destacavam pela narrativa provocativa e que visavam especialmente divertir o leitor?

É claro que, como morador da cidade grande, eu nunca ouvira uma cigarra cantar, a não ser aquelas campainhas elétricas que a imitam e funcionam pela vibração de lâminas comandadas eletromagneticamente. Não conhecendo seu canto, era obrigado a aceitar como líquida, certa e verdadeira a afirmação de La Fontaine sobre a indolência e imprevisão da cigarra quanto ao futuro. Entretanto, o que La Fontaine não imaginava, é que um dia eu iria morar literalmente "no meio do mato", onde abundam cigarras e formigas, afora outros bichos.

A primeira vez que ouvi o canto (não é um solo - é um coro fantástico) de cigarras, imaginei ser o ruído de caminhões passando velozmente na estrada longínqua. Aos poucos, aquele som estridente e contínuo foi martelando o meu cérebro e aguçando minha curiosidade. Investigando com moradores mais antigos da região, descobri que aquele era o famoso canto da cigarra, imortalizado por La Fontaine.

 Não é um canto, é um lamento, é um pranto, é um choro dolente - e sabem o motivo? São milhares e milhares de cigarras, comandadas por um maestro invisível, pedindo chuva. Exatamente isso - a seca, a falta de água que tanto atormenta o homem, principalmente o homem do campo, é o motivo pelo qual a cigarra canta - na verdade é uma súplica, tal qual a dança da chuva dos índios (é uma pena que este texto não seja sonoro, pois nesse exato momento em que escrevo, ouço o canto das cigarras bem próximo e, se pudesse retransmiti-lo, vocês me dariam toda a razão!).

Senhor de La Fontaine: a cigarra, com seu canto entristecedor, não está se divertindo e sim, solidarizando-se com os homens que clamam por chuva - seu objetivo não é ser reconhecida e cantar no Olympia de Paris, como adaptações licenciosas e mais recentes da sua fábula podem levar a crer. Ela só quer chuva, para molhar nossas hortas, nossas lavouras, nossas plantações. E até ela se horrorizaria, se TV assistisse, quando em plena estiagem, com as plantas definhando, com o gado morrendo, e a "mulher do tempo" declarando com um sorriso nos lábios: "Amanhã, tempo bom - sol em todos o país!".

Ao encerrar, provando que aprendi a lição de casa: a cigarra - fêmea - não canta! Quem canta, são os machos: "os" cigarras. 

criado por projetosnumericos    17:34 — Arquivado em: Crônica, Humor

23/12/06

Crônica de Natal

Adaptação de Davi Castiel Menda (*)

Um menino, com voz tímida e os olhos cheios de admiração, enquanto escreve sua cartinha com os pedidos para o Natal, pergunta ao seu pai:
- Pai, quanto o senhor ganha por hora?
O pai, num gesto severo, responde:
- Escuta aqui meu filho, isto nem a sua mãe sabe. Não amole, estou cansado!
Mas o filho insiste:
- Mas papai, por favor, diga, quanto o senhor ganha por hora?
O pai, vendo que o filho ficaria insistindo e insistindo, resolveu responder e encerrar o assunto imediatamente:
- Cinco reais por hora - e, apesar de ser noite de Natal, completou de forma grosseira - E não me pergunte mais nada!
O menino baixou a cabeça e continuou com a sua cartinha a Papai Noel.

Já próximo à meia-noite, o pai começou a pensar no que havia acontecido e sentiu-se culpado. Talvez, quem sabe, o filho precisasse comprar algo. Pretendendo aliviar sua consciência, procurou pela cartinha do filho sob a árvore de Natal e, ao lê-la, constatou que seu filho tinha pedido ao Papai Noel uma nota de dois reais, tão somente isso, dois míseros reais.

Pela manhã, cedo ainda, foi até o quarto do menino e, em voz baixa, perguntou:
- Filho, tá dormindo?
- Não, papai! - respondeu o garoto entre sonolento e choroso.
- Vim te avisar que o Papai Noel te trouxe dois presentes: um carrinho e uma nota de dois reais. Me diga meu filho, qual o motivo de pedires dois reais ao Papai Noel?

O menino, levantando-se e retirando mais três reais de uma caixinha que estava sob a cama, abriu um grande sorriso e respondeu:
- Com o dinheiro que eu ganhei, consegui completar cinco reais. Papai, eu gostaria tanto de ficar uma hora inteirinha com o senhor. Poderia me vender uma hora do seu tempo?

