Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

23/9/06

Os velhinhos de Taubaté e Gravataí

Davi Castiel Menda

"Estamos disputando a eleição mais desigual da história da humanidade. Somos 120 milhões de eleitores contra apenas 500 corruptos, e provavelmente vamos perder". Solon Magrisso

A década de 50 é considerada o marco inicial da utilização de computadores no processo político - americano, evidentemente - programados para prever, ao final do dia das eleições, baseados nos primeiros resultados, o desfecho mais provável. Na experiência pioneira, as previsões indicaram a vitória de Eisenhower sobre Stevenson, com percentuais rigorosamente e assombrosamente corretos, incentivando os analistas e cientistas políticos a adotarem e aprimorarem o processo. O primeiro político a recorrer ao computador na preparação da sua campanha eleitoral foi Kennedy, com sua equipe projetando eleições simuladas.

O cientista político Eugene Burdick se tornou célebre ao escrever um romance - The 480 - em 1964, prevendo como seria uma campanha presidencial em que as estratégias fossem todas comandadas pelo computador. O autor advertia "que o aperfeiçoamento da mercadologia, combinado com análise das reações dos eleitores computados, acabaria liquidando com o processo eleitoral democrático". Ninguém ligou para a advertência e hoje em dia todos os principais candidatos políticos usam computadores para depurar informações, além de eleições simuladas como teste para a avaliar a estratégia a ser empregada na campanha.

É uma pena, que decorrido meio século (uma eternidade) daquela primeira e bem sucedida experiência americana, sou obrigado a lamentar, como brasileiro, que continuamos na idade-da-pedra neste avanço tecnológico, seja através dos resultados divulgados pelos institutos de pesquisa , pela má utilização dos próprios candidatos, quando não pela descrença dos mesmos quando não-líderes nas pesquisas. Para ilustrar e defender minha tese, sou incitado a recorrer a uma figura da nossa literatura política-humorista: refiro-me à Velhinha de Taubaté, personagem de Luiz Fernando Veríssimo. Mesmo tendo seu falecimento anunciado pelo seu criador, em 19.08.2005, na crônica intitulada Velhinha de Taubaté (1915-2005), para quem conviveu tanto tempo com sua presença, ela continua bem viva e definitivamente incorporada ao nosso dia-a-dia (segundo Veríssimo, ela teria morrido em frente à TV, decepcionada com o quadro político brasileiro, em especial com o seu ídolo, Antonio Palocci).

"Os governos mudam, as promessas se renovam, as autoridades nem tanto, mas se há uma coisa firme no país, é a crença da Velhinha de Taubaté no governo". Pois bem (ou talvez mal), as pesquisas para presidente nestas eleições de 2006 transformaram todo o povo brasileiro, do mais humilde ao mais esclarecido cientista político em "velhinhas de Taubaté" - todos acreditando piamente nas pesquisas eleitorais que indicam a vitória do candidato da situação já no primeiro turno.

Inconformado com aquela insistente divulgação, exaustivamente trabalhada - de que as eleições presidenciais seriam decididas já no primeiro turno - e na verdade curioso de "como um candidato que enfrentou uma turbulência jamais vista nos anais políticos do Brasil, batizada com o sugestivo título de mensalão, com funcionários, secretários, deputados e ministros de seu partido envolvidos direta ou indiretamente, em menos de um ano após o affaire conseguiu atingir o índice de 50% na intenção de votos nas pesquisas? Ou é um caso de indenidade excepcional ou os números não estão refletindo a realidade". - escrevi o artigo Pesquisa eleitoral para presidente - números não fecham…

E agora, para apoquentar a vida do PT - e usando do jargão turfístico - que "levava de barbada" esta eleição, surge um novo - mais um - complicador, de amplo conhecimento de todos (o caso do Dossiê Cuiabá), que na verdade será a tábua de salvação de todos os institutos de pesquisa, jornais, rádios e TV, para justificar a realização do segundo turno.

No dia 21.09.2005, ao ser divulgada a última pesquisa do Ibope pelo Jornal Nacional, era de se notar o constrangimento estampado pela apresentadora, ao enunciar a queda de tão somente 1% na intenção de votos ao candidato-presidente, mesmo depois do último (será mesmo o último, ou ainda tem mais?) escândalo patrocinado pelos integrantes do PT.

Ontem (22.09.2006), o provedor Terra, na sua página principal, realizou uma enquete nacional: você acredita que uma virada é possível na eleição presidencial? Desconheço o resultado final, mas às 17.25 horas, os internautas que haviam respondido sim, que acreditavam numa mudança, somavam 52.536 votos, num percentual de 64% sobre o total, um número considerável, e  bem acima dos 50% de intenção de votos apregoados ao candidado-presidente. Aritmeticamente raciocinando, 64% mais 50%, por mais que se tente, não é um resultado muito acreditável, pois nos bancos escolares aprende-se que percentuais (teoricamente falando) devem somar sempre cem por cento.

Apesar de estarmos na reta final, e mesmo os institutos e datas da vida divulgando clamorosa e insistentemente a vitória de Lula no primeiro turno, continuo a duvidar. Será que somente às 17 horas do dia primeiro de outubro, encerradas as eleições, é que divulgarão a realização do segundo turno?

Se porventura eu estiver certo nas minhas previsões, tenho todo o direito de criar um novo personagem em contra-ponto à Velhinha de Taubaté: o Velhinho de Gravataí - aquele que não acredita em pesquisas! A bem da verdade, em pesquisas fundamentadas ele acredita - o que roda por aí é quiroscopia.

criado por projetosnumericos    19:21 — Arquivado em: Opinião, Política

1 Comentário »

  1. Comentário por Ilton C. Dellandréa — 26 26UTC setembro 26UTC 2006 @ 14:24

    Professor Davi: Acessei seu blog e li grande parte dele. Constatei que temos sentimentos e pensamentos em muito semelhantes. Talvez uma mesma indignação ética. Mas minhas abordagens são menos eruditas e profundas que as suas. Depois de anos de atividade pesquisando nos livros de Direito, cansei. Meus textos são guiados por minha intuição e por meu senso crítico, apenas. Por isto, às vezes, sou contraditório, e aí reside minha coerência – se é que assim se pode dizer. Aparecerei por aqui sempre que possa. Estou linkando seu blog entre os meus favoritos. Um abraço.

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