31/12/06
Desagravo aa cigarra
Davi Castiel Menda
Considerando que o título original desta crônica seria Desagravo à cigarra; considerando que meu blog se recusa a aceitar determinados caracteres alfa-numéricos (crase por exemplo) no título; considerando que me recuso a trocar de título; Desagravo aa cigarra foi a forma que encontrei para contemporizar os três considerandos…
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"Um calor asfixiante caía sobre as pobres formigas que trabalhavam incansavelmente para poder passar um inverno seguro. Todas elas levavam a carga de alimentos nas suas costas. Enquanto isto, à sombra de uma árvore, a cigarra cantava suas alegres e afinadas canções, sem se preocupar com as agruras do inverno próximo" - A cigarra e a formiga.
É o trecho inicial de uma das mais conhecidas fábulas de Jean de La Fontaine, francês nascido em 1621 na região de Champagne. Chegou a formar-se em direito, pensou em ser padre, mas sua sensibilidade - e o apoio de um mecenas - o direcionaram para a literatura.
O leão e o rato, O corvo e a raposa, A cigarra e a formiga, entre outras. Quem não conhece estas fábulas de La Fontaine, escritor que dava vida e o verbo aos animais ao contar histórias inesquecíveis, que se destacavam pela narrativa provocativa e que visavam especialmente divertir o leitor?
É claro que, como morador da cidade grande, eu nunca ouvira uma cigarra cantar, a não ser aquelas campainhas elétricas que a imitam e funcionam pela vibração de lâminas comandadas eletromagneticamente. Não conhecendo seu canto, era obrigado a aceitar como líquida, certa e verdadeira a afirmação de La Fontaine sobre a indolência e imprevisão da cigarra quanto ao futuro. Entretanto, o que La Fontaine não imaginava, é que um dia eu iria morar literalmente "no meio do mato", onde abundam cigarras e formigas, afora outros bichos.
A primeira vez que ouvi o canto (não é um solo - é um coro fantástico) de cigarras, imaginei ser o ruído de caminhões passando velozmente na estrada longínqua. Aos poucos, aquele som estridente e contínuo foi martelando o meu cérebro e aguçando minha curiosidade. Investigando com moradores mais antigos da região, descobri que aquele era o famoso canto da cigarra, imortalizado por La Fontaine.
Não é um canto, é um lamento, é um pranto, é um choro dolente - e sabem o motivo? São milhares e milhares de cigarras, comandadas por um maestro invisível, pedindo chuva. Exatamente isso - a seca, a falta de água que tanto atormenta o homem, principalmente o homem do campo, é o motivo pelo qual a cigarra canta - na verdade é uma súplica, tal qual a dança da chuva dos índios (é uma pena que este texto não seja sonoro, pois nesse exato momento em que escrevo, ouço o canto das cigarras bem próximo e, se pudesse retransmiti-lo, vocês me dariam toda a razão!).
Senhor de La Fontaine: a cigarra, com seu canto entristecedor, não está se divertindo e sim, solidarizando-se com os homens que clamam por chuva - seu objetivo não é ser reconhecida e cantar no Olympia de Paris, como adaptações licenciosas e mais recentes da sua fábula podem levar a crer. Ela só quer chuva, para molhar nossas hortas, nossas lavouras, nossas plantações. E até ela se horrorizaria, se TV assistisse, quando em plena estiagem, com as plantas definhando, com o gado morrendo, e a "mulher do tempo" declarando com um sorriso nos lábios: "Amanhã, tempo bom - sol em todos o país!".
Ao encerrar, provando que aprendi a lição de casa: a cigarra - fêmea - não canta! Quem canta, são os machos: "os" cigarras.
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