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(*) História original: Mensagem de Vida, de autoria de Reinilson Câmara (professor, escritor e poeta).

criado por projetosnumericos    0:41 — Arquivado em: Crônica

19/12/06

Trinca de Reis

Davi Castiel Menda

Pois o Dr. Netinho é uma das figuras mais respeitadas na cidade onde mora. Não tem hora para trabalhar, mas quando o relógio marca 20 horas, ele se dirige religiosamente para o clube, a fim de jogar o seu poquerzinho com os outros luminares do lugar. O jogo, a tostões, vai sistemática até as 22 horas, quando então é processada a contabilidade e apurado o prejuízo ou lucro de cada um. Ouvi falar que, o recorde, numa noite, foi obtido pelo escrivão local, que ganhou R$ 8 reais - isso que conseguiu a façanha de fechar um Royal Straight Flush!

Mas em 1943, o Netinho (naquela época era estudante, ainda não era doutor) viera cursar a faculdade na capital, e morava numa pensão, como todo o estudante do interior, recebendo do pai o equivalente a dois salários mínimos para sobreviver.

Numa de suas andanças noturnas, descobriu, por acaso, que num dos mais tradicionais clubes da capital, se jogava pôquer, "esporte" que ele adorava. Aliás, pôquer pra gente grande, pois as apostas eram de meter medo. O Netinho ficou boquiaberto com a quantidade de fichas na mesa, e mais apavorado ainda ao ser informado que o cacife para entrar no jogo era o equivalente a dez salários mínimos.

Apesar de ainda jovem, era uma pessoa determinada, de personalidade forte, e quando cismava com alguma coisa… Prometeu a si mesmo que, algum dia, ainda entraria naquele jogo, custasse o que custasse. Da mesada que recebia, passou a economizar a metade. Privou-se de muita coisa, chegando inclusive a passar fome, mas depois de dez longos meses, completou o tão almejado valor para entrar no joguinho do tal clube.

Tomou um banho caprichadíssimo, colocou sua melhor roupa, contou e recontou o dinheiro e lá se foi em direção ao clube, com pinta de milionário, com o intuito de multiplicar o capital, juntado com tanto sacrifício.

Deu sorte, o jogo recém iniciara e havia somente uma vaga, justamente ao lado de um proeminente político. Distribuídas as cartas para a rodada inicial, o Netinho, não tendo nem um só parzinho, não foi na parada, jogando fora suas cartas. Permaneceram no jogo somente um senhor que fumava um charuto imenso e seu vizinho da direita - o político, lembram-se?

As apostas começaram a crescer rapidamente e, o Netinho, se deliciava só em admirar os dois contendores se digladiando além do prazer ser aceito por tão honoráveis e respeitáveis parceiros. Era o seu debut na sociedade. Repentinamente, o político se viu acuado pelo oponente, e era obrigado a pagar a parada ou perder tudo que já tinha apostado. Furtivamente, mostrou ao Netinho suas cartas - uma trinca de reis - e, sem o menor constrangimento, "pediu emprestado" todas as suas fichas para continuar no jogo.

O Netinho pego de surpresa, ficou encantado com tanta deferência, poder emprestar por alguns instantes - como alegara o político - suas fichas a tão eminente personalidade. Não é todos os dias que se tem este privilégio!

Apostas encerradas, o homem do charuto apresentou na mesa cinco cartas do mesmo naipe - flush - evidentemente ganhando da trinca de reis, do político. O Netinho viu se evaporarem suas fichas antes de jogar uma só parada, o que não deixa de ser um feito memorável?!

E, a bem da verdade, em 1977, trinta e quatro anos depois, quando o Dr. Netinho esteve em Brasília tratando de uma pendência jurídica, e em visita ao Congresso, conseguiu receber o "empréstimo", sem juros naturalmente!

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Posfácio:
É claro que o enredo da historinha acima e todos os seus personagens são fictícios, do título ao ponto exclamativo final. Ela foi publicada pela primeira vez em setembro de 1997 no semanário 13 Pontos, e qual a minha surpresa ao receber um telefonema de um dos mais assíduos leitores, o Dr. Luiz (este não é fictício), que me confessou ter sido amigo do Dr. Netinho na sua juventude; sabia por alto da historinha esta do pôquer e ficara satisfeito em tomar conhecimento de detalhes que desconhecia. Não é fantástico? É indiscutivelmente o melhor elogio - para quem escreve - que se pode receber.

criado por projetosnumericos    10:49 — Arquivado em: Humor, Jogos & Loterias

15/12/06

Sonhos e Pesadelos

Davi Castiel Menda

O jornalista Júlio Mariani, no seu artigo Prisioneiros dos Deuses (Zero Hora - 14.08.98), comentou com muita propriedade: “sábios orientais já se perguntaram se o universo não seria apenas um sonho simultâneo de deuses e seres humanos. Um grande deus adormecido estaria sonhando com este mundo e esta vida, e nós, personagens do sonho divino, estaríamos por nossa vez sonhando outros pequenos sonhos inseridos dentro do sonho maior, e assim por diante.”

