6/10/06
Pesquisas, previsões e probabilidades
Davi Castiel Menda
“Predição é muito difícil, especialmente se for sobre o futuro”.
Niels Bohr, físico dinamarquês.
Os grandes perdedores das eleições de três de outubro último não foram os partidos políticos – em especial o PT – e sim os principais institutos de pesquisa do país. Mais uma vez, mesmo trabalhando com margens de erro de 4% a 6% (2% a 3% para cima e para baixo), erraram fragorosamente em nível nacional, rendendo-se às evidências da ocorrência de segundo turno somente na hora derradeira, quando naquela instância era inadiável a divulgação de dados o mais próximo possível da verdade. Ibope e Datafolha, na última pesquisa antes das eleições, reconheceram, de forma constrangedora, a possibilidade de segundo turno, porém, o Sensus – Pesquisa e Consultoria, insistiu em atribuir ao candidato Lula, 51% das intenções de voto, numa tentativa espúria de, nos estertores, influenciar o eleitorado - aqueles ainda listados no bloco dos indecisos – a votar naquele candidato. Num exercício de imaginação, admitindo-se a hipótese do Sensus ser estabelecida no Japão ao invés das Minas Gerais, tenho a mais absoluta certeza que seus responsáveis já teriam praticado haraquiri.
Erraram feio na Bahia e aqui no estado – RS – nem se fala, invertendo a posição dos candidatos que, segundo os institutos, ocupavam respectivamente a primeira e terceira posições nas pesquisas. O franco favorito, Rigotto, turfisticamente falando, não pagou nem placê. Registre-se como exceção o Instituto Methodus, que nos últimos dias conseguiu detectar o crescimento de Yeda Crusius.
Jorge Rolla, que tive o prazer de desfrutar da sua amizade por décadas, enquanto vivo, jamais errou um prognóstico eleitoral. Jamais! Não era matemático, não era economista, muito menos estatístico. Nunca sentou à frente de um micro. Usava da intuição e da sua equipe de campo, aliás, disponível a todos que a quiserem contratar em futuras eleições, sem despender um centavo sequer!
Sua equipe de pesquisadores – e ele não escondia o fato – era constituída de três categorias ligadas à prestação de serviços, que atingia toda a gama de eleitores: taxistas, engraxates e barbeiros. Avaliem, eles têm à mão o termômetro da popularidade e da rejeição de todos os candidatos. Eles dispõem de todo o tempo do mundo para conversar com uma infinidade de pessoas diariamente, ao contrário dos imutáveis 2.002 pesquisados. Eles pesam, avaliam, liquidificam todas as informações, sem auxílio de computador e sem planilhas Excel, somente usando do bom senso. Tabulam com perfeição esta coleta de dados imaginária, que provocaria arrepios e incredulidade aos senhores-ibope da vida. Todavia, acertam…
Este era o segredo de Jorge Rolla, que lá de cima onde se acha, deve estar se divertindo à beça com as desculpas dos estatísticos de plantão sobre as previsões e erros cometidos no primeiro turno.
É muito comum, nos experimentos relacionados à teoria matemática das probabilidades, usar-se freqüentemente como exemplo o mais simples dos exercícios, qual seja, o lançamento de moedas, contando quantas caras e coroas contabilizaremos ao final da série, que pode ser de 100, 200 ou 2.002 lançamentos, tentando demonstrar a realidade da lei dos grandes números, que ao final obteremos uma totalização muito parecida nas duas colunas. É de uma simplicidade tão gritante que qualquer um pode realizar a experiência.
Atravessando o limite (muito tênue) das probabilidades para pesquisas, imaginemos uma eleição entre dois candidatos, “cara” e “coroa”, e que esta eleição será decidida através do experimento acima relatado, num único lançamento da moeda, cara ou coroa. Projete uma pesquisa qualquer e atribua um percentual a cada candidato. Pronta a pesquisa?
Independente dos valores arbitrariamente escolhidos, tudo leva a crer que você errou! Ao ser uma moeda lançada para cima, ela não cairá necessariamente cara ou coroa; ela poderá rolar para um bueiro próximo (e não saberemos quem foi o eleito) ou até incrivelmente cair em pé. As duas últimas hipóteses figuradamente são os imprevistos enfrentados pelos institutos de pesquisa, as probabilidades não avaliadas, não detectadas (leia-se desculpas).
Hoje em dia, com os recursos tecnológicos que conquistamos, além daqueles que são adicionados diariamente, em progressão geométrica, é de uma temeridade empírica imaginar que qualquer ocorrência seja impossível. Até a tão conhecida afirmação de que “a única coisa certa é a morte”, pode matematicamente ser questionada.
A probabilidade de que um homem atinja mil anos de vida apresenta-se com uma chance para o número 10 na potência 27 bilhões de zeros – um número portentoso! Segundo William Feller “essa afirmação não faz sentido algum do ponto de vista biológico ou sociológico, mas considerada exclusivamente do ponto de vista estatístico, ele certamente não contradiz experiência alguma”.
Se estivéssemos seriamente dispostos a desprezar a possibilidade de viver mil anos, teríamos que aceitar a existência de uma idade máxima e a suposição de que seria possível viver x anos e impossível viver x anos mais dois segundos é tão inaceitável quanto a idéia de vida ilimitada.
Resumindo, para mim, o que falta nas possas pesquisas, é um acasalamento mais íntimo com o cálculo das probabilidades. Não é só sair por aí perguntando “em quem você vai votar?” e pronto. O local da pesquisa e o momento não estão sendo bem avaliados. Teoricamente, divagando, se fosse feita uma pesquisa para presidente da república num dos tantos presídios de São Paulo, apresentados como opção Alckmin, Lula e Marcola, você teria dúvida de quem seria, indubitavelmente, o preferido do “público”?
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