Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

19/9/06

As urnas eletrônicas e a zerézima

Davi Castiel Menda

"Se você acredita que a tecnologia pode resolver seus problemas de segurança, então você não conhece os problemas e nem a tecnologia."
Bruce Schneier

O Titanic, em sua viagem inaugural, ao zarpar de seu porto de origem, ostentava o título de insubmergível, e era tanta a autoconfiança do engenho humano, que os jornais da época afirmaram que "Nem Deus poderia afundar esse navio". Bill Gates, o papa da informática, em 1981, nos brindou com a pérola "640 kb de memória é mais do que suficiente para qualquer um". Thomas Watson, presidente da IBM, em 1943: "Penso que há talvez no mundo um mercado para cinco computadores". Mas a campeã das afirmações estapafúrdias deva ser creditada a Charles Duell, Diretor do Departamento de Patentes dos Estados Unidos, em 1899: "Tudo que podia ser inventado, já o foi", propondo inclusive o fechamento dos escritórios que dirigia. Pelos exemplos, concluímos, já no início do artigo, de que afirmações exageradamente desmedidas tendem, com o passar do tempo, a mostrar-se equivocadas, quando não beirando ao ridículo.

Implantada no Brasil em 1996, a votação eletrônica, segundo o TSE, baniu de vez a possibilidade de fraude eleitoral, com a afirmação dogmática de que o sistema é seguro, indevassável. Entretanto, estas condições até hoje são questionadas por estudiosos, programadores, os próprios partidos, e porque não, por boa parcela da população brasileira.

Alguns defensores das urnas eletrônicas, na ânsia de afirmar que o sistema é infalível, declaram com ares de ufanismo simplório que o Brasil, ao comercializá-las para outros países, está exportando democracia(!), embaralhando comércio e tecnologia com patriotada. Paulo Gustavo Sampaio Andrade, editor do site Jus Navigandi, traduz de forma muito simples e direta a opinião de quem põe em dúvida a assertiva governamental: "Se o sistema eletrônico eleitoral é imune a fraudes, considerada uma suposta perfeição técnica e a natureza biológica das pessoas envolvidas" - compara ele - "o sistema financeiro já teria adotado o projeto e contratado as pessoas que criaram e utilizam o sistema eleitoral eletrônico para pôr fim aos inúmeros golpes existentes, por exemplo, nos caixas eletrônicos e nos bancos via internet".

A desconfiança baseia-se em dois pontos cruciais. O primeiro, é saber se realmente o voto digitado a um determinado candidato é efetivamente computado e creditado a ele. O segundo questionamento é a probabilidade de violação da identidade do eleitor, a exemplo do acontecido em recente episódio no Senado, quando determinado grupo teve acesso a quem votou em quem.

O Eng. Amílcar Bruzano Filho, um especialista na área, compara a urna eletrônica à "uma máquina de votar inauditável, uma verdadeira caixa preta da qual nenhum partido político, fiscal ou auditor externo ao TSE, jamais teve acesso para conferir sua integridade". E complementa Bruzano: "o que o TSE chama de auditoria é colocar alguém em frente à urna. Isso não é o processo de exame de um sistema, mas um artifício. Um show".

O povo em geral - onde eu me insiro - pouco acesso tem ao assunto, mas pesquisando, toma-se conhecimento de que existem dois Sistemas Operacionais vigentes: o VirtuOs (que pertence a uma empresa privada) e o Windows CE, com mais de seis mil programas e dois milhões de linhas de código, tornando muito difícil a sua análise, se é que estão disponíveis. Esta falta de transparência é que compromete o primeiro pilar de um legítimo processo eleitoral: a votação. Os outros dois são a apuração e a fiscalização. A fase de apuração nos remete às eleições de 1982 no Rio de Janeiro e a famigerada Operação Proconsult, nome da empresa encarregada de proceder à apuração e que teve como objetivo "virar" os resultados de uma eleição já ganha por Leonel Brizola sobre o candidato do Governo federal na época, Moreira Franco. A sistemática consistia em sonegar os resultados da capital (dois terços do eleitorado), onde Brizola alcançara 70% dos votos, e só divulgar uma média da apuração no interior do estado, onde Moreira era majoritário. Não fosse a pronta intervenção de Brizola, exigindo falar à nação pela Rede Globo - que insistia em divulgar a vitória de Franco - a história seria diferente. Quanto à fiscalização, é totalmente inócua - se é que existe - fautor que provoca a incredulidade no sistema.