O sonho é uma seqüência de fenômenos psíquicos que involuntariamente ocorrem durante o sono. Entretanto, podemos sonhar acordados, e nossos sonhos passam a ser dirigidos através de pensamentos, de idéias vagas, normalmente agradáveis, muitas vezes incoerentes, às quais o espírito se entrega em estado de vigília, fantasiando, geralmente para fugir à realidade.

Quem não imaginou algum dia ser o presumível herdeiro de uma herança multimilionária, advinda de um parente distante e desconhecido? Quem não gostaria de ganhar uma bolada numa loteria, que muitas vezes, acumulada por vários sorteios, atinge dezenas de milhões de reais, nem que fosse para ter o prazer de, no dia seguinte, mandar o chefe às favas. Não são sonhos, são quimeras; poucos em vida terão a oportunidade de concretizar estes desejos incontidos.

Um cálculo nada complicado, empregando uma simples regra de três, ajudaria os sonhadores-lotéricos a retornar ao mundo real, onde os princípios da estatística substituem com vantagem os antigos oráculos: se alguém comprar um bilhete da Loteria Federal (que de longe é a mais fácil – aliás, a menos difícil - de acerto entre todas as loterias), duas vezes por semana que é a periodicidade dos sorteios, teria essa pessoa, probabilisticamente falando, o seu bilhete sorteado no primeiro prêmio uma vez a cada 700 anos. Porém, toda regra tem suas exceções: desde 15.09.1962, data da primeira extração sob a administração da Caixa, há bilhetes que se destacaram, incrivelmente sorteados no primeiro prêmio em três oportunidades. É muito provável que seus detentores, em todos os três sorteios, tenham sido as mesmas pessoas!

Normalmente o argumento usado pelos sonhadores é invariavelmente o mesmo: é difícil, mas alguém tem que ganhar! Concordo, figuradamente seria como soltar milhares de pessoas num celeiro, procurando por uma agulha escondida num palheiro; um, somente um será o descobridor. E é nesse exato momento que esse pobre coitado passa efetivamente a conhecer seu inferno astral, pelos pedidos de empréstimos e doações, propostas de negócios mirabolantes, o receio de voltar ao status quo anterior, enfim, centenas de variáveis, quase todas elas, infelizmente, negativas.

Situação mais trágica é quando o sonho de atingir o inatingível – um primeiro prêmio - se concretiza, mas por um motivo qualquer, a bolada tão sonhada não chega às mãos do ganhador. Conta-se às centenas as histórias de bilhetes perdidos, jogados no lixo inadvertidamente, usados para fins escatológicos, tragados por cachorros, enfim, o que era para ser o pontapé inicial para uma vida de folgança, transforma-se no primeiro ato de uma tragédia, normalmente uma espiral sem fim.

Danilo A., durante muito tempo foi apostador habitual de uma agência lotérica localizada numa das grandes avenidas de Porto Alegre. Segundo notícia publicada pelo jornal Zero Hora de 16 de agosto de 1998, Danilo iria receber desta lotérica a importância de R$ 300 mil que coube ao bilhete no. 00.939 da Loteria Federal, mais correção monetária. A decisão foi tomada pelo 2o. Grupo Cível do Tribunal de Justiça do Estado, presidido pelo desembargador Alfredo Guilherme Englert.

Danilo A. alegou que, havia mais de dois anos, firmara um acordo verbal com a agência para que esta lhe reservasse permanentemente o bilhete 00.939. E durante todo esse tempo o pacto funcionou a contento. A agência mantinha a guarda dos bilhetes para as extrações de quarta-feira e sábado; na terça-feira seguinte o cliente passava na lotérica e acertava a conta.

No sorteio de sete de setembro de 1996, o bilhete 00.939 foi sorteado no primeiro prêmio, valor de R$ 300 mil. Logo que soube do resultado, Danilo A. entrou imediatamente em contato com a lotérica e lhe foi dito que o bilhete fora vendido em pedacinhos para várias pessoas. Inconformado com a situação, investigou e descobriu que a própria dona da agência recebera o prêmio. O sonho se transformara em pesadelo.

