Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

4/9/06

Pesquisas Presidenciais- Números não fecham…

Davi Castiel Menda (*)

"Numa cidade de n + 1 habitantes, uma pessoa conta um boato a uma segunda, a qual, por sua vez, o repete a uma terceira, etc. A cada passo a pessoa que recebe o boato é escolhida aleatoriamente dentre as pessoas disponíveis. Ache a probabilidade de que o boato seja transmitido r vezes sem voltar à primeira pessoa que o contou".
Este problema foi originado e apresentado por de Mèré, em 1654, a Pascal, e, respeitadas as proporções - mesmo decorridos 352 anos - e acrescido dos modernos meios de comunicação, nunca foi tão atual!

Nas últimas eleições presidenciais, o atual Presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve exatos 46,44% de votos no primeiro turno. O que não consigo inferir, com todo o meu discernimento matemático cultivado ao longo de seis décadas - e gostaria (sinceramente) que alguém me explicasse - como um candidato que enfrentou uma turbulência jamais vista nos anais políticos do Brasil, batizada com o sugestivo título de mensalão, com funcionários, secretários, deputados e ministros de seu partido envolvidos direta ou indiretamente, em menos de um ano após o affaire conseguiu atingir o índice de 50% na intenção de votos nas pesquisas. Ou é um caso de indenidade excepcional ou os números não estão refletindo a realidade.

Um dos pilares (o principal) em que se baseiam aqueles que acreditam piamente nos resultados destas pesquisas, e a conseqüente vitória de Lula já no primeiro turno, seria a supremacia do candidato-presidente na região Nordeste. Vamos ao mapa:

O Nordeste compreende nove estados brasileiros e seu universo representa apenas 27,11% do eleitorado brasileiro. Pouco mais do que um quarto dos eleitores não pode, jamais, decidir uma eleição; ajuda, isto sim. Nos aprofundando um pouco mais nas caatingas nordestinas, deparamos com o maior estado da região, a Bahia do cacique ACM e seu candidato a governador Paulo Souto. Mais uma vez a tão propalada superioridade numérica do PT no nordeste é questionada: Paulo Souto (PFL) tem 52% das intenções de voto e o candidato governista-petista Jaques Wagner (ex-ministro) tão somente 16%. Admitindo que todos aqueles que votarem em Paulo Souto concedam também, por lógica, seu voto a Alckmin, só aí já seriam 4,7 milhões de votos ao tucano. Se você pensa que é pouco, isto representa 3,2% dos votos de todo o país - só na Bahia!
Em Pernambuco, a história se repete: o candidato ao governo, pelo PFL, Mendonça Filho, leva 12% de vantagem nas pesquisas sobre o candidato Humberto Costa (ex-ministro) do PT: mais dois milhões de votos ao candidato Alckmin. E assim por diante…
Num apanhado geral, na região onde pretensamente o PT afirma que vai decidir as eleições, leva vantagem nas pesquisas para o governo do estado somente no Piauí e em Sergipe - dois estados em nove! Convenhamos, é muito pouco…

Do Nordeste pulamos para o Norte, região com o menor colégio eleitoral brasileiro: 7,00% dos eleitores, metade deles residindo no Pará. E, curiosamente, quem está à frente nas pesquisas ao governo do estado? O candidato do PSDB Almir Gabriel com 20 pontos percentuais de vantagem sobre a candidata petista. E mais uma vez a mesma leitura: sete estados e em apenas um (Acre - Binho Marques) o PT leva vantagem.

Centro-oeste - 7,06% do eleitorado. Nos quatro estados da região, o único candidato petista ao governo que aparece entre os dois melhores posicionados na intenção de votos é Delcidio Amaral pelo Mato Grosso do Sul. Está em segundo: 38 pontos percentuais o separam do candidato que lidera. Nem a sua constante visibilidade na TV, na condição de presidente da CPI dos Correios, o ajudou.

Na região Sul - 15,12% dos eleitores: nos três estados os candidatos pelo PMDB lideram a intenção de votos a governança do estado. No Rio Grande do Sul, as pesquisam apontam empate técnico entre os dois principais candidatos à presidência. Desconheço a situação de Santa Catarina e Paraná, mas sei que os candidatos ao governo de seus respectivos estados Luiz Henrique (SC) e Roberto Requião (PR) apóiam Geraldo Alckmin.

E finalmente a grande massa votante: o Sudeste. São 55 milhões de eleitores - 43,70%, já que abrange os três maiores colégios eleitorais do país: só em São Paulo são 28 milhões de eleitores! Lá, José Serra, que pelo menos (!) deveria ser o maior cabo eleitoral de Alckmin, leva vantagem sobre Aloizio Mercadante (PT) em 28 pontos percentuais. Se transferidos os votos de Serra para Alckmin (e por que não?), somente no estado de São Paulo, o candidato que está em segundo nas pesquisas presidenciais apregoadas, teria a "bagatela" de 12,9 milhões de votos - mais de 10% dos votos válidos em todo o Brasil. Nas Minas Gerais, do já reeleito governador pelo PSDB, Aécio Neves, a vantagem sobre o candidato do PT é acaçapante - 62 pontos percentuais: mais 9,4 milhões de votos para a bagagem de Alckmin.

Poderia me estender estado por estado, mas isto se tornaria enfadonho. Apenas para concluir este estudo, no somatório dos votos de apenas quatro estados, acima analisados individualmente, Bahia (4,7 milhões), Pernambuco (2,0 milhões), São Paulo (12,9 milhões), Minas Gerais (9,4 milhões), dariam a Alckmin 29 milhões de votos - 23% do total nacional - numero já superior ao atribuído (na soma dos 27 estados) nas pesquisas divulgadas insistentemente pela mídia. Será que no Rio de Janeiro, Espírito Santo, região Sul, e em todos os outros estados brasileiros Alckmin não fará nenhum voto?

O que se depreende de tudo isto, pelos baixíssimos índices eleitorais do PT, é a tentativa de dissimular e desvincular o candidato à presidência pelo PT, do PT. Na verdade, o PT não tem candidato já que o candidato que deveria ser do PT é candidato de si mesmo!

O candidato-presidente pode até ganhar a eleição, já que a máquina administrativa-partidária-governamental tem trabalhado full time e usando de todos os meios possíveis e inimagináveis para atingir este objetivo. Mas ganhar no primeiro turno?! A quem querem enganar? Por favor, senhores…

(*) Davi Castiel Menda, o autor deste texto, é conhecido como um dos maiores estudiosos sobre Loterias no país (leia-se Estatísticas), o que pode ser comprovado pela extensa aparição na imprensa escrita e falada, inclusive tendo o fato sido citado no Senado Federal, durante sessão daquela Casa, pelo Senador Demóstenes Torres. O autor é totalmente apartidário (vota em indivíduos, não em partidos) e, mesmo o voto sendo secreto (se é secreto, como os pesquisadores de campo dos Institutos de Opinião podem inquirir eleitores sobre suas preferências eleitorais?), faz questão de abrir seu voto: Cristovam Buarque. E na sua nominata para o dia primeiro de outubro, há inclusive candidato do PT.

criado por projetosnumericos    11:43 — Arquivado em: Política

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