Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

20/11/06

Banquetes Bizarros

Davi Castiel Menda

Os hindus afirmam: Anam Brahma, a comida é divina. Assim, com profundo respeito, você come, e enquanto estiver comendo, esqueça-se de tudo, porque isso é uma prece, é uma grande arte: saborear a comida, sentir os aromas da comida, tocar a comida, mastigar a comida e digeri-la como alguma coisa divina.

Sempre gostei de comer bem: comida chinesa, japonesa, grega, turca, francesa, alemã, italiana, churrasco – ah, o churrasco! – espanhola, judia (kosher ou não), tailandesa, frutos do mar, árabe, e até o tradicional arroz-com-feijão bife e batatinha frita; enfim, tudo que é bom. Entretanto, não é o mais caro ou o mais gostoso que é o melhor – comer bem é comer aquilo que satisfaz aos olhos já que os olhos são o primeiro contato que temos com o alimento – só depois vem todo o resto: cheiro, paladar, toque, satisfação.

Mas falando em comida, lembrei-me de uma secretária que trabalhava na nossa casa, dona Clara, que tinha excessiva curiosidade em conhecer tudo sobre culinária e que, pela sua ingenuidade, praticamente “fugiu” do emprego, apavorada, pelos pratos bizarros – segundo a sua ótica - que seus patrões, no caso eu e minha mulher, ingeriam!

Ato primeiro: você já ouviu falar em halwa? É um doce árabe, em formato de pasta, feito com nozes, óleo de gergelim e outras iguarias – é uma loucura! Conta a lenda que o meu tio-avô Salvador adorava halwa (era um petisco caro e difícil de conseguir no Brasil na década de 30), e descobriu que a doméstica que trabalhava na sua casa avançava no tal doce mais do que devia. Solução: estando a moça por perto, abriu a lata e exclamou: “- Alguém está usando o meu remédio para calos!” Foi o que bastou para que nunca mais a mocinha sequer olhasse para o cobiçado doce. Aproveitando a sábia experiência do meu tio, usei do mesmo artifício em casa, até o dia em que a dona Clara nos viu, espantada, saboreando o halwa, que eu mesmo afirmara ser um remédio para calos!

Ato segundo: bem próximo onde morávamos, está localizado o famosíssimo Bar Arthur, sendo uma das suas especialidades o “sanduíche a tartar”, ou seja, pão e carne crua, devida e convenientemente temperada. Certa dia, ao invés de comer no barzinho, levei o sanduíche para casa e a dona Clara, ao tomar conhecimento dos ingredientes, passou a chamar-nos de canibais (!). Presumo que ela quisesse, na verdade, dizer omófagos - provavelmente o termo lhe fugiu no momento - mas achei conveniente e menos esclarecedor deixar por canibais mesmo, vai que ela confunde com hematófago…

Ato final: pouco tempo depois desses curiosíssimos acontecimentos culinários, recebemos de presente uma caixinha de tâmaras. A bem da verdade, para quem não conhece - caso da dona Clara - de longe, uma tâmara tem o mesmo aspecto achatado e oval, tamanho e cor de conhecido ortóptero onívoro, e ela, ao perguntar o que estávamos comendo, e já se antecipando com um gesto de repugnância, recebeu, como resposta, exatamente o que ela estava imaginando. Foi a gota que faltava para que apresentasse sua demissão imediata, em caráter irrevogável e irretratável.

Desconheço se dona Clara era fofoqueira, mas depois da sua saída, os moradores do nosso bairro - e principalmente as domésticas – coincidência ou não, ao passar por nós, procuravam manter uma certa distância respeitosa…

criado por projetosnumericos    8:34 — Arquivado em: Destaques em 2006, Humor

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