Danilo A. encaminhou ação judicial contra a lotérica alegando má-fé. A juíza Judith dos Santos Mottecy, da 6a. Vara Cível de Porto Alegre acolheu o pedido de indenização, condenando a agência a ressarcir o apostador. Houve apelação, um novo recurso, e finalmente o 2o. Grupo Cível, seguindo o voto do relator desembargador Luiz Ari Azambuja Ramos, manteve a sentença por sete votos a um, determinando o pagamento dos R$ 300 mil – corrigidos – ao apostador.

Afim de que esse artigo não ficasse incompleto e os leitores no desconhecimento, fomos a campo e, através de duas fontes fidedignas, tomamos conhecimento de que, lamentavelmente, o senhor Danilo A., até o dia de hoje, decorridos dez anos do sorteio, não recebeu um centavo sequer do valor do seu prêmio.

São situações incomuns como esta que nos levam a pensar, voltando ao texto de Júlio Mariani, se em determinadas ocasiões, ao invés de sonhar, os deuses, por estarem acordados, se divertem manipulando, ao seu bel-prazer, suas minúsculas cobaias ”humanas”, firmemente aprisionadas num imenso labirinto azul chamado Terra.

criado por projetosnumericos    9:54 — Arquivado em: Crônica

13/12/06

BBB Zero

Davi Castiel Menda

A rede do plim-plim anuncia um novo BBB…

Meu pai, para quem não o conheceu - Aron Menda - tinha um acervo de mais de cinco mil livros, quase todos doados quando do seu falecimento. Morávamos bem próximo ao Centro, em Porto Alegre, num apartamento pequeno; meu irmão e eu compartilhávamos o quarto com as estantes que abrigavam a biblioteca.

Não li todos estes livros, mas os ligados à história, judaísmo, ladino, enciclopédias e poesia foram devidamente devassados. Os outros, ou boa parte deles, não incluídos nos assuntos relacionados, provavelmente tenham sido absorvidos durante a noite, por osmose! Hoje, agradeço pela vizinhança - eu da biblioteca - que quando criança, julgava incômoda de tão próxima.

Recordo-me de uma série, composta de uns dez livros quando muito, cujos títulos eram Maravilhas do Conto Francês, Conto Americano, Conto Inglês, e outros, além daquele objeto desta crônica: Maravilhas do Conto Russo.

Uma das suas histórias ficou perambulando pelo meu subconsciente e lembrada de tempos em tempos - lamento e me penitencio por não recordar o título e nem o autor, afinal já se passaram mais de 50 anos - e faço questão de transmiti-la a vocês resumidamente. A narrativa passa-se no final do século XIX.

Um grupo da alta aristocracia russa reunia-se regularmente em banquetes pantagruélicos, aos quais eram convidados artistas, escritores, pintores, músicos e poetas, com o intuito de abrilhantá-los culturalmente. Numa destas ocasiões, em que o tema de discussão girava em torno da liberdade, duas pessoas se sobressaíram: um intelectual, rapaz jovem, inteligente e de origem modesta, e um banqueiro, homem riquíssimo. Após algumas boas horas de batalha verbal, pairava a seguinte dúvida no ar: a liberdade tinha preço? O banqueiro, numa derradeira tentativa de encerrar a discussão, a seu favor é claro, propôs o seguinte: o seu interlocutor deveria se isolar numa casa durante dez anos; lhe seria franqueado saborear os pratos mais sofisticados, livros à sua escolha e em quantidade ilimitada, sendo vedado falar ou se comunicar com quem quer que seja, e muito menos sair da casa. Dez longos anos! Se vencesse o desafio, o banqueiro lhe recompensaria com um milhão de rublos, uma fortuna na época. Este era o preço, arbitrado pelo banqueiro, pela perda da liberdade durante dez anos.

A história é belíssima e tem um final surpreendente. Se você não a leu, terá a oportunidade de assistir algo parecido (!) pela televisão, já que as trombetas anunciam o lançamento de um novo Big Brother Brasil.

Mas atenção: assistir ao BBB é uma opção, não é compulsório! Você pode mudar de canal ou desligar a TV, afinal, nós somos dotados de livre arbítrio.

