Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

4/10/06

A urna eletrônica é confiável?

Ilton Carlos Dellandréa  *

Um computador, por mais protegido que seja, é vulnerável a vírus e invasões cujos métodos se aperfeiçoam na proporção dos aplicativos protetores. A urna eletrônica usada nas eleições do Brasil é semelhante a um micro. É programada por seres humanos e seu software é alterável de acordo com as peculiaridades de cada pleito. Por ser programável pode sofrer a ação de maliciosos que queiram alterar resultados em seus interesses e modificar o endereço do voto com mais facilidade do que remeter um vírus via Internet. Além disto, pode desvendar nosso voto, pois o número do título é gravado na urna.

Há vários tipos de fraude. Por exemplo: é possível introduzir um comando que a cada cinco votos desvie um para determinado candidato mesmo que o eleitor tenha teclado o número de outro.

Talvez eventuais alterações maliciosas sejam detectáveis a posteriori. Mas descobrir a fraude depois de ocorrida não adianta. O importante é prevenir.

A preocupação com a vulnerabilidade da urna eletrônica é antiga. Pode ser acompanhada no site www.votoseguro.org, mantido por técnicos especializados, engenheiros, professores e advogados que defendem que a urna eletrônica virtual - que não registra em apartado o voto do eleitor e que será usada nas próximas eleições - admite uma vasta gama de possibilidades de invasões, sendo definitivamente insegura e vulnerável.

O engenheiro Amílcar Brunazo Filho (especialista em segurança de dados) e a advogada Maria Aparecida Cortiz (procuradora de partidos políticos) lançaram, há pouco, o livro Fraudes e Defesas no Voto Eletrônico, pela All Print Editora, que é no mínimo inquietante. Mesmo para os não familiarizados com o informatiquês ele leva a concluir que as urnas eleitorais brasileiras podem ser fraudadas.

São detalhados os vários modos de contaminação da urna e se pode depreender que, se na eleição tradicional, com cédulas de papel, as fraudes existiam, eram também mais fáceis de ser apuradas, pois o voto era registrado. Agora não. O voto é invisível e, como diz o lema do Voto Seguro: eu sei em quem votei, eles também, mas só eles sabem quem recebeu meu voto, de autoria de Walter Del Picchia, engenheiro e professor titular da Escola Politécnica da USP.

O livro detalha a adaptação criativa de fraudes anteriores, como o voto de cabresto e a compra de votos, e outros meios mais sofisticados, como clonagem e adulteração dos programas, o engravidamento da urna e outros. São possíveis fraudes tanto na eleição, como na apuração e na totalização dos votos.

Os autores mostram que a zerésima - neologismo criado para definir a listagem emitida pela urna antes da votação com os nomes dos candidatos e o número zero ao lado, indicando ausência de votos, na qual repousa a garantia de invulnerabilidade defendida pelo TSE -, ela própria pode ser uma burla, porque é possível imprimir o número zero ao lado do nome do candidato, e ainda assim haver votos guardados na memória do computador (página 27).

O livro não lança acusações levianas. Explica como as fraudes podem ocorrer e apresenta soluções, ao menos parciais, como o uso da Urna Eletrônica Real - que imprime e recolhe os votos dos eleitores em compartimento próprio - ao contrário da urna eminentemente virtual, que não deixa possibilidade de posterior conferência.

O mais instigante é que os autores e outros técnicos e professores protocolizaram no TSE pedidos para efetuar um teste de penetração para demonstrar sua tese e eles foram indeferidos, apesar da fundamentação usada (no site Voto Seguro pode se ter acesso ao teor do pedido).

Cita-se Relatório Hursti, da ONG Black Box Voting, dos EUA, em que testes de penetração nas urnas-e TXs da Diebold demonstraram que é perfeitamente possível se adulterar os programas daqueles modelos e desviar votos numa eleição (página 25). Pelo menos 375 mil das 426 mil urnas que serão usadas nas eleições de 2006 são fabricadas pela Diebold. Elas foram recusadas nos EUA e no Canadá.

É óbvio que a fraude não necessariamente ocorrerá. A grande maioria dos membros do TSE e dos TREs, desde o mais até o menos graduado, é honesta e, por isto, podemos dormir em paz pelo menos metade da noite.

Mas depois que se descobriu que o Poder Judiciário não é imune à corrupção - veja-se o caso de Rondônia - nada é impossível, principalmente no campo eleitoral. Por isto é incompreensível a negativa do TSE em admitir o teste requerido e, o que é pior, insistir em utilizar a Urna-E Virtual com apoio na Lei n. 10.740/03, aprovada de afogadilho e sem o merecido debate, ao invés da mais segura Urna Eletrônica Real.

Se não é certo, em Direito, dizer que quem cala consente é, todavia, correto dizer que quem obsta o exercício de um direito é porque tem algo a esconder. Ou, por outra, que algo aconselha a ocultação. Ou porque - e agora estou me referindo ao caso concreto - se intui que pode haver alguma coisa de podre no seio da urna eletrônica que poderia provocar severas desconfianças às vésperas do pleito.

