29/10/06
DomÃnio público
Há dois dias atrás recebi um e-mail de uma das minhas últimas e remanescentes amigas da juventude, a Joice, preocupada com (segundo palavras dela) um iminente desastre cultural. Fiz a minha parte, conforme pedido, e mandei para a minha lista de e-mails.
Pois o David Nelson Menda, meu primo e xará, enviou sua resposta. O pedido da Joice e o contraponto, a resposta do Nelson, formam a crônica do dia. Vale a pena ler.
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www.dominiopublico.gov.br
Vamos abraçar essa causa. Vamos fazer a nossa parte!!!
Amigos,
Pede-se a colaboração de todos para lutarem pelo impedimento de um desastre cultural: imaginem um lugar onde se pode ler, gratuitamente, as obras de Machado de Assis, ou A Divina Comédia, ou ter acesso às historinhas infantis de todos os tempos. Um lugar que lhe mostrasse as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci. Onde vc pudesse escutar músicas em MP3 de alta qualidade. Pois esse lugar existe!!!! O Ministério da Educação disponibiliza tudo isso, basta acessar o site:
www.dominiopublico.gov.br
Só de literatura portuguesa são 732 obras! Estamos em via de perder tudo isso, pois vão desativar o projeto por desuso, já que o número de acesso é muito pequeno. Vamos tentar reverter esta desgraça, divulgando e incentivando amigos, parentes e conhecidos, a utilizarem
essa fantástica ferramenta de disseminação da cultura e do gosto pela leitura. Divulgue para o máximo de pessoas.
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Resposta do Nelson:
Davizinho. A conselho do teu pai, freqüentei, durante muitos anos, a Biblioteca Nacional do Rio, que utilizava, para localização de livros do seu acervo, um sistema de fichário tradicional, em tudo semelhante à da "nossa" biblioteca do Rio Grande do Sul, na Rua do Riachuelo. Sempre encontrei o que procurava.
Há alguns anos resolveram "informatizar" o acervo desse verdadeiro templo da cultura brasileira e substituir o antigo sistema de busca, que funcionava a contento, por algo mais moderno. Contrataram uma empresa, provavelmente sem licitação, que deve ter sub-contratado um bando de ignorantes para digitar os dados de seu monumental acervo. Moral da história: nunca mais consegui localizar livro algum e até parei de freqüentá-la. Cheguei ao cúmulo de digitar, em seus terminais informatizados, os nomes de Castro Alves e Machado de Assis, para testar o sistema, e a resposta foi de que não havia nenhuma obra desses autores no acervo da instituição. Quando estava pesquisando a vida do Jacob do Bandolim precisei de uma informação que poderia estar contida no livro "Falta Alguém em Nurenberg", do jornalista David Nasser.
Tentei, mais uma vez, pesquisar nos tais terminais informatizados e a resposta foi a de sempre, ou seja, de que não havia nenhuma obra com esse título no acervo da biblioteca. Não me conformei e procurei falar com uma de suas bibliotecárias, pessoa extremamente gentil que, sensivelmente constrangida, informou que ninguém estava conseguindo localizar obra alguma depois da tal "informatização" do acervo. Levou-me, discretamente, para um setor meio escondido atrás de umas colunas onde, para sorte minha, dela e do restante da população brasileira, tinham sido removidos os antigos arquivos, com suas simpáticas gavetas de madeira escura abarrotadas de fichas de cartolina, já amareladas pelo tempo e uso . Em menos de 1 minuto localizei a gaveta, a ficha e o código alfa-numérico que possibilitaria localizar a obra, que existia, sim, no acervo da biblioteca. Aí, todo feliz, retornei à prestativa funcionária e solicitei o livro. Ela abanou a cabeça e disse que seria impossível localizá-lo, porque, depois da malfadada "informatização", ninguém conseguia encontrar mais nada nas prateleiras da biblioteca. E olhe que esse serviço tinha sido realizado alguns antes dessa busca. Ou seja, o belíssimo prédio da Av. Rio Branco era - não sei se ainda é, pois nunca mais voltei ao lugar, para não me chatear, - um monumental elefante branco.
Estou relatando esse fato para vc., pela primeira vez, porque nunca li, em lugar algum, absolutamente nada a respeito dessa verdadeira tragédia cultural perpetrada contra a maior e mais antiga de nossas bibliotecas. E por que faço isso? Porque acabei de atender ao seu apelo e cliquei no site www.dominiopublico.gov.br, para tentar fazer uma pesquisa semelhante. Dentre as diferentes categorias para texto, procurei por poesia e não encontrei. Com isso, fiquei sem saber se o nosso Castro Alves, um dos meus poetas favoritos, consta do tal "domínio público". Já meio ressabiado, cliquei no ícone dedicado à música e procurei a Bachiana Brasileira nº 4, de Villa Lobos. A resposta foi semelhante à fornecida, há alguns anos, pelo terminal da Biblioteca Nacional, ou seja, de que "não há registro dessa obra nos arquivos".
Portanto, Davi, meu querido primo, vamos deixar que esse site inoperante seja fechado de vez, pois deve ser mais uma das muitas inutilidades que custam um bom dinheiro aos cofres públicos para não prestar serviço algum, a não ser remunerar seus diretores e funcionários. Ah, antes que me esqueça, ainda existem algumas coisas que funcionam neste país. Ainda em relação ao episódio da Biblioteca Nacional, é preciso relatar que a referida bibliotecária, querendo auxiliar, forneceu-me os dados de uma instituição que montou um verdadeiro catálogo dos catálogos com informações colhidas em praticamente todas as bibliotecas cadastradas do país.
É a Fundação Getúlio Vargas, do Rio, que disponibiliza, a custo zero, essas preciosas informações aos seus visitantes virtuais. Não foi muito fácil localizar, no site da Fundação, o ícone para acessar o cadastro nacional de bibliotecas e livros. Precisei telefonar para um funcionário da FGV para saber como proceder. Digitei o que procurava e acabei encontrando os nomes das três únicas bibliotecas do país onde poderia encontrar o livro do David Nasser. Duas ficavam em outros estados (São Paulo e Minas Gerais), mas a terceira, felizmente, era de uma instituição de ensino privada aqui do Rio cuja biblioteca ficava não muito distante da minha casa.
Eu, que já havia dado com os burros n´água na Biblioteca Nacional e realizado uma peregrinação infrutífera por dezenas de sebos da cidade, acabei encontrando o livro (mas não a informação) graças à perseverança e ao trabalho anônimo de uma instituição que, por ironia do destino, ostenta o mesmo nome do personagem que, para o jornalista David Nasser, deveria ter sido julgado pelo Tribunal de Nurenberg. Não é curioso? Um abração.
Nelson
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