Bem, constatado que Lavoisier continua, mais uma vez, com a razão - "Nada se cria, tudo se transforma" - quem sabe o pessoal da TV, que "bolou com ineditismo" mais este sensacional show de bons costumes, beleza, civilidade e cultura, não nos presta o prazenteiro favor de exigir que alguns cricris ambulantes a serem confinados na próxima casa, também permaneçam por lá durante os próximos dez anos, fornecendo a eles os livros prometidos pelo banqueiro russo, pra ver se aprendem alguma coisa?

criado por projetosnumericos    13:56 — Arquivado em: Crônica

11/12/06

Quebrar a Banca . Parte I

Davi Castiel Menda

"Os primeiros noventa por cento do tempo que você permanece no cassino, tomam noventa por cento do que você possui na carteira. Os últimos dez por cento do tempo tomam os cem por cento do limite do seu cartão de crédito."

O jogo de cassino mais conhecido, mais charmoso, e que oferece as melhores oportunidades de ganho aos apostadores é, indiscutivelmente, a roleta. A sua invenção é atribuída a um sacerdote francês, padre Roulet que, ao concebê-la, por volta de 1760, imaginou estar criando um jogo em que pudesse, posteriormente, obter lucro fácil. Enganou-se visceralmente; ele, juntamente com Madame Pompadour, transformaram-se nos maiores perdedores (e viciados) dos chiques salões franceses, os cassinos da época.

Curiosamente, por ter sido o seu criador um homem ligado à Igreja, a soma dos trinta e sete números da roleta - do zero ao trinta e seis - corresponde, na Numerologia, exatamente ao número que simboliza a besta, o diabo - 666.

O percentual de lucro da banca é de 2,7% a cada jogada - moderado se comparado ao das corridas de cavalos (5 a 12% nos Estados Unidos e de 25 a 55% no Brasil), às loterias exploradas pela Caixa (71%), e o clandestino, tradicional e imortal jogo do bicho (40 a 80% dependendo da região e do tipo de aposta).

A banca, na roleta, leva basicamente duas vantagens sobre o apostador: a primeira - é a sucessão rápida de jogadas, que transforma o inocente e teórico 2,7% num somatório que proporciona normalmente um lucro final em torno de 25% sobre o volume total de dinheiro apostado, o que dependendo da localização, projeção, nome do cassino ou estação do ano, pode representar alguns milhões de dólares a cada mês. A segunda - quando a bolinha se aloja no setor representado pelo zero. Neste caso, perdem todos que apostaram nos outros números e possibilidades, só faturando mesmo aqueles que depositaram suas fichas exclusivamente no zero.

"Se você entrar num cassino com esperanças de ganhar - você perderá; se pretender passar o tempo e só empatar - você perderá; se pretender perder mesmo, nem se fala…"

A expressão "quebrar a banca" foi concebida em Mônaco, no início do século XX, com o objetivo de atrair milionários ávidos por emoções fortes. Levando em conta que a freqüência ao Cassino de Monte Carlo não vinha correspondendo ao esperado em determinada temporada, a direção inovou: cada mesa de roleta disporia de um cacife altíssimo de fichas, não havendo reposição em caso de perda. Se porventura algum jogador mais arrojado e sortudo(!) conseguisse apoderar-se de todas essas fichas, "quebraria a banca" e, um pano preto - numa inequívoca simbologia funérea, de ruína, de pseudoderrota do Cassino - seria disposto sobre a mesa fatídica, para glória e júbilo do ganhador, além de transformar-se em assunto obrigatório nos elegantes salões em que se reunia a elite européia, em plena belle époque.

A idéia alcançou um sucesso estrondoso: os milionários afluíram em massa a Mônaco, na tentativa de "quebrar a banca", probabilidade, diga-se de passagem, remotíssima. Alguns conseguiram a proeza, na verdade mais retórica do que financeira; a pujança da família Grimaldi, cada vez mais firme e mais rica no comando do minúsculo principado é a prova cabal disto. Em contrapartida, àquela mesma época, o número de suicídios de milionários (leia-se ex-milionários) aumentou consideravelmente e, pressionados pelas autoridades francesas, os banqueiros tiveram que renunciar a genial (e enganosa) idéia, mas a expressão perdura até os nossos dias. Os intelectuais, daquele início de século, sem televisão para assistir à noite, discutiam aberta e acaloradamente nos cafés - quem teria cometido hybris: os suicidas ou os banqueiros?
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- continua -

criado por projetosnumericos    10:29 — Arquivado em: Destaques em 2006, Jogos & Loterias

Quebrar a Banca . Parte II

Davi Castiel Menda

 - continuação -

"Existe uma fórmula facílima de sair com uma pequena fortuna de um Cassino; basta entrar com uma grande fortuna."