Existem n maneiras possíveis de fraude na votação, o TSE tem a obrigação de conhecê-las e toda a comunidade digital espera que as coíba com sucesso, mas nada impede de enumerá-las: clonagem de urnas; engravidamento da urna, com mesários em conluio na ausência de fiscais; fraude na apuração, já que o boletim de urna impresso quando do encerramento da eleição nem sempre é entregue ao fiscal; possibilidade de fraude no programa implantado na urna; adulteração dos programas originais implantados nas urnas; e por último, o maldito vírus - e por trás dele os crackers - que tanto mal tem causado em todas as áreas de atuação onde o computador está presente.

Mas afinal, o que é zerézima, presente no título deste artigo? É o neologismo criado pelos técnicos do TSE para indicar que cada candidato, no início do processo eleitoral, tem na verdade zero votos. É a garantia de que todos partem realmente do zero. Lamentavelmente, não é garantia nenhuma, já que qualquer programador, mesmo principiante, sabe perfeitamente que é possível digitar algo, a impressora reproduzir este algo, mas armazenar "o que se quer" na memória do computador. É uma pena que toda a garantia que o TSE nos ofereça seja apenas a zerézima, ou seja, zerézima garantia.

criado por projetosnumericos    9:07 — Arquivado em: Destaques em 2006, Opinião, Política

5 Comentários »

  1. Comentário por PAULO CASTELANI — 19 19UTC setembro 19UTC 2006 @ 16:55

    A URNA ELETRÔNICA É TÃO SEGURA QUE O TSE NÃO DEIXA NINGUEM PERICIA-LA…

    PAULO CASTELANI - UMUARAMA PR

  2. Comentário por Sergio Vasconcelos — 19 19UTC setembro 19UTC 2006 @ 17:46

    E-mail recebido:

    Davi, você está perto da genialidade. Que artigo bem feito! Parabéns.

    Não entendi uma candidata do PCdo B dizendo que ia defender a democracia. É coerente isso?

    Abraços
    Sérgio

  3. Comentário por Zussmann — 19 19UTC setembro 19UTC 2006 @ 18:20

    Olá Davi tudo bem ?

    Sugiro que tu envies os artigos sobre a votação eletrônica para redações de jornais e para os diretórios dos partidos. Não sei se minha dúvida é pertinente, mas será que a maioria das pesquisas feitas logo após a introdução da urna eletrônica coincidem com os resultados reais. Lembro que no Piauí em 2002 a última pesquisa do ibope deu empate em 48% entre Hugo e Wellington Dias, sendo que as anteriores a diferença (em menos de 5 dias) era em torno de 9% a 6% para Hugo. O resultado final foi em torno de 3% para WD que estava na margem de erro. O que na verdade quero dizer é que se na rua não vimos estes votos todos pró PT não haveria uma possibilidade de os institutos terem não uma pesquisa, mas um resultado de bolso para serem referendados na votação e apuração ? assim sendo todo mundo sai bem no filme já que não temos a transparência sobre a segurança do voto e da apuração.

  4. Comentário por Walter Del Picchia — 19 19UTC setembro 19UTC 2006 @ 19:09

    Cumprimentos ao Davi pelo artigo claro e conciso. Quem estiver preocupado com nossa frágil democracia e/ou desejar se inteirar de assunto tão importante, acesse (e apoie) nosso Manifesto em http://www.votoseguro.com/alertaprofessores já com quase 2.600 apoios, e nosso Fórum suprapartidário em http://www.votoseguro.org onde encontrará dezenas de estudos, artigos e anúncio de um livro sobre inúmeras fraudes possíveis. Nossas queixas principais são três: a urna-e pode ser facilmente programada para desviar votos; ela pode descobrir em quem votamos, pois o mesário digita nossa identificação (número de nosso título) no mesmo computador no qual votamos a seguir; nossos insistentes pedidos ao TSE para fazermos um teste técnico público para provar que a urna é facilmente fraudada tem sido sempre negado (explicação: o TSE foge por saber que podemos provar o que afirmamos). Daí, um de nossos lemas é: EU SEI EM QUEM VOTEI. ELES TAMBÉM. MAS SÓ ELES SABEM QUEM RECEBEU O MEU VOTO!
    Walter Del Picchia - Prof.Titular da Ecola Politécnica da USP - S.Paulo/SP

  5. Comentário por Luiz Cordioli — 1 01UTC outubro 01UTC 2007 @ 20:26

    Os guizos estão aí, à vista de todos. (as soluções)
    Os gatos também. (as urnas)
    Dá para entender porque não se colocam os guizos nos gatos ? Racionalmente, não dá.
    E a quem caberia fazê-lo ? A nós, os ratos…
    Abraços

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