Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

21/9/06

2066: dia de eleição

Davi Castiel Menda

"O que acontece quando a presidência se torna uma tarefa tão descomunal e complexa que nenhum homem é capaz de resolver sozinho?" - Michael Shaara

Um dos ditos mais conhecidos e já incorporado ao anedotário popular, atribuído a operários, quando na procura de emprego, é a afirmação simplista de que "na situação que eu estou, até de engenheiro eu pego"!
Por ter trabalhado durante oito anos na construção civil, posso afirmar e testemunhar de que, se realmente esta situação utópica - o oferecimento do cargo de engenheiro a um operário sem qualificação profissional - ocorresse, existiria uma probabilidade muito próxima de 100% do operário aceitá-la, mais pensando na resolução dos seus problemas financeiros e pessoais do que propriamente nas atribuições e responsabilidades que o cargo requer. Na verdade, não é tão utópica assim, pois algumas empresas - uma minoria, é claro - ligadas ao setor, que trabalham por regime de administração, costumam promover alguns funcionários a cargos bem acima da sua capacitação profissional, proporcionando-lhes um salário mais elevado e, em conseqüência, aumentando seu faturamento (da empresa), pois seus ganhos são calculados sobre a folha de pagamento.

E o que tem a ver operários ocupando especulativamente o cargo de engenheiros com dia de eleição? A melhor resposta eu fui encontrar numa citação de Harry Larkin, personagem fictício do escritor Michael Shaara em conto publicado em 1956, lembrando-se da sua infância: "Naquele tempo havia exames para tudo - não se podia obter um emprego de gari sem fazer concurso para funcionário público - mas para os cargos mais importantes não se exigiam qualificações. E primeiro os psicólogos, depois a imprensa, começaram a dizer que isso era uma calamidade nacional. E, em vista do calibre de certos figurões que ocupavam plano destacado na vida pública do país, não havia dúvida que era mesmo. Mas aí os testes psicológicos passaram a ser indispensáveis, transformando-se realmente em ciência exata, de maneira que se tornou possível fazer a triagem completa de cada candidato - do nível de conhecimentos, potencial e personalidade".

2066: dia de eleição (o conto de Michael Shaara) foi publicado exatamente há 50 anos, mas pela sua previsibilidade e clarividência se identifica com uma leitura muito atual. Aproveitando o gancho, não está na hora de dar um basta a candidatos sem o menor preparo e condição, que se utilizam - valendo-se do horário eleitoral gratuito - dos meios mais esdrúxulos, burlescos, abstratos, grotescos e outros adjetivos que os limites da educação e da ética me impedem de expor, para atingir seus objetivos eleitoreiros, aliás, um prato cheio para o estudo da demopsicologia? Todos esses candidatos que se apresentam como salvadores da pátria, será que porventura tem um mínimo preparo para representar uma comunidade, seja em âmbito municipal, estadual ou federal, desde a vereança até a presidência da república?

Pensando no interesse nacional, no bem comum de 180 milhões de brasileiros, não está na hora de se eleger, abrir aspas, os candidatos que reunissem os melhores predicados, fechar aspas, independente de quaisquer circunstâncias, de partido, cor, religião ou raça? Eu, pessoalmente, descarto candidatos com conhecimentos genéricos, alguns semi-analfabetos, imbuídos de magnanimidade patusca, com uma vontade férrea e "desinteressada" de resolver os meus (e os seus) problemas de educação, saúde e segurança. Quero sumidades, quero candidatos submetidos a uma triagem completa que avalie seu potencial e personalidade, que sobressaiam às outras pessoas por seus talentos e saber em todas as áreas, que sejam preparados desde os bancos escolares mais primários para ocupar estes cargos. Os brasileiros estão fartos da política praticada de maneira amadora e da politicalha.

Harry Larkin, nosso herói imaginário, mas ao mesmo tempo tão convincente, se elege como primeiro mandatário dos Estados Unidos em 2066, e ao visitar o presidente ainda no cargo, recebe o seguinte conselho: "Se eu assino uma lei fiscal, preciso entender bastante de legislação tributária para ter certeza que a lei é conveniente. Se endosso uma ação policial, devo estar certo de que a estratégia correspondente é militarmente eficaz". "O cargo é responsável pelos atos que pratica. Tem que continuar responsável. Não se pode aceitar simplesmente a palavra de terceiros…".

Michael Shaara, você não escreveu este conto em 1956; ocorreu algum transtorno einsteiniano! Você estava de visita ao Brasil e escreveu isto ontem - ontem não - hoje!

criado por projetosnumericos    15:56 — Arquivado em: Opinião, Política

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