 Uma das tentativas mais emocionantes de "quebrar a banca", a qual tive a felicidade de vivenciar, foi coletiva e inconsciente, e pelo inusitado, até os detalhes posso fornecer: 18 de fevereiro de 1963, no cassino de Rivera, cidade uruguaia fronteiriça com Santana do Livramento. O público era exatamente o oposto dos habitués famosos e endinheirados de Monte Carlo: uma mescla de turistas de classe média e moradores locais.

A noite chegara naquele limite invisível em que os ganhadores se preparavam para uma saída sorrateira, vitoriosa, com os lucros enrustidos e, os perdedores, procuravam por uma tábua de salvação, um último expediente para aquela situação aflitiva, que tanto poderia ser um número ganhador, ou até, quem sabe, um empréstimo com algum amigo magnânimo.

"Para conseguir um empréstimo com o gerente do Cassino, basta você provar que não precisa."

Muitos apostadores, cientes de que o zero era favorável à banca, invertiam a situação, nele apostando suas fichas, figuradamente aliando-se ao inimigo, aliás, um comportamento perfeitamente válido, ético e inteligente.

- "Zero" - anunciou um dos crupiês da mesa um - e apressou-se a pagar aqueles que haviam apostado suas fichas e esperanças no número fatídico, o número que não é par nem ímpar, não tem cor, não pertence a nenhuma coluna ou dúzia, e como asseveram alguns jogadores em devaneios lúgubres-poéticos, o número que não tem alma… Até aí nada demais; porém, instantes depois, lançada a bolinha e, apesar de existirem outros trinta e seis números no cilindro, esta insistiu em cair pela segunda vez consecutiva no mesmo local: zero!

O terror dos banqueiros é a repetição. Nenhum apostador conscientemente retira as fichas posicionadas num número que tenha originado lucro - pelo contrário, o costume é adicionar mais algumas - e a estas fichas acresçam-se as apostas de outros jogadores. Dois zeros seguidos, todavia, não eram necessariamente motivos de preocupação para um cassino que se preze e tal fato, na verdade, sempre é uma atração na monótona sucessão de números da roleta. Entretanto, sem que ninguém imaginasse, o drama, do ponto de vista da banca, começava a ser escrito.

Novo giro da bolinha de marfim; o suspense tomando conta de todos e o resultado, num misto contraditório de esperado e surpreendente: "Zero" - explodiu mais uma vez a voz do crupiê. "Zero" - gritaram os mais próximos da mesa provocando eco, e a algazarra, apesar do ambiente tradicionalmente sóbrio, foi generalizada. Fatídico momento para a banca - era, indiscutivelmente, o dia da caça! O terceiro zero!

"O momento em que dá o seu número de sorte na roleta, três vezes consecutivas, coincide com o momento exato em que você não tinha mais fichas para apostar. "

Os jogadores acotovelavam-se compactamente sobre o zero, causando, naquele momento e naquele lugar, a maior concentração demográfica por metro quadrado do planeta. A área destinada às apostas - no zero propriamente dito - estava totalmente encoberta por cascatas, montanhas de fichas que se acumulavam sobre o número - empregando um jargão turfístico - tríplice coroado. O crupiê responsável pelo arremesso da bolinha que deveria, pelo menos, tentar aparentar calma e neutralidade, parecia que a encarava e ao cilindro, mirando, calculando vetores, velocidade, tempo, peso e até mesmo a direção do vento, como se este fenômeno atmosférico fosse possível num cassino. A situação era insólita e as evidências daquela atitude fantasiosa apontavam para um objetivo básico: não acertar o zero! Mesmo a banca tendo trinta e seis números a seu favor e apenas o zero contra (numa inversão de valores por tudo o que foi dito até agora), "eles" estavam com medo! Aquele ar de nonchalance que cinge os crupiês - e que invejamos, pobres mortais que somos - tinha sumido como por encanto.

Roleta girando numa direção e a bolinha em sentido contrário, na sua trajetória inicialmente circular e transmudando-se numa espiral ao perder velocidade, mansamente, hipnotizando pela sua lentidão; et por cause, alojando-se novamente no zero, pela quarta vez consecutiva, num gesto de fidelidade absurda para os banqueiros, mas enlouquecidamente festejado pelos apostadores.

"Se você estiver ganhando num Cassino, não se preocupe. Isso passa."