* Desembargador aposentado do TJRS, foi Juiz Eleitoral em Iraí, Espumoso, Novo Hamburgo e Porto Alegre.

O site do autor deste texto é http://dellandrea.zip.net

criado por projetosnumericos    11:30 — Arquivado em: Destaques em 2006, Política

1/10/06

O último dos crentes

                                 

                                   H A B E M U S  2o. T U R N O

"Tente evitar a pobreza, ensinando a cada homem um ofício. Experimente todos os métodos antes de permitir que ele seja alvo da caridade, que pode degradá-lo, por mais ternos que sejam seus sentimentos para com ele".

             Trechos de artigos anteriores - vale a pena recordar

Pesquisa eleitoral para presidente - Números não fecham…
Publicado no blog Al-Karismi em 04.09.2006

Nas últimas eleições presidenciais, o atual Presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve exatos 46,44% de votos no primeiro turno. O que não consigo inferir, com todo o meu discernimento matemático cultivado ao longo de seis décadas - e gostaria (sinceramente) que alguém me explicasse - como um candidato que enfrentou uma turbulência jamais vista nos anais políticos do Brasil, batizada com o sugestivo título de mensalão, com funcionários, secretários, deputados e ministros de seu partido envolvidos direta ou indiretamente, em menos de um ano após o affaire conseguiu atingir o índice de 50% na intenção de votos nas pesquisas. Ou é um caso de indenidade excepcional ou os números não estão refletindo a realidade.
…..
O candidato-presidente pode até ganhar a eleição, já que a máquina administrativa-partidária-governamental tem trabalhado full time e usando de todos os meios possíveis e inimagináveis para atingir este objetivo. Mas ganhar no primeiro turno?! A quem querem enganar? Por favor, senhores…

Os velhinhos de Taubaté e Gravataí
Publicado no blog Al-Karismi em 23.09.2006

"Os governos mudam, as promessas se renovam, as autoridades nem tanto, mas se há uma coisa firme no país, é a crença da Velhinha de Taubaté no governo". Pois bem (ou talvez mal), as pesquisas para presidente nestas eleições de 2006 transformaram todo o povo brasileiro, do mais humilde ao mais esclarecido cientista político em "velhinhas de Taubaté" - todos acreditando piamente nas pesquisas eleitorais que indicam a vitória do candidato da situação já no 1o. Turno.
…..
E agora, para complicar a vida do PT, que usando do jargão turfístico, "levava de barbada" esta eleição, surge um novo - mais um - complicador, de amplo conhecimento de todos (o caso do Dossiê Cuiabá), que na verdade será a tábua de salvação de todos os institutos de pesquisa, jornais, rádios e TV, para justificar a realização do 2o. turno.
…..
Ontem (22.09.2006), o provedor Terra, na sua página principal, realizou uma enquete: você acredita que uma virada é possível na eleição presidencial? Desconheço o resultado final, mas às 17.25 horas, os internautas que haviam respondido sim, que acreditavam numa mudança, somavam 52.536 votos, num percentual de 64% sobre o total, um número considerável.
…..
Apesar de estarmos na reta final, e mesmo os institutos e datas da vida divulgando clamorosa e insistentemente a vitória de Lula no primeiro turno, continuo a duvidar. Será que somente às 17 horas do dia primeiro de outubro, encerradas as eleições, é que divulgarão a realização do segundo turno?

Se porventura eu estiver certo nas minhas previsões, tenho todo o direito de criar um novo personagem em contra-ponto à Velhinha de Taubaté: o Velhinho de Gravataí - aquele que não acredita em pesquisas! A bem da verdade, em pesquisas fundamentadas ele acredita - o que roda por aí é quiroscopia.

Caterva
Publicado no blog Al-Karismi em 27.09.2006

E mesmo com toda esta quizilenta situação, gerada pelo próprio Partido dos Trabalhadores, os três principais institutos de pesquisa e consultoria continuam apregoando a vitória do candidato-presidente ainda no primeiro turno. O censo da mineira Sensus - Pesquisa e Consultoria, divulgado hoje (27.09.2006) nos principais jornais do país - com o perdão do trocadilho - é um contra-senso, um disparate ofensivo à inteligência de brasileiros que - ainda - pensam e raciocinam.
…..
Basta que, de cada 10 eleitores que pretendessem votar no candidato da situação, um, apenas um em cada dez, troque de lado, insatisfeito com os escândalos presenciados e vividos com uma impressionante regularidade e definitivamente incorporados ao nosso cotidiano, e a vitória no primeiro turno tão apregoada com altivez, arrogância, presunção e sobrançaria, caia fragorosamente por terra.

Se eu estiver enganado, dou mão a palmatória, e mesmo professando outra religião, vou pessoalmente encabeçar uma petição ao Papa Bento XVI (imaginem o que eles não aprontariam se fosse Bento XIII), exigindo do Vaticano que o "homem" seja alçado à condição de santo, pois depois de tudo o que aconteceu no país, eleger-se no primeiro turno, só um milagreiro!

criado por projetosnumericos    7:26 — Arquivado em: Opinião, Política
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