Estávamos vivenciando uma situação invulgar, logrando um sucesso financeiro de dar inveja aos magnatas de Punta Del Este, Monte Carlo, Las Vegas, numa revanche sem precedentes por todos os reveses sofridos ao longo de anos e anos de derrotas. Os freqüentadores, os apostadores e inclusive os próprios crupiês (graças às gorjetas mais do que generosas), naquele instante, se sentiam irmanados, pouco se importando com lucros ou perdas - o que contava agora era o momento, um momento histórico, mágico e inédito, de transe, de orgasmo, de euforia incontida.

E por mais incrível que possa parecer, pela quinta vez consecutiva, a bolinha se aninhou mais uma vez no zero. O pagamento, pela quantidade de ganhadores, se prolongou por um bom quarto de hora, tarefa que normalmente é executada pelos crupiês em apenas um ou dois minutos.

Faço uma pausa para informar que, segundo o Guiness Book, o recorde de repetição na roleta pertence ao número sete, por seis vezes consecutivas. As probabilidades de uma sêxtupla repetição de um número qualquer? Trinta e sete na 5a. potência ou seja, uma chance em 69.343.957.

Felizmente para a banca, o fenômeno cessou por aí. Seria demais pedir pelo milagre de um sexto zero. Pelo menos naquela noite, aproximadamente trinta pessoas, ganhando (simbolicamente) verdadeiras fortunas, vingaram todos aqueles cúmplices e solidários apostadores do mundo inteiro, que quando se reúnem, visam um objetivo único: vencer o sistema, ganhar da banca! Desta vez deu certo, com requintes de perversidade: com o número "deles"…

criado por projetosnumericos    10:27 — Arquivado em: Destaques em 2006, Jogos & Loterias

4/12/06

Lei de Conservação da Inteligência

Davi Castiel Menda

“Imagine se afirmássemos que o hominídeo da espécie Homo neanderthalensis, mais conhecido como Homem de Neanderthal, teria o QI de um Einstein ou um Da Vinci comparado à inteligência do homem comum dos nossos dias"!

Segundo a Lei de Conservação da Inteligência, o somatório da inteligência humana é constante. Raciocinando matematicamente, a Lei afirma que a soma da inteligência dos oito bilhões de habitantes da terra é igual a variável I. Quando em breve, a população da Terra atingir 10, 12 ou 20 bilhões de pessoas, pelo enunciado da citada Lei, o total permanecerá inalterável, o mesmo I.

Partindo da suposição que esta premissa seja verdadeira, e considerando o crescimento da população em progressão exponencial - dobrando a cada 35 anos – deduzimos que o Homem cada vez mais e mais está regredindo na sua capacidade de resolver situações novas mediante reestruturação dos dados perceptivos, que em suma é o que convencionamos chamar de inteligência. Entretanto, compensado pelo avanço tecnológico, numa escala sem precedentes desde que o homem é Homem, este declínio praticamente não é notado, propiciando então um duvidoso equilíbrio que mascara a deficiência da apreensão, percepção e intelectualidade em benefício da tecnologia.

Afirmam os compêndios que o Homem só utiliza 10% da sua inteligência, mas em tempos idos, quando a tecnologia era praticamente nula, provavelmente este índice deveria ser próximo dos 100%. É de se conjeturar que o Homem sofra um bloqueio repressivo – por fenômenos naturais seletivos – no processo de utilização de toda sua potencialidade e intelecto em decorrência da explosão demográfica incontrolável. Seria este pobre índice de 10% responsável pelo Homem ser mais emotivo do que racional?

Um deslocamento pelo túnel do tempo ao passado, nos conduz às conquistas humanas em épocas desprovidas de quaisquer recursos tecnológicos, indicativos que os povos que viveram séculos antes de nós, seguramente eram mais criativos e inteligentes.

Eram inúmeras as dificuldades vividas e enfrentadas pelos antigos: ausência de bibliografia e fontes de consulta, falta de divulgação e discussão dos seus trabalhos, incompreensão dos contemporâneos e, sobretudo, nos continentes europeu e americano, o temor de que as novas teorias não se entrechocassem com as diretrizes da Igreja, que dominou boa parcela do mundo e o pensamento do Homem por mil anos.

Na matemática, a ciência das ciências, perdemos por larga margem. Quem dos leitores, com todo o seu conhecimento e cultura, mesmo o autor o liberando para utilizar o seu computador pessoal e bibliografia em geral, teria condições de chegar ao valor de PI? (Lembro que em 1983, fazendo parte da Codimex, uma das primeiras fábricas de computadores pessoais do país, fomos convidados a dar palestra numa escola, versando sobre Informática, com público estimado em 300 alunos. Citando a presente teoria e instigados a demonstrar como chegar ao valor de PI – que aparentemente todos já nascem sabendo - e a título de incentivo, prometendo como prêmio um computador ao primeiro que resolvesse a questão, nenhum aluno - todos do segundo grau - sequer se habilitou à recompensa. Debite-se também, aos desafiados, o fato de conhecerem de antemão a resposta do problema (3,1416). Mesmo a corrida dissimulada de alguns mais espertos aos professores presentes, não resultou em nada…). Entretanto, a história nos revela que muitos séculos antes da era cristã, vários povos já dominavam e usavam o PI em seus cálculos, com uma precisão admirável, levando em conta a época.

A Astronomia é outro exemplo fabuloso. Sem telescópios, sem tábuas logarítmicas, sem réguas de cálculo, sem computadores, os antigos sem dúvida deram um espetáculo à parte (excetuando-se um ou dois astrônomos que isoladamente pregavam a teoria geocêntrica), prevendo eclipses, calculando órbitas dos planetas e cometas, identificando constelações, estabelecendo o valor das epactas.

No Xadrez, hobby em que os bons resultados são diretamente proporcionais à inteligência de quem o pratica, nunca obteremos jogadores superiores – no conjunto – aos que viveram na segunda metade do século 19, como no futuro não teremos tão bons jogadores como os de hoje, e assim sucessivamente, mesmo sendo cada vez maior o número de simpatizantes. Cresce a população, aumenta em proporção o número de jogadores, mas paradoxalmente diminuem os grandes mestres e suas jogadas geniais! Nomes como Lowenthal, Steinitz, Tchigorin, Tarrasch, Lasker, Maroczy, Rubinstein, e mais recente Capablanca, viveram numa época privilegiada, quando quantitativamente o número de habitantes da Terra era impressionantemente menor do que o atual.

Onde estão presentemente os cérebros capazes de realizar a proeza de enfrentar até 50 adversários simultaneamente, às cegas, como Philidor, Morphy, Pillsbury, Tartacover e Breyer? Comparando partidas clássicas disputadas nos fins do século 19 - quando para diversos analistas o Xadrez atingiu o seu apogeu – com as melhores do século 20, nos posicionamos ao lado dos analistas! E, a preocupação primordial no presente, não é gerar bons enxadristas e, sim, cada vez mais, melhorar o desempenho de computadores especificamente produzidos na tentativa de derrotar grandes mestres. É a forma sub-reptícia de manter o equilíbrio entre os componentes menos-inteligência / mais-tecnologia.

Estes são só alguns poucos exemplos; poderíamos nos dedicar a escrever páginas e páginas de situações que demonstram serem os povos antigos infinitamente superiores a nós na área da inteligência, a não ser que tencionemos dar crédito à teoria, exaustivamente propagada pelos escritores Erich von Däniken (Eram os Deuses Astronautas?) e Peter Kolosimo (Não é Terrestre) que tentaram demonstrar que a “sabedoria” dos povos antigos era proveniente de ensinamentos ministrados por habitantes oriundos de outros planetas, o que é discutível.

A Lei de Conservação da Inteligência, do princípio ao fim, é um tema polêmico. É fácil aceitarmos, respeitosamente, a sabedoria de nossos pais e avós, mais pela experiência e vivência, afirmação espirituosamente fundamentada pelo conhecido ditado espanhol “El diablo sabe más por viejo do que por diablo”. Não é o caso; estamos falando de inteligência, e inconscientemente, com o nosso orgulho ferido, nos posicionamos na defensiva, em situação de xeque. O enunciado da Lei não envolve somente ascendentes próximos – é muito mais amplo e extenso - e fica difícil que reconheçamos, em qualquer época ou situação, que o Homem que viveu há 200, 1.000 ou 10.000 anos fosse mais inteligente: a negativa pura e simples resolveria o imbróglio e a consciência e Inteligência do Homem estariam preservadas!

Imagine agora, concluindo, se afirmássemos que o hominídeo da espécie Homo neanderthalensis, mais conhecido como Homem de Neanderthal, teria o QI de um Einstein ou um Da Vinci comparado à inteligência do homem comum dos nossos dias! Você aceitaria?

criado por projetosnumericos    14:00 — Arquivado em: Crônica, Destaques em 2006
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